Caminhos para o coração
3 Erros e acertos.
Notas iniciais
“Tenho andado distraído;
Impaciente e indeciso;
E ainda estou confuso só que agora é diferente;
Estou tão tranquilo e tão contente;
Quantas chances desperdicei;
Quando o que eu mais queria;
Era provar pra todo mundo que eu não precisava;
Provar nada pra ninguém...”
Quase Sem Querer
Legião Urbana
Chicago Med (sexta-feira, 29/12- 10:46 a.m)
Sarah
—Doutora Reese? – ouço chamar e ergo meu rosto deparando-me com uma mulher alta elegantemente vestida – Muito prazer, Miss Garrett, COO do Gaffiney – apresenta-se, estendendo-me a mão.
—Muito prazer – retribuo.
—Irei recebê-la agora – avisa, postando-se de lado, indicando o interior da sala.
—Eu pensei...Miss Goodwin está de férias? – pergunto tentando entender por que Connor não comentara o fato comigo.
—Não, em outra reunião. Fui contratada para dividir algumas responsabilidades com ela incluindo contratações – explica, seu sorriso não me transmitindo segurança muito menos o carinho ou o acolhimento que Miss Goodwin costumava passar-me – Pode entrar – reitera e o faço, algo em sua postura levando embora parte do ânimo que me fizera vir ao Med após confirmar que o pessoal do Baylor não mudara de ideia , melhor dizendo, não optaram por justiça no meu caso e aceitaram meu pedido de demissão – Sente-se – convida e mais uma vez o faço, aguardando-a fazer o mesmo – Então Sarah, deseja juntar-se a equipe do Med novamente? – questiona antes que pudesse falar.
—Sim, caso haja alguma vaga disponível.... Mesmo que na Psiquiatria! ...- penso, sorrindo afavelmente. Meus instintos diziam-me que não podia confiar naquela mulher.
—Certo – diz, pausadamente, abrindo o que julgo ser minha ficha – Vejo aqui que já trabalhou conosco durante seu estágio obrigatório, depois foi demitida...
—Na verdade, meu contrato ao término do estagio foi cancelado porque mudei de ideia a respeito da residência depois do período no qual ainda podia fazê-lo, sendo assim não havia como refazer – retifico-a, segurando a ansiedade o máximo que consigo.
—Certo – repete com a mesma entonação da primeira vez, o que só aumenta minha insegurança, mas trato de disfarçar. Espero – Após um curto período, foi incluída em nosso quadro funcional outra vez através da Psiquiatria. Doutor Daniel Charles solicitou sua contratação como residente, correto? – inquire-me.
—Sim – opto por uma resposta breve, deixando-a prosseguir. Algo me dizia que não deveria adiantar os fatos sob pena de não ser recontratada.
—Permaneceu conosco até quase a metade deste ano quando pediu transferência para o Baylor a fim de finalizar sua residência naquele hospital – lê, erguendo o olhar para mim – Conseguiu? – pergunta e aceno negativamente.
—Não, infelizmente – digo, aguardando-a falar, o que não faz. Limpo a garganta o mais discretamente que consigo antes de prosseguir – A vaga que me foi dita existir na Psiquiatria quando consultei, não existia de fato. Como forma de compensação pelo engano, me foi oferecida uma vaga no PS até que pudesse migrar para minha área e como já havia mudado aceitei. Permaneci na emergência do Baylor até semana passada – esclareço, controlando o pânico que ameaçava me tomar. Desde segunda tentava uma vaga em algum hospital da cidade (admito não ter vindo aqui em primeiro lugar por pura covardia!) e nada. O Med era literalmente minha última opção. Caso não fosse contratada, não sei o que faria.
—Certo – repete-se e por muito pouco não questiono-a se estava testando minha paciência – Doutora Reese, por que pediu transferência, poderia dizer-me? – interroga, completando antes que respondesse – Em sua ficha consta apenas que teve problemas pessoais e precisou ausentar-se de Chicago, foi isto mesmo? — quer saber, me encarando, séria.
—Sim. Enfrentei um grave problema familiar e precisei sair da cidade – confirmo sem entrar em detalhes. Até porque não pediu.
—E qual motivo a trouxe de volta a Chicago tão pouco tempo após ter saído? – questiona fazendo-me ficar indecisa sobre o que dizer. Sabia de antemão que, caso ligasse para o Baylor, o incidente não seria mencionado, por razões óbvias.
—Não consegui me adaptar ao clima, conforme foi justificado em minha ficha –sustento a mentira que puseram ali o mais tranquilamente possível – Passei boa parte do tempo em que estive por lá de cama – acresço, criticando-me mentalmente por mais esta mentira.
—Entendo – muda a palavra, mas não a entonação, o que me causa certa ansiedade. Gostaria que fosse direta e negasse ou não de uma vez por todas! – Muito bem, irei submeter sua contratação a diretoria e assim que tomarem uma decisão entro em contato. Espero que entenda se não o faço de imediato, por minha conta e risco, mas deve concordar que alguém, digamos, instável, como a senhorita tem sido nos últimos meses, mesmo já tendo feito parte de nosso quadro e suas avaliações sendo, até certo ponto positivas, pelo que li aqui, pede uma analise mais aprofundada antes de firmamos contrato pela segunda vez com a senhorita, não concorda?- questiona-me e sinto meu sangue gelar.
Em outras palavras: não quero uma louca, insegura e inconsequente trabalhando no meu hospital, cai fora!! — Certamente – anuo, levantando-me – Fico agradecida por seu tempo e atenção – agradeço, estendendo-lhe a mão.
—Entrarei em contato em breve – mente com um sorriso no rosto.
Limito-me acenar afirmativamente, engolindo a vontade de chorar (pelo menos até estar sozinha), erguendo a cabeça enquanto saio de sua sala. Somente quando entro no elevador e as portas fecham, permito-me deixar algumas lagrimas caírem, aliviando um pouco da angústia que sentia.
—Foi um erro ter voltado a Chicago – digo baixinho, refletindo quais seriam minhas opções: ficar ou ir embora e o que farei até receber alguma resposta do Med ou do Hospital geral de Chicago, aonde disseram-me o mesmo que Miss Garrett? O dinheiro que tinha em conta daria para me sustentar por alguns meses já que, para minha sorte, não precisaria pagar aluguel, mas não gostava nada da ideia de ficar morgando em casa o dia inteiro sabe-se lá quanto tempo – Droga! Definitivamente não deveria ter regressado! – resmungo, tentando entender o porquê de Connor mentir dizendo que não havia ninguém junto a doutor Charles, saindo do elevador tão distraída que apenas quando sinto o toque em meu ombro noto a presença do mesmo a meu lado – Doutor Charles, bom dia – cumprimento-o, sorrindo-lhe amigavelmente.
Os dias passados longe acabaram por me fazer refletir. Ainda não estava totalmente bem com o que fizera, mas já entendia e aceitava melhor seus motivos.
—Olá Sarah, digo, doutora Reese. Como vai? – pergunta, não me dando tempo responder – O que faz aqui? Não que não esteja feliz em vê-la, longe disso. Estou. E muito. Mas é inesperado – explica-se rápido e sorrio mais – Tudo bem com você? E sua residência no Baylor, como vai? Precisa de algo de mim, uma declaração ou algo do gênero que possa ajudá-la por lá? O que for, basta pedir que farei! – prontifica-se, me deixando emocionada.
—Não, não preciso de nada doutor Charles, obrigada. Não mais. E estou bem, obrigada – respondo cada pergunta na ordem feita, fazendo menção seguir meu caminho, ele impedindo-me.
—Não mais? Deixou o Baylor? Por quê? O que houve? – questiona e o encaro alguns segundos.
—Eu... tive alguns problemas de saúde e adaptação e optei por retornar a Chicago – sustento a mentira mais uma vez.
—Ah!! – exclama, um brilho que conheço bem surgindo em seu olhar.
—Mas não sei se irei retornar ao Med – informo rápido, vendo o brilho apagar-se apenas para surgir mais forte quando explico o motivo de minha dúvida – Acabo de sair de uma entrevista com Miss Garrett e ela ficou de ligar, mas não me transmitiu muita confiança. Disse não haver vagas no momento – informo.
—Como assim não vagas? Seu lugar continua está em aberto. Não há ninguém comigo...a menos que não queira regressar a Psiquiatria, o que irei entender perfeitamente – apressa-se dizer e sorrio.
—Voltaria sem nenhum problema – afirmo, vendo-o sorrir do jeito que me acostumei e amo ver – Então...talvez deva haver algum engano ou ela foi informada de algo diferente – cogito, franzindo o nariz numa careta.
—Pode ser – pondera, pensativo – Por que não falou diretamente com Sharon? – questiona-me.
—Bem, para ser franca pensei que iria falar com ela, mas ao invés fui recebida por Miss Garrett – assumo – Ela disse que Miss Goodwin estava em reunião e que as contratações passam por ela agora – comunico.
—Essa é nova para mim! – exclama, parecendo realmente surpreso – Vou falar com Sharon assim que...
—Não, por favor não faça isso. Não quero causar problemas ou mal-estar entre elas – peço, sacudindo as mãos – Além do mais, se tiver de ser, será – digo, resignada – Eu realmente preciso ir. Foi um prazer revê-lo – despeço-me, sincera, afastando-me antes que pudesse me impedir, acenando antes de dar-lhe as costas de vez, andando apressadamente, sem olhar para trás (mesmo porque não queria que me visse chorar). Estava claro para mim, agora, que Miss Garrett não pretendia me contratar.
Sigo meu caminho parando apenas quando alcanço as escadarias que conduzem a plataforma do metrô ali perto, subindo-as rapidamente. Vou direto ao guichê e de lá para a plataforma, ligando para a oficina aonde deixara meu carro para uma pequena revisão a fim de verificar se estava pronto, recebendo um sim como resposta.
Busco-o, abasteço completando o tanque (não sabia se teria chance de o fazer novamente tão cedo) e sigo direto para casa. Somente quando me vejo entre a proteção das quatro paredes, permito-me dar vazão a frustração, insegurança, tristeza e angústia que me oprimiam o peito, atirando-me no sofá, chorando até adormecer.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
“.... Me fiz em mil pedaços, pra você juntar;
E queria sempre achar explicação pro que eu sentia;
Como um anjo caído fiz questão de esquecer;
Que mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira...”
Sala dos médicos- Med (11:47 a.m)
Connor
Respiro fundo, lenta e pausadamente, lendo pela milésima vez a informação contida no prontuário do paciente, o resultado sendo o mesmo das vezes anteriores: nada! Não estava conseguindo me concentrar no que lia.
—Merda!! – bufo, pondo o tablet ruidosamente sobre a mesinha de centro, recostando-me pesadamente no sofá – Merda, Connor, concentre-se. Concentre-se! – ordeno a mim mesmo, esfregando meus olhos com as mãos.
—Dia ruim? – a voz de Ethan faz com abra-os rápido, vendo-o entrar juntamente com Nat, Will e April, espalhando-se pela sala.
—O que houve Connor? Problema com paciente não é já que, pelo que soube, o cara que operou logo cedo está bem – Will questiona-me, atirando-se a meu lado, me obrigando afastar-me para não ficarmos colados um ao outro.
—Poderia ao menos pedir licença! – esbravejo, surpreendendo-o – Desculpe cara. Eu realmente não estou legal – admito, passando as mãos pelo cabelo.
—Ressaca talvez – Ethan sugere e olho-o tentando recordar se nos viramos na sexta à noite, no Molly’s – Ouvi a Kidd comentar algo com Maggie ainda a pouco quando saia após deixar um paciente com Lenic – explica, sorrindo matreiro – Por falar nisso, é verdade que Sarah voltou? – pergunta.
—Reese voltou? — Nat quer saber, entregando um copo de café a Will, sentando-se no braço do sofá.
Ao que tudo indicava os dois estavam se acertando novamente depois de toda confusão que ele aprontara, culminando com seu Não casamento.
—Sim – respondo curto, torcendo para o assunto morrer ali, o que não ocorre.
—Encontrou com a Sarah aonde, Connor? – Will pergunta, curioso.
—Nos encontramos por acaso no.....- começo dizer, doutor Charles surgindo a porta, me interrompendo.
—Doutor Rhodes, posso lhe falar um segundo? – pede, recostado a mesma – Olá a todos – cumprimenta com um aceno.
—Claro – respondo, levantando-me.
—Como sabia da Sarah? – Will insiste.
—Sabia que Sarah havia regressado à cidade? – é a vez de Daniel questionar-me e retenho o suspiro impaciente.
—Nos encontramos, por acaso, na sexta à noite, no Molly’s e conversamos um pouco – respondo evasivamente – Era sobre isto que queria falar comigo? – indago, parando de frente para Daniel.
—Não, mas tem a ver – admite – Cruzei com ela a pouco na saída leste. Teve uma reunião com Miss Garrett sobre voltar a trabalhar no hospital – conta e ergo as sobrancelhas, surpreso.
—Então realmente a demissão do Baylor foi efetivada – revelo, “coçando” minha barba – Ela vai voltar quando? Em que setor? – indago, curioso. Lembro de ter-lhe dito sobre a vaga na Psiquiatria apenas, mas uma outra surgiria em breve em minha nova equipe.
—Não vai. Ao menos não por enquanto – responde, pegando-nos de surpresa com a informação seguinte– Miss Garrett disse-lhe não haver vagas para contratações no momento – revela.
—Como assim não há vagas? Além da Psiquiatria, pelo menos mais dois setores estão precisando contratar: Pediatria e Emergência já que tivemos de remanejar algumas pessoas por conta de Maggie estar trabalhando com doutor Rhodes. Como pode dizer que não há vagas? – April argumenta, confusa.
—Minha equipe mesmo sofrerá uma baixa em breve. Como ela pode dizer que não precisamos de ninguém? – inquiro, enrugando o cenho, confuso.
—Se tivesse justificado não contratar por mais contenção de despesas, ai sim poderia acreditar. Andam fazendo cortes de pessoal de tudo quanto é lado – April comenta.
—Então por que Miss Garrett disse o contrário para Sarah? – Nat dá voz a pergunta em minha mente.
—Não sei, mas pretendo descobrir – digo, saindo sem maiores explicações, dirigindo-me apressadamente aos elevadores, notando que Daniel me seguira apenas quando entro no elevador e ele me interroga.
—Importa-se se for com você Connor? – Daniel pergunta, rindo ao notar minha surpresa – Parece que hoje adquiri o poder da invisibilidade – brinca e o olho sem entender – Sarah também só me notou quando toquei em seu ombro – explica – Então, a encontrou no bar sexta à noite e conversaram? O que ela disse sobre ter voltado? A razão, quero dizer– quer saber, atento.
—Não entrou em detalhes. Disse apenas que teve problemas – respondo, sucinto, optando por omitir o fato de haver dormido em seu apartamento. Não pretendia dar margem para nenhum comentário.
—Hum...entendo – Daniel limita-se dizer, me acompanhando para fora do elevador, seguindo, em silencio, a meu lado até a sala de Garrett.
—Doutor Charles, doutor Rhodes, a que devo a visita inesperada? – pergunta ela, tão logo entramos (sem bater), olhando-nos por detrás de sua mesa e antes que Daniel diga algo, me adianto.
—Por que disse a Sarah que não havia vagas no quadro de funcionários? – questiono-a, direto.
—Lembre-me de, futuramente, lhe dar algumas dicas sobre sutileza doutor Rhodes– Daniel cochicha em meu ouvido.
—Sarah?? – devolve a COO do Med, irritando-me.
—Reese. Doutora Sarah Reese – especifico, sustentando seu olhar – Elas esteve aqui a pouco, para uma entrevista, e falou não existirem vagas quando sabe que existem — reitero.
—Ah...doutora Reese – repete, abrindo uma pasta sobre sua mesa – Estive analisando a ficha dela e cheguei à conclusão de que não possui o perfil que procuramos para o Med – declara.
—Perdão? Acho que não entendi o que disse. Sarah não tem perfil para o Med?? Está dizendo que uma pessoa que trabalhou três anos conosco, que mostrou, mais de uma vez, diga-se, ser competente e capaz, única estagiaria até hoje a receber nota máxima em avaliação da maioria dos pacientes, uma pessoa que transita por todos setores com agilidade, que conhece este hospital como poucos, não possui o perfil desejado pelo hospital? Sério?? – Daniel questiona, irritando-se gradativamente e arqueio a sobrancelha, olhando-o de soslaio.
—Isso que chama de sutileza? – questiono-o baixinho.
—Se ela é tão boa assim, porque esteve fora em dois momentos, um recente e outro logo que terminou seu estágio obrigatório? – questiona Garrett de volta, entrelaçando os dedos sobre o tampo da mesa.
—Estava confusa quando terminou o estágio e acabou optando pela residência errada e não realizou a troca em tempo hábil para não perder o contrato com o hospital, apenas isto – defendo-a.
—Recentemente enfrentou uma serie de problemas pessoais que a obrigaram afastar-se e se existir um culpado por este afastamento sou eu – é a vez de Daniel argumenta – Se tivesse a orientado bem nada disso estaria acontecendo – garante, tenso – A doutora Reese é uma profissional qualificada, uma boa médica e muito bem quista pelos pacientes e colegas de trabalho. O fato de haver cometido erros no passado não a desabona neste sentido...
—Se considera que não a orientou corretamente, por que devo recontrata-la e pô-la sob seus cuidados mais uma vez? A meu ver seria um erro – argumenta ela, parecendo irredutível.
—Ela pode trabalhar comigo, na minha equipe – adianto-me – Irei perder um membro em breve e seria perfeito já ter outro para começar a ser treinado e assumir o lugar vago sem demora – argumento, notando um brilho estranho em seus olhos (ou teria sido impressão minha?).
—Façamos o seguinte: vou analisar um pouco mais a situação e lhes darei uma resposta em breve – negocia, não nos dando chance retrucar – Agora se me dão licença, terei uma reunião em cinco minutos e preciso me preparar para tal – avisa, indicando-nos a saída.
—Mas...- começo dizer, Daniel me impedindo prosseguir.
—Ok. Não tomaremos mais seu tempo – afirma – Estou certo de que irá reconsiderar sua decisão e trazer Sarah de volta. O Med só tem a ganhar com isto – diz, taxativo, dando duas leves batidas sobe a mesa antes de sair me fazendo o acompanhar.
—Por que não me deixou argumentar? – quero saber, encarando-o.
—Se aprendi algo sobre Miss Garrett nos últimos meses, é que quanto mais confrontar ela, menos conseguirá o que deseja – afirma e tenho de concordar.
—Acha que ela vai mudar de ideia? – questiono-o enquanto rumamos para os elevadores.
—Talvez. Quem sabe Sharon possa ajudar – sugere, entrando assim que as portas abrem.
O sigo em silencio, pensando comigo mesmo que o fato Sarah permanecer em Chicago me agradava. Muito.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Cornelius Rhodes
Estou prestes a sair do lavabo na sala de Miss Garrett quando escuto a voz de Connor e recuo instintivamente, fechando a porta o mais discretamente possível.
Muito embora as coisas entre Connor e eu estejam se mantendo no patamar, digamos, respeitoso mesmo após toda esta situação envolvendo a doutora Bekker, o estava evitando por algum tempo. Ao menos até as feridas sararem, o que poderia demorar um pouco já que continuavam a trabalhar no mesmo ambiente e ela, ao que tudo indica, não havia desistido dele.
Durante alguns minutos ouço-o, juntamente com mais alguém, argumentar junto a Garrett acerca de contratar, melhor dizendo recontratar, alguém chamado Sarah para trabalhar no hospital.
Confesso que fiquei curioso em saber de quem se tratava. Julgava que meu filho tinha apenas uma mulher na qual estava interessado, mas pelo visto enganei-me. Essa Sarah, seja lá quem fosse, parecia ser alguém de quem gostava muito a julgar pelos elogios e forma enfática como a defendeu, o que só aumenta minha curiosidade fazendo-me abrir um pouco a porta a fim de escutar melhor, sinalizando a Garrett que não me denunciasse.
—Já pode sair senhor Rhodes – libera após alguns minutos e saio, sorrindo-lhe de forma amável.
—Obrigado por não revelar minha presença – agradeço, sentando-me — Como já deve ter percebido, meu filho e eu temos um relacionamento pouco convencional e complicado, para dizer o mínimo. Estou certo de que Connor iria irritar-se profundamente com minha presença – justifico-me, ela concordando com um aceno – Diga-me Miss Garrett, de quem falavam? – pergunto, não resistindo a curiosidade, tentando ser o mais natural e despretensiosamente que consigo.
—Uma médica que trabalhou no hospital nos últimos três anos, pediu transferência alguns meses atrás e agora deseja voltar a trabalhar conosco. Seu histórico deixou-me um tanto insegura em recontratá-la – informa e anuo com um gesto de cabeça.
—Entendo. Algo que desabone sua conduta? – quero saber, meu interesse em tal mulher aumentando.
—Digamos que seus atos foram demasiado extremos nos últimos tempos, muito embora deva reconhecer suas qualidades como profissional – afirma, abrindo o que julgo ser a ficha da médica em questão – Foi a única estagiária até hoje a receber três dez em avaliações de pacientes, e mesmo um deles sendo um morador de rua que acabou morrendo, é algo impressionante já que nenhum outro conseguiu repetir o feito até hoje. Além de ter sido ela a suspeitar haver algo mais no caso da doença da filha de doutor Charles, fazendo com que novos exames fossem realizados e então o tumor foi descoberto – revela, me deixando surpreso — Também ajudou a resgatar um bebê roubado dentro do hospital entre outras coisas – segue, lendo a ficha mais uma vez — E mesmo quando cometeu um ato de indisciplina ao espirrar spray de pimenta no rosto de um paciente, e não me pergunte porque agiu de tal maneira pois ainda não descobri, acabou por salvar a vida do homem já que o hospital foi obrigado a realizar exames extras a fim de evitar um processo e terminou-se por elucidar um quadro que não havia sido detectado por nenhum outro médico, em nenhum outro hospital no qual o homem fora atendido. Ou seja, mesmo quando tinha tudo para ser demitida por justa causa, acabou salvando a vida do paciente e sendo apenas advertida, tomando suspensão de alguns dias. Miss Goodwin e diversos colegas saíram em defesa dela diante da diretoria. Acho que até seu filho a defendeu quando foi chamado – conta, elevando meu nível de curiosidade as alturas.
—Humm...entendo. Então não irá atendê-los? – pergunto.
—Honestamente não sei. Reconheço o valor de um bom profissional quando vejo, no caso leio, sobre um, mas a instabilidade emocional desta moça me preocupa – responde sincera, seu celular tocando naquele exato momento – Garrett...sim...Não.... definitivamente não... estou indo aí agora mesmo – avisa, irritada, desligando – Senhor Rhodes sinto ter que encerrar nossa reunião, mas surgiu um problema no setor de manutenção que requer minha atenção – avisa, levantando-se e faço o mesmo – A menos que deseje esperar-me.
—Não é o caso – dispenso, abotoando meu terno – Importa-se se usar o lavabo novamente antes de sairmos? Acho que algo não caiu bem na refeição matinal – minto.
—Fique à vontade. Não poderei esperá-lo. Peço apenas que feche a porta ao sair – pede, como já esperava, retirando-se quando finjo entrar no lavabo.
Após certificar-me de que não voltaria, copio a ficha da médica, lendo por alto algumas informações a seu respeito. Reponho a original no mesmo lugar antes de deixar o aposento, satisfeito.
Iria descobrir quem era esta garota, porque Connor demonstrou tanto interesse e principalmente, se poderia me ser útil futuramente.
Sigo para os elevadores entrando no primeiro que chega, saindo quando atinge o térreo.
Evito passar diretamente pela emergência, porém mesmo assim vejo Connor e Bekker juntamente com o médico ruivo atendendo duas macas. Ele não me vê, mas ela sim e dirige-me um olhar assassino que faz-me rir.
—Definitivamente você se acha grande coisa não é mesmo minha cara? – digo baixinho, rindo mais – Um dia Connor irá agradecer-me por ter tirado essa oportunista de sua vida, embora não fosse exatamente esta minha intenção – pondero, seguindo meu caminho, entrando no carro que me aguardava – O mais engraçado é que a estupida forneceu a corda para o próprio enforcamento quando tentou jogá-lo contra mim – lembro.
—O que disse senhor? – meu motorista pergunta e percebo que falara em voz alta.
—Nada. Para a Dolan – oriento, mergulhando em meus pensamentos a princípio, passando a ler a cópia que fizera da ficha quando o trânsito empaca.
Ao descer no estacionamento interno de minha loja, já lera toda informação ali contida a respeito de Sarah Reese, pondo-me ciente de todo seu histórico como funcionaria do hospital. Agora iria descobrir informações a respeito de sua vida pessoal e para isto contaria com a experiência de meu chefe de segurança, ex militar.
Iria descobrir quem era essa mulher e se representava algum perigo ao nome da família, como as outras duas.
—Afinal, gostando ele ou não, qualquer filho que por ventura venha a ter será um Rhodes, meu neto e herdeiro – penso em voz alta enquanto subo pelo elevador – Senhora Martin, peça ao senhor Devlin que venha a meu escritório o mais rápido possível – ordeno, entrando em minha sala, sentando-me, refletindo sobre os acontecimentos recentes envolvendo minha família como um todo. Especialmente meus filhos.
—Senhor Rhodes, o senhor Devlin está aqui – minha secretaria anuncia, me tirando do transe momentâneo no qual entrara.
—Mande-o entrar – ordeno, a porta abrindo-se para o homem alto e forte responsável pela equipe de segurança da Dolan e pessoal minha e de minha filha.
—Boa tarde senhor Rhodes. Queria me ver? – pergunta, parando a minha frente em sua postura usual.
—Sim Anthony. Quero que me faça um favor pessoal e sigiloso – peço, escrevendo o nome da médica numa folha a parte, erguendo os olhos para vê-lo arquear a sobrancelha. Não era normal pedir-lhe algo do gênero – Quero que investigue essa jovem – entrego-lhe o pedaço de papel – Descubra o máximo de informações sobre ela e sua família – determino.
—Certo. E para quando quer senhor? – quer saber, me encarando após lê o nome da garota.
—Para ontem! – exclamo, um sorriso divertido se formando no rosto do homem geralmente sério e taciturno.
—Considere feito – diz, inclinando levemente a cabeça antes de se retirar.
—Preciso saber com quem estou lidando antecipadamente desta vez – reflito – Mesmo porque meu tempo já não é tão grande quanto gostaria – suspiro, dirigindo meu olhar a fotografia que poucos sabem tenho sobre minha mesa.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Redação revista Creative- reunião de pauta (14:45 p.m)
Narrador
—Ok pessoal, se ninguém tem mais nada a acrescentar, acho que já podemos dar por fechada a edição da semana que vem. Caso surja algo interessante, vemos se é possível encaixar. Alguma dúvida, comentário? Algo mais a acrescer? – Janine Fincher, editora chefe, questiona, olhando sua equipe um a um, notando a “ausência” de um deles – Ok. Encerramos por hoje. Vamos à luta que temos uma revista para por nas bancas! – comanda, batendo palmas, fazendo a equipe levantar-se e começar se retirar da sala – Wells, espere – pede, o jovem reporte detendo-se, olhando-a intrigado – O que há? Você e Leo quase não falaram nada durante a reunião inteira. Justo os que mais me trazem novidades e ideias criativas! – questiona após os demais haverem saído, encarando o loiro com as mãos na cintura.
—Nada – responde sem muita firmeza.
—Nada. Tem certeza? – insiste, estreitando os olhos ante a evidente dúvida do rapaz – Fale! Sei que está remoendo algo. Te conheço o suficiente para reconhecer os sintomas! – brinca, ele rindo enviesado.
—Conhece mesmo! – admite, soltando um suspiro resignado, fechando a porta e encarando-a – Olha só, eu e Leo podemos ter esbarrado em algo, que pode ser ou não interessante, relevante – diz, massageando o queixo – Eu só preciso apurar algumas coisas e me certificar de não estar errado em meu julgamento antes de expor os fatos para nosso público. Além, é claro, de saber se teriam interesse no assunto – declara.
—Jimmy Fincher sendo cuidadoso sobre uma matéria? Eu realmente vivi para presenciar essa cena!! – ironiza Izabela Brin, assistente de edição – Desde quando passou a ter escrúpulos em expor a intimidade de alguém? Sim, porque em se tratando de você, só pode ser alguém minimamente conhecido ou famoso a estar na sua alça de mira! – acrescenta, recebendo um olhar zangado de Janine – O que? Menti por acaso? – insinua, abrindo os braços.
—Não, não mentiu e se pensa que me envergonho, se enganou – responde o loiro, irritado – E até onde sei, nunca publiquei nada ofensivo ou que pudesse causar problemas a alguém e não pretendo começar a fazer isto justo agora e justo com ele – retruca, apoiando a mão sobre a mesa, não dando chance nenhuma das duas mulheres rebater – Trata-se do filho de Cornelius Rhodes, o tal médico que trabalha no Gaffney. Foi com ele que esbarrei, por assim dizer, no sábado a tarde, quando voltava daquela entrevista com a artista plástica e como já temos um pequeno histórico com o digníssimo senhor Rhodes...!! – justifica.
—Temos? – pergunta a morena, voltando-se para Janine.
—Temos – confirma a ruiva, levando uma mão ao queixo, explicado ante o olhar inquisidor da outra – Foi alguns meses antes de você começar a trabalhar conosco. O tal filho do Rhodes, Connor acho, tinha retornado a cidade depois de anos fora mas nada disse ao pai muito menos a irmã, ou seja, voltou em segredo – conta, sentando-se – Por coincidência, encontrei os irmãos jantando certa noite, ele acompanhado de uma morena, que causou certo tumultuo no restaurante quando cismou que havia algo debaixo da mesa deles. Bem, pedi pro Jimmy verificar e descobrimos que a moça já tinha aprontado no prédio aonde estava morando junto com o herdeiro da Dolan ao deixar o micro-ondas ligado ao sair. Dias depois ela foi detida na loja da família por roubo. Íamos publicar uma matéria contando a história do casal, já que ele fora listado entre os cinquenta trintões em ascensão fazia pouquíssimo tempo, só que nem chegamos a imprimir aquela edição visto que dad Rhodes, sabe-se lá como, descobriu e usou sua influencia e poder financeiro para nos intimidar...
—Entenda ameaçar – a corrige o loiro, irritado.
—Isto – anui a ruiva, prosseguindo – Tivemos de refazer toda a revista de última hora para não atrasar, eliminando a matéria inteira. Nem mesmo uma nota mínima foi permitido publicar. E Rhodes ameaçou nos processar caso publicássemos algo referente a sua família no futuro, além de ter adquirido grande número de ações da editora responsável por nossa revista – conclui.
—Nossa! Quem esse cara pensa que é? – questiona a morena, também irritada.
—Ele não pensa, é – Jimmy afirma – Ainda hoje consegue mexer seus pauzinhos quando algo o desagrada – diz.
—A família Rhodes é uma das mais antigas, ricas e poderosas de Chicago, mesmo hoje em dia. E Cornelius sabe usar o peso do sobrenome a seu favor quando é de seu interesse – Janine afirma, torcendo o nariz – Até hoje paira no ar a dúvida sobre a noite em que a esposa morreu, se teria sido de fato suicídio – revela, deixando a ruiva boquiaberta – Pois é. Ele nunca chegou a ser suspeito oficialmente, até onde sei, mas foi o ultimo a vê-la com vida e convenientemente, após terem discutido feio, pelo que se sabe, deu as costas a esposa com graves problemas depressivos, segundo ele, voltando-se apenas quando a ouviu dizer o que pretendia fazer – faz uma pausa tentando recordar os fatos – Ao que parece ela já estava saindo pela janela do quarto e caminhando pelo telhado. Ele afirmou que tentou detê-la, mas a única testemunha estava abalada demais e não conseguiu falar o que viu – relembra.
—Então havia mesmo uma testemunha? Pensei que era lorota ou que ele tinha pago alguém para dizer que estava lá e confirmar sua versão dos fatos – Jimmy comenta, surpreso – Eu era um adolescente complicado na época e meus pais evitavam me deixar ler sobre essas coisas, suicídio quero dizer, achando que podia me influenciar – conta.
—Uhum, uhum, entendo – diz Janine — Havia sim. O filho, Connor, que não passava de um garoto. Tinha uns dez anos, acho – revela.
—Caraca, o garoto viu tudo!? – espanta-se o loiro ante a confirmação da editora.
—Dizem que sim, mas não conseguiu relatar e evidente que o pai não permitiu pressionarem o menino, já bastante traumatizado e fragilizado – acrescenta ela – Talvez algum dia possamos descobrir o que de fato aconteceu aquela noite – diz, pensativa – Mas o que descobriu sobre ele? – retoma após um segundo.
—Estava caminhando com uma garota, não aquela loira que o acompanhava na cerimônia em homenagem a tal sala hibrida quando socou o pai, sabe-se lá por qual motivo – lembra Jimmy.
—Ele deu um soco no pai? – é a vez de Izabel se espantar.
—Sim. Do nada. Em meio a festa – confirma o loiro – Essa tem cabelos cacheados e cor de mel. Parece bem jovem, na casa dos vinte e pouco. Pareciam se divertindo, mas não dá pra afirmar que estão namorando ou de rolo. O tempo todo mantinham certa distância. Por isto quero pesquisar, descobri de quem se trata e qual a relação entre eles antes de publicar qualquer coisa. Leo fez várias fotos e também um vídeo. Acho que mora nas redondezas porque estavam com sacolas de um mercado da área. Se me der carta branca, vou investigar e quando souber algo publicamos – sugere.
—Tem. Só não demora demais porque os Rhodes estão sim em alta justamente pelo tal soco. Se demorar demais pode esfriar – sugere.
—Beleza. Vou ver o que consigo. E se não for nada, ao menos evitamos mais problemas com o “poderoso chefão” – brinca, fazendo aspas – Vou ver com o Leo o que podemos fazer. Te mantenho informada chefinha – avisa, piscando antes de sair.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Apartamento Laura Derm (segunda, 31/12/18 – 23:44 p.m)
Sarah
—Bom que tenha mudado de ideia e vindo para cá Sarah – a senhora Derm diz, sorridente, empurrando a bandeja com mais salgadinhos na minha direção – Quer mais um pouco? – pergunta e antes que eu me veja obrigada aceitar, Laura vem em meu socorro.
—Mamãe, quer deixar a Sarah respirar? Assim vai espantar minha amiga! – ralha em tom carinhoso.
—Eu só queria fazê-la sentir-se à vontade meu bem – justifica-se a boa senhora, sorrindo afável.
—Ela já está. Por que não serve aos meninos e Tom? Eles estavam reclamando da falta de comida a pouco que ouvi – diz, piscando para mim.
—Certo, certo, já vou – prontifica-se a senhora, me dando mais um sorriso antes de ir até os netos e genro.
—Desculpa por isso Sarah. Minha mãe acha que uma pessoa só está feliz quando está mastigando algo!! – pede, sentando-se a meu lado, afagando a cabeça de Dino, que para minha surpresa dormia tranquilamente em meu colo – E então, alguma resposta do Med? – pergunta e nego com um gesto de cabeça.
—Não, nada ainda – conto, desanimada – No fundo eu já sabia que ela não iria me recontratar. Senti isto – digo.
—É, lembro de ter comentado. Mas e quanto a seus amigos, o Psiquiatra e aquele médico gostosão que estava em seu apartamento outro dia? Não poderiam ter intercedido a seu favor? – questiona-me.
—Até poderiam, mas espero que não tenham feito. Não quero voltar como um favor ou obrigação. Sei meu valor e quero ser contratada por tal – afirmo, segura.
—Entendo. E o que fara se não te chamarem? Vai a outro hospital? – quer saber, abrindo espaço no sofá para sua irmã, que vem sentar-se perto de nós.
—Já fui. Não estão contratando no momento. A maioria está com contenção de despesas – revelo, triste – Se não me chamarem até o final desta semana, irei procurar algo. Não posso ficar sem trabalho. Tenho meu empréstimo estudantil para pagar, as despesas pessoais, alimentação, roupas, vacinas e ração para este mocinho aqui – enumero, afagando a cabeça de Dino, que nem se mexe, o safado! – Não posso me dar ao luxo de ficar esperando eternamente. Adoraria voltar, mas se não for possível.... — dou de ombros.
—E que vai fazer? — repete, preocupada.
—Ainda não sei bem. Quem sabe tentar o café aonde trabalhei um tempo como barista...
—Você é barista?? – Helena, irmã de Laura me interrompe.
—Fui. Por um período. Dois anos atrás – confirmo.
—Mas que coincidência! – exclama e enrugo o cenho, confusa – Meu marido e eu estamos nos mudando para Chicago e vamos abrir uma cafeteria a três quadras daqui semana que vem. Se até lá não tiver obtido resposta do hospital e quiser trabalhar conosco, será muito bem-vinda! – convida.
—Ah, quero sim – me antecipo.
—Ótimo. Me lembra de te dar meu cartão antes de ir embora. Depois que as festas passarem acertamos os detalhes de sua contratação – diz, levantando-se – Hora dos fogos! – exclama, indicando a varanda aonde a família já se reunia.
—Vamos? – Laura convida e anuo, pondo Dino protetoramente nos braços.
—Vamos – levanto-me levando Dino comigo, Persie a meus pés, seguindo-nos para a varanda onde celebramos, observando a queima de fogos, o alívio de saber que começaria o ano novo ao menos com uma promessa real de emprego, mesmo não sendo o que gostaria me deixando mais leve e animada.
—Quem sabe não acontece de ser chamada depois, como aconteceu da outra vez, não é meu amor!? – cochicho ao ouvido de Dino, que inquietara-se com as explosões – Feliz ano novo pra nós bebê! – desejo, cheirando-o carinhosamente, suspirando ao voltar olhar a cidade iluminada, em festa pela chegada de mais um ano.
“...Já não me preocupo se eu não sei por quê;
Às vezes o que eu vejo quase ninguém vê;
E eu sei que você sabe quase sem querer;
Que eu vejo o mesmo em você"

Fale com o autor