Caminhos de Terraria
1 Almaris, o Começo da Jornada
Notas iniciais
A nossa história começa num lugar onde ainda existem reinos. Contudo, não são os reinos a que o povo está acostumado. Numa terra longínqua e distante fica um mundo conhecido com Terraria. Alguns consideram Terraria uma vasta extensão de Terra totalmente rodeada por um vasto azul inexplorado, enquanto outros garantem que é uma esfera coberta igualmente por solo e água, enquanto alguns acreditam que Terraria é um quadrado e que se nos aproximar-mos das bordas, caímos sem nunca mais sermos vistos. Terraria é na verdade apenas mais um lugar, localizado algures e é nessa terra que a nossa história toma lugar, na verdade, começamos num lugar específico de Terraria…
Na pequena e remota aldeia Almaris habita Robert. Um jovem de dezoito com uma enorme queda para o desastre, um jovem aventureiro que nunca saiu sequer do seu quintal, como muitos o apelidam. Robert é um rapaz adolescente simples com a pele tão branca que quase refletia o sol, de altura média não era demasiado musculado nem era muito magro, tinha olhos cor de avelã e cabelo loiro, curto que se adapta perfeitamente à sua cabeça. Ele era um jovem normal, tal como todos os outros que cresciam em torno dele. Vivia com a sua tia, Aurora. Aurora era já uma senhora de idade, baixa e gordinha, no entanto tinha uma atitude jovial que inspirava qualquer um que convivesse com ela a aventurar-se e a procurar por novos caminhos. Bom… todos menos Robert.
A aldeia pacata raramente conseguia atrair a atenção de Robert, quer fosse para sair de casa e explorar os cantos que já tinha antes explorado, quer fosse para conhecer as pessoas que já tinha antes conhecido. No entanto, uma rapariga chamada Mabel despertava intensamente a sua curiosidade e o seu interesse. Rob, como era chamado pelos seus amigos (embora poucos, existiam) tinha conseguido de alguma forma formar uma amizade com alguém como Mabel e com toda sua força e coração, essa amizade apenas crescia. Mabel tinha uma pele cor de canela e longos cabelos negros de carvão que, de acordo com ele, cheiravam a jasmim. Ela vivia com a sua mãe. Uma mulher muito reservada, alta e magra que se preocupava imenso com a filha. Mabel não tinha pai, este tinha morrido numa demanda imposto por ele próprio o que fez com que a mulher – Isabel – impedisse a filha de se afastar mais do que a cerca da própria casa.
Todos os dias, após terminar de trabalhar no campo como era necessário para alimentar a sua casa, ele passava pelo lugar onde Mabel vivia para ter uma conversa rápida e pouco elaborada sobre como tinha sido o dia dos dois. Mabel tal como Rob, tinha um espírito aventureiro. A jovem rapariga estava igualmente farta de uma vida que outros levariam facilmente. Ela não estava disposta a conformar-se com os padrões impostos nela. Mabel não seria mais uma dona de casa, ela queria aventurar-se pelo mundo, explorar novas florestas e nadar em novas praias. Sempre que Mabel e Rob se juntavam era sobre isso que discutiam. Falavam sobre como seria explorar os reinos exteriores, que tipos de povos conheceriam, que sensações sentiriam… Esse era um sentimento mútuo de ambos. A mãe de Mabel via isto como uma desnecessidade de ir ao encontro do perigo e de todo o tipo de coisas que pudessem ferir a sua filha, por outro lado, a tia de Robert incentivava-o a caminhar por todo lado, procurar sítios que outros nunca viram e sair da vila de Almaris.
Enquanto as respetivas familiares pudessem discordar do conceito de aventura, Robert e Mabel sabiam que precisavam de aventurar-se juntos. Ambos saiam frequentemente da vila para dar alguns passeios ao luar enquanto os pássaros cantavam as suas últimas canções. Robert acreditava que esta seria a máxima distância que os dois alguma vez chegariam. A periferia da vila, o lugar mais pacífico, cheio de animais e flora. Poucos passavam por lá, tirando o ocasional viajante que optava por um caminho menos traçado.
Todavia, esta semana era diferente. O dia que eles esperavam finalmente tinha chegado… Começavam as celebrações anuais de Almaris e Robert, Mabel e muitos outros jovens apresentar-se-iam ao público e decidiriam se abandonariam as suas vidas para conhecerem o mundo exterior ou se ficariam na vila com a nova geração de líderes que a governaria. Este processo era algo que acontecia todos os anos, sempre que uma linhagem de crianças atingia os dezoito anos de idade a decisão era feita. A decisão era algo definitiva e que não podia ser revocado. Embora drástico este processo era necessário para certificar que nenhum jovem fica preso ou para trás. É evidente que as regras já são muito antigas e assim que um aventureiro decide regressar ele é aceite, no entanto, alguns levam a promessa de largar a vida muito asserio, partindo para sempre.
Assim que Mabel e Robert ouviram de tal coisa decidiram-se no lugar. Eles sabiam que saíram, que explorariam todos os campos e todas as planícies que o mundo tinha para oferecer, deixando apenas o horizonte do céu como limite.
Nessa semana, Rob acordou ansioso. Na verdade, foi a sua tia que o acordou. O passeio noturno com Mabel tinha-lo deixado mais cansado do que o habitual e ele não havia conseguido levantar-se sozinho.Com uma cara absolutamente impregnada pelo sono, Robert vestiu-se rapidamente com uma roupa considerada por ele habitual – calças de couro castanhas, botas de couro castanhas também e uma camisa branca para neutralizar os tons escuros. Assim que saiu do seu quarto, fechou os olhos. Uma escuridão apoderou-se dele. Rapidamente agitou os braços face à eventualidade e viu que era apenas a tia Aurora a atirar-lhe uma capa para cima. – “Vá, veste isso. Era do teu pai, sabes? Antes de ele desaparecer. A tua mãe entregou-ma antes de ir em busca dele e pediu-me que ta passasse assim que chegasse o dia da tua escolha.” – Era uma capa normal de pele de veado. Assim que ele a colocou nos seus ombros sentiu uma onda de calor a deslizar pela espinha. – “É muito boa… Obrigado tia.” – Retribuiu ele, seguindo-a para a cozinha. Um pequeno banquete já estava à sua espera. Longe do habitual estavam presentes panquecas, ovos, crepes e muitas outras coisas. – “Senta-te, vá. Precisamos de falar.” – Acrescentou a tia assim que se apoderou de um lugar na cabeça da mesa. Robert fez o que a tia ordenara. Sentou-se e começou a recolher pequenos pedaços de tudo no seu prato, esperando ansiosamente o que a tia tinha para lhe dizer. – “Rob, eu sei perfeitamente qual é a tua decisão de hoje e espero que tu saibas que te apoio totalmente!...” – Começou a tia a discursar enquanto que Robert levava algumas panquecas à boca –“…Mas tens que tentar perceber que a Isabel pode não vos apoiar tanto como eu, tendo em conta o seu passado.” – A personalidade alegre da tia não estava tão presente nesta conversa, no entanto o seu típico tom alegre de voz era impossível de desaparecer. Robert sentiu que o assunto era algo mais sério do que o habitual, então que parou de comer. –“Tia, eu entendo que talvez a Isabel discorde da saída da Mabel de Almaris, mas a decisão acabar por ser da Mabes, e não dela.”- A tia olhou para ele, que se sentava alguns centímetros de distância e estendeu a mão, acariciando a sua bochecha. – “Eu sempre te eduquei assim, não foi?” – Respondeu-lhe ela com um tom terno. – “Foi você que me contou todas aquelas histórias…” – “Ele olhou para ela enquanto lhe passava a mão pela face.- “A culpa é sua, tia.” – Concluiu ele com uma gargalhada para amenizar o ambiente. A tia acenou com a cabeça e lançou-lhe um sorriso de volta. O ambiente tinha na verdade ficado muito mais leve. E havia razões para isso, afinal era um dia de celebrações.
Terminando o pequeno-almoço, Robert declarou à tia que iria visitar a Mabel antes da grande cerimónia e que provavelmente não regressaria a casa, então deviam encontrar-se apenas na praça principal da vila, que era o lugar onde a cerimónia ia tomar lugar. Subiu novamente ao seu quarto para recolher uma bolsa que carregava os seus essenciais, tais como um mapa, uma bússola e alguns remédios caseiros e saiu de casa.
Estava um dia resplandecente e os raios de sol que emanavam do céu rapidamente se refletiam no cabelo loiro de Rob. A casa de Mabel ficava muito perto da sua, o que acabava por facilitar a comunicação entre os dois. Assim que ele começou a caminhar, reparou que o dia parecia diferente. As casinhas aborrecidas pareciam mais coloridas, tal como a relva e o céu. Seria este o sentimento de liberdade? Não, era cedo demais. A decisão ainda nem tinha sido declarada… Mas de facto, Robert sentia-se melhor, pois na verdade a sua libertação aproximava-se mais do que nunca e desta vez, Mabel viria com ele. Nada o impedia de abandonar Almaris e era exatamente o que ele estava a fazer. Atravessando uma pequena ponte alcançou a casa da sua melhor amiga, Mabel. Ela já esperava à porta, com uma pequena mala. O seu sorriso parecia o de Rob, como se o mundo fosse diferente. Assim que ele chegou perto dela iniciaram um diálogo entusiasmado – “Então!? Pronto para finalmente sair daqui?” – Disse ela quase que num grito de felicidade. – “Sim, mas acho que não estou tão entusiasmado quanto tu…” – Respondeu ele, impressionado com a velocidade com que ela se mexia ou falava. Mabel levantou-se, recolhendo a sua mala. Tal como Rob, tinha combinado com a sua que se iriam encontrar na praça. Como de costume, conversaram todo o caminho sobre todo o tipo de assuntos, ora falavam sobre a capa nova de Rob, ora falavam sobre a forma como Mabel tinha alisado o cabelo para o evento.
O caminho, embora curto, pareceu tão longo. As casas ficavam muito perto da praça da aldeia, então rapidamente chegaram ao local. Local tal que já estava cheíssimo de gente. Crianças, jovens, adolescentes, adultos, idosos… Qualquer um que vivesse em Almaris estava presente naquele lugar. Um palco tinha sido instalado para o evento, com um pódio bem no centro. Todos aqueles que tinham dezoito anos reuniam-se perto do palco, e Rob e Mabel aproximaram-se.
A praça continuou a encher até que o relógio atingiu o meio-dia. A tia de Rob e a mãe de Mabel também tinham acabado de chegar e já estavam perdidas entre a multidão. Isabel ainda parecia descontente pois a filha preparava-se para sair da vila, porém servia de contraste à tia Aurora que estava felicíssima pelo seu sobrinho finalmente sair para o mundo.
A cerimónia iniciou, o presidente subiu ao palco. Era um homem já velho, nos seus 50. Tinha uma pele de tonalidade beije que fazia um balanço perfeito com os seus cabelos e barba cinzenta. O homem mantinha uma postura solene enquanto se aproximava do pódio. Segurou o microfone e, clareando a sua voz, começou a discursar. – “Saudações, população de Almaris. Agradeço a todos a presença neste acontecimento tão significativo e simbólico, que marca a passagem dos nossos filhos, netos e irmãos para uma idade mais matura.” – O presidente fez uma pausa, clareando a sua voz novamente. – “Felicito ainda os jovens que se encontram atrás de mim, pela sua maturidade e chegada a esta maravilhosa idade que lhes permitirá alcançar fantásticas recompensas… Comecemos.” – Assim que o presidente terminou, uma lista foi-lhe entregue. Nela continha o nome de todos aqueles presentes no palco. Os nomes começaram a ser chamados e pelo menos 30 pessoas passaram pela escolha até que um dos amigos foi chamado. – “Orson, Robert.” – Anunciou o presidente. Rob aproximou-se. – “Diz-me, meu rapaz, a tua família está cá hoje? – Questionou o homem. – “Sim, senhor.” – Ripostou Rob olhando para a tia que sorria em retorno. – “Então, vamos a isto. O que vai ser meu jovem, vais ficar e aprender a cuidar da tua vila ou vais optar por desertar-nos?” – Cessou o presidente com uma gargalhada. Robert aproximou-se do microfone e em uníssono respondeu. –“Eu vou explorar o mundo.” – Um aplauso foi ouvido e Robert olhou para o chão sorrindo, com vergonha de toda aquela atenção.
Afastando-se do palco as outras pessoas recomeçaram a ser chamadas. Sentou-se num banco, junto de outros que seguravam malas e pastas. Mabel ainda ficara, o seu nome era um dos últimos devido ao apelido. – “Willis, Mabel.” – Assim que o nome dela foi pronunciado, o estômago de Rob apertou-se. Ele sabia que ela iria escolher vir com ele, certo? Mesmo assim, ainda era tão difícil… Poderia a pressão da mãe forçá-la a ficar? O presidente propôs-lhe a mesma pergunta, e ao aproximar-se do microfone Mabel olhou para Robert, depois para a sua mãe, que parecia impaciente. Finalmente, concluiu. – “Eu vou…” – Robert quase que saltou do banco onde estava sentando, chegando a desequilibrar-se e a cair. Ele estava animado demais. Ele e ela, a sua melhor amiga a aventurar-se com ele por toda Terraria.
O que mais podia ele pedir? Mabel desceu o palco, abraçando-o. Os restantes foram chamados e a cerimónia terminou. Eles afastaram-se para um sítio mais distante, certificando-se de que as parentes os vias. A tia de Rob e a mãe de Mabel rapidamente se juntaram a eles para uma despedida. Havia alguma tensão no ar e Isabel dirigiu-se a Rob antes de dizer qualquer coisa que fosse a Mabel. – “Ouve bem meu rapazinho, eu já te conheço à quase tanto tempo quanto tu conheces a Mabel e sei bem que tu és virado para o perigo, então é bom que tenhas cuidado. E é bom que me escrevam, os dois. Regularmente. E isto não é um pedido, é uma ordem. Eu vos garanto que se não me escreverem para assegurar a vossa segurança eu farei as minhas malas e irei atrás de vocês. Compreendido?” – Antes de dizer qualquer coisa Robert simplesmente ficou surpreendido que alguém conseguisse dizer aquilo de uma forma tão seguida e sem respirar, mas acaba por se justificar com todos os anos de prática a gritar com Mabel… Ele acenou com a cabeça, de modo a concordar. Isabel agarrou nele com os seus dois braços, supreendendo-os. Raramente falavam, a não ser que a Mabel se demorasse a trocar de roupa ou a fazer qualquer outra coisa.
De seguida, Isabel dirigiu-se à filha. – “E tu vais ouvir-me ainda melhor.”- Ela olhou diretamente para a rapariga, quase que a petrificando. – “Passei vários anos a tentar convencer-te de que isto é uma ideia horrível, mas como és uma cabeça de vento absoluta isso não me leva a lado nenhum. O teu pai saiu da cidade e olha o que lhe aconteceu… Bem. É bom que mantenhas contacto e que me informes constantemente de tudo o que aconteceu, percebido minha menina?! Precisamente o que eu disse ao Rob aplica-se a ti, só que a dobrar. E é bom que me envies lembranças dos lugares onde passas… Pelo menos para eu saber que ainda te preocupas comigo.” – Assim que encerrou o seu discurso abraçou-a, mas ao contrário do que incluiu Rob, este foi mais duradouro, mais emocional. Algo verdadeiro entre mãe e filha. Os olhos de Isabel lacrimejaram e ela não conseguiu bloquear o choro. Assim que começou, Aurora afastou-a para falar com eles. – “Bem, meus meninos…” – A tia emocionou-se ainda mais rapidamente que Isabel. – “…Isto é muito difícil, os meus passarinhos a voar do ninho…” – Ao contrário da mãe de Mabel, a tia fazia várias pausas para limpar as lágrimas.- “…Vocês precisam de ter muito cuidado… Existem pessoas muito más lá fora, mas mesmo assim aproveitem, desvendem mistérios… E explorem todo o mundo…” – A tia agarrou-os aos dois. Num abraço que envolvia choro, embaraço e muito amor terminou esta conversa. Mabel e Robert terminaram de se despedir das parentes e olharam um para o outro… O último olhar que eles alguma vez teriam dentro de Almaris. Viraram-se uma última vez para Isabel e Aurora, pegando nas malas e caminhando em direção à fronteira da cidade junto de muitos outros.
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