Caminhos da Alma
3 Capitulo 02 – Delírios I
As peônias no vaso eram adoráveis e complementavam com maestria a decoração em tons amarelos e dourados do quarto luxuoso onde se encontrava instalada. Liu Haolin terminou de pentear o seu longo cabelo prendendo com um pente adornado de flores de lótus.
No espelho, estranhou a sua imagem pensando se deveria ter usado branco luto ao invés do rosa delicado. O marido a proibiu de usar vermelho e negro para o Banquete dos Oficiais da Torre da Carpa e estas cores realmente não lhe caiam bem.
Ela riu imaginando que quem visse a intempestiva Vespa Assassina de Qhingue acreditaria se tratar de uma honrada jovem dama em vez de uma ensandecida seguidora da cultivação demoníaca do Patriarca Yiling.
Acostumada aos tons fortes do seu cotidiano, era difícil para ela manter a graça e a elegância da sua irmã mais velha nestas ocasiões. O que era constrangedor sendo esposa do prestigiado ex-general Shao Wu, excelente estrategista e exímio artista marcial, além é claro, consanguíneo da linhagem real.
“Como estou, A-Tian?” perguntou para o adolescente de braços cruzados encostado numa parede distante que se distraia num jogo infantil com as outras crianças.
O rapaz desviou a atenção dos irmãos e fixou seu olhar nela. Analisou-a por alguns momentos e aproximou-se com um sorriso encantador enquanto desatava sua longa trança rústica e refazia seu penteado num complicado coque de tranças, pérolas e flores de cerejeira. Ajeitou os adornos em seu traje e terminou com uma maquilagem distinta que a fez parecer uma porcelana rara. Haolin olhou espantada para a transformação feita em si pelo menino e riu encobrindo a boca com a mão já esperando isto do seu adorável filho.
O primeiro discípulo da sua casa, embora não fosse naturalmente seu, era digno da fama de seus pais e do império. Hao Tian era descendente de Hao Dewei, a Espada do Norte. Enquanto seu marido, Shao Wu, era a Espada do Leste. No passado, os dois heróis lendários que se tornaram amigos e trouxeram fama e riqueza para suas seitas de artes marciais até que a guerra os separasse.
Como parente real, Wu foi convocado como general do Príncipe Sangrento ao qual sua casa era relacionada. Ele não gostou, dos 7 príncipes da dinastia, este era o mais ambicioso. Vendo-se obrigadao pelo código de honra de sua familia, ele demorou muito para se libertar deste fardo.
Houve consequências, não só perdeu sua própria seita e seus comandados, como foi responsabilizado pelo mar de sangue de cidades inteiras, inclusive a vila pertencente ao seu amigo, onde o mesmo pereceu de forma injusta e desonrada.
Indignado, jurou sob seu túmulo que manteria seu Legado e teve um longo confronto com o General Vermelho pela posse de Hao Tian, não para prêmio, mas para redenção pela barbárie ocorrida.
O inescrupuloso oficial somente cedeu quando o próprio príncipe interferiu na disputa obrigando Shao Wu a unir-se a neta deste General, Liu Haolin, para castiga-lo, visto que a Espada do Leste tinha prometido amor a Adaga Voadora, uma aventureira destemida, quando jovem.
Como o General Vermelho tinha várias netas e filhas, mas nenhum genro, comentavam as más línguas ter caráter incestuoso e ser bem conhecido pelos abusos pessoais dentro desta família. Embora a Vespa fosse bonita, era evidente traços de loucura no comportamento dela.
Mesmo surpresos com as bodas, os mais ousados enegreciam a história insinuando que a criança mais velha desta dama estranha também pertencia a esta genética e por isso propositalmente casaram-na com o herói para mascarar tal erro. Motivo que muitos lamentaram a sorte de Shao Wu.
Haolin riu, apesar deste histórico, sua união não foi tão desastrosa. Pelo menos não para ela mesma. Sendo a Vespa Assassina, perita em envenenamentos, ela já estava condenada a tortura na prisão ou a morte sangrenta junto com seus parentes de sangue, mas a proteção do marido livrou-a deste destino.
Sem se importar com seu amor mútuo, Haolin era respeitada e a mantinha numa vida digna. Ela tinha de admitir que o admirava, o chefe da família Shao tinha algumas cicatrizes das suas Agulhas da Morte e do veneno de sua espada Ferrão em seu corpo, mas quando a acusaram de aderir ao caminho obscuro e praticar atitudes ensandecidas, ele negou firmemente e abafou os fatos em prol do bom nome da família.
Se não fosse pelas crianças, ela teria achado engraçado as brigas nas sepulturas a meia noite e o apelido de Bruxa de Cemitério. Aceitaria até que ser tachada de insana e dos muitos médicos que vieram examina-la com seus tratamentos.
Mas havia as crianças… Encarou suas 3 graças naturais com uma carranca pensando em quanto era difícil conter estes aborrecimentos visíveis na estrutura física de seus filhos. Shao Cheng era miúdo, Shao Yanli era fofinha e Shao FengMian era... um caso especial. Nenhum participaria do banquete por ordem do marido. Talvez nem A-Tian, Shao Wu não toleraria, pois até sobre ele havia insinuações sobre os reais sentimentos envolvidos na relação dos dois além do filial... que o mesmo preferia ignorar.
Então ela odiou o marido por esconder seus filhos, mesmo que fosse para mantê-los seguros. O que não durou muito tempo ao lembrar que o comportamento dela em relação aos mesmos não era tão diferente e que em breve os deixaria. As crianças ficariam sós.
Com um suspirou evitou o contato com eles e saiu para o salão. Tinha outros planos.
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Wei Wuxian não tinha ideia de que fora a visão estranha da vida daquela mulher. Parecia Empatia, mas tinha certeza que não estava usando Empatia em ninguém. Tomado por uma sensação horrível, mentalizou em voltar para o próprio corpo, enquanto procurava lembrar o que tinha acontecido e onde estava.
Respirando com dificuldade, conseguiu abrir os olhos vendo tudo rodar ao redor. Sentiu seu pulso doer e balançou a cabeça latejante, tentando encontrar sinais de sangue que indicassem desvio de QI e se tinha desmaiado.
Uma mão suave passava um pano úmido na sua testa enquanto repousava a cabeça no colo de alguém, provavelmente o marido. Como não tinha sinais de desvio de QI, acreditou ser um pesadelo e supôs estar no Jinshi. Talvez tivesse passado mal com toda aquela discussão do sumiço de Jin Ling e o colocaram de repouso ali.
Mais confortável reparou no tecido vaporoso das vestes brancas suavemente acariciando sua pele. Um rosto de fada estava sobre si preocupado, seus lábios rubros pronunciavam palavras suaves que ele não conseguia entender.
Ao redor somente um cheiro de madeira apodrecida e pedras úmidas, vozes juvenis ressonavam por perto, uma fogueira estava acesa cozendo legumes e um mar de estrelas noturnas brilhava no céu.
Um vento frio soprou em suas bochechas revelando a realidade.
Não era Lan Zhan. Não era o Jinshi.
Assustado o Patriarca Yilling tentou erguer a cabeça, mas a retornou de imediato quando uma pontada lancinante o atingiu. Ele encarou o rosto acima de si e finalmente o reconhecendo. Era Xiao Xicheng, seu shifu.
Mas ele não tinha morrido na cidade de Yi?
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