Notas iniciais
Pessoal, tudo bem? Comecei esse projeto há pouco tempo. Então, vou postar por partes. Serão capítulos longos, para compensar minhas longas ausências, pois estou com a faculdade de volta.

Avisos importantes:
1) Essa fic tratara de problemas familiares, uso de drogas, tentativa de suícidio e relacionamentos abusivos. Tenha certeza de que quer realmente ler isso.
2) Essa fic é da minha perspectiva de vista, quanto a esses tipos de relacionamento. Já tive minha cota de experiência com isso e nem sempre é fácil se desvencilhar ou sair.
3) Isso não quer dizer que não terá Dramione, mas que a situação dos personagens não é das melhores. Hermione e Draco estão quebrados e fragilizados pela vida
4) Me inspirei um pouco em um livro que li, além de experiência própria com relações assim.

Obs.: Esse capítulo contem dois capítulos, por isso está enorme rsrsrs
Logo coloca a capa da história.

Capítulo 1

Eu nunca quis essa vida. Na verdade, ela me foi concedida de forma forçada. Minha mãe riria de mim, pois ela sempre disse que estamos no mundo por um acaso. Acaso divino, ela diria. Particularmente, eu não acredito em nada disso. Sou ateu convicto. E nada de bom veio da religião. Nada. Apenas mais dor e sofrimento, que o pastor da minha cidade pregava aos domingos. Bons tempos aqueles. Pelo menos, eu não precisaria estar acampando com loucos e viciados. Bom, essa é uma parte da minha história. A que ninguém quer saber.

Tudo começou com um sonho. Aquele sonho de formar uma banda. Quatro caras. Um vocalista, eu no caso. Um baixista, guitarrista e um baterista. Parece fácil, não é? Mas, bem não é assim. Eu realmente acreditei que a banda poderia dar certo, mas não trouxe muito dinheiro. Algumas cervejas. Alguns trocados. Garotas. Nada muito importante. Nada que realmente me levasse para onde queria. Eu sabia tocar muitos instrumentos. Minha voz era boa. O problema é que Theo havia me dito, o cigarro acabaria com ela, logo, logo. Mas, eu não quis parar.

Meu pai fumava 30 cigarros por dia, desde que me lembro de quem eu era. Ele nunca parou. E isso passou para mim. Coisa de pai e filho. Parece que passa de geração a geração. Está no sangue. O sangue realmente diz alguma coisa. Ele te diz ao que você está propenso. Eu estava propenso a ter um câncer, como meu avô e meu pai. Lembrar dele só me faz lembrar na cicatriz que ainda carrego meu antebraço. Coberta pela tatuagem de cruz e caveira, quase não a vejo. Mas, é um lembrete. Não se pode ser um bom pai, quando não se tem um bom pai. Então, eu nunca teria filhos. Ou formaria uma família.

Mas, então, ela apareceu...

*-*-*

Tem coisas na vida que nunca queremos. Um emprego ruim. Não ter uma casa. Morar com os pais até os trinta anos. Filhos cedo demais. E um cara problemático. Aquele do tipo que coloca sua vida de cabeça para baixo. Ao que parecia, eu teria esses mesmos problemas.

— Hermione – escutei minha mãe me chamar no quarto.

Suspirei. Havia voltado de mais uma entrevista de emprego malsucedida. Eu não tinha trinta anos. Mas, não tinha mais vinte. O que era ruim. Eu lutava para ter meu PHD em química, mas não parecia que seria daquela vez. E lecionar em escolas, bom, não era o que eu queria. Mas, parecia que a vida só tinha isso para me dar.

— Oi mãe – disse, com um sorriso forçado, entrando no quarto dela.

Mamãe estava deitada na cama. Parecia pior do que antes. Não que fosse algo grave, mas ela não estava bem desde que papai se fora. Nada parecia melhorar seu humor. E eu estar ali parecia piorar a situação. Mas, eu precisava. Morar com meus amigos em uma república havia se mostrado um erro. Eu realmente não queria ficar lá. E não havia como. Havia cometido um grave erro.

— Você conseguiu o emprego? – Perguntou ela, tossindo sobre a mão em concha – Pegue o remédio na gaveta do criado mudo, por favor.

Suspirei, abrindo a gaveta ao lado da cama dela. Peguei as aspirinas e entreguei para ela. Parecia que só isso parecia aliviar a dor que sentia. Não que ela tenha me dito exatamente que dor era. E por que tossia tanto. Eu me pegava pensando se ela estava morrendo e se deixando morrer. Não estava tão compassiva com ela, para ter pena. Mas, eu deveria sentir, não deveria? Eu precisava sentir algo, como empatia. Porém, não sentia.

— Escute Hermione, se vai ficar aqui, precisava pagar alguma conta – minha mãe disse, se apoiando na cabeceira da cama. Pegou o copo com água sobre o criado mudo e tomou as aspirinas. Estava com um ar pestilento. Como se estivesse gripada. O nariz avermelhado na ponta. Cabelos desgrenhados. Na verdade, estava quase sempre assim, desde que precisei voltar para casa.

— Eu sei. Estou tentando encontrar um emprego – disse, coçando a nuca. Estava irritada, mas não queria dizer nada a ela.

Papai pagava tudo, mesmo tendo saído de casa, com sua nova esposa. Minha mãe estava com a vida assegurada. Havia largado o emprego como psicóloga, pois se sentia incapaz se curar seus pacientes. Palavras dela. E agora, vivia da pensão que meu pai pagava mensalmente. Apesar disso, sua vida parecia minguar. A raiva que sentia dele era visível. Eu também estaria com raiva, se não soubesse que tipo de pessoa ela era.

— Sei – ela disse, olhando para mim, com os olhos julgadores – Tenho certeza que você se esforça o bastante. Mas, deveria ter escutado meu conselho. Eu a avisei para não namorar aquele garoto. Ele não tinha futuro. E por que não fez outra coisa da vida? Poderia ter seguido os passos do seu pai e se tornar advogada.

Esfreguei a testa, cansada daquela conversa, cheia de cobrança e ressentimento. Nunca fiz o que ela queria. E meu pai nunca me pediu para ser o que eu não era. Pagou meus estudos e me deixou livre. Contudo, mamãe nunca parecia satisfeita comigo. Nunca esteve.

— Precisa de mais alguma coisa, mãe? – Perguntei, desejando sair daquele quarto.

— Não – ela respondeu, se deitando novamente na cama – Apenas faça o jantar, sim? Maggie não conseguiu deixar pronto hoje.

Saiu do quarto, irritada. Maggie era a empregada contratada pelo meu pai, para ajudar minha mãe com aquela depressão, que durava meses. Maggie, no entanto, não suportava os ataques da minha mãe, pelo dia. Parecia que transformara a pobre Maggie é um bode expiatório, para suas frustrações.

Segui para cozinha, preparando o jantar. Fiz uma lasanha, a minha comida favorita e a dele. Senti o peito arder, apenas de pensar em seus olhos. Ou como sentia falta do seu abraço. Eu havia cometido o pior erro da minha vida, ao sair de casa com ele. Havia feito tudo errado. Se ao menos tivesse escutado Rony, nada disso teria acontecido. E em minha raiva, havia feito mais pessoas sofrerem. Inclusive Gina, que com certeza, jamais falaria comigo.

Liguei o rádio, em uma estação qualquer. Começou a tocar uma música diferente. Guitarras e uma voz melodiosa pareciam incendiar meu ser. Deixei meu corpo se guiar apenas pela música. E quando vi, já havia colocado a lasanha no forno. Esperei escutar o nome da banda, mas não tive essa sorte. Outra música tocou e depois, não dei atenção. Meu telefone tocava na sala de estar.

Peguei o telefone sobre a mesinha de centro. Atendi logo em seguida.

— Oi pai.

— Oi querida – a voz dele parecia preocupada.

— O que foi? – Perguntei.

— Só liguei para saber, como como está sua mãe.

— Azeda – respondi, sincera.

— Filha, não fale assim – ele pediu, com uma voz carinhosa.

— Se você morasse com ela, saberia que não é fácil. Ela estava me cobrando por não ter um emprego pai.

Escutei o suspiro dele, do outro lado da linha. Eu soava como uma adolescente mimada, mas não era como se eu não estivesse procurando um emprego ou como se faltasse dinheiro para ela. Era como se estivéssemos sempre em guerra. Eu e ela. Nunca nos entendemos de fato.

— Eu sei querida. Sabe, posso ter conseguido algo para você – ele disse, com aquela voz de homem de negócios, que acabara de fechar um grande contrato – E isso pode acalmar os nervos de sua mãe.

— Você tem recebido as reclamações dela também?

— Bom, sim. Por mensagem. Eu evito ligações...bom...você sabe.

Sim, eu sabia. A nova esposa dele era um tanto controladora e ciumenta. Ao que parecia, meu pai ainda não sabia como escolher uma pessoa para estar ao lado dele. Ele sempre entraria em relacionamentos tóxicos, e ao que parecia, eu também tinha o mesmo gene.

— Entendo pai. Mas, me sobre o que exatamente você conseguiu.

— Eu tenho um cliente...bom, eu tenho atendido uma empresa farmacêutica. E não um cliente qualquer, Hermione. Pense em um contrato bilionário. Estou defendendo o caso dele, quanto aos seus produtos cosméticos estarem reações alérgicas nos clientes. Bom, sabe, é toda uma burocracia.

É, meu pai era um homem que pegava casos em que precisava defender justamente a parte acusada, que no caso, não merecia defesa alguma. E ele sempre vencia. Bancando o advogado do diabo. Era isso.

— Eu não vou trabalhar em uma empresa que não tenha uma regulamentação e vigilância quanto ao que vende, pai.

— Ora, querida. Não seja assim. Me deixe terminar – ele pediu, em tom persuasivo – Meu cliente não tem culpa, exatamente. Às vezes, a falha humana. Mas, isso não vem ao caso. Eles precisam de alguém formado, querida, para trabalhar na área de manipulação de remédios que exportam para outros países. E bom, eu posso conseguir isso para você. Ou, bom eu já consegui.

Parei para respirar. Eu estava realmente irritada com sua intromissão. Ele sempre tentava resolver do seu jeito as coisas. Não me consultava. Apesar disso, não poderia ficar irritada. Meu pai apenas dizia querer meu bem. E parecia me amar.

— Tudo bem pai. Quando é a entrevista? – Perguntei.

— Amanhã – ele respondeu, parecendo ansioso e feliz – Querida, agora preciso ir. Eu mando um carro te buscar, as 8 da manhã.

Então, desligou. Simplesmente havia interrompido a chamada, sem me dizer onde era o local e qualquer era o nome da empresa. Olhei para a tela, amaldiçoando o dia em que precisei nascer na família Granger.

De repente, escutei um barulho vindo da varanda. Parecia o som de um violão. Fui até a varanda, abrindo a porta de vidro. A piscina estava vazia. O céu estava escurecendo em um dourado. E foi quando vi o vizinho do outro lado da cerca. Ele estava sentado em sua varanda, tocando um violão acústico. Dedilhava com paixão as cordas e fiquei admirando sua habilidade. Dali, conseguia distinguir pouco de sua fisionomia.

Então, o som parou. Ele olhou para cima, parecendo me perceber. Senti o constrangimento daquele instante.

— Desculpe – pedi, voltando para dentro.

— Ei – pensei ter escutado ele dizer.

Então, escutei um barulho vindo de fora. Sai imediatamente para ver. Ele havia pulado a cerca estava no terreno da casa da minha mãe. Eu o fitei pasma. Como ele se atrevia a fazer isso? Foi quando notei seus cabelos loiros e olhos preguiçosos. Não sabia qual era o tom, mas apostava que seria um tom entre verde floresta ou mel. Ele vestia uma camiseta preta, com algum nome de banda escrito. Pensei em descer os poucos degraus que me separavam do gramado, mas não o fiz. Talvez, ele fosse algum maníaco.

— Você é nova aqui, não é? – Perguntou ele, me olhando fixamente.

— O que quer dizer? E por que entrou aqui? – Perguntei. E deveria ter dito, vou chamar a polícia. Mas, não fiz nada disso. Apenas o encarei, um tanto curiosa. Um tanto receosa. A curiosidade vencera.

— Nada, só estava de passagem – ele disse, dando de ombros – Gostei do seu tênis.

Olhei para o par de all star surrado, de tom roxo que calçava. O fitei de volta, sem entender.

— Quer fazer o favor de sair? – Precisava ser o mais grosseira possível, afinal, ele ainda poderia ser algum maníaco em potencial.

Ele apenas me deu um sorriso. Um sorriso que me irritou profundamente. Ao mesmo tempo que parecia demonstrar que ele não se importava com nada, ou ninguém.

— Tem algo para comer? – Ele perguntou, sem o menor pudor.

Pisquei algumas vezes. Não estava compreendendo o que escutara. Ele estava pedindo algo para comer? Era um sem teto?

— Eu não moro na rua, se é o que pensa – Ele parecia ter lido meus pensamentos – É só um momento difícil.

— E esse momento difícil te fez invadir meu quintal? – Retorqui.

Ele passou a mão pelo queixo, pensativo.

— Só fiquei curioso. Nunca te vi aqui – ele respondeu – Parece que foi amor à primeira vista.

Eu gargalhei. Não estava acreditando no que ouvira. Era a cantada mais furada do século. Ele não parecia desencorajado. Na verdade, fez algo que eu não esperava. Ele riu. E sua risada era rouca. Não sei o motivo para pensar em sua voz, mas eu pensava. E isso me deixara muito perturbada.

— Escuta, você mora aqui ou invadiu a casa do meu vizinho? – Perguntei.

Parecia que minhas defesas haviam baixado. Olhei para a calça jeans surrada dele. O vans em seu pé estava batido. Parecia alguém comum. Não um morador de rua.

— Quase isso – ele respondeu, com um sorriso torto.

— Santo Deus – passei a mão na testa – O que você quer, então? Vai invadir minha casa também?

Ele negou com a cabeça, rindo.

— Não. O que pensa que sou? Um ladrão qualificado? – Ele brincou – Eu só queria ver você mais de perto. Parece que valeu a pena.

Ruborizei. Aquelas cantadas dele não deveriam ter me desarmado. Mas, a forma como ele falava era fácil. Parecia tão à vontade. Parecia que já havia feito isso milhares de vezes, porém, ele falava como se realmente você fosse especial, mesmo não sendo.

— Agora, se tiver algo para comer, eu ficaria feliz com isso – ele disse um tanto sem graça.

Olhei bem para ele. Parecia um rapaz perdido. Alguém que havia sido abandonado. Mas, mesmo que fosse isso, ele era muito bonito. Aquela beleza que incomoda. Pois, se você olhasse demais, perceberia o quanto era medíocre. E eu sei. Eu era muito medíocre. Cabelos castanhos armados, olhos cor de lama, boca grande e um olhar de rata de biblioteca, por trás de óculos de armação redondo. Bom, os óculos haviam sido jogados há muito anos, substituídos por lentes. E os cabelos estavam mais definidos, caindo em ondas comportadas. Apesar disso, eu não era tão linda como aquele cara que invadira meu quintal.

— Tá bem – respondi, por fim, desconfiada.

Mas, é, ele havia conseguido me ganhar com seu sorriso fácil.

*-*-*-*

Deixei que ele comesse a lasanha, sentado na cadeira de praia. Ele parecia esfomeado. Eu estava cansada de olhar para ele, enquanto comia. Eu bebia um refrigerante, sem ter comido nada, enquanto meu estomago queimava ácido gástrico. Bom, comer não era prioridade, quando se tinha um estranho no seu quintal.

— Isso está simplesmente divino – ele disse, limpando a boca com as costas da mão. Bom, aí parava a beleza dele. Ele não tinha modos. Se comportava como um ogro.

— Hum – resmunguei, vertendo o líquido borbulhante.

— Você que fez? – Ele perguntou, dando mais uma garfada na massa. Parecia feliz. Muito feliz. E isso me deixou com um sentimento de pena. Pena por ele, pois parecia que não comia há dias. Parecia que nunca havia comido, na verdade. Claro, que estava exagerando, mas ninguém comia minha comida e tão feliz assim com ela.

— Sim – respondi, de forma seca. Não queria conversa. Não queria falar sobre mim. Ou minhas habilidades na cozinha. Que me levariam a alguém. A uma pessoa que não faria mais parte da minha vida. E isso doía. Doía muito.

— Legal – ele respondeu, terminando de comer – Obrigado.

Anuí com a cabeça. Estava curiosa, cansada de pensar nele como o cara loiro e estranho, para perguntar seu nome, mas ele falou primeiro.

— Qual é seu nome? – Perguntou.

— Eu acho que essa pergunta é minha.

Ele riu.

— Não, é sério. Qual é seu nome? Eu terei de chama-la de beldade dos cabelos castanhos?

Dessa vez, fui eu que ri.

— Hermione – respondi – Mas, todos me chamam de Mione.

— Prazer, Mione – ele disse – Sou Draco.

— Draco? – Repeti seu nome exótico. Como alguém poderia se chamar Draco? Poderia ser Drake. Ficaria melhor nele. Ou Jake. Jake seria interessante.

— Eu sei – ele riu – Meu nome não é dos melhores. Mas, quando se tem um pai excêntrico, é isso que acontece.

— Quem é seu pai?

Não sabia se era uma pergunta invasiva, mas, ora, ele havia invadido meu quintal. Apesar disso, o vi levantar e se aproximar da minha cadeira, com o prato na mão.

— Obrigado, Hermione. Você foi muito gentil. Preciso ir agora.

Pisquei algumas vezes. Ele estava realmente se mandando? Caindo fora? E eu nem tivera tempo de saber mais sobre ele e sua vida?

— Ah, tá bom – respondi, sem jeito, pegando o prato.

Ele acenou com a cabeça e me deu um sorriso fácil. Meu estomago esquentou, mas não era pela fome que sentia.

— A gente se vê por aí, Mione.

Então, pulou a cerca novamente, para o quintal do vizinho, que eu não sabia de fato, quem era. Eu observei da minha cadeira, para ver se ele entraria pela porta da varanda, mas ele não entrou. Ele pegou o violão e saiu pelo portão baixo e caminhou pela rua escura, iluminada pelas luzes dos postes.

— Meu Deus – murmurei para mim – Isso realmente aconteceu?

*-*-*-*

Capítulo 2

Passei a noite toda pensando nele. Seu sorriso. Seu rosto. Sua forma de me fitar. Não conseguia parar de pensar nele. E na semelhança com alguém. Talvez, eu tivesse imãs para caras desajustados e estranhos. Contudo, não era pela sua personalidade. Era sua aparência. Eu tinha certeza de tê-lo visto antes, em algum lugar. Não sabia onde. Vasculhei minhas redes sociais. Instagram, Facebook. Nada. Ele era um ninguém. Não existia. Mas, existia. Para alguém, ele era uma pessoa importante. Para um pai, uma mãe, um irmão ou irmã. Não sei. Ele deveria ter uma família. Alguém que estava esperando por ele. Ao que parecia, no entanto, seu destino era seu andarilho. Ou eu estava supondo demais.

Dormi e sonhei que tentava encontra-lo, mas eu apenas encontrava corredores infinitos, onde não havia escapatória. E neles, eu encontrava minha mãe, julgando-me por nunca ser o melhor o bastante. Ou aquele garoto que eu sempre amaria, mas que de verdade, nunca seria meu. Fred ria para mim, como se eu não fosse nada, então acordei suando. Fred. Eu jurei para mim mesma não pensar nele. Nem ligar, mas eu liguei.

— Alô? – A voz de sono dele me fez ter muitas recordações.

— Fred – chamei ele, sentindo meu lado frágil vir à tona. O choro veio com força.

— Ah não – escutei ele dizer. Ele não queria me ouvir. E isso doía mais do que um tapa.

— Volta pra cama – pensei ter escutado a voz de uma mulher.

Desliguei em seguida, chorando em posição fetal. Eu sabia que ele tinha alguém com ele. Claro que nunca estava sozinho. Contudo, eu acreditava que ele seria meu. Apenas meu. Senti meu coração se quebrando, se partindo, como se nunca mais pudesse se colar. Como se nunca mais pudesse funcionar. Claro, que, estava sendo tão tóxica quanto minha mãe. Mas, olhei bem para mim mesma, naquele momento, depois de tanto tempo, eu percebia, eu era como minha mãe. Tentava controlar a todos e muitas vezes, os julgava severamente. Talvez, fosse a bagagem dela, na minha. Mas, era difícil tirar aquele entranhando de hábitos, comportamentos e costumes adquiridos com tantos anos de convivência insuportável.

Levantei da cama, ao raiar do sol. Os fachos de luzes faziam um jogo de luz e sombra interessantes no chão. Observei o amanhecer vir com seu tom dourado e salmão, me brindando com mais um dia de verão. Levantei da cama, sentindo-me pesada, com os olhos ardendo. Fui até o banheiro, dentro do quarto e evitei ver minha imagem, com sulcos nos olhos e um olhar triste. Aquele olhar que parece lhe dizer: Você nunca vai se recuperar! Ah. Como é tolo isso. Eu sabia que sim, mas não sabemos disso, quando estamos sofrendo. A dor é simplesmente uma passagem. Ela passa na vida e se nos apegarmos a ela, como doentes, então sim, ela doera profundamente, como se fosse a primeira vez.

Lavei o rosto, tentando pensar na entrevista. Aquele dia seria decisivo. E isso poderia me colocar em uma nova posição. A posição de sair da casa da minha mãe e procurar um lugar só meu. Quem sabe, um pequeno apartamento. Estava sonhando, mas eu realmente precisava me distanciar dela o mais rápido possível.

— Hermione.

Ela estava na sala. Já era sete da manhã. Vestia seu robe e chinelos caros. Segurava um copo de suco. Maggie já estava lá, fazendo o café da manhã. Torradas. Panqueca com mel. As preferidas do papai. Senti a garganta apertar.

— Bom dia Maggie – disse, em tom falsamente alegre. Ela não precisava saber o que sentia.

— Bom dia, senhorita Granger – ela respondeu, com os olhos baixos. Muito baixos. Algo estava errado.

Apostava que minha mãe havia reclamado de algo. Do suco talvez. Ou do atraso de Maggie. Ou da torrada que ela mordia, com delicadeza. Estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas. Parecia pensativa. Parecia bolar algum plano, na verdade. Nunca a vi tão lucida como naquela manhã.

— Seu pai disse que você tem uma entrevista essa manhã.

E o silêncio havia terminado. Começaria a retaliação.

— Sim – respondi, sem olhar mais para ela.

Segui para o balcão, da nossa cozinha americana. Sentei-me da banqueta, pegando uma panqueca no prato. Maggie fazia os ovos na frigideira. Mordi um pedaço da panqueca sem cobertura. Eram boas. Com açúcar. Maggie tinha mãos de fada...

— Você deveria estar feliz.

Senti o peito doer. Não. Eu não estava. Eu queria que aquela maldita dor acabasse e a voz irritante de minha mãe não perfurasse meus ouvidos.

— Eu estou – menti.

Eu sempre mentia meus sentimentos. Era o único modo de me manter afastada das pessoas. Afastadas de suas perguntas. Perguntas que eu não queria responder. Minha mãe nunca tentou me escutar, quando perguntava. E eu sabia que as pessoas faziam as perguntas, sem o menor interesse. As pessoas, de fato, nunca estavam interessadas em ouvir, apenas em serem ouvidas. Ou era assim que eu pensava do mundo. O que esperar dele, quando se tem apenas uma face da verdade?

— Está? – Ela riu – Parece péssima. Precisava colocar uma maquiagem em seu rosto.

Senti a bile queimar na garganta. Não tinha fome. Maggie que me desculpasse, mas metade da panqueca iria para o lixo e foi o que aconteceu. Ela me olhou, com um olhar amedrontado e não soube acalma-la.

— Obrigada mãe – disse, em tom irônico.

— Ora, eu só quero seu sucesso – ela me olhou, como se eu a tivesse acusando de algo – Você sabe que sempre me preocupei com você.

Eu sabia. Ela sempre dizia. Mas, eu não sabia exatamente se era preocupação, ou falsa preocupação. Não sabia como me sentir perto dela. Era apenas raiva reprimida que sentia quando estávamos próximas demais.

— Sei. Eu vou esperar o carro lá fora.

— Seu pai vai mandar seu motorista? – ela perguntou, voltando a olha para as unhas. Estava mais preocupada com sua aparência do que comigo.

— Sim.

Dei as costas e segui pelo corredor. Passei por entre os quadros estranhos de minha mãe. Era arte abstrata. Alguns rabiscos, ao meu ver. Outros, conceituais. Havia fotos de casamento, minhas. Não havia uma minha com ela. Não. Nunca estávamos juntas.

Abri a porta da frente e saiu. Respirei o ar da manhã. Morno. Desci as escadas. Passei pelo jardim e abri o portão de ferro pequeno. Fechei e esperei. Olhei para as outras casas na vizinhança. Tão grandes quanto a nossa e mais modernas. O carro do motorista do papai parou na calçada, minutos depois. Entrei e coloquei os fones de ouvido. Não consegui dizer bom dia para o motorista. Eu não conseguia.

*-*-*-*-*

Escutei de novo aquela música, que escutara quando fazia a lasanha para minha mãe. Ela não havia comida nada. A massa ficou dentro da geladeira e pedi para que Maggie levasse. Senti frustração crescente por ver a lasanha dentro da geladeira. Mamãe não comia. Não sei exatamente do que ela estava se alimentando, mas não parecia se interessar por muitas coisas a não ser sua salada ou frutas.

Passei a mão pelo rosto, sentindo a pequena frustração crescer no peito. Olhei para a sala e cozinha vazias. Maggie havia ido embora logo que cheguei. Eu havia ido a entrevista, depois almoçado com papai. Ele perguntou se a entrevista havia sido boa. Eu disse que sim. Fora normal. Perguntas simples de entrevista. Aquelas que faz você querer dar um tiro em si mesmo. Eu não gostava daquelas coisas. Sempre achara uma formalidade boba. Alguns diriam que era fundamental, para saber se o candidato era ideal. E normalmente, era acompanhado de algum psicólogo da empresa. Com certeza, para medir seu comportamento. Quem sabe, descobrir algum transtorno, afinal, não se poderia contratar uma mão de obra defeituosa. Papai não gostou da minha comparação. Ele simplesmente ficou irritado, me dizendo que eu não sabia nada sobre a vida e sobre o que era trabalhar. Que apenas estava sendo ingrata. Voltei chateada para casa.

Escutei novamente o violão do lado de fora. Instintivamente, fui até a varanda, mas dessa vez, não abri a porta de vidro. Só fiquei escutando a melodia. Ele tocava uma música que nunca ouvira. Algo sobre corações partidos, raiva e dor. Sua letra era basicamente um apelo para o que sentia. Parecia exatamente o que sentia. Raiva, dor e incompreensão. Fiquei escutando sua voz. Parecia que já tinha escutado antes, mas não tinha certeza. Ao que parecia, sua música falava sobre rejeição e o quanto se sentia só. Perdido no mundo.

Abri a porta sem perceber e sai. Ele estava sentado na varanda vizinha, com a perna sobre uma mesinha. Um chapéu de cowboy estava sobre sua cabeça. O sol estava a pino. Fiquei um tempo ali, parada, sem saber o que fazer. A piscina estava vazia. Não era enchida há bom tempo. Eu pensei que poderia enche-la. Quem sabe ficar mais um pouco ali fora e saber mais sobre meu vizinho.

— Você de novo – escutei a voz dele.

Ele havia parado de tocar. Fiquei paralisada, sem descer as escadas da varanda.

— Você de novo – devolvi, sentindo-me estranha. Uma intrusa.

— Sim – ele disse, retirando o chapéu. Vi seu rosto. Não sabia distinguir a expressão.

— Invadindo casas? – Perguntei.

— Talvez – ele respondeu – E você?

— Nada – respondi, dando de ombros.

Desci as escadas. Talvez, fosse o momento ideal para encher a piscina. Peguei a mangueira, estava engatada na torneira. Mamãe não voltaria até a noite. Ela havia deixado uma mensagem. Algo sobre pilates e depois compras. Puxei a mangueira para a piscina. Depois, liguei a torneira. Senti alguém atrás de mim. Não me virei, para saber que era ele.

— Você vai encher a piscina – ele disse atrás de mim, parecendo animado – Parece bom.

— Eu não o convidei – me verei para ele.

Ele vestia o mesmo jeans surrado, a mesma camiseta. Outro par de tênis. Um all star velho e surrado.

— Eu sei – ele deu de ombros, me dando um sorriso fácil. Aquele sorriso que parecia fazer qualquer garota fazer o que ele quisesse.

— Cai fora – eu disse, irritada.

Eu não iria apreciar seu rosto. Nem sua forma como me olhava. Ele parecia interessado. Realmente interessado. Mas, eu não o conhecia. E não queria conhecer. Já sabia onde tudo iria parar. Comecei a andar para a beirada da piscina, para verificar se a água estava saindo da mangueira.

— Por que? – Perguntei ele me seguindo.

Após conferir, sentei na beira, colocando os pés para dentro da piscina, esperando que a piscina enchesse. Claro, que demoraria um bom tempo, mas eu tinha tempo de sobra.

— Me dê um bom motivo para ir embora – ele pediu, sentando-se ao meu lado.

Eu sabia que ele estava me olhando. E sabia que Draco, se realmente esse fosse seu nome, era um aproveitador, mas não conseguia resistir. Minha vida estava horrível. Eu não servia nem ao menos para dar aulas em universidade. Já havia dado em algumas escolas, mas não estudara o suficiente para conseguir o Phd. Meu pai estava furioso, claro. Havia investido tempo e dinheiro em uma pessoa que não lhe daria o retorno devido. Na verdade, eu estava mais preocupada com Fred e em como recupera-lo, do que minha carreira acadêmica.

— Porque eu não te conheço – respondi Draco, com um olhar irritado – E você invadiu meu quintal. Serve?

— Justo – ele disse, apoiando as mãos no chão e fixando seu olhar no céu – Mas, você teria ficado entediada sem mim.

— Ah, é mesmo? – Debochei.

— Com certeza – ele respondeu, com um sorriso cretino – E eu tenho meu violão. Você parece ter gostado. Vi me observando.

— Eu não estava – neguei com a cabeça – Só queria saber o que fazia aqui, de novo.

— Eu não faço sempre isso – ele disse, me fitando com ar inocente – É só que não consigo me afastar daqui, sabe?

— Ah, é? E por que? – Perguntei em tom irônico, não acreditando em suas palavras. Parecia que era um padrão dele invadir casas.

— Não, eu juro. Eu só não tinha para onde ir. Não posso ir pra casa agora – ele disse. E percebi ali, sua fragilidade. Um vislumbre do seu eu quebrado.

— Há quanto tempo saiu? – Perguntei, me sentindo solidaria a ele.

— Não sei. Quatro meses, talvez?

Ele parecia não se importar com o tempo. Olhou para o céu, evitando meu olhar. Pude perceber que sua barba estava começando a aparecer em seu maxilar. Pelos claros. Muito claros. O rosto, no entanto, estava bronzeado, como se passasse horas ao sol. Perguntei-me se ele ficava assim, nas praças, nas ruas, perdido, tocando seu violão. E senti pena.

— Está com fome? – Perguntei, imediatamente.

E me arrependi. Ele me fitou com irritação.

— Não sou alguém que precisa de ajuda – ele disse, se levantando abruptamente.

Eu fiz o mesmo. Senti-me culpada. Não sabia como eu o havia ofendido. Fizera uma simples pergunta.

— Ei, não precisa ir. Eu só perguntei se queria comer. Vou fazer algo para mim. E se você quiser.

Ele me fitou profundamente. Seus olhos eram de um tom azul. Eu havia errado. Não eram duas esmeraldas, mas azul metálico. Pareciam frios, mas esquentaram, como se estivesse aceitado minha oferta. O sorriso se formou em seu rosto. Um ínfimo. Mas, era um sorriso, mesmo que fosse só os lábios.

— Eu aceito.

*-*-*-*-*

Ao que parecia, Draco adorava massa. Assim como eu. Já estava procurando padrões entre nós. Eu amava lasanha, macarrão, pene, ravióli, pizza. Qualquer coisa que tivesse massa. Algo que havia adquirido com minha avó. Estranhamente, minha mãe era contra qualquer comida que a engordasse demais. E isso nós não tínhamos em comum.

— Isso está delicioso – escutei ele dizer.

Era tão estranho ter aquele rapaz no meu quintal. Sinceramente, eu não saberia dizer onde estava com a cabeça para aceitar um estranho na minha casa. Na verdade, na casa da minha mãe. Ele poderia ser perigoso, contudo, eu não me importava. Sinceramente, para alguém que estava passando por um bloqueio como eu estava, a presença dele parecia bem-vinda. Me fazia esquecer que eu era um fracasso. Tanto na carreira, quanta na vida amorosa, na vida familiar. Eu estava fracassando em tudo, simplesmente por não saber lidar com as situações adversas. Meu pai diria que eu não tinha garra. Realmente, não tivera. Estava tão preocupada, tentando sustentar uma relação insustentável com Fred, que havia esquecido de mim mesma.

— Você parece com muita fome – brinquei, mal tocando em meu prato.

Bom, eu não estava realmente bem para comer. Aquele dia, de fato, havia sido um fracasso. Eu tinha certeza de que não havia conseguido a vaga no setor de manipulação de remédios. E se fosse ser sincera, eu não desejava isso.

— Talvez – Draco disse, deixando o prato vazio, ao lado dele, na beira da piscina.

Lentamente ela enchia e com certeza, não terminaria, até o sol se por.

— Me diga, o que você faz da vida? Por que está indo por ai, parecendo não ter rumo?

— Eu pareço estar? – ele me respondeu com outra perguntando. Evitava meu olhar. Apoiava as mãos no chão de ladrilho, fitando o céu.

— Com certeza parece estar.

— Eu nunca disse que estava sem rumo. E você não me conhece.

Realmente, ele tinha um ponto. Eu apenas havia tirado conclusões precipitadas.

— E por que você está aqui? Não deveria estar em outro lugar? Quem sabe, trabalhando, estudando? Aposto que temos a mesma idade.

— Você não sabe disso – ele me fitou, com um olhar desdenhoso – Eu não te disse nada sobre mim. E não preciso responder as suas perguntas. Ou preciso?

Suspirei. Ele parecia evitar falar sobre si mesmo. E não parecia querer saber sobre mim. Só estava matando o tempo, assim como eu.

— Bom, você poderia dizer, afinal, invadiu meu quintal.

— E você acabou aceitando isso muito bem. Está até me alimentando, como se fosse um pobre filhotinho – Ele sorria dessa vez, de forma provocadora.

Eu deveria ter me ofendido e tê-lo mandado embora. Mas, não fiz isso. Simplesmente ri de suas palavras bem-humoradas. Talvez, eu estivesse tão só, que a companhia de outro ser humano era tudo que eu desejava.

— Você parece alguém que precise ser alimentado. Parece muito magro.

Ele revirou os olhos. E logo notei que seus olhos não eram verdes como pensara, mas sim, cinzentos. Ele me fitou por instantes e pude perceber que eram de um tom azul líquido, quase cinza, na verdade.

— Ora você é tão gentil – ele ironizou – Vai me dizer que quer me adotar?

Bufei, indignada.

— Não mesmo. Você deve ter uma família, eu presumo? – repliquei.

Ele fingiu não escutar, deitando-se sobre a ladrilho. Colocou os braços abaixo da cabeça, como se estivesse muito à vontade. Fiz o mesmo, me deitando ao lado dele, deixando meu prato de lado. Pelo menos, ainda tinha um bom tempo até que minha mãe chegasse.

— Nem sempre se pode contar com eles – Draco murmurou.

Fiquei em silêncio, fingindo não o ter escutado. Mas, suas palavras calaram fundo em meu peito. Meu pai parecia querer resolver tudo com seu dinheiro, ao invés de talvez, quem sabe, me escutar quando falava. Ele dizia não ter tempo. Que sua nova esposa estava consumindo sua maior parte de tempo. Sua nova família era mais importante, obviamente. E seu trabalho, bom, sempre fora em primeiro lugar. Minha mãe e eu deveríamos nos contentar sozinhas em casa. Ela, com sua profissão de psicóloga, e eu, bom, eu me virava. Nunca fui displicente com os estudos, não quando conheci Fred e sua família. E percebi ali, um vínculo profundo. Eles riam juntos. Faziam tudo juntos. Eram uma família enorme. Molly com seu coração grande e generoso abraçava a todos. Meu pai não era dado a contato físico. Parecia preocupado. Era um fato. Mas, talvez, fosse o jeito dele. Nas questões emocionais, infelizmente, não poderia contar com ele. E nem com minha mãe.

— Eu entendo isso muito bem – interrompi o silêncio agradável.

— Você sabe? – Draco se virou para mim.

Olhei em seus olhos. Pareciam um pouco desfocados. Na verdade, Draco parecia um pouco alterado. Não sabia dizer exatamente o que ele tinha de diferente. As pupilas dilatadas. Sua magreza estranha, mas bela. Tudo nele era diferente. Passava uma certa fragilidade.

— Sim.

— Não parece. Você tem uma família.

— E como você sabe que tenho?

— Eu andei observando – respondeu.

— Há quanto tempo esta por aqui, observando?

Senti medo, de repente. Por quanto tempo ele observava minha casa e minha família?

— Tempo suficiente para saber que você tem um pai e uma mãe. E que você chegou há duas semanas.

Engoli a seco.

— Você parece um stalker.

— Talvez. Eu não tenho muito o que fazer, na verdade – Então riu. Seu riso era sincero, como se não se importasse com isso.

— E o que te levou a isso? – indaguei, curiosa. Ele não parecia ser algum maníaco em potencial. Nem ter força para isso. Eu parecia pesar mais do que ele. Mesmo que ele fosse uns trinta centímetros mais alto do que eu.

— A vida. As coisas – ele respondeu suspirando.

Então, cantarolou baixinho uma melodia. Parecia mergulhado em si mesmos, encarando seus fantasmas, os quais eu não conseguia ver.

*-*-*-*

— O que você costuma fazer quando tem tempo livre? – ele me perguntou.

Estávamos dentro da piscina. O sol não tinha se posto. Estava me arriscando demais. Apesar disso, não estava me importando. Eu sabia que estava me expondo ao perigo, com um completo estranho, mas nem isso me fazia ter medo.

— Eu estudava – disse, em tom baixo, com todo o corpo submerso na água, sentindo a água relaxar meus músculos.

Observei ele. Estava com a camiseta. Entrara com roupa e tudo. O que eu achei de fato estranho. Parecia não desejar se expor. Mas, consegui ver seus braços. Estavam marcados. Pareciam pequenas queimaduras. Alguns cortes. Aquilo tudo me fascinava, e ao mesmo tempo, me preocupava. O que havia acontecido com ele, para estar tão marcado? Seu rosto não demonstrava sofrimento, talvez, apatia.

— E você? – perguntei, evitando olhá-lo. Não queria que ele soubesse que o estava observando tanto.

— Eu? Eu toco violão – respondeu.

Então, deu as costas para mim e começou a nadar para a parte mais fundo da piscina. Suas braçadas eram perfeitas, como se tivesse feito isso várias vezes. Voltou para perto de mim, em seguida, ficando muito perto. A água escorria deu seus cabelos claros, deixando gotículas espalhadas em seu rosto bronzeado. Ele sorriu. O mesmo sorriso fácil. Aproximou seus lábios dos meus de forma rápida, selando. Fui pega desprevenida, mas não recuei. Apenas o fitei atônita.

— Por que fez isso? – perguntei.

— Não sei – ele respondeu, dando de ombros – Você é muito bonita sob o sol. Talvez, eu tenha gostado tanto, que queria prová-la.

Senti-me tímida com suas palavras. Queimavam em meu ser, deixando-me constrangida. Dessa vez, fui eu que dei as costas e nadei para longe dele. Não conseguia respirar direito. Foi quando o escutei sair da piscina. Me virei para vê-lo subir as escadas de ferro.

— Aonde você vai? – perguntei, nadando para perto da escada de saída da piscina.

Não sei por que, mas me senti em pânico, por vê-lo sair. Ele me encarou de cima, com a roupa encharcada.

— Vou embora – ele respondeu – Está ficando tarde.

— Não precisa ir agora – eu disse, com uma voz patética. Parecia estar mendigando sua atenção.

— É melhor assim – ele disse, com um tom pesaroso – Não queremos que sua mãe chegue e me veja aqui, não é?

Parecia que ele entendia muito bem como seria a situação. Seria um tanto estranha.

— Como pode saber disso? Conhece minha mãe?

— Talvez. Mas, com certeza, se fosse a minha mãe, ela não gostaria – ele disse, dando de ombros – Foi ficar aqui, Hermione. Você é muito legal.

— Não quer nem ao menos se secar? – perguntei, preocupada. Tinha a impressão de que ele iria para algum lugar, com as roupas encharcadas.

Draco pareceu indeciso, mas aceitou a oferta. Sai da piscina, pegando as toalhas que havia deixado na espreguiçadeira. Ele secou os cabelos, de fora vigorosa, depois o restante do corpo, como pode. Me enrolei na toalha, pedindo que ele esperasse ali. Havia algumas roupas do meu pai no closet, que ele havia deixado e nunca mais levou. Entrei pela varanda, indo direto ao quarto que meu pai usava como closet. Procurei uma roupa que mais se parecesse com ele. O máximo que consegui foi uma calça de linho cinza e uma camisa social branca. Deveria servir nele. Os dois tinham o mesmo tamanho, não o mesmo tipo de corpo, claro. Ficaria um pouco larga para Draco.

Senti passos atrás de mim e me sobressaltei. Pensei que minha mãe havia chegado antes do previsto, mas senti braços envolverem minha cintura. Meu corpo imediatamente reagiu ao toque, como se esperasse por isso. Como se estivesse faminto por contato humano. Minha pele parecia queimar ao toque ousado dele. Senti seus lábios tocarem meu pescoço, beijando de forma ávida. Então, ele me virou, para beijar meus lábios. Eu me deixei ser beijada, como nunca havia sido em toda minha vida. Ele parecia faminto por isso, sugando meus lábios, mordiscando. Parecia que nos conhecíamos de alguma forma, pois nossos corpos se encaixaram tão bem.

De repente, escutei o barulho do portão se abrindo. Meu corpo enregelou. Draco me afastou abruptamente, me fitando com um olhar tenso.

— Você precisa ir – sussurrei, em desespero.

Ele anuiu com a cabeça. Entreguei a roupa que havia pegado e ele a pegou, sem olhar para mim. O segui para fora do closet. Ele pegou a saída mais fácil, pela varanda, pulando o cercado baixo. Comecei a rir, em seguida e ele também, do outro lado.

— Hermione – a voz da minha mãe veio de dentro da casa.

— Quero te ver de novo – Draco disse, me deixando dividida. Eu precisava entrar e falar com ela. E ao mesmo tempo, queria falar com ele. Queria mais um tempo com ele.

— Depois – eu sussurrei.

Então, fiz a única coisa que poderia fazer, entrei em casa. Minha mãe estava entrando na sala de estar. Estava vestida elegantemente com um terninho azul royal e scarpins. Os cabelos estavam retocados em tom loiro perolado.

— O que estava fazendo na piscina no meio da tarde? – ela perguntou, me avaliando.

— Não posso usar a piscina? – devolvi, magoada.

Ela suspirou, parecendo irritada.

— Deveria estar fazendo algo mais útil – ela disse, sentando-se no sofá – Como foi a entrevista?

— Bem – respondi secamente, me afastando.

— Aonde vai? Não me dê as costas, Hermione.

— Vou tomar banho.

Não fiquei na sala para escutá-la. Não queria olhar em seus olhos e ver seu desprezo. Parecia que eu era um estorvo. E talvez, eu era. Mas, não tinha para onde ir. Não tinha chance de morar com meu pai. E com vinte quatro anos de idade, eu deveria estar com a vida estável, segundo minha mãe. Mas, eu não estava. Sentei-me em posição fetal, deixando que a água do chuveiro aliviasse minha dor. A dor de que, eu nunca poderia contar com meus pais, apenas comigo mesma. E estava apavorada. Ao menos, algo estava acontecendo de diferente em minha vida. O sorriso de Draco veio e minha mente e isso pode aliviar um pouco das tensões que sentia.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.