Caminhos Cruzados - Davi e Megan

5 Capítulo 5 - "Alô Rio de Janeiro! Aquele abraço."


Notas iniciais
Hahaha obrigada por estarem gostando, eu fico muito feliz. Queria deixar claro que a história trata deles individualmente, com seus dramas e emoções, e deles juntos... logo adiante. Quero que conheçam bem os personagens, assim como eu já me apeguei. Confiram então um pouco de como o caminho de Davi era traçado de Recife ao Rio de Janeiro.

Foram os quatro dias mais longos de sua vida, disso ele tinha certeza. Não se concentrava em nada, pois a mente voava longe... trocava as palavras na hora das explicações, pegava ônibus errados e não conseguia pregar os olhos quando se deitava na cama. A mente era invadida por suposições, expectativas e nervosismo... até que se passassem das duas horas da manhã e ele desistisse de tentar.

Quando o grande dia chegou, não parecia estar acontecendo. O ruído despertador do celular fez com que seus olhos abrissem. Ele se sentou, bocejou e só assim percebeu que não precisaria mais esperar. A mala já estava pronta desde o dia que recebera a carta, e ele tratou de verificar se não havia esquecido de nada. Caminhou até a cozinha e viu que a mãe estava sentada no sofá, a sua espera.

— Bom dia, futuro Marra. — ele jubilou, com um sorriso apertado entre as bochechas. — Dormiu bem?

— Defina o que significa "bem".

Rita entendeu o recado que a frase quis passar.

— Passou a noite em claro, de novo?

— Passei. A última vez que lembro ter visto o horário... era 5h.

— Você sabe que precisa estar com uma boa aparência, não sabe?

— Com isso não preciso me preocupar, sou muito atraente.

— Davi... eu estou falando sério. Ninguém vai querer alguém cheio de olheiras e indisposto. Você precisa dormir.

— O voo é daqui a três horas, não tem tempo nem pra soneca. Eu durmo no avião.

—Mas durma! Não fique abalado com nervosismo.

— Darei meu máximo... ok? Preciso tomar banho e colocar uma roupa.

— O Herval te leva no aeroporto, não precisa pegar táxi.

— Beleza! — disse ele, sorrindo de alívio. — O preço até lá é um absurdo.

Ela sabia disso. Olhou para Davi, que arrancava a camisa do corpo e fechava a porta do banheiro, sabendo que não demoraria muito até que fosse embora. Cruzou os dedos para que ele conseguisse surpreender os jurados no teste, afinal, se o fizesse, ficaria qualificado e entraria no reality. Assim, se vencesse, ela e ele pegariam um avião para a Califórnia. Seu filho seria reconhecido como o gênio da geração. Ela sentia isso.

Davi estava pronto meia hora mais tarde, e não tinha nada a fazer que não fosse aguardar. A casa estava limpa, a mala bem arrumada, a passagem dentro da carteira. Já tinha almoçado, colocado crédito no celular e comprado revistinhas de cruzadinhas e caça palavras. Ele sorriu, eram suas favoritas.

— Vê se não fica se gabando dessa vez. — Rita dissera, apontando para elas e o enchendo de beijos enquanto Davi entrava no carro. — Boa sorte, filho.

Herval o largou no aeroporto eram 13h e ele embarcaria em cerca de dez minutos. Ficou sentado em uma das cadeiras até que uma voz feminina anunciasse o voo pelas caixas de som. O estômago começou a embrulhar quando aconteceu. A cada passo que dava no corredor de embarque, o coração disparava, tanto que achou que os outros podiam escutar.

Uma aeromoça lhe desejara boa tarde. Era alta e loira, chamando sua atenção. Ele gostava de loiras... muito. Mas algo em sua voz parecia distante. Ficou pensando o que levava uma pessoa a se tornar um comissário de voo. E se o avião caísse? Será que eles não se despediam de quem amavam todas às vezes antes de trabalhar, como se fosse a última? Será que o medo não estava presente nelas? Pois em Davi, estava. Ele deveria ter dito mais algumas outras quinhentas vezes como amava Rita e Herval. Como eram importantes para ele.

Quis socar o próprio rosto, tinha que parar de pensar em coisas assim. Rezava para que só coisas boas lhe aguardassem no Rio de Janeiro, só momentos felizes. Se tudo seguisse o planejado, sabia que o futuro seria brilhante. Se sentou na poltrona da janela e decidiu parar de criar expectativas. Um jovem de no máximo dezoito anos sentou na poltrona ao lado, o cumprimentando com a cabeça.

Usava uma camiseta preta e uma calça jeans meio caída, de modo que a cueca aparecia. Nunca entendeu o porquê de alguns caras saírem na rua daquele jeito. Ele se sentia constrangido por saber qual a marca da cueca do seu companheiro de viagem, constrangido por precisar ver aquilo todas as vezes que ele levantava de seu assento.

Já haviam se passado uma hora e meia... das quatro de previsão. Davi se divertia a beça fazendo algumas diretas de cruzadinhas e ria de desprezo a cada palavra que completava.

G-o-n-ç-a-l-v-e-s d-e M-a-g-a-l-h-ã-e-s! Ahá! — ele comemorou, batucando os dedos na janela do avião. O garoto que sentava ao lado soltou um bufo de impaciência. Há trinta minutos, descobriu qual seu nome.

— O que foi agora? — dizia com fuzilamento no olhar.

— Os caras que criaram essas cruzadinhas são muito estúpidos. — disse Davi, apontando para os letreiros na capa da revistinha, onde podia-se ler em letras garrafais "Difícil". — Dá pra acreditar? Qualquer idiota consegue fazer.

— Mas... — Henrique falou, franzindo a testa. — Quem é esse?

Os olhos de Davi se arregalaram.

— O autor de Suspiros Poéticos, da literatura do Romantismo. Ano de 1836.

— Fala sério.

— Que foi?

— Você está inventando isso aí... — ele falou. — Se bem que... do jeito que tu é, não duvido.

— Com licença. — Davi disse com ultraje. — Eu não estou inventando... O que você estuda na escola? Não aprende literatura?

— Estou na faculdade.

Ele se surpreendeu.

— Quantos anos cê tem?

22. Por?

Davi não teve cara para continuar uma conversa civilizada. Passou o restante de horas terminando suas cruzadinhas e sorrindo em silêncio, para não incomodar certas pessoas. Não admitia ser o único que se interessava sobre. "Qualé... que tipo de ser não sabe quem é Magalhães?"– ele se frustava sozinho, absorto nos pensamentos.

Eram cinco horas quando ele desembarcou na cidade maravilhosa. Pegou sua bagagem e deu o endereço do teste para o taxista, que o levou depressa para lá. As primeiras etapas começariam em questão de minutos e ele não poderia se atrasar, caso contrário, seria desclassificado. Tinha cerca de 70 pessoas no local, escolhidas pelo currículo e questionário das inscrições que fizeram.

Ele se sentia meio perdido, já que era uma pessoa meio... introvertida. Fizera pouco contato com os candidatos... com exceção de um ou dois caras com quem ele se identificava. Era bom finalmente poder conversar com pessoas inteligentes e que amassem de verdade a tecnologia da informação. Pessoas como ele. Sonhadores e idealistas como ele.

Os testes começaram a serem feitos e ele teve muita cautela em fazer tudo da forma correta. Teve etapas de interrogatório, onde eles faziam perguntas sobre o assunto com o intuito de descartarem quem não estava apto, e ... Davi não poderia ter se saído melhor. Teve as de oratória, pois quem comanda uma empresa precisa falar bem, e... ele fez gosto de todos esses anos como professor. Teve a prova escrita, o grande terror para muitos dali, e... ele respondeu todas elas com certeza absoluta.

Tiveram provas práticas, em que ele ganhou um cronograma e teve de segui-lo com as mão no teclado, sua especialidade. Provas sobre padrões, sobre mídia, sobre praticidade, sobre QI, sobre tudo o que se podia imaginar no mundo de tecnologia. E ele passou por todas elas com uma tranquilidade impressionante à qualquer um. No final de contas, os olhos dos jurados para ele chegavam a brilhar. Passaram-se horas e ele teve de esperar nas cadeiras de uma sala pequena com alguns outros jovens — pouquíssimos desta vez. Estava quase se entediando quando um homem engravatado abriu a porta. Entrou com um sorriso no rosto e se aproximou deles. O crachá dizia que se chamava Ricardo Fagundes. A voz era grave.

— Meus parabéns, eu tenho a honra de anunciar que vocês são os dez concorrentes ao cargo da Marra International.

BUM. Aconteceu. Davi estava estilhaçado. Os dedos tremiam. Oh Deus, sua mãe estava certa. Ele havia conseguido. Os gritos de emoção e felicidade vieram junto com os de mais nove pessoas. Ele berrava e parava, tentando retomar o fôlego. O homem saiu, fechando a porta, contendo o todo barulho dentro das quatro paredes. "Nem ficaram felizes"– ele ironizou, indo em rumo à sala de reuniões.

Ricardo caminhou por vários corredores até chegar nela. Eram recém 19h30 e ele ainda tinha muito trabalho pela frente. Suspirou quando encontrou, digitando sua senha no painel ao lado e entrando. Algumas pessoas estavam sentadas na mesa, que ia de ponta a ponta.

— Tiveram dificuldade em encontrar a sede?— perguntou ele.

— Não, eu já conhecia um pouquinho da cidade.

— E já organizaram toda a mudança?

— Devagar e sempre, meu caro, devagar e sempre.

— Ok. Daqui a pouco os participantes já devem ser encaminhados para cá. Fizeram uma bagunça danada quando eu lhe contei.— disse, rindo. — Eles me parecem jovens muito bacanas, Jonas, são todos prodígios! E... Megan, minha querida, se não quiser participar da reunião com a garotada do reality ... temos uma bela sala de jogos no andar de cima. Achei que você gostaria de saber. — avisou, abrindo um sorriso bizarramente grande.

A garota comemorou.

— Valeu Fagundes! — disse num suspiro de alívio. — Leu a minha mente.

Notas finais
BUM! Faço gosto com suas opiniões. hahaha até o próximo.