Caminhos Cruzados
20 Mudanças
Notas iniciais
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“ENTÃO NÃO VOU A LUGAR NENHUM, E VOCÊ PODE PARAR DE SE ESCONDER. E SE QUISER TER MEDO, TUDO BEM. TENHA MEDO JUNTO COMIGO.”
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–Thaís, ele é lindo! –
–Claro que é! –
Sam acariciou com um dedo a bochecha cor-de-rosa do bebê que dormia em seus braços. Do pequeno, chamava extremamente a atenção o espesso* cabelo marrom, que era uma curiosa mistura da cor de ambos os pais, e que cobria toda sua pequena cabeça em uma confusão encantadora.
–Se parece muito com você e com Dylan... – Voltou a falar levantando o bebê até poder beijar delicadamente sua bochecha.
Thaís assentiu satisfeita e se acomodou na poltrona do sofá, esticando os braços para os lados preguiçosamente –Então, tudo se resolveu favoravelmente? –
Sam a olhou por um segundo como se não tivesse entendido a pergunta, logo assentiu –Algo assim... –
–E quando foi isso? –
–Tem quatro dias... –
–Lógico que não fiquei sabendo, estava em pleno trabalho de parto –
–Não disse que tinha total certeza que não nasceria agora? – Falou sorrindo enquanto voltava a olhar para o bebê em seus braços.
–A data se antecipou. As contrações vieram de uma vez, graças a Deus que Dylan estava em casa no momento... –
–Mas segundo você disse, foi rápido –
–Sim... – Thaís soltou um suspiro –Mas não tente mudar de assunto, estávamos falando de Freddie e de você! –
–Em nenhum momento falamos dele... –
–Bem, pois então começaremos agora. Onde ele está? –
–No orfanato. Tinha aula hoje... Depois ele trará a Leslie aqui. Aposto que ela está morrendo de vontade de espalhar a nova notícia para Noah... –
–E como Freddie reagiu? –
Sam acariciou mais uma vez o cabelo do pequeno –Melhor do que eu esperava... Ele a adora, e agora mais ainda –
–Eu disse a você não disse? –
–Sim... –
–E o que vai fazer agora? –
Sam a olhou: –O que vou fazer? –
–Sabe ao quê me refiro Sam... –
–Ainda não sei Thaís. O fato dele agora saber a verdade, realmente não muda muito as coisas... –
–COMO PODE DIZER ISSO? – A jovem exclamou exaltada fazendo com que o bebê resmungasse inquieto. Sam lhe enviou um olhar de reprovação e se levantou passeando devagar pelo cômodo sussurrando suaves palavras, até que este voltasse a dormir –Não falou com ele a respeito? – Prosseguiu a nova mãe suavizando a voz.
Sam se deteve colocando a mão sob a cabeça do menino para suportar seu frágil peso. Sua expressão decaiu um pouco –Ainda não e... Não sei se quero... –
–Louise já sabe de tudo –
As bochechas da jovem se coloraram –O que isso tem a ver? –
–É parte do problema, ou não? –
Sam não respondeu.
–Do que tem medo? Freddie aceitou feliz a grande notícia e ambos, pai e filha, se adoram. Qual é o dilema agora? –
–Não tenho medo de nada! Só não quero criar ilusões sobre isso, Thaís... – Suspirou –Ele mudou muito... Não é a mesma pessoa que conhecia e amava. O que aconteceu da última vez que tentamos já deixou isso bem claro... –
–Que besteira, você tampouco é a mesma –
–É diferente... Não penso mais sozinha, falo também por Leslie. Poderia suportar qualquer tipo de decepção, mas... Minha filha... –
Thaís guardou silêncio por sua vez. A quietude se estendeu por toda pequena sala pintada de azul claro. A jovem loira voltou a concentrar sua atenção sobre a criança que tranquilamente seguia dormindo em seus braços. Sorriu.
–Eu... Ainda sinto o mesmo por ele... – Confessou com voz trêmula sem levantar seu olhar, era como se estivesse falando consigo mesma –Apesar de tudo, de ter me imposto a ordem de odiá-lo, de machucá-lo, de ignorá-lo... Meus sentimentos não mudaram... – Fechou os olhos por um momento, e a linha de seus lábios se suavizou em um triste sorriso –É estranho... Depois de ver como aceitava a Leslie, senti que... Que voltava a amá-lo tanto quanto no dia em que me pediu em casamento... Tudo isso é tão confuso... –
Thaís lhe estendeu uma mão –Sam... Por favor, não desperdice esta oportunidade... –
–Não tenho mais toda aquela confiança de antigamente... E se não funcionar? Já falhamos uma vez, pode acontecer muito bem de n... –
–Faça mais uma tentativa – A cortou –Já desistiu daquele plano absurdo de ir para o Canadá, não é? –
Sam balançou a cabeça, pensativa: –Não sei... Todavia ainda é uma possibilidade. Mas, não acho que será fácil arrancar Leslie dos braços de seu pai... E duvido que ele me deixe ir... –
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–Então esse é o seu papai? –
–Ahã! –
Noah olhava atentamente o alto homem que o observava com o rosto franzido. Decidindo que o adulto em questão não parecia em nada com o que sua amiga lhe contou.
–Parece ser muito bravo... –
–Não é! –
–Parece...! –
Leslie riu e deu um carinhoso abraço em seu amigo. Se tivesse visto a expressão ameaçadora de Freddie, sem dúvidas teria prestado mais atenção às palavras do menino, mas como não viu, se concentrou em defender seu amado pai.
–Claro que não, Noah. Papai é muito bonzinho e ama muito a minha mamãe e eu... –
O pequeno assentiu e voltou a observar o nomeado que ainda não havia mudado sua expressão sinistra direcionada a ele. Sorriu fracamente e desviou o olhar para seu próprio pai, que junto ao adulto anterior, assistia aos dois de pé, encostado numa coluna no quintal de sua casa. Jason sorriu e lhe piscou um olho num gesto que era extremamente familiar para eles, Noah sorriu mais abertamente antes de lhe retornar o gesto e voltar a brincar tranquilamente com Leslie.
–Diga ao seu filho que retire as mãos da minha filha –
–São crianças, Benson... – Jason murmurou entre dentes.
–Sim, são. Com o quesito de que ele mantenha uma distância segura de no mínimo cinco metros dela, não me importo... –
–Pelo amor de Deus, ele só tem quatro anos! –
–E? –
–Sabe? Sua estupidez foi além da conta dessa vez – Jason cruzou os braços e o olhou –Primeiro, ignora durante meses os detalhes óbvios que estavam bem embaixo do seu nariz em relação a essa criança que graças a Deus é mais semelhante a Sam, do que a você... –
–Muito engraçado –
–É um fato! Segundo... A verdade estava gritando bem na frente dos seus olhos para ser revelada, e você só descobre com um pouco de ajuda... E ainda disse que a menina já sabia de tudo antes de você? E seguindo com o que dizia, ainda quer boicotar uma inocente amizade entre duas crianças de apenas quatro anos de idade só porque meu filho em questão está envolvido? –
–Claro que não! –
–Soa pior do que pensa... – Jason sacudiu a cabeça –E finalmente o terceiro e último... Tanto minha mulher quanto a Sam tomou de bom grado a ideia que tanto seu cérebro rejeita... –
–Do que está falando? – Freddie o olhou com os olhos apertados.
Leslie estava sentada junto a Noah com sua cabecinha apoiada em seu ombro, enquanto este lhe mostrava um caderno repleto de desenhos que ele tinha feito na creche. Jason indicou a ambos com um gesto.
–Quer que eu soletre? As garotas gostaram da ideia de que nossas famílias se unissem de algum modo, no futuro... – Sorriu provocando-o.
–QUÊ? –
Jason riu alto ganhando a atenção dos pequenos envolvidos, que curiosos se viraram procurando o que poderia vir a ser o motivo dos risos de seus pais... –Sempre atrasado, Benson... –
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Trocou um olhar aleatório com Sam antes que toda sua atenção se concentrasse no pequeno bebê que dormia em seus braços. Reprimiu um suspiro diante dessa visão e recordou os acontecimentos passados. Uma olhada furtiva ao rosto da jovem loira lhe confirmou que ela pensava no mesmo, observava enquanto ela mordia o lábio inferior e seus olhos claros adquiriam uma expressão triste antes de se concentrarem no chão.
Suspirou novamente. Aquilo realmente doía... Depois do aborto não tinham tocado mais no assunto; mas desejava esclarecer tudo entre os dois. Não queria que aquele buraco ficasse ainda maior do que já era. Não agora que tinha a Leslie, e que com um golpe do destino poderia ter a Sam também...
Mas há tanto o que falar... Tanto o que explicar... Raciocínios que convinham ser formulados e escutados... E tantas preces de perdão que mereciam ser levadas em conta...
Quatro anos era muito tempo. Poderiam tentar outra vez? Seria fácil assim recomeçar? –
–Mami, me deixa ver, me deixa ver! – Leslie lhe pediu com uma voz alegre, estendendo as mãozinhas em sua direção em um gracioso gesto de impaciência. Sam se inclinou um pouco, deixando a cabeça do bebê na altura da menina. Esta sorriu extasiada e após hesitar por alguns segundos, depositou um singelo beijo no pequeno rostinho gorducho –É fofinho... – Exclamou causando risos entre os presentes.
–Sim é... – Sam riu mais uma vez e se incorporou. Observou o alto homem atrás de sua filha e falou com uma ligeira expressão amigável –Quer pegar? –
Freddie retrocedeu horrorizado, como se em vez de lhe propor carregar um bebê, ela tivesse pedido para que segurasse uma bomba de nitroglicerina prestes a explodir. Thaís riu dissimuladamente escondendo os lábios no cabelo de seu filho mais velho, enquanto Jason murmurava algo que não chegou a ouvir.
–Não, obrigado... – Disse envergonhado, recuando enquanto sacudia a cabeça –Não estou acostumado a segurar algo tão pequeno... –
Sam franziu o rosto –Ele não é um “algo” estamos falando sobre um bebê. –
Leslie riu –Anda papai... Pega ele só um pouquinho –
Observou a menina. Por que tinha que chama-lo de papai com essa ternura que fazia com que tudo dentro de si se preenchesse com algo tão doce quanto o mel?
–Vamos Freddie... – Thaís o animou de onde estava abraçando Noah –Não pensa em receber meu filho? –
–Mas tenho medo de deixa-lo cair... – Balbuciou.
–Estarei aqui para matá-lo, acredite... –
–Jason! Não use esse vocabulário na frente das crianças! –
–Desculpa amor... –
Leslie sorriu e fez outro gesto para seu pai, e este não teve opção, reprimindo um derrotado suspiro esperou pacientemente enquanto a jovem loira acomodava o pequeno bebê em seus braços.
–Sustente bem sua cabecinha... – Sussurrou Thaís.
Aquilo era estranho, segurar algo tão suave e frágil. Algo que parecia querer se quebrar enquanto os segundos se passavam. E ao mesmo tempo era tão terno e calmo entre seus braços. Observou aquele nariz pequenininho, as bochechas coradas e a pequena boca que se entreabria absorvendo ar.
Sam estava sorrindo, sorrindo com aquela mesma expressão despreocupada e feliz que era tão naturalmente sua. Exatamente do jeito que costumava fazer quando namoravam. Seus olhos azuis se suavizaram ao encontrar seu olhar, e ele teve a vaga sensação de que era assim que deveria ter sido o nascimento do bebê que haviam perdido. Talvez Sam pensasse o mesmo...
–Bem, agora você pode pedir ao seu papai e sua mamãe o irmãozinho que tanto quer, não é Less? –
–Sim, tia Thaís! –
As vozes o retiraram de seu devaneio. Ambos agora corados como nunca antes. As vozes logo se converteram em risadas, e Jason se aproximou para resgatar seu filho. Levantou-o com cuidado e o segurou delicadamente entre seus braços, todavia observando o envergonhado casal.
–O que acha Benson? –
Leslie se aproximou sorrindo, estendeu os bracinhos até seu pai para que este a levantasse.
–A mamãe e você podem me dar um irmãozinho, não é papai? – Perguntou ingenuamente com seus olhos cristalinos bem abertos, olhando para ambos os adultos, respectivamente.
Freddie se virou para Sam, mas esta estava demasiado concentrada em ocultar sua vergonha enquanto fingia misturar sua xícara de café.
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Naquela noite...
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–Você pode ficar e dormir aqui, papai? – Leslie perguntou animada enquanto Sam terminava de vesti-la para ir para a cama –Ele pode ficar aqui não é mami? –
Freddie as observava encostado no batente da porta com um meio sorriso no rosto, o qual decaiu um pouco ao ouvir a inocente pergunta.
Sam lhe dava as costas –Não acho que seu pai possa, princesinha. Ele tem coisas para fazer, e tem também sua namorada... –
Os olhos da menina pareciam diminuir um pouco do seu brilho –Esqueci... –
Freddie limpou a garganta sonoramente: –Hum, Sam? Podemos conversar um minuto? – Sua voz saiu ligeiramente grave e calma.
Ela se virou enquanto acabava de cobrir Leslie com uma manta –Sim. – Falou simplesmente e em seguida se dirigiu a menina –Confortável? – A menina assentiu sorrindo –Quer se despedir de seu pai, antes de dormir? –
–Uhum... Boa noite, papai! –
Freddie se aproximou da cama e agarrou a mãozinha que ansiosa se estendia para ele. Ouviu os passos de Sam se afastando e soube que ela havia saído do quarto. Silenciosamente agradeceu o gesto, por alguns minutos poderia ficar sozinho com sua filha sem se sentir embaraçado.
–Boa noite, princesa – Murmurou suavemente.
–Vai ficar comigo até eu dormir? –
–É o que você quer? –
–Uhum... –
–Então vou – Apertou a mãozinha entre as suas, enquanto observava com atenção seu rostinho. Ali estava o pequeno nariz de Sam e seus olhos cristalinos. Sua pele clara e seu sorriso. Era incrível como não havia se dado conta antes, agora podia ver claramente os traços de Sam e os seus em singela sintonia, combinando-se nessa linda menininha, tão incrível e perfeita dos dois.
–Papai? –
–Mmhm? – Se sentou mais confortavelmente na borda da cama –O que foi meu bem? –
–Soube que era você depois que me mostrou as fotos... – Disse a menina num sussurro –Tinha te visto junto com minha mamãe nas fotos de casamento. – Se incorporou um pouco e enfiou a mão debaixo de seu travesseiro, puxando algum objeto –É segredo, minha mamãe não sabe que eu tenho... –
O jovem pegou o que ela oferecia. Era um retrato de Sam e dele em seu casamento. Ambos pareciam tão pequenos, imaturos e inocentes, e ao mesmo tempo tão felizes... Era como se tivesse acontecido a milhões de anos atrás.
Sorriu.
–Não sabia que era você... – Confessou a menina tristemente –... Mas então, você me mostrou suas fotos aquele dia no orfanato e... E a tia Carly me contou. E eu... Eu queria te dizer papai, mas a tia Carly me pediu segredo, ela falou que era a mamãe quem deveria te contar... – Abaixou a cabeça –Me desculpa papai... –
–Tudo bem, princesinha –
–Não está bravo com a mamãe, não é? –
Freddie observou a preocupada expressão estampada em seus olhos. A pequena pressão em sua mão se tornou mais forte.
–Não, meu bem... –
–Então ainda ama minha mamãe, certo? –
Ele sorriu fracamente.
–Ainda ama muito ela, né papai? –
–Sim – Respondeu finalmente. A menina sorriu seus olhinhos brilhando.
–Mami também te ama muito papai! – Exclamou alegremente, assentindo muito convencida.
–Less... –
Os olhos da criança começaram a se fechar depois disso. Continuou sorrindo apertando sua mãozinha com a dele. –Boa noite papai... E-estou feliz por você ser meu papai... –
Freddie riu em silêncio. Beijou os dedos da pequena e se inclinou para beijar sua testa, sua suave respiração chegou a seus ouvidos –Também estou feliz por você ser minha filha... – Sussurrou, escovando seu cabelo com a ponta dos dedos.
Permaneceu ali por mais alguns minutos observando-a dormir, sentindo uma satisfação enorme em seu peito. Ali estava um pequeno anjo que havia sido enviado a Terra com o propósito de amá-los, a ambos, tal qual como eles eram, com seus erros e defeitos, amá-los sem pedir nada em troca.
Recordou à conversa pendente com Sam, e depois de ficar alguns segundos a mais vendo-a dormir, saiu do quarto fechando suavemente a porta atrás de si.
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Encontrou a jovem na sala de TV, de pé, frente à janela. Com o olhar perdido lá fora, na rua, agora não tão movimentada e na noite estrelada. Nem sequer o sentiu entrar, estava demasiado envolvida em seu mundo de pensamentos para notar sua presença. Deteve-se a um metro dela, observando-a; seus ombros estavam um pouco contraídos e através do leve reflexo no vidro viu que suas pálpebras estavam fortemente fechadas.
Sam soltou um suave suspiro e se virou, abrindo enormemente os olhos ao vê-lo parado ali.
–Leslie já dormiu – Disse ele.
Ela assentiu –Deveria estar muito cansada, brincou o dia inteiro... –
Fez um gesto afirmativo, e logo se lembrou do porque havia lhe pedido essa conversa. Meteu as mãos nos bolsos a fim de demonstrar calma e segurança.
–Por que disse aquilo à menina? Pensei ter esclarecido a você que já não tenho mais nada com essa mulher. –
Sam o olhou fixamente: –Primeiro, não era nada que Leslie soubesse ainda. E segundo... Posso suportar que brinque comigo Freddie, mas não com minha filha. Leslie não tem que pagar por nenhum de nossos erros... – E aquelas palavras pareciam dar fim a uma bela ilusão de uma possível reconciliação. E como todo sonho, chega o momento no qual ele se dissolve deixando apenas a dura realidade em seu lugar. –Não quero que ela se iluda com algo que não vai acontecer... –
Freddie abriu a boca para dizer alguma coisa, quando se ouviu um agudo som vindo da cozinha. Sam se virou dirigindo-se até o telefone. E ele a seguiu a uma curta distância.
–Oi Charie... – Disse a jovem loira com um sorriso ao reconhecer o número no identificador.
–Olá, Samantha. Já soube da grande notícia! –
Sam se apoiou sobre o balcão, seu rosto um pouco corado –Hum... –
–Quer ter o dia de folga amanhã também? –
–Não. Pouco a pouco, vamos nos ajustar com os novos horários – Sorriu outra vez ignorando a presença do homem à suas costas.
–Ouça Sam, te chamei também por outro motivo. Ainda planeja ir para o Canadá...? –
Sam soltou um suave suspiro –Não agora, Charie... No momento não –
–Genial. Querida se lembra do congresso que pedi que participasse em Los Angeles antes de ir? –
–Sim... –
–Bem, ainda preciso que você vá. Já me informei com Jake sobre todos os detalhes pertinentes, portanto, não terá que se preocupar com nada além das reuniões... –
–Mas... –
–Um dos representantes convidados te acompanhará Sam. E eu selecionei um dos melhores, acredite – Se ouviu uma fraca risada. Sam sentiu um arrepio, tinha a sensação de que ela tramava algo.
–Tem certeza sobre isso, Charie? Sabe que nunca participei de um evento tão grande como esse e... –
–Sei que vai se sair bem. Está mais capacitada que qualquer especialista em seu campo. Você será uma grande representante, Sam, não tenha dúvidas disso... – Fez uma pausa –Escuta, Freddie está com você? Tentei ligar para seu celular, mas só consigo ouvir a voz de uma irritante operadora dizendo que está fora da área de cobertura... –
Sam se virou pela primeira vez, com o telefone ainda colado a sua orelha. Freddie a observava, tratando de tentar entender, com o pouco que havia ouvido de sua conversa telefônica. Ela assentiu: –Sim, ele está. Quer que eu passe pra ele? –
–Não, diga a ele para me cham... Não, melhor... Traga-o com você quando vier ao escritório amanhã, tudo bem? –
Ela franziu as sobrancelhas em um gesto confuso –Comigo? –
–Sim, foi o que eu disse. Bem, tenho que desligar, mande um abraço especial para a pequena Leslie... E também um abraço e meus cumprimentos à sua amiga Carly... –
–Carly? –
–Carly? – Murmurou Freddie num sussurro –O que tem a ver Carly com tudo isto? –
–Oui, mande meus cumprimentos a ela da minha parte. É uma mulher muito educada e também muito simpática... –
–Mandarei... – Disse desconfiada –Tudo bem Charie, até amanhã –
–Até amanhã, querida. Se cuide... –
Sam soltou um suave suspiro e colocou o telefone na base. Logo se virou para encontrar o rapaz a uma curta distância de si. Recostou-se sobre a borda do balcão e o olhou, inconscientemente acomodando uma mecha de seu cabelo atrás da orelha.
–Tem algum compromisso para amanhã de manhã? –
Ele sustentou seu olhar por um par de longos segundos, logo torceu a boca em um gesto divertido –Está me convidando para sair? –
–Em seus sonhos – Fez uma careta –Não. O problema é que Charlotte quer que você vá ao escritório comigo amanhã –
–Com você? E por que ou para quê? –
Sam torceu a vista –Não sei. Você vem ou não? –
Encolheu os ombros: –Acho que não posso recusar –
–Claro que pode Freddie – Caminhou até ele fazendo com que este conservasse sua respiração subitamente. –Sempre se pode recusar. Ninguém está te apontando uma arma obrigando-o a tomar responsabilidade em algo que não quer fazer... –
Ele se inclinou frente a ela de modo que pôde ver perfeitamente a mais profunda cor de suas pupilas. Por um segundo permaneceram assim, perigosamente perto.
–Vou tomar minhas responsabilidades, Sam. Já disse a você, e não vejo razão para que duvide de mim. Não é como se eu tivesse deixado de cumprir alguma das minhas promessas no passado... –
Os lábios dela se apertaram. Apesar dos saltos em seus sapatos ainda era pequena em comparação ao jovem –Acho que temos diferentes pontos de vista –
–Não. Você vê as coisas como bem quer, se deixando guiar apenas por seus caprichos. –
–Como bem quero? Será que devo lembrá-lo dos últimos acontecimentos...? –
Uma atmosfera de tensão flutuava no ar. Nuvens de raiva e mágoa. O silêncio se fez terrivelmente extenso e desconfortável.
Freddie suspirou: –Pelo bem de nossa filha podemos fazer um esforço de ter pelo menos uma relação mediamente amistosa? –
Aquela simples palavra fez com que suas pernas bambeassem como gelatina. Quantas vezes havia fantasiado com ele dizendo exatamente isso? Se referindo a Leslie como se fosse parte de ambos, e não apenas dele ou dela.
Assentiu notando que havia apertado os punhos e que sua vista se concentrava no piso. Certamente seu rosto tinha se ruborizado.
–Bem, melhor eu ir pra casa. Passo aqui para te pegar amanhã? –
–Sim... – De repente se sentiu tímida, ainda não sabia como classificar tudo isso. Assim seria sua vida de agora em diante? –Prometi a Less que a levaria até a casa da Carly. O escritório não fica tão longe do caminho... Se não se importar, é claro... –
Ele sorriu. Sam e outra de suas oscilações de humor, num segundo era um furacão enfurecido e no seguinte uma brisa quente de primavera. Colocou um dedo em seu queixo e levantou seu rosto para si –Não me importo –
Ela encontrou seus olhos e novamente esse momentâneo transe se espalhou entre eles, como um imã.
–Melhor eu ir... –
–Sim... –
Mas ninguém se moveu. A mão sob seu queixo ainda estava ali, e os dedos tocaram sutilmente a pálida pele de seu pescoço. Freddie se inclinou um pouco mais e hesitante depositou um pequeno beijo em sua bochecha.
–Vejo você amanhã... –
Sam virou o rosto e encontrou-se com seus olhos novamente.
–Até amanhã... –
Aquilo de alguma forma parecia ser a coisa certa entre esses dois jovens que deviam aprender a aceitar a presença um do outro antes de tentarem qualquer outro passo.
O suave som de uma porta se fechando foi o último que se ouviu naquela noite.
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No dia seguinte...
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–Ah, tia Carly você já sabia e não me disse! – Leslie exclamou cruzando os bracinhos, aborrecida.
Esta riu: –Leslie, se eu lhe dissesse já não seria surpresa, não é? –
–Óh... – Riu –Sabe tia... Foi muito, muito legal! – Leslie sorriu dando pulinhos de onde estava –E meu papai agora já sabe de tudo! –
Carly também sorriu pegando a menina em seu colo –Sim, eu soube... Está feliz, lindinha? –
–Uhum! Muito, tia! – Respondeu com grande entusiasmo, logo este decaiu um pouco –Mas eu... Eu queria que meu papai morasse lá, com minha mamãe e comigo. –
–Será que você pediu isso a eles? –
–Não... – Hesitou Leslie –Não posso pedir... Mami pode ficar brava... –
A jovem se endireitou um pouco –Talvez... Talvez devemos esperar mais alguns dias antes de pedir algo assim a eles... – Logo encolheu os ombros, enquanto voltava a sorrir –E talvez, alguém possa nos dar uma mãozinha... –
A menina olhou-a com uma expressão de confusão, não entendendo o que ela quis dizer –Você vai conversar com meus papais, tia Carly? –
–Claro lindinha. Na verdade, acho que uma ajuda ainda maior já está a caminho – Abraço-a com segurança –Logo, logo tudo vai se resolver, certo? –
Leslie riu da atitude engraçada da jovem e apesar de não ter entendido muito bem o que ela dizia, concordou –Certo! –
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Haviam conservado aquele silêncio desde que saíram da casa da Carly. Durante o trajeto, do caminho dentro do automóvel até o belo prédio onde Sam trabalhava não tinham sequer dito uma só palavra. Até evitavam qualquer troca de olhares, como se fossem um casal de adolescentes nervosos saindo em seu primeiro encontro.
Freddie lhe abriu a porta de vidro da entrada principal cortesmente, e caminhou após ela, impressionado ao notar a quantidade de pessoas com ternos e blazers que a cumprimentaram ao chegar. Na verdade, Sam também estava muito bem vestida, usando uma elegante saia lápis e uma bela camisa a condizer. Acompanhou-a até uma grande bancada de mármore e a viu pegar um pequeno cartão de identificação indicando sua posição dentro da empresa. E após cumprimentar outras poucas pessoas, a seguiu até um grande elevador.
–Olá meus jovens! – Charlote Lincoster tirou os óculos e se levantou da cadeira aproximando-se para cumprimenta-los. –Estou feliz que vieram... Juntos. –
Enfatizou a última palavra e sorriu enquanto fazia um gesto com a mão indicando para que se sentassem.
–Conheci uma amiga de vocês, Sam. Carly é uma mulher muito doce –
–Ela é sim... Mas sobre o quê exatamente conversaram Charie...? – Retrucou Sam, obviamente desconfiada.
–Óh, sobre nada em específico. De qualquer forma conversei com ela e com sua ajuda cheguei há uma muito boa ideia –
Sam se mexeu inquieta em seu assento. Talvez porque já suspeitava aonde queria chegar com tudo isso a sua superior.
–E essa ideia tem tudo a ver com você Monsieur... – Apontou para Freddie.
–Claro Sra. Lincoster... Precisa de alguma coisa? Quer que Adam e eu façamos algo por você? –
–Não. O Adam não será necessário – Se recostou na cadeira –Apenas você... –
–Pode contar comigo... Do que se trata? –
Charlote sorriu concentrando sua atenção em Sam –Pois bem... Tenho um grupo de amigos na cidade de Los Angeles que foram convocados junto a mim para comparecer a um importante congresso que a ONU estará organizando reunindo representantes das maiores multinacionais do país. O motivo? A incrível quantidade de lixo tóxico exalado por estas no meio ambiente... – Fez uma pausa. Freddie a escutava concentrado, como se já começasse a entender aonde ela queria chegar com tudo aquilo. A jovem ao seu lado diferente dele tinha uma expressão de confusão e levava as mãos cruzadas sobre os joelhos impaciente –... Desse congresso também nasceu à ideia de criar novos institutos exclusivamente voltados a revolucionar a mão-de-obra totalmente sustentável. – Fez outra pausa, para logo seguir com seu raciocínio –Jake, um dos principais administradores encarregados pelo projeto, me pediu para que fosse a Sam quem desse a palestra no intuito de convencer os mais ricos potenciais clientes... E obviamente, estou inteiramente de acordo com sua decisão. Ninguém está mais qualificada que minha querida menina... –
–Charie... – Sam interveio sem jeito. (N/a: Bem, só para esclarecer... “Charie, é um apelido para o nome Charlote, e se pronuncia: Tieuri” – Não faz muito sentido, não é? Rs. Acreditem, vi isso num filme certa vez, e achei um charme. *-*).
A nomeada a ignorou levantando uma mão em sua direção pedindo-lhe para que não contestasse*.
–A comissão presidencial da Apple já havia me informado sobre o congresso... Mas ainda não entendo em quê eu posso ser útil, Senhora... –
–Estou chegando lá Freddie, paciência – Charlote pegou um panfleto que estava em uma das gavetas de sua mesa e o entregou –É uma planta de como possivelmente ficará os institutos. Muito bonito, não é? – Ele fez um gesto afirmativo –Bem, era de se esperar que também me pedisse para escolher um administrador capacitado para acompanhar minha assistente... –
Sam mordeu o lábio. Ao seu lado, ele parecia já ter entendido tudo perfeitamente.
–Sua amiga Carly me contou que você está à frente dos últimos detalhes para a inauguração oficial da nova filial da Apple aqui em Seattle... – Ele assentiu –Ela também me disse que você realmente precisava tirar pelo menos alguns dias de folga, sendo assim, não me pareceu nada má sua sugestão de que fosse você quem acompanhasse minha menina... Adam já conversou com a presidência da Apple e disse que estão completamente de acordo comigo e ainda disse que poderá tomar a semana se precisasse... E quanto a você, minha querida... – Virou-se para Sam –Está liberada para pegar a semana livre também... – (N/a: Que patroa mais linda *-*)
–Charie, não... Talvez o Freddie já tenha outros planos em mente... –
A senhora se virou para ele –É verdade? Estou atrapalhando algo que já tenha planejado meu jovem? –
–Lógico que não, Sra. Lincoster – Olhou para Sam com uma sobrancelha levantada –Talvez seja sua assistente que já tenha outros planos em mente... –
–Sam? –
–Claro que não. Sabe que não é isso Charie, me conhece... –
–Oui, querida. Eu sei, você nunca me desapontou... –
–Falava do Sr. Benson, porque já conhecemos suas atividades... ... E talvez você devesse ter perguntado a ele com mais antecedência; a presidência da Apple pode não gostar que ele viaje especificamente nesse momento... –
Freddie apertou a mandíbula: –Se assim fosse, não seria um assunto que te importaria, Puckett... –
–Acaso os dois veem problemas em fazer isso juntos? – Charlote perguntou diretamente com as mãos cruzadas em cima da grande mesa de madeira –
–Não, nenhum... –
–Claro que não, Sra. Lincoster. –
A senhora ruiva se levantou e inclinou-se frente a eles, colocando as mãos em seus ombros –Escutem, sei que isto pode ser difícil para ambos, mas... Vocês costumavam ser um grande time no passado, e é desse time que preciso. Não pretendo fazer com que as coisas voltem a ser como antes, mas os últimos acontecimentos... O fato de que você Freddie, já saiba da verdade, é o importante... Acredito que tenham muitas coisas para resolver... Precisam desse tempo a sós e... E acima de tudo, isto é uma ordem, entendido? –
Sam assentiu, e a seu lado o rapaz fez o mesmo. Charlote satisfeita por tê-los feito entrar na razão, saiu da sala com um sorriso –Merci. Agora só falta ligar para Jake e acertar os últimos detalhes. A viagem é em quatro semanas... –
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–Tem algum problema em viajar comigo? –
–Não, você é o único que tem problemas com isso! –
–Não fui eu quem inventou aquelas desculpas esfarrapadas na frente de Charlote –
–Fiz isso por você! Talvez não possa se acostumar a ficar alguns dias longe de seu modo de vida? Não quero que suas... Amiguinhas, sintam sua falta, por minha culpa... –
A frase de Sam dita nesse tom de voz debochado, terminou por enfurecê-lo. Normalmente ele não costumava perder a paciência com tanta facilidade, mas parecia que aquela loira contribuía para sacar a pior parte de si. Ela estava tranquilamente apoiada na parede do escritório, e já haviam se passado alguns minutos desde que Charlote havia saído. Seus olhos claros piscaram de assombro quando ele em um rápido movimento a imobilizou contra a parede usando o peso de seu corpo.
Pegou levemente seus pulsos, levantando ambas as mãos para os lados de seu corpo e logo se aproximou de seu rosto, rangendo os dentes: –Meu modo de vida, ou o uso que faço dela não é tema de discussão –
–Ninguém está discutindo –
–E isso já terminou –
Sam lhe sustentou o olhar e balançou a cabeça –Me pergunto porquê, ou... Devido a quê... –
Freddie soltou seus pulsos e pegou seu queixo com uma das mãos, o gesto fez com que as curvas da mulher roçassem seu peito –Sabe muito bem porque, ou devido a quem... –
Ela esperou que ele sorrisse ou algo do tipo, não a expressão séria e grave de seu semblante. Tentou se mover, mas ele não a permitiu, voltou a olhá-lo refletindo uma silenciosa pergunta em seus olhos.
–É por causa de você, Sam... –
Permaneceu quieta com os olhos fixos nos dele como se tivesse se esquecido de piscar. Abriu os lábios lentamente e observou como ele acompanhou de perto o gesto. Estavam brincando com fogo? Os lábios de Freddie também se entreabriram.
Um eterno segundo seguiu enquanto continuavam se olhando como se a vida dependesse disso. Seus rostos muito próximos, como também seus corpos. Ele sabia que aquela era uma situação comprometida... Mas poderia negar o que seus lábios pediam a gritos? Queria poder sentir a suavidade de seu toque e de seu corpo igual como era antes... –
Tudo era tão confuso agora... Deveria ser diferente, mas por alguma razão invisível essa realidade estava longe de ser aquilo que sonhava.
–A-acho que devemos ir buscar a Leslie... – Disse por fim, com voz trêmula como se não estivesse muito convencido do que fazia.
Ela assentiu incerta, parecia que havia um peso sobre seus ombros, vários pensamentos davam voltas em sua cabeça. O rapaz se afastou e caminhou em direção à porta.
–Freddie? – O chamou obrigando-o a parar em seu trajeto. Virou-se com uma expressão curiosa em seus olhos castanhos –Não quis... – Murmurou sentindo-se envergonhada.
–O que não quis? –
–Dizer aquilo a você. Eu... Me desculpa... –
O jovem sorriu e lhe estendeu a mão, esperando-a. Quando sentiu a pequena palma na sua, segurou seus dedos com cuidado –Desculpas aceita –
Ela apenas sorriu levemente.
–Ainda temos muito a aprender, Sam... – Disse suavemente. Guardou silêncio por alguns segundos –Acha que podemos ser amigos como éramos antes...? –
–Exatamente como éramos antes? – Sorriu mais abertamente, lembrando-o da época em que era acostumada a lhe bater todo o tempo.
Ele riu –Não assim exatamente... Uma trégua? –
Não foi isso o que quis dizer, mas já era um bom começo...
Ela sorriu e assentiu –Pelo bem da Less, sim. Trégua... –
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A tarde morria lentamente nesse frio crepúsculo.
Ela virou-se para a luz fraca que entrava pela janela. Seus olhos se mantiveram fixos no vidro por alguns segundos, agora parecia estar perdida em outro mundo.
Aquilo ainda parecia tão estranho, tão confuso... Freddie e Leslie agora sabiam de toda verdade -nua e crua- e se adoravam como se já se conhecessem desde o primeiro dia. Ele sendo o excelente pai que sempre imaginou, e a menina se comportando daquela forma, sorridente e feliz... Que era tão particular dela.
Sentia-se como se fosse fraca e indefesa, e isso era algo novo em sua vida, um novo que não aceitava muito bem. Por quê? Por que se sentia daquele jeito quando tudo já estava esclarecido? Por que não podia desfrutar da felicidade junto com as duas pessoas que mais amava no mundo?
Talvez porque entendia que este amor não era recíproco em uma dessas duas pessoas... Talvez porque, todavia existia o horrível medo de que Leslie fosse levada pra longe dela... Talvez porque o círculo de felicidade se fechava apenas ao redor dos dois, excluindo-a... Talvez porque depois de tudo que causou para ambos merecia se sentir assim... Ou talvez porque não havia mais felicidade para ela.
Abriu os olhos, a noite já havia chegado, apesar de que haviam se passado apenas míseros minutos. Da cozinha podia ouvir Carly cantarolando e fazendo barulho com os copos, pratos e talheres.
Voltou a fechar os olhos como uma forma de fugir e se perder...
Se pudesse alterar o destino... Se pudesse refazer sua vida, se havia ficado e lutado por aquilo que tanto amava.
Como ele havia lhe dito naquela manhã depois da festa. Teve razão em tudo o que falou, e apesar de sua raiva e ira, Sam sabia que ele não poderia estar mais certo. Quando havia se tornado esse adulto coerente e maduro?
Agora já era tarde demais... Sentia que seu mundo estava tão retorcido que nenhum milagre poderia jamais consertá-lo.
Os passos de Carly a trouxeram de volta à realidade. Abriu os olhos no tempo em que sua amiga acendia o interruptor de luz e colocava uma bandeja sobre a mesa.
–Vai esperar pelo Freddie aqui? –
–Não – Balançou a cabeça piscando diante da súbita luz –Ele disse que levaria a Leslie pra casa assim que voltassem do passeio –
–Vejo que as coisas entre eles mudaram muito favoravelmente – Encheu duas xícaras de café e entregou uma a ela –E onde estão agora? –
–Foram tomar sorvete – Fez uma pausa –Já sabe, típica saída de pai e filha... –
–Te deixaram de fora? – Brincou.
Sam sorriu tristemente –Algo assim... –
Carly leu seu gesto com os olhos entrecerrados, segundo sua opinião, todavia havia muita coisa que ainda precisava ser resolvida.
–Suponho que em poucas semanas, tudo vai se acertar. As coisas vão voltar ao seu devido lugar e você abandonará essa expressão de confusão que não combina em nada com você... –
A outra jovem levantou uma sobrancelha em sua direção, um pouco surpresa com a mudança repentina de tema. Endireitou-se em seu assento.
–Carls, sei que tem dedo seu nessa brilhante ideia de Charie... – Disse com uma suave firmeza que era quase impossível para a morena negar qualquer envolvimento no assunto.
Carly sorriu inocentemente –Digamos que usei um pouquinho da minha influência... –
–Influência? –
Esta riu: –Bem, talvez eu não esteja claramente por dentro desse mundo de negócios ativamente como meu marido ou vocês, mas tenho meus contatos... Só me bastou mover alguns palzinhos aqui e outros ali... – Tomou um gole de café.
–Trabalha pra máfia agora também...? –
–Inteligência é a palavra, minha querida amiga... – Carly sorriu e colocou a xícara sobre a mesa –Vai me contar os detalhes de como foi? Freddie me disse uma coisa ou outra na noite que me ligou, mas obviamente não é o mesmo que ouvi-lo de você... –
Sam corou ligeiramente.
–Então? –
–Não me lembro de muita coisa... E-estava um pouco... –
–Alcoolizada? – A jovem morena suprimiu uma risadinha –Poxa, deve ter sido um espetáculo e tanto. Adoraria ter estado lá para ver a cara do Freddie... –
–Ele estava tão surpreso... Tão... –
–Extasiado?* –
–Sim... – Sam sorriu por um segundo –Sinto como se todo o peso que carregava sobre os ombros se dissolveu como névoa quando ele aceitou... E Leslie... Leslie está realmente feliz por ele ser seu pai. Ela o adora, todo o tempo fala nele... –
–E você? –
–Eu? – A olhou sem entender.
Carly deixou de sorrir por um momento –Como você está, Sam? Como se sente com tudo isso? –
–Eu... –
A jovem morena encheu outra vez a xícara com café e a entregou –Ainda está preocupada com alguma coisa... Certo? –
Seus olhos claros se abriram enormemente, e começou a negar, balançando freneticamente a cabeça.
–Pode me dizer, Sam... –
–Não há nada a dizer, Carly... Está imaginando coisas. Só estou pensando nessa bendita viagem... –
Houve um breve silêncio, a nomeada olhou para a amiga com ligeira preocupação. O profundo castanho de seus olhos de repente, se suavizou. Suas sobrancelhas franzidas por um segundo. Logo deu um suspiro, pareceu adquirir uma nova resolução, decidiu quebrar o clima desconfortável que se formou e quebrou a tensão com um enorme sorriso.
–Hum... – Disse Carly se recostando em seu assento com aquele sorriso travesso –Seria como uma segunda lua de mel, não? Espero que ambos saibam apreciar esse tempo... –
Sam a ignorou bebendo sua xícara de café, seu rosto começando a parecer bastante vermelho.
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–Uau, papai! Que legal! – Leslie exclamou cheia de entusiasmo.
–Mas bebê, mamãe e eu não vamos estar aqui durante alguns dias e... –
–Não posso ir com vocês? –
–Sinto muito meu amor, mas não... Sua mãe e eu estamos indo a trabalho –
–Ah... – Falou sem entusiasmo.
–Mas olha, prometo que não vamos demorar muitos dias... E nesse tempo vai poder ficar na casa da sua tia Carly, o que acha? –
–Eba! Gosto muito da tia Carly! – Sorriu outra vez feliz como antes.
–Então não está mais triste? – Perguntou Freddie cauteloso.
–Nu-uh... Eu gostei papai... Minha mamãe e você vão viajar juntos! – Lambeu o sorvete e sorriu –Depois, quando voltar... Vai vir morar com a gente, né? –
A pergunta fez com que Freddie quase deixasse cair seu próprio sorvete.
–Não é, papai? –
Ele a olhou com uma expressão triste –Gostaria disso, Less? –
–Uhum, muito! Mamãe, você e eu... – Sorriu enquanto numerava os três com os dedos, equilibrando com a outra mão sua casquinha sabor chocolate –Mamãe, você e eu vivendo juntos como todos os papais e mamães! –
Ele sorriu. Por que não?
Ah... As voltas do destino. Poderia este atuar a seu favor? Poderiam eles viver como uma família de verdade? Só Deus sabe o quanto ele queria isso...
–Prometo que vou conversar com sua mãe a respeito... – A frase ficou presa em sua garganta quando em um salto a menina o abraçou. O sorvete caiu derramado no chão, porém Leslie parecia não se importar –Filha... –
Ela o abraçou ainda mais forte, escondendo sua cabecinha em seu pescoço. Freddie aspirou outra vez esse aroma que era tão familiar a Sam.
–Promete mesmo papai...? Você vai vir morar com a gente? Para minha mamãe e você serem felizes outra vez como nas fotos...? –
Ele não podia ver o rosto da menina atrás de suas palavras, mas podia imaginar como era a expressão em seu rosto... De pura esperança e alegria imaginando um futuro feliz dos três.
–Prometo! – Disse em um suave sussurro.
Leslie se incorporou, seus olhos brilhando suavemente. Assentiu várias vezes balançando a cabecinha animada e satisfeita: –Jura, juradinho...? – Estendeu o dedo mindinho seriamente em sua direção esperando que ele firmasse a promessa.
O rapaz riu com o natural gesto infantil e logo selou a promessa –Juro, juradinho! –
–Oba! Minha mamãe, você e eu vivendo juntos para sempre! – Exclamou feliz.
Freddie sorriu. Como podia dizer não a esse pequeno anjo? Acariciou seu cabelo com ternura, e uniu sua testa com a dela.
–Farei todo o possível, Less... – Sussurrou –Prometo... –
–Eu te amo, papai! –
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–Me bombardeou com todos os tipos de perguntas... – Freddie comentou divertido –Não pode imaginar a quantidade de perguntas inteligentes que saem da mente dessa menina... –
–Sim imagino, acredite – Sam lhe respondeu também sorrindo –Tem uma imaginação muito fértil... –
Já deveria estar perto das onze horas da noite. Logo depois que Leslie havia dormido, os dois adultos se encontravam na cozinha, sentados numa redonda mesa de vidro. Uma garrafa térmica de alumínio no meio de ambos, assim como duas xícaras com metade do líquido fumegante dentro.
Um agradável ambiente de companheirismo flutuava entre os dois. Haviam passado as duas últimas horas conversando sobre Leslie. Freddie queria saber tudo sobre ela; gravidez, nascimento, seus aniversários e tudo quanto Sam pudesse dizer. Escutava com aquela expressão feliz, segurando sua mão como havia feito em toda a conversa.
A situação parecia tão estranha... Eles ali, compartilhando uma conversa sem se insultarem ou se agredirem verbalmente. Sem usar quaisquer argumentos de eventos passados. Conversando como os melhores amigos do mundo que costumavam ser quando menores. Rindo com aquele companheirismo que sempre os havia caracterizado.
Apesar de tudo... Freddie poderia notar que algo não estava certo sobre a mulher diante dele. O sorriso em seu rosto era genuíno, mas seus olhos... Seus olhos pareciam fora dessa agradável atmosfera. Como se a qualquer momento, ela estaria em um incontrolável mar de lágrimas. Não que ele imaginasse que ela o deixaria ver algo como isso, facilmente. Mas desejava saber o que tanto a afligia, e estava desposto a ajuda-la no que quer que fosse...
Inconscientemente seus dedos apertaram ainda mais a pequena mão –Tem feito um excelente trabalho com ela, Sam... –
–Obrigada... –
–Leslie é uma menina incrível. Me surpreende sua capacidade de falar e de se expressar, e a facilidade e a rapidez com a qual se desenvolve diante de tudo... –
O olhou –Puxou isso de você... –
–De você também... – Sorriu –Ela herdou coisas boas dos dois... Realmente Sam, você fez um excelente trabalho –
–Não tem sido nada fácil... –
–Eu sei, mas te ajudarei de agora em diante... – Sussurrou sorrindo. –Mas... – Logo se encontrou sério, soltou sua mão por alguns segundos e pronunciou: –Tem uma coisa que quero falar com você... –
Sam mordeu os lábios e colocou suas mãos sobre os joelhos apertando os punhos sem se dar conta. Assentiu tratando de parecer o mais calma e normal possível.
–Quero que Leslie tenha meu sobrenome... – Disse seriamente.
–Seu sobrenome? –
–É minha filha, é o lógico não acha? – Levantou o olhar se concentrando nela. Seus olhos pareciam tão aguados –Sam? –
A jovem assentiu –Hmm... –
–Você concorda? –
Seus dedos estavam ficando brancos. Sentia a ponta das unhas cavando nas palmas de suas mãos.
–Sam... – Perguntou outra vez.
–É o lógico, Freddie. É claro que concordo... – Respondeu com voz trêmula.
Ele a observou atentamente. Em nenhum momento havia sido capaz de olhá-lo nos olhos. Ela estava bem com tudo isso?
Observou o relógio em seu pulso –Melhor eu ir... – Disse se levantando, dirigindo um olhar preocupado para a loira que não havia se movido nem um centímetro até agora –Amanhã podemos almoçar os três, não acha? –
Ela assentiu.
–Bem, então até amanhã... – Se aproximou e depois de hesitar alguns segundos, depositou um pequeno beijo em seu cabelo. Como esperava, tinha a mesma fragrância de Leslie, shampoo de frutas... Talvez maçãs e pêssego...
Sam não se mexeu. Aquilo estava preocupando-o seriamente. Deteve-se duvidoso antes de finalmente começar a caminhar em direção à porta da frente. Deveria ficar e tentar falar com ela, mas... O que diria? As coisas entre eles haviam melhorado tanto e... e... Não era muito cedo para... Dar o primeiro passo...?
Tinha medo de se equivocar, de se magoar e de magoa-la outra vez... Mas a amava tanto... Tanto...
Suspirou resignado frente à porta, e quando estendeu a mão até a maçaneta, pôde ouvir uns passos rápidos vindos em sua direção. Virou-se por um segundo e a jovem se jogou bruscamente em seus braços envolvendo-o em um apertado abraço, gesto este que finalizou com Freddie recostado contra a madeira da porta.
Sentia seu suave corpo tremer e soube que estava chorando. Aquilo o assustou, deslizou as mãos por suas costas adentrando em seu cabelo.
–Sam? – Perguntou em um rouco sussurro apoiando o queixo em sua cabeça –O que houve...? –
Em vez de responder, se desfez em novos soluços que cobraram mais vigor diante da suavidade das palavras e gestos. Estremeceu involuntariamente e mais suspiros abafados escaparam de sua garganta.
–Sam... – A abraçou ainda mais forte. Sentia o calor de sua respiração através de sua -já úmida-camisa –Sam, fala comigo... –
Ela balançou a cabeça, Freddie não podia vê-la, mas sabia que seus olhos estavam fortemente fechados entre os fios de cabelo loiro. Suas bochechas coradas e os ocasionais gemidos que saíam de sua boca sem poder segura-los falavam sobre o quão ruim era seu estado emocional no momento. Ela o abraçou mais forte, abafando os soluços em sua camisa.
–S-sinto muito... Sinto muito... – Disse por fim, com a voz cortante, falando entre soluços e gemidos que mal davam para compreender –Me perdoe... P-por favor me perdoe... –
Freddie ouviu sua voz distorcida pelo choro, e sentiu genuína consideração por ela. Com suavidade, deslizou uma mão por suas costas em um movimento lento e carinhoso –Shhh... Se acalme... – Disse com afeto sussurrando de novo e de novo aquelas mesmas palavras.
O choro foi morrendo aos poucos, e ocasionalmente se ouviu um ou outro suspiro entrecortado acompanhado por um frágil gemido, que se abafava entre sua roupa.
Ele se desprendeu da porta e caminhou de volta a cozinha a fim de chegar até uma cadeira, levando a jovem entre seus braços durante todo o trajeto. Sentou-se com cuidado e acomodou carinhosamente Sam em seu colo. Ela cruzou os braços atrás de seu pescoço e escondeu todo o tempo a cabeça em seu ombro. Freddie sorriu levemente.
–Vai parar de chorar? – Perguntou baixinho, todavia acariciando seu cabelo que se deslizou facilmente entre seus dedos.
Como única resposta ela apenas sacudiu a cabeça.
–Não vai parar de chorar? –
Ela voltou a sacudir a cabeça no mesmo gesto negativo.
Ele endireitou um pouco, e retirou os braços de seu pescoço para tomar com facilidade o rosto da jovem. Suas mãos se umedeceram assim que tocaram em seu rosto, e aquilo o comoveu profundamente. Seu pequeno nariz estava vermelho, como também seus olhos claros, que piscavam mais lágrimas que seguiam o aguado caminho das anteriores.
–Sam? – Disse num sussurro, buscando que ela o olhasse. Tirou um lenço de sua jaqueta e começou a secar seu rosto. Mas aquilo não deu resultado, quanto mais lágrimas secava, mais eram derramadas... E ele, que havia a visto chorar pouquíssimas vezes, e em todas procurava maneiras de remediar aquele estado de espírito, sabia que não poderia suportar por mais tempo vendo-a assim –Hey... Hey... – Roçou sua bochecha com um dedo.
Sam o olhou por fim, um pouco envergonhada, então logo pegou o lenço e cobriu o nariz.
–Já está melhor? –
Os aguados olhos azuis se detiveram sobre os seus antes de assentir com certa relutância. Freddie deslizou uma mão por seu cabelo novamente e trouxe a loira até seu peito, recostando-a sob seu queixo. O rubor de Sam se intensificou, não soube se foi pela vergonha que sentia, pela posição em que estava, ou talvez porque ele parecia estar desfrutando mais do que devia da sua condição.
E ele tão pouco parecia se importar com suas próprias ações. Tinha os olhos fechados, e o macio cabelo lhe fazia cosquinhas no queixo.
–E agora, vai me explicar o que está acontecendo? –
Transcorreram alguns segundos até que pôde ouvir um sussurro –Não... –
–Diz pra mim... Por favor? –
Passaram-se mais alguns segundos em silêncio, e quando pensou em insistir uma última vez, ela murmurou inconsolável: –S-sou... Sou uma pessoa horrível... Olha tudo o que eu fiz... Com você, Leslie... – Fez uma pausa para engolir o nó em sua garganta –D-destruí a vida de vocês por meu egoísmo... – Um soluço a cortou, levou o lenço até a boca e obrigou-se a se tranquilizar.
Freddie a separou de si novamente –Sam, não tem que tomar sozinha todo o peso da culpa... – Aplacou uma lágrima com seu polegar –Nós dois tivemos uma parte ativa em todo o problema... Talvez eu tenha ido longe demais da última vez, mas estava muito irritado... Olha, te entendo, tudo bem? –
Ela, depois de ouvi-lo negou com a cabeça.
–Nós dois carregamos a culpa do passado, Sam. Os dois, não só você... –
–Mas eu... –
–Te perdoo – Disse rapidamente. Os olhos dela se abriram largamente –Não era isso o que queria? –
Sam entreabriu os lábios apertando fortemente o lenço úmido entre seus dedos. Sentiu seu rosto se enrubescer outra vez.
–Escuta, estou completamente orgulhoso da menina que juntos fizemos. Dos valores de vida que passou a ela, do ambiente puro que criou a seu redor... Por ter lhe ensinado que tudo é possível... Estou completamente orgulhoso dela e de você Sam... –
As lágrimas da jovem caíram novamente, porém agora não fez o menor esforço de secá-las, apesar de ainda ter o lenço, todavia enrolado nervosamente entre os dedos. Não, estava imóvel; Com seus lábios igualmente entreabertos e com o rosto sem reação.
–Sam... Ah não, não... – Suspirou resignado, passando um sermão em si próprio, porque em vez de acalmá-la, estava fazendo-a chorar outra vez. Com determinação, disse a si mesmo que nunca poderia chegar a entender essa mulher... –Foi um elogio, entende? Por ter cr... –
A frase se perdeu nas profundezas de sua garganta quando os lábios de Sam se apertaram timidamente contra os seus, fazendo-o se esquecer de tudo o que estava dizendo. O beijo não tinha nada de apaixonado ou desesperado, era um simples sinal de agradecimento e carinho por suas palavras.
Mas ela parecia tão suave, seu corpo tão delicado e quente... E o sabor úmido daquelas lágrimas lhe fazia lembrar tanto daquela tarde de meses atrás...
Os braços de Sam se fecharam atrás de seu pescoço, e com aquele mesmo carinho de antes voltou a beijá-lo. E Freddie suavemente, lhe devolveu o gesto com o dobro de cuidado e ternura, enquanto um pequeno sorriso estampava seus lábios.
Porque aquele era um começo promissor... Um muito bom começo promissor...
Um sublime gênese* que sem dúvidas, acabaria em um merecido resultado.
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Duas semanas depois...
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O dia havia amanhecido claro e azul.
O sol derramava seus fortes raios por entre as pequenas nuvens. O clima temperado era atípico para a data, quando aquele deveria ser um avançado inverno e não uma refrescante primavera.
Sam sorriu diante da brisa despenteando seu cabelo. Este estava solto como na maioria das vezes, caindo livremente por suas costas e ombros. Fechou os olhos aspirando o cheiro do ar puro pela manhã.
–Vamos Less! –
O riso da menina veio por trás de si, andava tentando pegar por conta própria uma mochila de considerável tamanho. Riu.
–Aqui princesinha. Deixa que a mamãe leva isso – Lhe tirou o peso dos braços e lhe deu um beijo em sua bochecha –Já tem tudo? –
Leslie assentiu –Papai disse que não precisava levar muitas coisas –
–Eu concordo – Sam observou a mochila e o cachorrinho de pelúcia, localizados agora no assento traseiro de seu automóvel.
–O papai e a vovó disseram que hoje iríamos fazer compras... – Voltou a assentir –E que comprariam tudo o que eu quisesse... –
–Leslie, muito cuidado com o que pedir – Sam suspirou, talvez devesse falar com Freddie a respeito disso. O homem ficou tão encantado com a menina que seria capaz de gastar todo o dinheiro que tem em brinquedos... Ele era demasiado mole em tudo relacionado à criança.
–Eu não pedi nada, mami – Respondeu esta cruzando os bracinhos emburrada –O papai e a vovó que insistem muito... –
–Eu sei meu amor, eu sei –
Leslie descruzou os braços enquanto observava sua mãe guardar a outra mochila no porta-malas do pequeno automóvel prateado.
–Mami... Por que não fica também na casa do papai como eu? –
A mulher a olhou por cima do ombro. Ocultando uma careta –Bem, você está indo para a casa da sua avó, bebê... E seu pai insistiu para que você fosse... –
–Mas... – Pensou por um momento enquanto andava pelo estacionamento do prédio. –Seria mais divertido se você também viesse, mami –
Sam se virou, fechou o porta-malas e se inclinou –Vem aqui, princesinha – A menina se aproximou e ela abraçou-a com força. Sorriu com os olhos fechados aspirando o doce aroma da perfumaria infantil –Da próxima vez você e eu convidaremos o Freddie para ficar, tudo bem? –
–Para sempre...? –
Sam tossiu. O rosto amável da menina era muito convincente, se não a conhecesse cederia facilmente a esses olhinhos azuis. –Veremos isso depois da viagem... – Limpou a garganta e voltou a adotar o mesmo ar alegre de antes –E agora vamos, ou sua avó vai nos escrever um passo-a-passo de como não nos atrasar! –
–Hum? – A menina inclinou a cabeça em um claro gesto de confusão.
A mulher loira apenas riu ajeitando a criança no banco de trás enquanto apertava seu cinto de segurança: –Se dê mais alguns anos e você entenderá... Confortável? –
–Uhum – Leslie assentiu feliz enquanto Sam lhe entregava seu cachorrinho de pelúcia e lhe fazia pequenas cosquinhas –Vamos para a casa da vovó! –
Assim que fechou a porta os gritos da menina se perderam um pouco; mas, todavia podia ouvir com ênfase as palavras “papai”, “vovó” e “mamãe” envolvidas na mesma frase, acompanhadas por risadas e gritinhos.
Nossa, mal saíram e já estava assim...? Boa sorte com essa bolinha de energia, Sra. B...
Empurrou uma mecha de cabelo por trás do ombro, e se despôs a abrir a porta do condutor quando uma clara voz feminina falou a suas costas.
–Pensei que não a encontraria... –
Sam permaneceu imóvel por alguns segundos –Louise? – Se virou.
Efetivamente, a jovem modelo estava a sua frente olhando-a com uma expressão incerta. Tão alta e bonita como sempre –Oi Sam –
–Ah, huh... Oi. –
Louise riu sem humor –Quase me resultou impossível quando Freddie me disse, no entanto... – A olhou fixamente: –O sinais saltavam só de olhar para vocês. Acho que fui absolutamente tonta para negar o que estava acontecendo... – Suspirou –Então é isso... –
–Ouça Louise, nunca quis... –
–De verdade? Não tenho tanta certeza assim... – Falou em tom irônico.
Sam apertou os olhos se colocando na defensiva. Não sabia o que ela poderia vir a querer a ponto de ir até ali atrás dela.
–Então, nunca quis separar meu namorado de mim? Nunca quis que ele voltasse para você? Nunca planejou nada disso? –
–Não, não planejei! –
–Não acredito em você! – Ressaltou –Em um momento estamos juntos e felizes na Europa e no outro só bastou você aparecer para que tudo mudasse da água para o vinho. –
–Acredite no que achar conveniente – Retrucou –Não ficarei discutindo sobre isso,, só porque acha que pode vir até aqui tirar satisfações... –
–Fique tranquila Samantha. Não vim para ameaçá-la ou algo assim, não faz meu estilo. Eu lutei, e reconheço que perdi... –
–Então por que veio? –
–Nada em particular – Suspirou e fez uma breve pausa antes de continuar –Tinha que comprovar por mim mesma as palavras de Freddie... –
O som de um vidro se abrindo opacou suas últimas palavras –Quem é essa moça, mamãe? – A voz de Leslie foi ouvida entre ambas num tom infantil.
Louise se aproximou ao vê-la: –Então, é ela... – A olhou com atenção –Freddie estava certo, se parece com você. Embora também vejo muito dele... – Riu –Disse que ela havia herdado a maioria das características de você, mas... A cor de seu cabelo é a mesma que a dele... – Inclinou a cabeça para olhá-la novamente –Não parou de falar nela desde que a conheceu no orfanato naquele dia , e agora entendo o porquê... Ela é um encanto... –
–Obrigada... – Sam engoliu o nó em sua garganta não entendendo a completa mudança de humor da outra mulher, talvez fosse porque agora a criança estava presente.
–Mamiii... Quem é? – A voz de Leslie insistiu retirando o cinto de segurança e abrindo lentamente a porta traseira do automóvel, saindo do carro em um pequeno pulo.
Louise sorriu simpaticamente –Extremamente curiosa para sua idade, mas muito esperta... –
–Ela é Louise, Less. A nam... –
–Amiga... – Lhe corrigiu com um sorriso, estendendo sua mão educadamente para a criança –Sou Louise, uma amiga de seu pai –
Leslie levantou um pouco as sobrancelhas e a olhou cuidadosamente, logo sorriu e pegou a mão sacudindo-a de cima para baixo –Olá, Sra. Louise! Eu sou Leslie! – Riu
–Um grande prazer, Leslie – Se virou para Sam quem parecia estar, todavia em estado de choque.
–Louise, nunca quis que você e Freddie terminassem assim... – Disse sinceramente –Sei que não acredita, e pode ser que nunca acredite, mas... –
–Não importa... – Levantou uma mão –Já não me importo mais. Aceitei a verdade tem muito tempo, e sua amiga Thaís apenas acabou por me confirmar o que já sabia... – Dirigiu um olhar para Leslie que com curiosidade seguia olhando-a, agarrada a seu cachorro de pelúcia –E eu não posso lutar contra isso... – Olhou para Sam –Nem contra você. Tem mais poder do que eu... – Apertou as mãos –Fiz todo o possível, mas não é a mim que ele ama... –
–Eu... –
Louise encolheu os ombros –Não foi de tudo tão ruim, acabei de fechar um contrato com uma revista em Luxemburgo para o próximo ano... – Ajeitou uma mecha de cabelo que caíra em seu ombro, antes de continuar –Sei que vocês dois têm muita coisa a esclarecer... – Disse com altivez antes de guardar silêncio por alguns segundos –Ele tem muito a lhe dizer... – Fez outra pausa –Sobre o que aconteceu durante todos esses anos... O modo de vida que ele tem adquirido... O homem que se tornou... Sei que irá escutá-lo, escutá-lo sem julga-lo. Ele precisa... –
Sam não respondeu.
–Freddie precisa disso, precisa de você... – Fez uma careta –Engraçado, ele sempre me fez pensar que não precisava de nada, que já tinha tudo... Mas não era assim... – Empurrou novamente a mesma mecha de cabelo para trás do ombro, e checou seu relógio de pulso –Bem, acho que já fiquei tempo demais... Só queria vê-la com meus próprios olhos, mesmo no fundo já sabendo o que encontraria, precisava comprovar pra mim mesma que não havia esperança... –
Sam olhou para Leslie e, em seguida para a mulher a sua frente –Mas você ainda pode... –
–Não – Balançou a cabeça –Não sou eu quem ele ama –
Sam abriu a boca, porém não conseguiu dizer nada.
–Devo ficar uns bons anos fora do país, talvez eu volte para a Inglaterra... Não tenho mais nada que me prenda aqui –
–Louise... Não sei o que posso dizer para que... –
–Não precisa dizer nada – A interrompeu –Não te culpo, e nem a Freddie... Era uma coisa predestinada, acredito em destino... –
O silêncio flutuou entre ambas. O assobio do vento era o único que se ouvia enquanto a atmosfera do ambiente mudara drasticamente se comparada há minutos atrás. E num gesto genuíno de confusão os olhos azuis de Leslie estavam completamente fixos em Louise.
–Você ganhou Sam. Legitimamente, a vitória é sua... – Falou simplesmente –Ambos merecem serem felizes... –
E Sam assentiu como se fosse à primeira ordem real que estava realmente disposta a cumprir...
A primeira e a única...
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Continua...
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