Caminhos
2 O Negócio
[10 anos depois]
— Ah~ Acorde! Anda logo! Eu tenho coisas pra fazer, Turon!
— Isso é jeito de me acordar, peste?
Eu estava exausto. Mesmo já fazendo isso há mais de 10 anos, a ideia de que meu anjo da guarda me obriga a fazer esse tipo de coisa a noite inteira me deixava cada vez mais cansado.
— Sim, é! Você tem que estar bem acordado ao anoitecer.
— Ah, tá bom, tá bom!
Caçar almas penadas não era o tipo de coisa que eu gostasse de fazer. Não era nem o que eu ESPERAVA fazer na minha vida. Foi tudo muito rápido e ao mesmo tempo natural.
Naquele dia, no hospital, Athos me explicou tudo. Ele foi enviado para que eu pudesse cumprir minha missão nesse mundo: evitar que as almas que nunca encontraram paz fossem banidas para o limbo. Não é algo recompensador, tampouco divertido — mas era algo que eu gosto de fazer, por mais incrível que pareça.
Após sair da cama, fui até a cozinha e peguei alguma comida aleatória na geladeira. A vida de caçador de almas é algo difícil mas que não proporciona coisas luxuosas. Mesmo que minha recompensa por caçar almas seja transferida para dinheiro, não era nem perto de ser suficiente pra sustentar uma vida decente. Minha vida basicamente se resumo a caçar almas de noite, dormir muito e não ter vida social ou qualquer tipo de vida. Mesmo com as almas estarem em pouca quantidade ultimamente, não é algo que me dê descanso.
— Turon, a gente já faz isso há mais de uma década e você ainda não se acostumou com isso, sério?
— Por que isso, logo agora? Você nunca se preocupou com o fato d'eu estar cansado ou não.
— Eu acho que você precisa de uma folga.
— Não, eu não preciso. Eu preciso fazer o que eu tenho que fazer e deixar que o destino escolha o que acontecerá comigo depois disso.
A conversa foi interrompida pelo som do meu celular tocando. Na linha era Quézia — sim, a mesma -, preocupada comigo, como sempre. Ela era uma das minhas únicas amigas, e a única que sabe o que eu faço e que me impede de ter uma vida propriamente normal. Pra ser sincero, ela é minha única amiga fora do... "trabalho". Após uma conversa de quase duas horas, eu tive que desligar, afinal, já estava anoitecendo.
— Você tem certeza de que está bem, Turon?
— Já disse que sim, Athos. Por que TANTA preocupação?
— Hunf. — Athos simplesmente bufou, abriu suas asas e levantou voo.
O trabalho de caçar almas é algo fácil. Athos procura almas penadas próximas de nós, e eu as bano para o limbo. É algo simples e rápido. Para que os caçadores não precisem viajar vários quilometros atrás de almas penadas por noite, cada país tem mais de 50 áreas, cada uma com seu caçador de almas. Quando eu comecei nisso, não havia sequer 10 áreas. De qualquer modo, hoje em dia sou um caçador de almas veterano, sem vida, sem nada do que me honrar.
— Hm? Turon?
— O que foi?
— Isso é... Você está ouvindo? — Athos olhava para longe, exatamente para o nada.
— Não, não estou. O que está acontecendo?
— É muita... corrupção... — Nesse momento, Athos caiu em cima de mim.
— Athos! Diga alguma coisa! ATHOS!
Eu balançava Athos, mas ele não expressava sequer um sinal de estar me entendendo. Rapidamente, fiz um chamado por ajuda próxima e esperei que algum outro anjo da guarda estivesse próximo para me ajudar.
Algumas horas se passaram até alguém aparecer: Alasse e seu protegido, André.
— Ahn? Athos? Turon? O que aconteceu? — Alasse estava chocada.
— Não sei, ele começou a ouvir algo estranho, falou algo sobre "muita corrupção" e simplesmente caiu. O que ele quis dizer com isso?
— Corrupção? Isso me soa familiar. Deixe-me ver... — André invocou um tipo de pergaminho mágico e começou a ler o mesmo.
— Ahn? O que aconteceu...? — Athos acordara.
— ATHOS! — Abracei ele fortemente — Eu fiquei tão preocupado com você!
— Claro! Corrupção! Um anjo caído passou por aqui e deixou essa área espiritualmente corrompida. Quando isso acontece, qualquer anjo da guarda começa a absorver sem intenção alguma essa corrupção, e ele acaba desmaiando por excesso de corrupção. É algo comum, nada demais. Só é algo... Raro.
— Um anjo caído? Nossa, faz tempo que eu não vejo um desses. — Alasse parecia exausta, após ter curado Athos — Eles são tão misteriosos ~
— De qualquer forma. Obrigado, André e Alasse, pela ajuda. Eu e Athos vamos para casa e vou ajudar ele a se recuperar. — Peguei Athos no colo e saí andando em direção a uma saída do local.
— Ei, Turon! — André gritou, após alguns segundos.
— Hm? O que foi?
— Desculpe.
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