Caminho para Felicidade
1 Único
Notas iniciais
Para Yasmin.
- Ei, por que não vai lá e coloca gasolina no carro? – Ela disse arrumando os óculos no rosto, seu olhar acinzentado me observava rapidamente. – Vou à lojinha e compro alguns salgadinhos...
Virei-me e segui suas ordens, aquilo me confundia, mas eu sabia faze-lo. Éramos apenas duas garotas perdidas no mundo, agora que o colégio tinha acabado estávamos em uma constante fuga do mundo real, vivendo uma maresia de momentos e sentimentos. Era como um escape de toda a realidade que nos cercasse, não demorou muito até que entrássemos no carro e fossemos pela estrada sem rumo, até a fronteira talvez.
Era ela, Veronica, e eu, Catherine. Ela possuía os cabelos escuros e lisos, óculos, baixa e totalmente decidida. Eu possuía cabelos negros, enrolados, minha confusão era latejante e minha pele morena, diferente daquela garota pálida que eu costumava seguir.
Aquela viagem significava tudo. Confusão. Decisões. Amor. Respirar. Viver.
Quer dizer, ela me amava como uma amiga, já comigo as coisas eram diferentes. Conhecemo-nos no fundamental, sentávamos um do lado da outra. Foi no primeiro dia de aula, eu estava confusa e não conhecia ninguém, um simples olá vindo do meu lado foi suficiente para me iluminar, um tiro certeiro em meu coração. E assim fomos crescendo próximas, ela me acobertava em meus dias de escuridão, enquanto ela me usava como um diário, ambas vivendo e tendo as descobertas da adolescência. Assim surgiu esse sonho, de um dia estar distantes de tudo e de todos, começou como uma pequena luz na escuridão em tom de brincadeira, depois de um tempo se tornou um motivo pelo qual continuar vivendo, agora era nossa realidade, apenas entrar no carro e dirigir.
Eu amava aquela garota, além de uma amizade que podia se desfazer a qualquer momento, ela era meu porto, minha alma e meu coração. Quando olhava em seus olhos podia ver tanto luz quanto escuridão, isso me confundia aos poucos, eu me sentia como um nada, ela como um tudo, algo tão especial que de longe podia se ouvir as batidas de meu coração. Mas algo acobertava esse amor, o medo.
- Cat? – Ouvi sua voz me chamar. – Preciso te apresentar alguém, esse é Andrew.
Ele esticou sua mão na direção da minha, sem saber o que fazer eu apertei, achei que era um velho amigo dela que foi para aquela região por algum motivo, mas mal entendi o que estava acontecendo quando ela sentou-se no banco de trás do carro. Durante todo o percurso, ela conversava com ele, enquanto de minha boca ecoava um silêncio mortal e constrangedor. O que estava acontecendo? Aquilo me confundia imensamente, alguém que mal conhecíamos estava dentro do carro que sonhamos quase que todas nossas vidas, invadindo um espaço que deveria ser apenas meu e dela. Assim que paramos o carro, ele foi tentar pegar uma vaga em um hotel longe da cidade, com aparência de uma pousada, segurei-a pelo braço e perguntei:
- O que estava pensando? – Tentei transmitir ira e paz equilibradas em minhas palavras. – Nem o conhecemos, por que chamou ele aqui para viajar conosco?
- Pois achei que seria divertido, lembra-se de nossas promessas?
- Fazer coisas loucas...
- Fala sério, puxamos um assunto no caixa, descobri que ele era apenas um viajante como nós, só que sozinho, tinha que dar uma chance para o cara se divertir. – Sua voz e olhar transmitiam uma inocência tão grande que fiz um esforço enorme para não me apiedar diante da situação. – Lembra-se de nós duas? Sozinhas e perdidas? Permita-se tirar os outros dessa situação.
- Temos uma à outra e isso é tudo!
- Talvez ele seja legal, vamos, não vamos ser egoístas.
Soltei seu pulso e ela saiu do carro. Eu tinha medo que ela tivesse razão. Por um estranho impulso algumas lágrimas saíram em meio à confusão, olhei para os dois lados e não tinha ninguém no estacionamento, então peguei alguns lenços no banco de trás do carro e limpei meu rosto, certifiquei-me no espelhinho que meus olhos não estavam vermelhos, então estava claro que eles não iam notar.
Em nosso quarto tinha apenas uma cama de casal, eu e ela dormimos juntas assim como na infância, ele se se encostou a uma poltrona. Mas na real, a maior parte do tempo ficamos conversando e vendo a televisão de tudo colocada sobre uma estante velha de madeira, que mais parecia um caixote.
- Ei, como foi seu primeiro beijo Catherine?
- Pode me chamar de Cat, eu...
- Ela nunca beijou, Andrew. – Ela me interrompeu, lançando um olhar malicioso a mim. – Como foi o seu?
- As garotas que eu beijei foram legais comigo, a primeira vez foi assustadora, mas depois fui me acostumando.
- Claro, você tem cara de quem beija muitas garotas. – Ela disse com uma voz irônica. – Eu só beijei uns dois garotos toda minha vida, não gostei.
- Talvez você goste do meu. – Ele disse dando uma risada, ela o lançou um olhar cortante que fez o mesmo se calar, eu permaneci em silêncio em meu canto.
De manhã saímos cedo e continuamos nosso caminho, passaram-se uns dias e eu esperei que ela o expulsasse, ele era um sarcástico que gostava de provocar a mim e ela, com piadas maliciosas, eu não gostava dele, porém, ele insistia em mantê-lo. Passamos por diversos lugares que enchem os sonhos das pessoas, desde bordas de florestas, praias e ver o sol nascer, por fim cair. Era o paraíso, principalmente por estar com ela do meu lado.
Era terça, um jovem e bela terça-feira que amanheceu diante de meus olhos, estávamos em uma casa de alguém, era em uma área rural e não tinha muitos lugares para se hospedar, fomos acolhidos por um casal de velhos que não aceitaram nosso dinheiro, então apenas ajudamos com coisas como limpezas, fazer a comida e carregar o lixo para fora, sem que eles pedissem.
Eu tinha acabado de tomar o café da manhã, estávamos fazia uma semana ali parados e era dia de partir, para tristeza deles, contudo, de algum jeito ou de outro, planejávamos manter contato e quando estivéssemos na cidade mandarmos um belíssimo quadro para eles colocarem em sua sala de estar. Carregava o lixo para fora, observando algumas macieiras não muito longe dali e atravessei a estrada de terra.
Andrew estava me seguindo, ótimo! Era tudo o que eu menos precisava!
- Cat, quero falar com você. – Seu olhar lançava certa maldade, aquele que ele sempre usava antes de uma piada maldosa. – Eu me lembro do dia que você disse que nunca beijou, não? Quero te livrar disso, é como uma corrente, não é?
Então ele se inclinou na minha direção, desviei, largando o saco de lixo no chão desferi um tapa em seu rosto. Ele ficou confuso, não parecia estar acostumado a ser rejeitado, peguei o saco de novo, continuei a caminhar, então parei, virei-me e disse antes de continuar com meus passos largos:
- Não é uma corrente e eu simplesmente não ligo de nunca ter beijado ninguém. – Seu rosto transmitia uma expressão de raiva e confusão. – Talvez se um dia você for menos babaca...
Eu estava irada com ele, sobretudo feliz de ter rejeitado um idiota feito ele, a única que podia tomar meu coração era Veronica. Aquele garoto tinha sido idiota a viagem inteira, o seu sorriso idiota, o seu olhar idiota, suas palavras idiotas, seu cabelo idiota, sua roupa idiota, seu rosto idiota e o modo idiota que ele se aproximava da garota que eu amava.
Quando partirmos, toda vez que um falava, o outro ficava quieto, não nos dirigimos um ao outro uma vez sequer, o assunto era apenas com Veronica, que não parecia estranhar a situação. Fizemos uma vaga no hotel, o dinheiro estava baixo e riscávamos planos para mantermos nossos pequenos papéis verdes que possibilitavam hospedagem e comprar coisas supérfluas, como salgadinhos e latas de refrigerantes.
- Estamos sozinhas, não? – Eu disse seriamente olhando para ela, a mesma se esforçava para abrir um pacote de biscoitos, mas se deu por vencida.
- Sim, estamos, Andrew foi ao estacionamento trancar o carro, por?
- É que eu queria... – Estava preparada para contar, guardei isso por muito tempo. Era a hora de certa de contar, eu não podia mais guardar para mim. – Podemos sair para comer em uma lanchonete hoje? Estou com vontade de comer um hambúrguer, mas só nós duas, só hoje, quero te contar uma coisa...
- Claro que podemos!
Ela disse sorrindo, então me disse que ia lá embaixo buscar uma das malas no carro e saiu pela porta. Eu sei, fraquejei, mas não conseguia, contudo, era aquela noite que eu ia contar. Eu amava cada detalhe dela, era como uma faísca na escuridão, a lua que iluminava a noite, um impossível possível. Sua suavidade fazia-me sentir quando minha mãe preparava um suco de maracujá para que eu pudesse acalmar minha ansiedade, então eu ficava olhando as sementes cortadas descerem até o fundo do copo. Ela era o amor, era todo o meu mundo. A luz depois da tempestade. A paz depois do caos. A felicidade depois do medo. Eu não podia esperar, eu tinha que contar, tê-la em meus braços para todo sempre, vagando com o carro pela longa estrada. Desci correndo as escadas, atravessei o estacionamento correndo:
- Eu... Te... – Eu repetia para mim mesma improvisando minhas palavras, quase que sussurrando. – Amo!
Então eu os vi, Andrew estava agarrado impulsionando Veronica contra a parede, eles nem me viram. Suas bocas estavam grudadas e ele a beijava de modo selvagem, me enojando. Mal pude segurar minhas lágrimas, eu corri, correndo e voltando para o quarto. Ela não me viu. Peguei minha mochila de viajante, coloquei só o que precisava, como roupas, um pouco de dinheiro e meu diário, tirei a pulseira que ela tinha me feito quando tínhamos 15 anos, o colar que ela me deu no meu aniversário de 18 e coloquei sobre a cama, mas peguei uma foto dela.
Assim parti, vendo a estrada deserta a minha frente, com poucos carros que raramente passavam e piscavam seus faróis. O céu alaranjado de fim da tarde que batia em meu rosto, tentando me iluminar, meus passos desajeitados e o medo predominante. Novamente eu estava sozinha, indo em frente e sem ela ao meu lado, nunca mais veria Veronica, era eu e o mundo. Tudo o que eu podia fazer agora era tentar esquecer-se do amor que eu tinha por ela e lembrar-me do amor que tenho por mim. E agora, eu estava perdida, só que não do jeito bom que costumava estar com a garota que eu amava, e sim perdidamente sozinha. Assim eu encontrava um novo mundo a minha frente, e eu tinha medo de não gostar dele tanto assim, de não encontrar o amor que eu sempre desejei em seu olhar, era eu contra o mundo agora.
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