Caminho de Lágrimas
22 Redenção
Notas iniciais
5 meses depois.
Era mais uma noite de um ataque qualquer á trouxas. A lua cheia estava alta no céu,espalhando seu brilho que iluminava palidamente o caminho de pedras e arvores mortas á minha frente,o inverno estava no auge e o vento frio castigava minha pouca pele descoberta. Uma máscara prateada tampava meu rosto,deixando uma áurea assassina envolta de mim.
Mas era isso que eu era.É isso que eu sou,uma assassina.
Para mim aquela noite não passaria de gritos e sangue. Parecia que eu via tudo em vermelho,a neve,antes branca da pequena vila,estava encharcada do sangue de um pouco mais de cem trouxas chacinados.
Um torpor sangrento tomava conta de mim desde aquela primeira noite.
A primeira noite,eu não gostava de lembrar daquilo,mas era inevitável,eu fechava os olhos e via as imagens se repetindo incessantemente na minha cabeça,me torturando,me enlouquecendo...
A voz da pobre menininha trouxa implorando por sua vida não saia da minha cabeça. Ela,que tanto lembrava á mim,estava encolhida no canto da sala de estar da casa onde ela dormia junto com as duas irmãs e os pais. Ela foi a ultima que sobrou,á ultima á morrer,aquela que teve de assistir seus pais serem torturados lentamente até a morte,e suas irmãs mais velhas serem estupradas até perderem os sentidos.
Mas ela deu sorte,ela era nova demais para representar algum perigo e nos dar motivos para matá-la primeiro,era jovem demais pra atrair algum dos comensais presentes,mas foi,dentre todos naquela casa,a que mais sofreu.
Naquela noite eu matei 20 pessoas,e torturei tantas que não me posso lembrar . Eu havia jurado á mim mesma que encontraria alguma satisfação naquilo.E de certa forma encontrei,principalmente ao matar o pai da família.
Ele era um homem bonito,deveria ter uns 40 anos,os cabelos grisalhos,me lembrava tanto meu padrasto. Foi incrivelmente prazeroso matá-lo.
Mas quando eu vi a pobre criança encolhida na minha frente,as lágrimas de pavor descendo pelo rosto,o corpo pequeno e frágil já debilitado pela maldição da dor.
Eu não conseguiria matá-la,jamais, porém uma voz atrás de mim me obrigou.
E quando eu matei-a, foi como se eu matasse á mim mesma, a dor foi insuportável.
Mas eu me acostumei á isso. Fui obrigada.
E agora a chacina recomeçaria, só que em outra vila.
Perguntei-me por um momento o que estaria Snape fazendo naquela hora.A ultima vez que o vi foi naquela noite,enquanto ele me observava matar os trouxas na casa.
Não foram só aqueles,ao todo quatro casas,de importantes governadores,foram atacadas. Eu matei todos,nenhum comensal tinha permissão para matar ninguém,apenas eu. Para mim era obvio que o Lord das Trevas queria me testar,e o que ele viu pareceu agradá-lo.
Eu era completamente submissa e impotente perante á ele,e meu poder era fascinante,o seu plano havia dado certo.
Voltando ao presente eu segui direto á primeira casa.Queria acabar logo com aquilo.
Era um casal e o filho adolescente. Matei-os enquanto dormiam,não estava com humor para mais gritos,mas eles logo começaram,os outros comensais gostavam de ouvi-los.
Passei por quatro casas,eu podia ouvir gritos femininos vindo de uma delas e me perguntei qual dos comensais estaria violando aquela mulher.Mas não importava,matei os trouxas que deveria matar e continuei.
Aquela gritaria começou á me irritar.Trouxas corriam pelas ruas apavorados,as casas não eram mais alvos pois eles estavam reunidos em uma praça,como se o fato de estarem juntos os protegessem de alguma forma.
Fui até lá,alguns comensais estavam reunidos torturando um casal para os outros trouxas assistirem.
Foi um alvoroço,os trouxas estavam em maior numero e começaram a atacar alguns comensais.
Ignorei a situação até que eu um trouxa conseguiu apunhalar um comensal pelas costas com uma barra de ferro,atravessando-o .
O mesmo homem veio na minha direção .Parecia possesso,eu odiava fazer aquilo,a sujeira era muita,mas não tinha opção.
_Já chega. – Eu disse e ergui minha mão apontando para o homem que vinha na minha direção.
Ele foi erguido no ar e permaneceu flutuando por alguns segundo,completamente apavorado.
Comecei a apertá-lo,como uma cobra que pressiona os ossos da vitima até quebrá-los,matando-o lentamente.
Eu pude sentir quando os primeiros ossos se quebraram sob a pele falsamente intacta do homem,ele sufocava,o sangue entrando nos seus pulmões que deveriam ter sido atingidos.
Quando ele começou a sangrar pelos olhos outros trouxas vieram tentar socorrê-lo e eu o matei deixando o corpo cair inerte na neve.
Depois ergui ambos os braços e fechei os olhos me concentrando.
Todos os trouxas em um raio de vários quilômetros começaram a flutuar no ar e a serem sufocados até seus corpos literalmente explodirem sob a pressão.
Quando eu terminei a neve antes branca estava empapada de sangue,ele corria como pequenos riachos nas calçadas.
Os outros comensais olharam atordoados e temerosos pra mim,eu os ignorei e dei as costas aos vários corpos espalhados pelo chão.
Tínhamos que sair logo dali antes que alguém da Ordem aparecesse. Mas as chances eram mínimas,não havia como eles saberem do que ocorria.
Porém quando eu atravessava uma esquina um raio vermelho veio na minha direção,não me acertando por centímetros.
Eu me virei.
_Ora,ora Tonks. Faz tempo que não te vejo. Deseja repetir a dose como na ultima vez? – Disse para a mulher pálida que tinha a varinha apontada para mim. Ela tremia de ódio,os olhos concentrados nos meus ,nem se preocupava em manter a oclumência,ela queria me matar,me torturar bem lentamente,me fazer pagar pelo rio de sangue que corria aos nossos pés. Ela viu tudo,mas não teve como impedir.
Quase no mesmo instante uma dúzia de bruxos saiu do beco atrás dela,atacando os vários comensais dispersados pela rua. No olhar de todos o ódio e a repulsa brilhavam,três começaram a me atacar ao mesmo tempo,mas eu não me mexi e eles ficaram observando frustrados enquanto todos seus feitiços eram desviados pelo meu escudo,que eu não precisava nem de uma varinha para fazer,já que a minha ainda estava guardada nas vestes.
Abaixei meu tom de voz e me aproximei deles que recuavam até o beco,quando estavam encurralados falei:
_Não quero matá-los,não quero te matar Tonks,eu realmente te aprecio,é uma mulher forte.
Ela olhou para mim,e mesmo no escuro eu podia ver o brilho do ódio no seu olhar,suspirei pesadamente.
Eu poderia matar á todos eles se quisesse,de uma vez e sem hesitar,mas eu não queria,aquele era um poder que eu escondia do Lord das Trevas veementemente,só Snape sabia da existência dele,e por algum motivo não contou á Voldemort.
Tinha medo do que ele poderia fazer caso descobrisse,só a pequena possibilidade disso acontecer já me dava arrepios.
_Mentirosa! – A voz de Tonks tremia de raiva – Eu vi você matando aqueles trouxas!O que quer de nós?Torturar-nos?Se for para nos matar que o faça logo,não hesite!
Suspirei cansada .Os outros dois observavam a conversa temerosos,mas eu pude ver que eles concordavam profundamente com Tonks e alimentavam o mesmo ódio por mim. Desde aquela vez...
_Se você soubesse Tonks... – Olhei para ela e permiti que meu olhar transparecesse toda a tristeza que eu sentia,pude ver ela vacilar na sua convicção – Não quero nada disso,eu acima de qualquer um não quero. Mas não posso evitar,minha sina é pior que uma Maldição Impérius. E repito,não vou matá-los,vou fazer ao contrário . Isso vai ser doloroso pra mim mas dou-lhe a minha palavra que nenhum membro da Ordem sairá morto daqui essa noite. Apenas me dêem essa chance.
Eles olharam para mim.Não pude ver mais o ódio nos seus olhos,o que eu pude ver foi algo próximo de pena.Eu não usava mais oclumência para me defender,queria que eles acreditassem e mim e pude sentir quando eles encararam meus olhos á procura de falsidade e tudo o que encontraram foi uma determinação sincera e triste.
Apenas Tonks mantinha uma expressão desconfiada,mas ela estava prestes á invadir minha mente,e quando ela o fez não á impedi.
Não deixei-a invadir minhas lembranças mas permiti que ela sentisse minha mente consciente,permiti que ela visse a minha dor,que sentisse a minha tristeza,que visse minha sinceridade,e quando ela se retirou parecia acreditar plenamente em mim.Mas o ódio continuava lá e eu sabia que ela jamais me perdoaria.
_Não há mais o que fazer aqui á não ser prender comensais,o que eu não posso permitir.Mas se vocês aceitarem,todos sairão vivos daqui.
_Nós aceitamos . – E quando Tonks disse aquilo eu dei as costas á eles dizendo : -Venham comigo.
Á passos receosos eles me seguiram até a saída do beco onde os bruxos lutavam de uma forma tão equilibrada que não havia ainda nenhum morto.
Na verdade um membro da ordem estava no chão sangrando,mas ninguém dava muito crédito á ele,estava a beira da morte,mas eu cumpriria o prometido.
Fechei os olhos me concentrando.Os membros da Ordem descobririam meu poder mas eu não estava preocupada com eles,e os Comensais nunca iriam saber.
Senti o tempo diminuir á minha volta,o vento passar pela minha pele com lentidão,acariciando-a,os sons ficarem cada vez mais lentos até que nenhum palavra pudesse mais se distinguir.Então abri meus olhos novamente e contemplei a rua da pequena vila parada no tempo,enquanto todos os membros da Ordem olhavam para mim de queixo caído.
Mas eles não confiavam em mim e antes que eu pudesse me defender alguém me atingiu com um feitiço.
Voei alguns metros até bater com tudo na parede de um pequeno edifício e cair no chão.
Observei o bruxo que havia me acertado. Lupin,á Lupin. Eu podia entender o que ele sentia quando se aproximou de mim,ainda caída no chão, e ergueu a varinha,não tentei impedir-lo.
_Crucio – O feitiço me acertou e a dor já conhecida se apoderou de mim.Mas eu não gritei,apenas fechei os olhos curtindo a sensação tão familiar que chegava á ser doentia. Quando ela passou eu abri-os e vi todos os membros da Ordem me observando,parecendo impressionados, enquanto Lupin me olhava com um misto de frustração e assombro. Eu poderia jurar que ele pensava que eu não senti nenhuma dor. Mas eu senti,senti todo o ódio dele sendo descarregado em mim. Eu apenas era mais forte que a maioria das pessoas ao resistir á maldição,talvez por ter sentido dores piores por muito mais tempo.
_Lupin pare,ela só esta tentando ajudar! – Um dos homens do beco gritou quando ele levantava a varinha mais uma vez,e eu não o impediria novamente,apesar de poder.
_Ajudar como?Ela é uma assassina!Todos vocês viram ela matando aqueles trouxas!Ela merece pagar! – Ele parecia possesso de ódio e eu fechei novamente os olhos esperando a dor que não veio.
Abri-os olhando para os bruxos á minha frente,curiosa.
_Ela fez um acordo com nós. – Tonks falou olhando para mim friamente.Eu queria levantar mas sentia que as minhas pernas não agüentariam meu peso.
_Que acordo? – Lupin de virou um pouco para ela,com a varinha ainda apontada para mim.
_Disse que se nós prometêssemos não prender nenhum comensal ela garantiria que nós saíssemos vivos daqui.
Lupin se aproximou de mim com a varinha ainda apontada e tirou a mascara do meu rosto.Todos me encararam.
Então ouvimos o homem caído no canto da rua tossir,aquele que estava quase morrendo,me surpreendi ao constatar que ele ainda vivia.Vários membros da Ordem foram até ele acudi-lo.
Trouxeram seu corpo para o meio da rua e enquanto a mulher dele,que estava presente,segurava sua mão e esperaram sua morte.Não havia nada que eles pudessem fazer.
_Eu posso salva-lo.
Minha voz saiu baixa e morta,mas todos se viraram para mim,me olhando com um misto de ódio,admiração forçada e curiosidade. Apenas a mulher que segurava a mão do homem me olhou com esperança.
_Não há como salva-lo — Disse Lupin olhando para mim com raiva, me culpando por dar falsas esperanças á mulher que esperava a morte do amado.
Levantei-me com dificuldade e a varinha dele acompanhou meus movimentos.
_Não há como vocês salvarem-no. Mas eu posso fazê-lo,irei cumprir a minha parte no trato.Ninguém sairá morto daqui.
_Á não ser pelos trouxas que vocês matou não é? – Respondeu Lupin cheio de amargura,olhando para o corpo de uma menina de uns quinze anos á alguns metros de nós.
Olhei para ele e disse com toda a sinceridade que pude exprimir.
_Não pude salva-los. Mas posso fazer algo por esse homem.
Ouvimos o homem tossir e expelir algum sangue e os membros da Ordem abriram espaço e me aproximei lentamente dele.
Ajoelhei-me ao lado de seu corpo e todos se afastaram.Menos a mulher que continuava a segurar a sua mão.Olhei para ela com compaixão e ela me devolveu um olhar marejado de lágrimas mas cheio de esperança.
_Não vai usar sua varinha? – Perguntou um homem que eu não conhecia á minha direita.Olhei para ele sem expressar nenhum tipo de emoção antes de dizer:
_Não preciso de uma varinha para fazer isso.
E como se confirmasse as minhas palavras coloquei minhas mãos sobre um ferimento profundo no peito do homem,provavelmente causado por um Sectusempra, o que dificultava em muito meu trabalho.Isso ia me deixar exausta.
Um brilho azul surgiu na palma das minhas mãos e palavras em uma língua estranha surgiram na minha mente.Comecei a dita-las me concentrando no ferimento.
O brilho aumentou até se tornar insuportável olhar para ele,então fechei os olhos.Minha energia se esvaia rápido mas eu não me importava,talvez fosse bom que eu morresse tentando salvar alguém. Seria a minha forma de redimir meus pecados.
Mas eu não morri.Quando eu terminei de falar o feitiço desconhecido o brilho de apagou e eu cai no chão completamente exausta,uma dor pior do que a da maldição cruaciatus se apoderando de mim.
Eu vi meio grogue quando o homem se levantou olhando para o próprio peito curado e abraçando a mulher.Para logo depois olhar para mim e a expressão de agradecimento que ele tinha para quem quer que tivesse o curado desaparecer.
Ele também havia visto o que eu fiz,o fato de tê-lo salvo não importava.O ódio substituiu o agradecimento. Mas em vez de me atacar como eu esperava ele apenas abraçou a mulher e beijou-a.
Senti que alguém me puxava pelos braços e me apoiava em uma árvore perto dali.
_Procure...Procure uma poção branca,e me dê,rápido. –Disse com a voz fraca á Kingsley Shacklebolt que estava na minha frente e me olhava com pena.
Rapidamente ele começou a revistar as minhas vestes e achou o frasquinho com a poção.Como eu não conseguia segura-la ele pegou no meu queixo e me fez beber.
Imediatamente eu gritei e me contorci no chão em agonia.Tentei me controlar ao ver as expressões temerosas dos bruxos á minha volta mas foi impossível.
Até que aos poucos a dor foi sucumbindo e eu me senti forte novamente.
Levantei-me do chão com alguma dificuldade e falei aos bruxos á minha volta.
_Minha parte no trato esta cumprida.Cumpram agora á sua e vão embora,deixem que dos comensais cuido eu.
Todos olharam para mim e depois para Lupin esperando um veredicto .Eu sabia que para eles era quase irresistível poder prender todos os comensais dali,que estavam tão vulneráveis á eles. Mas eu esperava de coração que eles cumprissem o que haviam dito.
_Façam o que ela disse. – E com isso todos eles desaparataram,me deixando incrivelmente aliviada.Eu sabia que uma punição me esperava no fim da noite mas isso não importava. Me sentia viva como nunca antes depois de ter feito algo bom.
Deitei-me no chão repondo a mascara de comensal e fiz o tempo voltar á passar,fingi estar tão surpresa com o desaparecimento dos membros da Ordem quanto todos os outros.Mas eu temia que o Lord não engolisse minha desculpa de eles terem alguma magia que nós desconhecíamos.Mas estava decidida á não dizer nada,mesmo que a pressão em obedecê-lo me matasse.
Notas finais
Mandem reviews,nem que sejam pra me xingar kkkkkkkk
Beijinhoss
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