Caminho de Lágrimas

20 Amargura e arrependimento


Notas iniciais
Boa leitura!

A noite era escura e fria apesar de estarmos quase no verão e em muito pouco tempo faria um ano que eu morava ali.

Eu estava sentada na sala decrépita de uma casa aparentemente abandonada entre tantas outras na rua da Fiação.Mas essa,ao contrário das outras,estava muito bem ocupada.

Tinha um copo de Wiske de fogo em uma das mãos e a outra pousada junto ao meu pulso direito,acariciando as marcas já antigas,me perguntando onde eu estaria se tivesse conseguido o que queria.

Mas eu sabia que não adiantava muito pensar sobre isso.Nada iria mudar,por mais que eu desejasse.

Já faziam umas duas horas que Severo havia saído.Nos primeiros meses eu mal sentia minha marca arder mas ultimamente ela tem ardido com freqüência,como se Voldemort quisesse me avisar do quanto eu estava perto de ter que servi-lo em seus planos sórdidos.

E pela primeira vez ela ardeu ao mesmo tempo que a de Snape.Eu vi a boca dele se curvar em uma careta involuntária enquanto me fazia praticar,pela milésima vez,as transformações do meu corpo,ele queria que eu pudesse mudar minha aparência como um metamorfogo,mas tanto eu quanto ele sabíamos que eu ainda não era capaz de fazer isso com rapidez.Mas da mesma forma ele me fazia praticar,talvez curtindo o prazer de me ver frustrada,de me torturar.

Mas voltando ao assunto,ele apenas me lançou um olhar de advertência,me dizendo que não deveria tentar nada,e depois saiu.

Como o chamado não era pra mim a ardência não era forte e eu não sabia para onde deveria ir,mas Snape me explicou : quando o Lord me chamar,a marca vai queimar como no dia em que foi feita,e eu vou imediatamente saber para onde ir.

Então eu fiquei lá.Olhando para a janela embaçada e curtindo o frio em pleno começo de verão.Agora eu já sabia o por que disso,dementadores,por todos os lados,fora do controle,usando trouxas,espalhando o frio,a dor,o horror e a desilusão.

Qual a maior arma em uma guerra do que a esperança?E quando ela é tirada?O que sobra?A resposta é simples : Nada.

O Lord e os Comensais estavam agora por todos os lados.Eles enfeitiçaram até cantores e artistas trouxas,na esperança de controlar o mundo de todas as formas possíveis antes de começar a verdadeira invasão.

Se você fosse trouxa,e vivesse naquela época,você veria cada dia mais artistas defendendo a violência.Incitando jovens á se drogar e depredar todos os valores e conceitos mantidos por tanto tempo.

E eu até já sabia o que esses artistas enfeitiçados diriam quando os bruxos fossem revelados. ‘’Dêem uma chance á eles.Nem tudo que é diferente é ruim.Não resistam,eles só precisam que nos deixemos claro que não queremos guerra,que não vamos fazer-lhes mal’’ E pronto.Os trouxas estariam mais desarmados ainda em relação aos bruxos,ignorando a importância de manter a pouca defesa que tinham.

Snape havia me explicado tudo.Ele também me alertou que poucos sabiam disso,só o circulo pessoal do Lord.Mas eu,acima de qualquer outro,deveria estar inteirada do que acontecia,principalmente por que eu fui obrigada á prometer que não diria nada.Não havia,então,comensal mais confiável do que eu.

Levantei-me depois de vários minutos refletindo sobre aquelas informações.Segui até a cozinha cinzenta e fria e lavei a lousa do jantar,á mão mesmo,precisava de algo,qualquer coisa,para ocupar a minha mente,ultimamente tão perturbada que dormir havia se tornado um desafio.

Quando terminei me encostei-me à bancada,colocando meus cabelos para trás.

Estava tão frio.Haviam dementadores por perto,eu podia sentir.O ar saia em lufadas de vapor visível pela minha boca,minhas mãos congelavam.Eles estavam perto demais.

Então,tão rápido quanto veio,a sensação de frio extremo sumiu,e eu respirei tranquilamente,indo até meu quarto e tomando um banho o mais rápido possível.

Depois vesti uma camisola branca,curta e pequena demais para se usar naquela noite.Mas eu não me importava muito,sentia até minha alma congelada,só que isso não tinha muito haver com a temperatura.

Então ouvi barulhos assustadores.

Alguém abriu com violência a porta de entrada e bateu ela com tudo na parede,para depois fechá-la da mesma forma.Depois ouvi barulhos de vidro sendo quebrado,como se alguém estivesse passando o braço pela estante cheia de bebidas da sala,derrubando-as no chão.

Logo em seguidas chutes,e mais barulhos altos que eu não podia identificar.

Eu estava rígida na cama.Era Snape fazendo aquilo?Mas ele foi sempre tão controlado.

Com um sobressalto eu ouvi que a mesa,onde eu costumava fazer as tarefas,era quebrada e um barulho de pano sendo rasgado me fez pensar que a cortina deveria estar destruída.

Os barulhos se manteram por mais alguns momentos.Enquanto alguém,provavelmente Snape,terminava de destruir o que sobrara da sala.

Depois...Silêncio.

Levantei-me silenciosamente da cama, e caminhei até a porta.Primeiramente minha intenção era trancá-la,em uma tentativa falha de me defender de um Snape que deveria estar louco para me encontrar e extravasar a raiva dele em mim,mas a curiosidade,e também,por mais que eu negue,a compaixão que eu sentia por ele falaram mais forte,e eu sai do quarto,á passos silenciosos,lentos e hesitantes,tentando enxergar o que foi feito na sala.

Estava tudo destruído.A cortina puída rasgada,a mesa quebrada,com vários pedaços de madeira pelo chão,todo o arsenal de bebida,menos uma garrafa,estava quebrado.Os livros espalhados,molhados pelo álcool,logo eles sempre tão bem cuidados,estavam agora no chão,as folhas espalhadas pela sala.

E Snape estava sentado na poltrona,tomando o liquido da ultima garrafa inteira,em um copo rachado. Ele estava assustador.

Suas mãos estavam feridas,provavelmente por culpa da mesa,sua capa estava no chão,suja de sangue e toda rasgada,dois botões da sua blusa estavam faltando,ele estava ofegante,mas o pior era sua expressão.

Ele parecia frio,como sempre,indiferente,mas seus olhos estavam em chamas,a dor incrivelmente legível para qualquer um neles.Na verdade,me parecia algo maior que dor.Parecia ódio,um ódio profundo,mas acima de tudo...Tormento.Snape parecia atormentado,como se estivesse em agonia.Ele olhava para a parede,mas não parecia vê-la.

_Esta gostando do espetáculo Katherine? – Sua voz inexpressiva e fria me sobressaltou,fazendo-me pular de susto e pisar em cima de um dos cacos espalhados pelo chão.Engolindo a surpresa e a dor eu me mantive quieta. – Quando eu fizer uma pergunta me responda.Diga.Diga para mim o quanto você esta adorando me ver nessa situação.Diga,quero ouvir de você,deve estar se sentindo vingada agora não é mesmo?Não é isso que você quer quando eu te castigo?Você não quer me fazer pagar?Fazer-me sofrer?Diga-me o tamanho do prazer que isso te dá.Eu quero ouvir.

Engoli em seco ouvindo suas palavras,cheias de amargura e de ódio.Ele ainda não olhava para mim,mas de repente desviou o olhar fitando-me.

Eu o sustentei sem desviar, e respondi,me surpreendendo quando minha voz saiu muito mais segura do que eu me sentia.

_Isso não me dá prazer.Não quero vingança.

Seu sorriso era muito sarcástico quando ele tomou um longo gole de bebida.Então sua expressão mudou.Passou para raiva.

_Mentira!Não minta para mim!Sei que é isso que você quer!É isso que todos querem,e você tem o privilégio de assistir de camarote.Acha que eu não vejo o ódio e o medo em seus olhos toda vez que me vê?Acha que não percebo á fora como me repudia? Eu sei que me odeia,não pode negar.Agora me diga apenas se isso te faz sentir vingada,se te da paz. — Ele parecia incrivelmente amargurado,terminou de beber em um gole e pegou a garrafa enchendo o copo novamente,a expressão vazia,olhando novamente para a parede.

Dei alguns passos para frente,corajosamente me aproximando.

_Não posso dizer que não o temo.Mas não o odeio .A ultima coisa que te ver assim me traz é paz . Apesar que,se sinto medo ou ódio de você,a culpa não é minha.

Ele voltou seu olhar novamente .E eu vi a ultima coisa que esperava.Lágrimas.As lágrimas enchiam seus os olhos ,ameaçando cair,quando uma delas escapou escorrendo por sua pele,e ele rapidamente secou-a,recompondo-se.

Me aproximei mais até encará-lo de perto,ignorando a ardência no meu pé e evitando pisar nos cacos,ele mantinha o olhar preso ao meu.

_O que ouve? – Perguntei simplesmente. Snape continuou me encarando,procurando o ódio,o medo,a repulsa,ou até o prazer que ele esperava,mas sem encontrar nada.Desviando os olhos fitou o chão,olhando o nada.

_Eu o matei. Eu o matei. – Ele disse,a voz embargada pela dor e pelo arrependimento. – O único homem que confiou em mim.Que me acolheu.Eu o matei,essa noite.Enquanto permitia que os Comensais o humilhassem.

Abri a boca várias vezes mas toda vez que ia falar minha voz não saia.Havia um nó na minha garganta dificultando a passagem do ar.

Eu sei que vocês vão pensam,’’Ela é louca,não deveria fazer isso’’ mas eu não sei de onde,alguma força invisível me forçou á fazer aquilo e eu me ajoelhei na frente dele,tirando do caminho os cacos de vidro com as mãos tremulas,e forçando-o á me encarar.

_Quem Severo?Quem você matou? – Ele me fitou,cheio de dor,e respondeu com a voz embargada.

_Dumbledore.

Senti o chão vacilar embaixo de mim.Eu não conhecia Dumbledore,mas sabia sobre a importância dele.Com Dumbledore morto,era um passo para a vitória do Lord.E eu ainda alimentava esperanças de que isso não acontecesse.Mas com ele morto,as chances eram mínimas.

A realidade me abateu por um segundo.Eu iria viver daquela forma pelo resto dos meus dias,quem sabe para sempre,não tenho certeza se essa magia me deixou imortal ou desacelerou meu envelhecimento.

Num movimento impensado eu segurei a mão direita de Snape,que pareceu surpreso,mas não á soltou.Eu tremia e estava incrivelmente gelada,na verdade,naquela hora eu percebi que tremia de nervosismo e frio.A mão dele era quente,mas a palma estava ferida,apesar de não sangrar mais.

Sem mover nem um músculo ou pronunciar qualquer palavra eu me concentrei e curei o ferimento.

_Obrigada. – Sua voz saiu rouca e baixa.Sem o toque de sarcasmo que eu esperava.

_ Sinto muito – Ele ergueu a cabeça.Seus olhos ônix estavam mais escuros do que nunca,sem fundo,e diferente da maior parte das vezes,intensos.

Eu cheguei mais perto dele me encostando em suas pernas,e sem aviso previu eu segurei seu rosto e beijei-o.Senti sua mão ir imediatamente para a minha nuca me puxando.Seu beijo era urgente,selvagem,quase violento,e eu sabia que ele procurava uma forma de aliviar a culpa que o corroia por dentro.

E eu lhe daria uma forma de fazê-lo.

Notas finais
Então gostaram?esse capitulo ficou extremamente triste,eu sei,mas eu avisei,a história é dramática...Quero reviews!!Eles me deixam tão feliz!