Não saberia se iria aguentar mais um segundo sequer naquele estado. A dor lhe envolvia por completo, sangue escorria dos cortes profundos em seu braço esquerdo, e lágrimas caiam em suas bochechas.

Como se deixara ficar assim?

Desde quando ela era fraca?

Logo aquela menina que sorria para tudo e todos...

Logo aquela menina que ninguém imaginaria sofrer, porém sempre sofreu...

Aquela menina que sempre estava com cortes nos braços, mas ninguém via, pois ela escondia os cortes com blusas de mangas compridas.

Ninguém percebia, afinal, quem imaginaria que a menina sorridente e perfeita sofria?

Todos achavam que ela tinha a vida perfeita.

Aquela menina, com altura média, pele de porcelana, olhos acinzentados, e cabelo loiro escuro, liso, e comprido, com uma franja que caia no rosto. Era sem dúvidas, linda. Diferente das outras garotas. Tirava notas altas, e os professores a adoravam. Porém, apesar de falar com todo mundo, não tinha amigos de verdade. Tinha colegas, os quais nunca se interessaram em realmente conversar com ela, apenas a cumprimentavam.

Era uma menina solitária, afinal de contas. E certas palavras a magoavam. Seu pai sempre brigou com ela, exigia o máximo, e se ela não conseguisse, era “inútil”, “a decepção da família”. Sua mãe só trabalhava, não pensava em outra coisa. Depois de seu marido morrer, e deixar ela e a filha sozinhas, ela precisava trabalhar mais ainda, para sustentar as duas.

Com seus 16 anos, a filha se sentia um fardo a ser carregado pela mãe. Sentia dor, raiva, e nojo de si mesma. Decidira não ser mais um incômodo. Iria se suicidar. Assim, quem sabe sua mãe poderia recomeçar a vida, e não teria que trabalhar tanto para sustentar a filha.

Já havia preparado os remédios que iria tomar. Suspirou fundo, e olhou pra cima, tentando não chorar mais, porém as lágrimas escorriam pelo seu rosto.

Tomou os remédios com um pouco de água, deitou-se na cama, e ficou refletindo sobre sua vida, com uma ponta de arrependimento de ter tomado aquela decisão, agora já levando em conta que, quando fechasse seus olhos, jamais voltaria a abri-los novamente. Porém agora já era tarde demais...

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