Caminho Incerto
2 Prologo
Tres anos.
Três anos se passaram desde que a minha vida mudou. Se vos disser que fiquei feliz com uma nova mudança, não. No início fiquei aterrorizada, quis morrer, fugir, tirar dentro de mim o que me faria ter que mudar mais uma vez a minha vida. Porém, ao ouvir pela primeira vez o bater do coração daquele que me traria o melhor de mim para fora.
Foi difícil, não o vou negar: fazer faculdade, trabalhar para conseguir pagar as contas, ser invisivel para o mundo sem o poder ser...tudo isto grávida. Sim, eu esperava um filho do meu amor, daquele que me roubou o coração e de quem fugi. Consegui sem ninguém saber uma vaga na faculdade em Espanha...ficar em Portugal era impensável, para quem queria desaparecer.
— Mamã...- quando olho para a porta da cozinha onde bebia um café e relembrava a minha vida, antes deste pacotinho rosa aparecer na minha vida. Maria da Luz, a minha vida, e verdadeiramente a minha luz.- Coio...- abaixo-me um pouco e a pego ao colo. Luz tem quase tres anos, é um doce de menina, fala português e espanhol, e adora ir para a escolinha.
— Bom Dia Pipoquita...- dou-lhe um beijo na sua bochecha, e ela se aninha no meu ombro...- Queres o teu leitinho?- pergunto, enquanto lhe faço festas nas suas costas...
— Mi Botella mamã...- diz ela levantando um pouco a sua cabecinha do meu ombro.
— A mamã vai fazer, vamos sentar na tua cadeira...- ela assente e a sento...- a Mamã hoje não vai trabalhar então que tal irmos passear só as duas?
— Luz no va a escuela?
— Não, hoje a Luz não vai à escola.- minha pequena embora falasse bem o portugues, amava falar no seu espanhol meio encurtado...pelo menos de manhã, à tarde assim que chegava da escola ela só falava em Português.- Aqui tens minha pipoquita...enquanto a Luz bebe o leitinho a mamã vai tomar banho sim...não saias daí.
— Non mamã...
E assim passamos o dia, Luz saltou, correu, brincou...e ao vê-la feliz eu sei que fiz o certo. Foi duro, foi difícil...mas ver a felicidade da minha menina era o mais importante, como se costuma dizer a cereja no topo do bolo. Sei que um dia ela me vai perguntar pelo pai, será inevitável, e sinceramente não sei o que lhe vou dizer. Fui eu que a escondi do pai, ele nem sabe que ela existe...
Mas eu não podia continuar em Coimbra, tudo me sufocava, tudo me fazia mal...estar com o meu pai me fazia mal. Era como se todos os dias revivesse o mesmo pesadelo. Ir para Lisboa, seria o mesmo que estar em Coimbra, com a agravante de me poder encontrar com aquele que me fez quase desistir de viver. A solução que encontrei, foi candidatar-me para uma bolsa em Espanha. Claro que para a minha família eu iria estudar para Lisboa, e ficaria em casa da Tia Marta.
Separar-me do Diogo, foi talvez aquilo que mais me custou. Aquela noite, em que me entreguei a ele, de alma, corpo e coração...foi sem dúvida a mais feliz da minha vida. Ele foi super cuidadoso, carinhoso, sempre preocupado se realmente eu estaria preparada para o que iríamos fazer...e eu estava, quer dizer mais ou menos.
Estaria a mentir claramente se dissesse que tudo estava bem dentro de mim. Porque na verdade eu estava realmente apavorada, na minha mente sempre me vinha aquela noite em que...tudo aconteceu, porém o meu Príncipe percebeu o meu nervosismo e medo, e foi-me sempre acalmando, quer com carinhos quer com palavras doces: "Eu estou aqui, não vou deixar que nada te aconteça...eu amo-te, e sabes que se não quiseres, eu vou esperar. Basta uma palavra tua...", o resultado daquela noite está bem aqui ao meu colo: Maria da Luz.
— Mamã...fominha.- a minha princesa diz colocando-se de pé...- Luz qué batata fita e buguer.
— Ainda ontem comemos pizza Luz, hoje vamos para casa. A mamã fez lasanha...- Luz olha para mim...e com o seu bico mais lindo...
— Mamã...eu queo...po favo.- Nego com a cabeça...- Mamá ... quiero, po favo. Luz no estropeó, e una chica hermosa.
— Maria da Luz, chega. Podes parar com a birra...- ela olha para mim fingindo que não percebeu o que lhe disse, Luz é ardilosa, quando quer algo que eu não lhe dou, ela simplesmente coloca a sua faceta de espanholita...- Luz, mira a mamá. No más rabietas, hoy nos vamos a casa a comer la lasaña, que sé que te encanta.
— Podemos complal helado en el mercado?
— No sé si te lo mereces después del berrinche, pero está bien.- E uma Luz animada salta e grita à minha volta...- Vamos al mercado a comprar el helado...
E assim seguimos até ao mercado. Quando estávamos a sair, Luz fez outra birra, pois queria ser ela a levar o saco onde estava o gelado, mas como decidi fazer mais algumas compras, ela nunca conseguiria levá-lo, estava demasiado pesado. Então ela resolveu fazer das suas, sentou-se no chão e armou um berreiro, decidi pegar nela ao colo e seguir com ela para casa. Quando por fim consigo pegar em Luz e nos sacos, dou de caras com a pessoa de quem mais saudades eu tinha no mundo.
— Madalena, és mesmo tu?
— Eu...eu...- e agora o que faço...
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