Camila, Camila!

1 O vale sombrio


Notas iniciais
Lembrando que essa fanfic é triste e retrata uma realidade infelizmente sofrida na vida real, porém aqui é apenas ficção.

Naquela manhã de sábado ela não acordou, isso porque não havia nem conseguido dormir. Visões cruéis iam e vinham de sua mente perturbada, ainda podia sentir as mãos dele tocando cada pedaço de seu corpo, os gritos que ela queria tanto libertar abafados pela mão imunda dele em sua boca. A forma como ele mais uma vez conseguiu concluir aquilo a fizera tremer derrotada.

Chorou compulsivamente com a porta de seu quarto trancada. Pura inocência de sua parte. Se ele estivesse mesmo disposto conseguira ir atrás de si até o inferno e mais uma vez, mais uma imunda vez abusar de seu corpo, nunca acostumado com a brutalidade daquelas mãos enormes e aqueles olhos insanos que a machucavam ainda mais.

— Abra Camila! — A voz de sua mãe rude demais para que ela pensasse em desobedecer.

Foi andando até a porta daquele maldito quarto. Odiava a si mesmo. Odiava também à sua mãe, e até o seu pai que morava tão longe e supostamente não sabia de nada, ela odiava. Com uma angústia absurda perturbando seu ser ela abriu a porta e deixou aquela mulher entrar.

A mulher analisou-a de cima abaixo e sorriu satisfeita ao ver que Camila havia acatado sua ordem vestindo uma bela roupa, para que fossem viajar. Por um momento Camila pensou em esbofetear o rosto daquela senhora que havia à trago pro inferno, mas algo dentro dela bem no fundo de si ainda era bom, ainda estava intacto.

— Tente melhorar sua expressão Camila, saíremos em menos de dez minutos. — Falou antes de sair dali.

Mais uma vez ela trancou a porta. Chorou um pouco mais permitindo-se quebrar alguns objetos daquele humilde cômodo. De alguma forma sentia-se culpada, ele havia pedido para entrar em sua vida e ela ainda sem conhecê-lo verdadeiramente, aceitou.

Quando sua mãe casou-se com aquele homem ela pensou que a vida das duas melhoraria um pouco mais, quer dizer deixariam de passar fome e trabalharem tanto para ter o que comer. Mas aquela união maldita trouxe para Camila a pior das dores. Agora as memórias do momento em que conhecera o filho daquele homem que casou-se com sua mãe eram como o registro de sua morte.

Ele parecia um anjo naquele dia. — Canalha. — Ela falou tão baixo a ponto de que nem pudesse ouvir à sua própria voz. — Ele parecia tão bom naquele dia, tão honesto... Começaram a ser amigos e ela mal podia se lembrar de terem passado muito tempo separados, mesmo que ele fosse onze anos mais velho e que não fossem irmãos unidos por laços de sangue. Exatamente dois meses depois quando ela havia chegado tarde da casa de sua amiga, ele estava esperando por ela na sala, mas as luzes estavam apagadas e ele estava muito diferente naquela noite. E quando ele se aproximou tão rapidamente e a prensou naquela parede, ela pode perceber que ele não estava bêbado, drogado ou louco...
Ele sempre estava sóbrio quando aquelas coisas aconteciam. "Você é do mal" Ela gritara algumas vezes na intenção de ofender a ele, e defender a si mesmo, mas ele apenas a mandava calar a boca ou magoava ainda mais sua carne com alguma violência cruel.

Mas o fim de tudo não havia sido os tapas que recebera, a perda forçada e cruel de sua inocência, ou os insultos que ouvira da boca daquele homem. O fim foi quando ela desabafou com sua mãe aos prantos, coberta de vergonha e dificuldade e aquela mulher, sua única proteção parecera não te ouvir, como se ela nem estivesse ali. "Mãe, você ouviu o que eu disse?" Os olhos marejados implorando por socorro, sua pele extremamente branca brutalmente marcada pela marca daqueles dedos, e a dor em sua alma ao ouvir aquela mulher que à gerou e a trouxe a vida dizer : " Esqueça isso".

Batidas incessantes à fizeram estremecer em meio aquelas lembranças. Ela colocou um cinto em sua calça jeans e abriu a porta quase conseguindo gritar ao ver a figura dele ali, extremamente maior que ela, o olhar a consumindo antes de chegarem ao destino imposto pelo pai dele e a "parente" dela.

— Vamos. — Ele disse já alegre matando Camila ainda mais por dentro.

Todo o trajeto ela passou pensando no por que de tudo aquilo acontecer com ela, não que ela desejasse que acontecesse com outra mulher em algum local do mundo, ela apenas não entendia por que ser tão cruel, trazia tanto prazer à alguém. Dentro daquele carro maldito ela fazia o possível para estar o mais longe possível de seu agressor, mental e físicamente. Porém ela não conseguia, não. Os risos cumplices da sua mãe e de seu padrasto ecoavam pelo ambiente à fazendo sentir nojo e raiva de estar viva, mas ao mesmo tempo ter uma esperança mínima de aquilo era só um sonho ruim, um pesadelo infernal que passaria quando ela acordasse, mas infelizmente ela não acordava nunca, nunca.

— Não vai curtir a paisagem "Ca" ? — Ele perguntou sendo respondido pelo silêncio dela. Ela não falava com ele, essa era uma forma de pensar que ele não existia e como consequência, ela não estaria sofrendo tanto.

— Deixe à em paz! — E então ela olhou pra seu padrasto perplexa. Talvez ele realmente não estivesse mentindo quando a procurara tentando saber o que estava acontecendo com ela pra estar tão triste pelos cantos. Para espanto de todos naquele carro ela sussurrou um pequeno obrigada para aquele homem que dirigia pensativo.

[...]

Num canto afastado da escola encarou a cicatriz profunda em seu braço esquerdo esforçando-se ao máximo pra não chorar na frente daquelas pessoas. Todas às vezes que tentava se defender adquiria algum ferimento mais profundo. Olhou pro céu azul em busca de mais algum motivo pra continuar tentando.

Ela permitiu-se então ir ao aniversário de dezoito anos na casa daquela mesma amiga que ela havia estado até mais tarde no dia em que tudo aconteceu. Logo estaria completando aquela idade também, mas ao contrário de sua amiga, completar mais um ano não a trazia o menor traço de felicidade.

Arrumou-se o melhor que pudera e tentou parecer um pouco mais feliz. Desceu as escada de pernas bambas e um medo hospedado no peito, não queria encontra-lo em sua ida e menos ainda em sua volta.

— Onde vai ? — Apenas por ouvir o som de outra voz humana naquela casa ela tremeu e quase caiu do mediano salto que usava. Era seu padrasto, para sorte dela.

— Vou a festa de minha amiga. — Respondera tão trêmula e pálida que o homem quase chamou a ambulância. Aquela não era à mesma menina que conhecera quando apaixonou-se pela mãe dela, algo estava errado.

— Divirta-se filha. — Ele disse cordial. Mesmo não sendo intencional ela revoltou-se ao ser chamada de filha, pelo pai daquele... daquele... homem que à fazia tanto mal.

Na festa ela se distraiu um pouco, chegou a sorrir algumas vezes. Nada exagerado ou à altura do que ela precisasse ou merecesse. Mas foi após os parabéns e as felicitações finais que a realidade a voltou a mente, o sorriso fugira de seus lábios róseos e seus olhos verdes voltaram a transmitir a tristeza crua de sempre.

Com um abraço de sua única amiga, ela foi embora para sua realidade, seu carma...

Dentro daquele táxi ela já temia as mãos brutas daquele homem apertando-a, aquele corpo nojento forçando-a, aqueles olhos brutais a fazendo sentir-se um lixo. Uma lágrima correu por sua bochecha ao pressentir que talvez não conseguisse chegar a tempo em seu quarto e trancar à porta, antes que ele conseguisse alcança-la, novamente.

Entrou naquela casa correndo o mais rápido que pôde em direção as escadas quando ele puxou-a com força, fazendo com que seu corpo magro voltasse imediatamente e fosse parar no chão.

— Não! — Ela sussurrou. — As lágrimas vieram como um carro em alta velocidade. Nem sequer tentou se levantar, já não conseguia mais lutar...

Ele levantou o seu vestido já pronto para mais uma vez fazer aquilo. Camila fechou seus olhos esperando pela dor carnal e espiritual, mas um barulho de vidro espatifando-se fez com que ela os abrisse. Quando suas orbes verdes contemplaram o ambiente, ela viu seu agressor desmaiado no chão e varios pedaços de vidro estavam espalhados naquela sala. De pé com um pedaço de caco de garrafa nas mãos, estava seu padrasto. Ele à ajudou a se levantar, ela ainda estava em choque, mas aliviada por não ter sido tocada naquela noite.

— Me desculpe por não ter conseguido perceber isso antes. — Ele disse. — Disse abraçando à sua enteada com uma dó imensa e o coração apertado. Ele chegou a imaginar que aquilo estiivesse acontecendo, mas não tinha certeza de que o seu filho que ele criou de uma forma tão integra, tivesse coragem de fazer algo tão monstruoso.

Obrigada. — Ela conseguiu dizer ainda trêmula e agradecida. — Todavia o que ouviria depois que à faria entender que aquela esperança que carregava no fundo de seu coração, não era em vão.

— Não se preocupe, eu já chamei a polícia. — Sua mãe disse na escada. Ela ficou sem entender por algum tempo, até que ouviu novamente a voz de sua mãe. — Me desculpe por não ter acreditado quando você me disse. — Com um abraço ela os agradeceu e aquela fase cruel de sua vida chegou ao fim.

[...]

Uma nova vida nasceu para Camila, sua mãe e seu padrasto. Com a prisão daquele homem eles foram embora pra outra cidade, nunca mais voltaram a vê-lo, até seu o seu pai fez questão de nunca mais ter contato com seu filho. À mãe de Camila nunca mais duvidou de qualquer palavra que saíra da boca de sua filha que a perdoo de coração puro. Tornaram-se uma família unida, mesmo com marcas irreversíveis, uma verdadeira família.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!