Camaleão
3 Alguém deseja compartilhar arquivos com você. Aceitar?
Notas iniciais
— Saia de perto de mim, seu idiota – Sarah ralhou – É a última vez que te digo isso. Se não, vai experimentar o que nunca quis.
— Calma, Sarah – falou o outro amigo do outro lado da chamada em conjunto – Você leva isso muito a sério!
— Ah, é? Olha isso daqui, Borya! Sinta o poder da minha espada.
Sarah apertou a tecla “C” inúmeras vezes. Mesmo estando de fones de ouvido, barulho que saía do fone era audível no ambiente exterior.
A tela do computador projetava o porão de um castelo antigo projetado em terceira dimensão. Aquela localização era uma das formas de acessar a base do inimigo.
No seu time, Sarah era a linha de frente da equipe. O seu personagem era um guerreiro viking que manejava uma grande espada capaz de projetar danos colossais para os seus inimigos.
— Aliosha! Me cura! – Constantin pediu do outro lado da linha – Estou perdendo HP!
— Ajuda está ao caminho! Aguente firme!
Aliosha moveu o seu personagem próximo ao de Constantin. Na tela, podia-se ver as bolas verdes flutuantes irem de encontro com a maga de destruição que pertencia a Constantin.
— Tome isso! Para aprender não mexer mais com quem não deve! — Sarah disse ao atacar o elfo de Borya.
— Eles estão perdendo feio – Lars disse no outro lado da linha.
— Se você jogasse bem, já teríamos ganhado essa partida – respondeu Sarah.
Após a fala, uma grande onda de “Ahooo!” tomou conta da linha.
— Podia dormir sem essa! – Aliosha respondeu.
— Vamos, Lars! Ponha essa assassina para se mexer.
— Cuidado! Aí vem mais uma onda daquelas aranhas esquisitas! – Clement disse.
— Eu vou te mostrar quem não joga bem aqui!
— Isso mesmo! Quero ver você jogando.
Sarah foi de encontro com a maga curandeira que representava o colega Stanis. Ela sabia que o personagem era fundamental para manter a equipe viva até o final da partida. Aniquilando Stanis, eles estariam livres para massacrar o grupo oponente.
— Você está jogando baixo, Sarah! – Alisha disse no outro lado da linha.
— Não existe baixo ou alto no campo de batalha, querida amiga!
— Acredito que esteja certa, amiga! – Hannah disse do outro lado da linha.
Sarah pode ver o seu personagem perder 45% de vitalidade. Ela havia sido atingida por um ataque sorrateiro da assassina que representava Hannah. A personagem atingiu covardemente o viking com duas adagas.
— Aliosha! – Sarah bramou – Isso foi um golpe sujo!
— Estou indo, Sarah!
— Rápido! – exclamou enquanto ativou o efeito que se chamava “Fúria do Norte”.
Esse efeito acrescentava um dano de “100%” na espada do viking. Isso significava que se desse um golpe com o potencial de destruir 100 pontos de vida, teria a vantagem ampliar o ataque para destruir 200 pontos do inimigo.
Observou a barra de saúde de Hannah. Ela possuía 350 pontos de vida. Embora fosse tentador, não iria atacar a amiga.
Sabia que se desse o golpe na assassina de Hannah, o mago de Stanis poderia restaurar alguns pontos perdidos. Ou seja, gastaria um golpe em vão.
O foco era o mago curandeiro. Movendo o mouse, selecionou o curandeiro e despendeu o golpe.
Com satisfação, pode ver os números da barra de saúde do mago desaparecerem por completo.
O mago de Stanis tombou no chão.
— Como pode, Sarah?! – Borya gritou.
Enquanto isso, o mago de Aliosha invocava o feitiço de “Renascimento”, o qual teve o efeito de restaurar a saúde do viking por completo.
Após isso, Sarah mudou de foco. Era momento de se vingar da amiga.
Selecionou a assassina de Hannah e escolheu o golpe desejado. “Pássaros de Espada”, um golpe que imobilizava o inimigo.
Iria aprender uma lição. Nunca mais brinque comigo, garota.
— Hannah, esse é especialmente para você!
A assassina de Hannah ficou petrificada enquanto a maga de Clement invocava feitiços de destruição. Podia-se ver claramente a barra de vidas decair até não restar mais nenhum ponto.
— Boa, Sarah!
— Que companheiro de jogada, hein! Queria sempre jogar com você, Clement. É o melhor mago de destruição que já conheci.
— Muito bom saber disso, senhora Sarah! – Lars falou do outro lado da linha.
Enquanto isso, ele estava lidando com o soldado romano de Alisha.
No lado direito da tela, o nome de Hannah havia ficado acinzentado.
— Bom, só resta nós dois Alisha! – Borya disse.
— Estamos em menor número, mas podemos vencer.
— Está tendo dificuldades por aí, Lars? – Clement perguntou.
— O que você acha?
— Se soubesse jogar, isso não estaria acontecendo! – Sarah replicou.
Os amigos reagiram com uma onda de gargalhadas.
Novamente, Sarah usou o golpe “Pássaros de Espada”. Mas dessa vez, foi para paralisar o soldado de Alisha.
Reconhecia que aquele personagem possuía habilidades muito poderosas e que seria uma ameaça para o time.
Enquanto isso, Lars atacava o seu oponente enquanto Clement lançava feitiços no arqueiro de Borya.
Não perdeu tempo e rapidamente colocou o viking para auxiliar o personagem de Lars.
Até que finalmente o soldado romano tombou.
— Borya! Agora só tem você – Sarah disse cheia de energia.
— Renda-se ou morra!
— Se eu me render, perderei XP! Prefiro morrer! M-O-R-R-E-R! Desistir, jamais!
— Então você escolheu a morte! – Clement disse, lançando uma bola de fogo no arqueiro.
Rapidamente o viking correu até o arqueiro elfo de Borya e desempenhou ataques constantes.
— Isso é covardia! Quatro contra um?
— Não, isso é extremamente justo. No começo vocês estavam também em quatro.
Após essa fala, o arqueiro foi lançado no chão.
Sarah recebeu em sua tela uma grande mensagem anunciando “Vitória”.
— Vencemos! – Clement exclamou!
— Yay! Vocês venceram, nós perdemos – Alisha ironicamente falou.
— Gente, tenho algo para anunciar – Borya disse – Depois dessa surra, gostaria de falar algo bom.
— O quê? Olha! Novidades! – animada, Sarah exclamou.
— Sim! Hannah e eu iremos nos casar no próximo mês!
— Uau! Que legal! – Alisha respondeu.
— Que maravilha! Fico feliz por vocês – Aliosha disse.
— Meus amigos já estão se casando. Cara, já estamos ficando velhos. Em breve estaremos tricotando juntos – Sarah comentou.
— Que bom! Meu amigo Borya em breve será um homem casado! – Lars disse.
— Comida de graça! Não vejo a hora desse casamento acontecer. Não como salgadinhos a vontade há meses – Clement confessou.
— Clement, meu amigo, você não precisa esperar o casamento dos nossos companheiros acontecer para se empanturrar de salgadinhos e fast-food. Hoje a tarde haverá a festa de aniversário do Lars na cafeteira Kingdom.
— Poxa Lars, já estava me esquecendo do seu aniversário – Hannah disse – Parabéns, meu amigo!
Os amigos em um coro desafinado cantaram Parabéns para você por meio da videoconferência.
— E quem será que o Lars vai casar?!
— É com a Sarah!
— Mas vai depender se ela vai querer!
Os amigos riram mais uma vez.
— Então, gente, posso esperar por vocês? Às 17 horas na Kingdom.
— Sim, estaremos lá. O que você quer de aniversário, Lars? – Hannah perguntou.
— Não precisa levar coisa alguma, Hannah. Será algo só entre amigos... Nada muito complexo.
— Para ser honesto, o meu personagem precisa de uma nova skin... Sem contar que já gastei todos os meus diamantes – Lars confessou.
— Não acredito que você está incomodando os nossos amigos com esses pedidos idiotas que só você sabe fazer – indignada, Sarah disse.
— Mas foi eles que perguntaram...
— Ok... Ok... Estaremos lá. Vou te que sair, meus pais estão me chamando – disse Clement – Tchau, amigos.
Os amigos se despediram e encerraram a chamada.
Nos finais de semana era comum ter esse tipo de encontro virtual com os amigos. Estavam tão saturados pela rotina estressante, que procuravam alívio no jogo favorito do grupo.
Na semana estressante, Sarah não via a hora do final de semana chegar. Reclamava todos os dias úteis sobre como o sábado estava tão distante!
Mas além disso, esse sábado era mais do que especial. Era aniversário do namorado. Estava muito feliz em estar mais uma data comemorativo com ele.
E esperava estar juntos em todas para sempre.
— Que barulheira é essa, Sarah?
— Mãe! Você estava em casa todo esse tempo? Achei que tinha saído.
— Acabei de chegar. Hoje o culto foi mais demorado... Falei com a sua prima Zara depois da reunião.
A sua mãe era um membro assíduo de uma igreja pentecostal que se localizava no bairro em que moravam. A assiduidade dos pais nos cultos da igreja estava presente na sua vida desde pequena.
Mas quando ocorreu o falecimento do pai, havia se revoltado contra tudo e todos. E principalmente contra Deus. O Deus que eles tanto falavam!
Não conseguia entender... Como esse Deus que tanto amavam não havia poupado seu pai de ser consumido por um câncer que aumentava de forma progressiva? Logo ele! O seu pai! Um dos membros mais antigos da congregação.
Quando viu o sepultamento do pai, nunca mais quis ouvir o nome “Deus”. Não suportava quando a mãe começava os discursos sobre quem ele era e o que fazia. Um certo dia havia perdido a paciência com a mãe. Não aguentava mais ouvir aquelas mesmas palavras. Foi aí que explodiu. “Não quero ouvir mais sobre isso. Não irei perder meu tempo com essa crença idiota. Ele matou o meu pai! Você sabia disso, mãe? Matou! Aquele que vivia falando dele. Se ele irá me punir de qualquer forma, que seja o odiando!”.
Essas palavras ecoavam em sua mente com muita frequência.
— Para você ter demorado dessa forma, devem ter conversado bastante! Quais são as novas?
— Não estávamos fofocando, Sarah. Seu tio expulsou ela de casa.
— Por que???? O tio Tushar está maluco! Ela sempre foi uma garota exemplar. Sem erros, sem deslizes.
Perfeita demais, pensou Sarah.
Embora o pai fosse um fervoroso seguidor do islã, Zara seguiu os passos da sua tia Prisha, a mãe de Sarah, e se tornou uma adepta ao cristianismo. Embora Prisha estivesse bem feliz com a escolha da sobrinha, Sarah ficou triste por ela.
Zara havia ficado desinteressante. Era impossível ter uma conversa com a prima que durasse mais de dez minutos, sem que ela citasse Deus ou alguma passagem da Bíblia.
Mas além de triste, Sarah sentia um misto de angústia com preocupação a respeito dela. Quando descobrisse, o seu tio iria ficar furioso com a sua filha. Jamais aceitaria que os filhos seguissem outra doutrina além do islamismo.
— E está mesmo! Sabe o que ele fez, Sarah?! Expulsou a garota de casa! Disse que estava perdida por minha causa. Você acredita?!
— Bom, que você converteu ela para o cristianismo, isso é verdade... Mas ele não tinha esse direito, mãe! Mesmo vivendo em um país diferente, ainda não mudou a sua mentalidade fanática.
— Sim, Sarah... Mas o que me preocupa não é a mente fechada do seu tio. É a sua prima. Não posso deixar que Zara fique na rua. Não tenho alternativa a não ser acolher a pobrezinha conosco... O apartamento é pequeno, sim... Mas ela precisa de nós... Do nosso apoio nessa escolha tão importante que fez.
— Do seu apoio, mãe.
— Do nosso. Não é apenas porque ela escolheu um caminho diferente em relação ao do pai, mas porque ela ainda é da nossa família.
— E onde ela vai dormir?
— Que pergunta! No seu quarto.
— Não, mãe! Não pode fazer isso!
— E por que?
— Eu durmo tarde... Eu... Eu... Tenho minhas coisas para fazer!
— Zara também faz faculdade como você, minha filha. Quanto a isso, ela vai entender.
Sarah suspirou penosamente.
Não iria ter a privacidade que tanto gostava.
— Vamos, levante-se! Zara está na sala. Está ansiosa para te ver.
— E por que? O que tem demais nessa minha cara cheia de olheiras?
— Pare de besteira, Sarah! Ela tem muito afeto por você e sempre admirou sua inteligência. Mesmo você achando diferente.
— Ah, mãe. Você dizendo assim... Até fico lisonjeada.
— Pare de gracinhas! Saia dessa cama agora, antes que eu mesma tire você daí.
— Tá, tá, tá, tá... Estou indo! – levantou-se da cadeira – Espero que valha a pena, mãe. Se não, vou ficar muito brava com você.
**
Sarah recortava ansiosamente a fotografia que segurava em suas mãos. A foto que estava sendo recortada era uma caracterização de um dos momentos que Lars e ela estavam passeando pela Praça Vermelha. Lars sorria ansiosamente enquanto fazia o gesto de “paz e amor” com a mão direita, enquanto Sarah olhava despercebida para direita.
— Vocês parecem ser um casal muito ligado, prima – Zara dizia enquanto colava as fotografias já recortadas no álbum caseiro que a prima estava preparando.
— Sim, Zara. Nós realmente temos muito em comum. Antes de sermos namorados, somos melhores amigos.
— E você está preparando essa surpresa há quanto tempo?
— Há dois meses atrás. Mas não tive tempo para terminar. Deixei tudo para última hora. Ainda bem que está aqui para me ajudar, prima. Estava com medo de não dar tempo – por um momento, deu uma pausa – Você vai conosco, não vai?
— Ah, Sarah... Eu não sei não... Eles são seus amigos, não meus.
— Mas eles são pessoas maravilhosas, prima! E podem ser seus amigos também.
— Eu não tenho tanta certeza.
Sarah respirou fundo. O vírus da chatice ataca novamente, pensou.
— Prima – Zara mudou de assunto – O que significa esse recorte de revista? Esse desenho é bem bonito!
— Esse é o nosso jogo favorito. Foi onde desenvolvemos nossa amizade.
Sarah passou outra fotografia já recortada para prima.
— Esse dia foi quando nós participamos da competição de videogames feita pela própria faculdade – explicou.
— E ganharam?
— Não, perdemos. Podíamos virar o jogo, mas não deu tempo. 10 a 9! Por causa de um ponto!
Zara deu uma risada.
— Poxa, mas que trágico!
— Lars sempre foi ruim nas nossas disputas. Ele morreu dez vezes nessa partida. Acho que se ele tivesse se esforçado mais...
— Mas mesmo assim você gosta dele.
Sarah deu de ombros.
— O amor é realmente cego... E você, Zara... O que está fazendo ultimamente? Já tem alguém?
Uma onda de constrangimento pousou sobre o rosto moreno da indiana.
— Não, prima! O que é isso?! Não posso pensar nisso agora... Estou vivendo algo que nunca vivi antes.
— Você está falando sobre o tio ter expulsado você de casa?
— Não... Quer dizer, mais ou menos. Quero dizer que tudo que estou vivendo é tão diferente... Algumas coisas foram realmente ruins – olhou pensativa para janela – Mas acho que vale a pena, sabe? Passar por tudo isso... Posso ver o quão forte é a minha crença.
— Não vejo por esse lado...
— Talvez um dia você entenda, prima.
— Eu duvido muito... – Sarah disse pensativa. Achou melhor mudar de assunto. – E como está o curso de matemática?
— Estou amando, prima! São assuntos pesados, mas a matemática é algo sublime e genial. Quase perfeita...
Sarah balançou a cabeça em tom de concordância.
— Quando tive a matéria de raciocínio lógico, o meu cérebro quase explodiu. Mas é bem satisfatório quando se aprende de verdade.
— Sim! – Zara disse – Confesso que estou sofrendo com o Cálculo...
Sarah riu.
— Ainda bem que já passei dessa fase horrível.
Sarah ouviu o beep do celular soar pelo quarto.
Quando viu a notificação, não pode manter o sorriso por muito tempo. De forma gradativa, sua expressão foi ficando com um tom agudo de preocupação.
Era número desconhecido.
De novo.
?????, às 16h17: Me entristece o fato de uma garota tão ambiciosa como você desprezar uma proposta tão benéfica como a minha.
Ontem te esperei e você não apareceu.
Você me fez perder tempo, Sarah.
E eu não gosto disso.
Mas fiquei tranquila. Vou te dar mais uma chance.
Na verdade, te darei mais que uma chance.
Já ouviu aquele ditado que diz que “a verdade dói, mas liberta”?
Pois bem, minha querida Under Citizen.
Eu irei libertar você dessa mentira que vive.
Aqui está. Tome isso como um presente de quem te admira muito.
O arquivo está livre de vírus, confie em mim.
Você decide o que fará com essa informação.
Ps: Dê os parabéns a Lars por mim.
Essa mensagem tem um anexo: Lars.zip. Baixar? [sim] [não]
Fale com o autor