Camaleão
1 Última Memória
Notas iniciais
Ouvi Gymnopédie No. 1, de Satie, para inspiração.
Era uma colina alta, verde consumindo toda a superfície, a não ser por um pequeno círculo de terra em torno da árvore, que fora plantada bem no topo. Hannah sempre ia para o mesmo lugar, e ele sabia disso. Por esse mesmo motivo, observou da janela do sótão a menina de vestido amarelo, que não percebeu seu olhar. O sol já estava se pondo, e sua resolução se dissolveu: não havia muito mais tempo, e não queria que sua última memória dela fosse por essa janela apodrecida, velha e sem graça.
Hannah brincava com as folhas de grama, olhar perdido no movimento de seus dedos, mente pesada. Ela gostava de estar feliz, e não de se sentir triste. Todos a conheciam por “sorriso de sol”, um apelido que o pai lhe dera quando pequena e seu cabelo ainda era loiro escuro, quase castanho. Agora já era tão claro que lembrava trigo — ou, pelo menos, era isso que a avó dizia. Dispensou o pensamento com um sorriso singelo, tremendo levemente pelo vento frio que embaraçou os fios de seu cabelo para longe do rosto.
Dois sapatos marrons polidos e com óbvios sinais de desgaste, como a linha entre couro e salto se desfazendo, pararam ao lado de Hannah. Ela não precisou olhar para saber quem era.
Ele observou as planícies em que cresceu, rosto descontraído como quem está relaxado, mas ombros e o resto do corpo tensos como o de um homem ansioso. Estalou o pescoço com delicadeza, mas sem desviar o olhar fixo dos montes de feno e cercas de madeira.
Tendo abandonado o movimento de seus dedos desde que ele chegara, a garota passou a apoiar a mão mais próxima de seu corpo e recolheu mais suas pernas. Ele poderia fingir o quanto quisesse, mas ela sabia que o menino não estava lá simplesmente para se despedir: era uma última chance, uma última chance para dizer qualquer coisa que quisesse. Então, com o coração pesado, Hannah aceitou.
“Isso é um adeus, não é?” o garoto continuou encarando a mesma área, sem se mover. Ela se forçou a sorrir, mesmo que só um pouco, mesmo que ele não estivesse olhando. Deu uma risada com pouco som, se encolheu mais ainda nela mesma. “Não vou mais te ver, vou? Disseram que…-” E ela parou, pois ele estava olhando para ela. Mas assim que foi pego, o dono dos sapatos marrons voltou o olhar para o que havia lá em baixo.
Se contorceu em si mesma mais ainda, um pouco envergonhada, talvez, de… bem, ela não sabia de que. Ele a deixava tímida, insegura, com o maxilar apertado. Respirou fundo, apreensiva. Tentou se distrair por esticar e alisar a saia do vestido.
“Vem cá, me diz uma coisa…” os dedos que desamassavam o vestido estavam tremendo, então ela segurou uma mão com a outra sobre suas coxas. “Não dói?” Ela chegara ao ponto, finalmente, mas o menino desviou o olhar das planícies para um ponto ainda mais longe de Hannah, “... nem um pouco?” e o sorriso que ela ainda estava segurando deu lugar para lábios apertados e trêmulos. Ele continuou parado, estático, olhando para o novo ponto, quase que seguro de não vê-la mais pelo canto do olho. “E-eu imaginei que não.”
Os olhos dela começaram a lacrimejar, e Hannah queria tudo menos isso, mas não havia como evitar. Veio uma após a outra, silenciosamente caindo e deixando pequenos rastros pelo rosto. Retraída, abaixou pouco a pouco sua cabeça até que seu queixo quase encostava em seu peito.
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