Cama de Gato

31 Você nunca vai acreditar em mim!


E lá estávamos nós quatro, congelados, tal quais estátuas, então George teve a iniciativa.

— Não quer entrar e jantar conosco, Elias?

Eu nunca vi Elias daquela maneira antes, totalmente, sem palavras.

— Sim, obrigado — balbuciou, enquanto George lhe dava passagem.

Meu namorado parou junto à mesa, me ignorando olhou fixamente para a outra mulher,

— Não sabia que tinha voltado, Letícia.

— Eu cheguei, hoje pela manhã.

Foi aí que ele se lembrou de mim e se curvou para me beijar, seus lábios estavam secos.

Sem dúvida nenhuma, aquele jantar seria bem bizarro.

Os dois homens tomaram os seus lugares, eu me servi e ofereci a travessa a Elias, que fez o mesmo e passou para George. Até ali, ninguém havia falado nada.

— E como é a Austrália, Letícia? — perguntei, em um tom falsamente alegre, quebrando o silêncio, enquanto comíamos, ou melhor, eu comi porque os outros só brincavam com a comida, a empurrando de um lado para o outro.

— Muito bom, estou gostando bastante de morar lá.

— Deve ser difícil para você, ficar longe do seu namorado, por tanto tempo — Elias falou, em um tom ácido.

— George é muito compreensivo, entendia que eu precisava ir embora daqui, porque era importante para mim.

— Sim, George é muito compreensivo e prestativo — Elias é irônico, não estou gostando nada daquilo, olhando inquisitivo para ela.

— Sim, ele é. Entendia que eu necessitava me afastar por um tempo, ir embora daqui — Letícia rebateu, de um jeito duro, sustentado o olhar.

Onde está toda aquela maturidade de antes? Agora, só vejo um monte de emoções reprimidas, pronta para explodirem.

Mas, espera aí? Por que Letícia precisava tanto se afastar? Será que era ela no vídeo de sexo com Elias que foi parar na rede? Isso explicaria muita coisa.

— Mudanças podem ser muito boas — Tento amenizar o clima.

— Sim, principalmente, em certas circunstâncias — Letícia completa, seca.

— Gostaram da massa? — George pergunta, em um tom falsamente leve.

— Está ótima como sempre, George — respondo no mesmo tom.

— Você deve conhecer bem a massa de George — Elias se volta contra mim, fico sem resposta.

— O que é isso, Elias? — George interveio.

— Eu não sei? Diga-me você, por que sempre encontro as minhas namoradas na sua casa? O bonzinho do George está sempre disposto a proteger as donzelas contra o perverso Elias.

— Sim, ele está disposto, principalmente, quando o namorado da donzela a expõe na internet, em um vídeo de sexo — Agora, é Letícia que fala mais alto.

Será que ela está falando dela ou de mim?

— Eu já disse que não fui eu, porra! Você nunca vai acreditar em mim! — Elias berra, ficando de pé, em um gesto brusco, balançando a mesa e derrubando os copos.

— Por favor, Elias, pare com isso! — eu peço, ficando de pé, e segurando o braço dele.

Letícia, também, se põe de pé e o encara de um jeito desafiador.

— Eu não acredito em você! — vocifera, entredentes.

Atônito, Elias dá um passo para trás.

— Não fui eu, juro! — ele repete, baixinho, mas os olhos de Letícia são frios como aço.

— E melhor, a gente ir agora, Elias — falo baixinho e o puxou.

Ele resiste, no primeiro momento, mas, por fim, me segue.

Descemos pelas escadas, então ele se senta nos últimos degraus, apoia os braços nos joelhos, esconde o rosto e começa a chorar, compulsivamente.

— Não fui eu — repete baixinho.

Eu me sento ao lado dele, passo meu braço sobre seus ombros e o aconchego junto a mim, deixando ele chorar, não sei o que pensar.

— Vamos para a minha casa — peço, quando ele se acalma.

Naquela madrugada, na minha cama, Elias dorme agarrado a mim, como se fosse um bichinho de pelúcia e eu não prego os olhos. A certa altura, meu telefone se ilumina, estranho chegar uma mensagem àquela hora da madrugada, me estico, com muito cuidado, para alcançá-lo.

“Você está dormindo? ” É George.

“Não”.

“Quer conversar? ”

“ Sim”.

“Em 5 minutos, na escada”.

Deslizei dos braços de Elias para fora da cama, vesti um casaco comprido e sai do apartamento, sem fazer barulho, direto para a escada de incêndio. George já estava lá, sentei-me no degrau, ao lado dele.

— Oi, como você está? — ele me pergunta, em voz baixa.

— Confusa. E você?

— Estarrecido, não espera por aquilo.

— E Letícia?

— Chorou muito até dormir.

— Elias também. Então, foi Letícia a garota do vídeo de sexo?

— Foi, mas eu havia prometido a ela não contar a ninguém. Ela ficou muito mal, por isso foi para Austrália, para esquecer, em um lugar que ninguém a conhecia.

— Eu entendo, mas Elias afirma que não foi ele.

— E você acredita, Sabrina?

— Eu não sei, é muita coincidência ter acontecido com nós duas. Vou confessar uma coisa a você sobre Elias. Ele é um tanto exibicionista. Gosta de fazer sexo com as janelas abertas e em lugares públicos, sendo assim, para um vídeo na rede, é um pulo.

— Ele teria que ser muito cafajeste para fazer algo parecido.

— E você acha que ele não seria capaz?

— Eu conheço Elias, há muitos anos. Ele é meio estranho às vezes, no entanto, não tenho certeza, se seria capaz de tamanha sordidez, principalmente, porque ele gostava muito de Letícia. Desculpe por dizer isso.

— Não faz mal, eu entendo.

— E agora, o que você vai fazer, Sabrina?

— Eu ainda não sei.

Ele segurou a minha mão e eu encostei minha cabeça no ombro dele, assim, tivemos alguns minutos de paz.

Elias foi embora cedo, dizendo que tinha assuntos a resolver na boate. Que estranho! Trabalho no domingo? Contudo, foi bom porque estava cansada e queria aproveitar o resto do domingo, dormir um pouco mais, faço um café e sento para relaxar, no entanto, não consegui fazer o que queria, pois, a campainha tocou. Pelo visor, avisto Letícia parada na frente da minha porta, poderia, simplesmente, ignorá-la, mas respirei fundo e abri.

— Elias já foi? — perguntou, em voz baixa.

— Sim.

— Podemos conversar?

— Se quiser. — Dou de ombros, com falsa indiferença, abrindo a porta para lhe dá passagem. — Estou tomando um café, você quer?

— Sim, obrigada.

— Sente-se que eu já volto. Açúcar?

— Não, puro.

Vou até a cozinha e logo retorno, com uma xícara com café, que entrego a ela, puxo uma banqueta e me sento, bem na sua frente, dá para ver o quanto está apreensiva.

— Sobre o que quer falar?

— Primeiro, quero me desculpar pelo o que aconteceu, ontem, na casa de George, mas perdi a compostura, quando me reencontrei com Elias, achava que depois de tanto tempo, eu iria segurar a barra, mas não consegui.

— Você acha que foi ele que postou aquele vídeo?

— Eu tenho certeza que foi. Eu sei que aconteceu a mesma coisa com você.

— Sabe?

Ela sacode a cabeça.

— George me contou e me disse que no seu caso não dava para reconhecer você, bem diferente do meu. Eu estava bem nítida e a cores. — Ela esfregou o braço como se quisesse se aquecer. — Nunca devia ter permitido fazer aquela filmagem, mas você sabe como é Elias.

— Sei.

— E eu o amava muito — Ouvi aquilo foi estranho, contudo, não tanto como eu esperava que deveria ser. — Ele insistiu e disse que iria apagar logo, que era só uma brincadeira, depois veio com a história de telefone roubado e tudo mais.

— Então, por que tem tanta certeza que foi ele mesmo?

— No começo acreditei, ele me deu o maior apoio, levei um tempo para entender o que aconteceu.

— Como?

— Eu me lembrei que dias antes, Elias pediu para que eu o surrasse com um chicote, dizendo que precisava ser punido. — Eu enrijeci, ela notou. — Ele fez isso com você, também?

— Sim.

— Antes de você saber do vídeo? — Confirmei com a cabeça. — É isso que ele faz, como fazia com o pai dele, cometia uma travessura para ser punido, era a única forma de ouvir o pai dizer que o amava, enquanto o surrava.