Cama de Gato
25 Você me enganou
Tudo o que aconteceu no apartamento de Elias havia me deixado ainda mais atordoada em relação a ele. Eu nunca me imaginei com uma pessoa que curtisse essas coisas, pelo menos, que soubesse. Nos dias que se passaram, não tocamos mais no assunto, foi como não tivesse acontecido, como um sonho, e, como ele disse, até as marcas nas suas costas desapareceram.
Elias era o de sempre charmoso, sexy e com aquele seu adorável jeito descompromissado de ser, no entanto, toda vez que eu o olhava, lembrava da cena: ele nu e de joelhos enquanto eu o chicoteava até meu braço cansar. Aquilo era muita doideira.
Uma dessas madrugadas, deitado na minha cama, olhando para as janelas dos prédios do outro lado da rua, tive vontade de perguntar as questões que dançavam na minha cabeça, desde aquela noite, assim, me voltei para ele, encarando o seu perfil.
— Não foi a primeira vez que fazem isso com você, não é?
— O quê? Ser chicoteado? — Eu concordei com a cabeça. — Não — respondeu, com o olhar perdido em algum lugar fora daqui.
— Por que você gosta que batam em você?
— Eu me sinto bem, puro, limpo dos meus pecados.
— Isso me soa tão antigo, muito medieval, por que querer sofrer assim? É muito estranho para um homem igual a você.
— Você jamais entenderia.
Não sabia se queria entender.
— Hoje à noite, não vou trabalhar, quero levá-la a um lugar.
Fiquei surpresa e empolgada, pois, raramente, fazíamos algo diferente, a não ser ir a festas e a boate.
— Onde iremos?
— Surpresa! Não vou dizer até estarmos lá. Ah! Não precisa se preocupar com a roupa, só use aquele lingerie bem sexy.
Ainda não tinha ideia para íamos, quando o carro dele singrava pelas ruas íngremes e tortuosas, cercada por grandes muros e densa vegetação, eu sabia que aquele era um dos bairros mais elegantes e caro da cidade. Enfim, o carro parou diante de um grande portão e Elias digitou o código, que nos deixou passar.
— Que lugar é esse? — perguntei, quando estacionou e saímos do carro, pois, mesmo com a pouca iluminação, podia ver o grande e impotente casarão adiante.
— Essa é casa dos meus pais. Mas, não se preocupe, eles estão viajando — avisou, depois que parei, vacilante.
— Mas, se eles não estão em casa, o que estamos fazendo aqui?
— Eu já disse para não se preocupar, é a casa dos meus pais, não estamos invadindo, eu tenho a chave e o código do alarme, só queria que conhecesse o lugar onde cresci.
— Jura! — Fiquei muito sensibilizada.
Realmente, ele tinha a chave e sabia o código para desativar o alarme e, quando acendeu a luz, tive uma surpresa, segurei o ar.
— É bem imponente — Não sabia o que dizer diante daquele lugar, que refletia um alto padrão de luxo clássico — Dá até medo de andar, esbarrar e quebrar algo, pois teria que vender a minha alma para repor qualquer objeto daqui. Não teve ter sido fácil crescer em um lugar assim.
Observo as pesadas cortinas de veludos, os sofás elegantes forrados com tecidos nobres, os tapetes orientais e muitos quadros nas parede e objetos de decoração de aspecto muito, muito caro, com ar opressor.
— Realmente, não foi. Eu e minha irmã tínhamos medo até de respirar para não estragar nada. Quer beber alguma coisa. O velho tem um bar incrível, tem bebidas que você sequer imaginaria que existisse — disse, seguindo para outra sala, eu fui atrás dele, mas parei diante de um imenso piano de cauda preto e uma coleção de porta-retratos de prata de lei, emoldurando figuras rígidas, reconheci Elias em diferentes idades, em algumas delas.
— Você toca? — quis saber, passando os dedos, levemente, pelas teclas.
— Não, mas minha mãe e irmã tocam. Eu não tive vontade de aprender. Tome. — E me entregou um lindo e pequeno cálice de cristal com um líquido rubro, que provei.
— É bom.
— Um vinho do Porto de mais de cem anos — fiquei abismada e virei o copo. — Quer mais?
— Não, obrigada
— Experimente esse — E me entregou um corpo pequeno e baixo, experimentei o sabor era forte e rascante. — Um uísque escocês de 70 anos.
— É forte. — Com uma careta, devolvi o copo a ele, que tomou um pequeno gole. — Já conheci o bastante do bar do seu pai.
— O que gostaria de ver?
— O seu quarto.
Ele me deu um sorriso malicioso e me guiou escada acima, passamos por um corredor escuro, sem poder ver nada, confiei nele, me guiando pelo caminho que devia conhecer bem. Paramos diante de uma das inúmeras portas, entramos em um recinto mergulhado no breu, esperei que acendesse as luzes, mas, em vez disso, me agarrou por trás, me acariciando por baixo da roupa, beijando meu pescoço, minha nuca, meus ombros, enquanto me despia. Eu não me espantei, já estava me acostumando com esse tipo de atitude dele. Sem me soltar, ele me levou para frente, alguns passos e tropecei caindo de bruços sobre uma cama alta e macia, podia sentir a delicadeza da cobertura, seda. Ele subiu em mim, segurou os meus cabelos e me cavalgou como se fosse um cavalo xucro, rude, quase ríspido, fazendo meu corpo deslizar sobre a seda macia até não aguentar mais e gritei de prazer, ele deu um gemido gutural e desabou sobre mim. Ficamos ali deitado por algum tempo, o corpo dele pesando sobre o meu, só respirando. Ele rolou para o lado, ficamos deitados ali no escuro.
— Onde estamos? — Lembrei de perguntar.
Percebi que ele se movimentou e a luz de um abajur se acendeu, clareando, tenuamente, o ambiente do quarto de casal tradicional e clássico, estamos deitados em uma grande cama de madeira escura e colunas, na parede um quadro pintado a óleo dos pais dele, com expressões severas, quase como se nos recriminassem pelo que acabamos de fazer, aquilo me embrulhou o estômago.
— Esse é o quarto do seus pais? — Sento na cama e olho em volta.
— É — respondeu, sem emoção na voz, e puxou a calça para cima, tirou de lá, o maço e o isqueiro, recostou nos muitos travesseiros e acendeu um cigarro sem cerimonias, afinal, ele não estava na minha cama.
Enquanto, eu fiquei encolhida aos pés da cama, tentando pensar naquilo tudo.
— Você trouxe aqui, para transar na cama dos seus pais? — perguntei, com uma aparente calma.
— Não vou mentir para você, foi.
— Por que não me contou a verdade?
— Porque achava que não concordaria.
— Não, eu não concordaria. Você me enganou.
— Eu não quis enganar você. Simplesmente, precisava fazer isso. Tinha que mostrar àquele velho babaca o quão homem eu sou.
— Você não precisa disso para mostrar para ele, qual é o seu valor. Olhe quem você é e o que já fez.
— Olha, Sabrina, você não entende mesmo. Eu podia ter pego uma vadia qualquer lá, na boate, e fodido com ela, nessa cama, mas eu quis que fosse com você, porque é especial para mim.
— Sinceramente, não sei se fico lisonjeada ou ofendida com essa declaração. Tudo isso é demais para a minha cabeça. Me leva para casa. — Eu me ergui e comecei a me recompor.
— Se é isso que você quer — Ele deu de ombros, deu uma longa tragada e apagou o cigarro e um pequena peça de cerâmica bávara na mesinha de cabeceira.
Voltamos em silêncio até pararmos diante da portaria do meu prédio.
— Então, está terminado entre nós? — Elias foi direto, olhando para os meus olhos.
— Eu ainda não sei, nós nos falamos depois. — Sai do carro, sem olhar para trás.
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