Cama de Gato
1 Uma noite muito estranha
Era isso mesmo? Não conseguia desviar os olhos daquela boca linda se movendo, sem entender o que dizia, então, como se tirasse tampões de cera dos meus ouvidos, eu escutei.
— Eu entendi direito, Eric? Você está me dispensando?
— Sim, é isso mesmo. Lamento muito, Sabrina. Eu sou um crápula, me envolvendo com você desse jeito, mas sou casado e não pretendo deixar a esposa. Estávamos passando por uma fase difícil no nosso relacionamento, quando em conheci você, mas nós nos acertamos agora, e quero dar uma nova chance para nosso casamento.
Não acreditei, como ele podia ser tão cretino assim? Na verdade, não sabia muito sobre ele, deveria desconfiar de um homem que não está em nenhuma rede social, além de ser pouco provável alguém assim, tão bonito e sexy, estar sozinho. O pouco que descobri a respeito dele, tinha encontrado em algumas reportagens sobre negócios, no entanto, absolutamente nada sobre sua vida privada, então, como poderia saber, mesmo desconfiando que era bom demais para ser verdade, desde que nós nos conhecemos em um evento de moda. Não devia ter me envolvido tão depressa, porque, aqui, estávamos nós, eu com essa cara de boba, ouvindo ele confessar a sua traição, com esse ar de arrependimento.
— Eu não tenho mais nada para fazer aqui — disse, tentando manter o rosto impassível, engolindo o choro.
Só queria jogar esse Cosmopolitan na sua cara, pensei. Então, eu me levantei.
— Eu levo você em casa — ele falou, gentilmente.
Ergo a mão para que pare, com maior dignidade que consigo, elevo o queixo.
— Não, eu pego um táxi — respondi, com a voz mais firme que consegui, porém, a minha vontade era de dar um tapa daquele estalado bem, naquele rosto lindo dele, no entanto, me segurei, banquei a fina, ergui a cabeça e sai de lá com passos firmes, sem olhar para trás.
Nunca mais eu quero vê-lo de novo, em toda a minha vida.
Quando sai do bar daquele hotel, não poderia ser pior, pois estava chovendo forte e não passava nenhum táxi desocupado, então, comecei a chorar, as lágrimas se misturavam com os pingos de chuva molhando o meu rosto, andando depressa para sair dali, pois, só faltava encontrá-lo lá fora, nessa situação degradante, seria muita humilhação para uma única noite.
Andei um bom pedaço, com as roupas e sapatos molhados, o cabelo grudado, pingando, quando, finalmente, um táxi vazio passou por mim e eu quase me joguei na frente dele para que parasse.
Por fim, estava na proteção do meu lar, queria só tomar um banho, cair na cama e chorar, mas, quando abri a porta, senti aquele cheiro horrível impregnando o meu apartamento.
— Merda! Esqueci do lixo!
Eu havia esquecido de pôr o lixo na lixeira e o resto da comida chinesa da noite anterior havia azedado, um cheiro horrível se espalhava todo o meu apartamento. Só tinha uma coisa a fazer, peguei o saco de lixo, amarrei bem e fui para a lixeira do andar, sem sequer fechar a porta, pois seria bem rapidinho. Ao voltar, abri a varanda e as janelas para renovar o ar, fui para o banheiro, tomei um bom banho morno e mergulhei na minha cama, para chorar e me lamentar a maneira como fui tão idiota até, enfim, adormecer.
No meio da noite, despertei com algo espetando o meu dedão, balanço o pé, sem vontade de abrir os olhos, a sensação parou, devia estar sonhando, tento dormir novamente, então, sinto alguma coisa peluda se esfregando na minha perna. Esse instante, tive certeza que não estava sonhando, havia algo estranho na minha cama, dei um berro e um pulo, corri para o corredor, em pânico. Fiquei alguns minutos parada ali, ofegante e assustada, porém, precisava agir, não podia continuar ali para sempre, poderia chamar o porteiro, no entanto, tinha de saber se estava certa ou se foi apenas um sonho maluco, devido ao estresse do dia. Criei coragem, voltei para o meu quarto, com muita cautela, e acendi a luz, olhei para minha cama e não havia nada lá. Aproximei pé ante pé, levantei as cobertas, olhei em volta e nada. Respirei aliviada. Era apenas um sonho, apaguei a luz e deitei-me outra vez, mas custei a pegar no sono.
Acordei com um barulho estranho, que não reconheci de primeiro. Outro sonho? Dê novo o barulho bem ao meu lado. Espera aí, isso é um miado? Mas, eu não tenho um gato! Abri os olhos e deparei com aqueles olhos verdes me encarando, dei um grito e sentei em um pulo, o gato deu um pulo e saiu correndo.
Estou ficando maluca ou tem mesmo um gato aqui em casa? Precisava encontrar o invasor, por isso, fui até a cozinha, na geladeira, peguei o leite e verifiquei se não está estragado. Tudo bem. Coloquei em um prato fundo no chão, fiquei em silêncio, esperando, até que um gato todo preto surgiu, andando calmamente, como se estivesse na sua própria casa. Ele foi até o prato e tomou o leite com sofreguidão, o coitado devia estar com fome, mas não parecia ser um gato de rua, era bem nutrido, com o pelo brilhante. Imaginei que pertencesse a algum vizinho. Interfonei para o porteiro, tentando descobrir a quem pertencia o invasor, mas ele não sabia, pois, era novo no prédio, mesmo assim prometeu que iria me ajudar.
O gato acabou com o leite e, sem menor cerimônia, deitou no sofá para cochilar, e eu não sei o que fazer, tinha que me arrumar para o trabalho, mas não poderia deixá-lo ali, nem tão pouco colocá-lo porta a fora. Talvez, eu tenha uma lata de atum no armário, para deixar para ele, enquanto não estivesse em casa. No entanto, alguns minutos depois, a campainha tocou, olhei pelo visor e do lado de fora, estava um homem que nunca vi antes.
— Deseja alguma coisa? – falei, por detrás da porta, com receio de abrir para um desconhecido.
— O meu gato. O porteiro avisou que você está com ele.
Respirei aliviada, abrindo a porta.
— Ainda bem. Não sabia o que fazer — disse, ele me olhou um tanto constrangido, então me dei conta que ainda estava usando só minha camisola.
— Ah! Desculpa! Um instantinho só! — Fechei a porta na cara dele e corri para o meu quarto, peguei, no armário, o roupão que nunca uso e o coloquei, voltando e abrindo a porta, com um sorriso sem graça.
— Foi mal!
— Eu que devo desculpas pelo incomodo, logo de manhã.
— Ele está bem ali no sofá — Sai da frente para ele entrar.
Ele olhou em volta, como se procurasse por algo, em seguida, foi até o gato e o segurou com cuidado, o aconchegando junto ao seu corpo.
— Sabbath, seu fujão! — falou, de forma carinhosa, acariciando o pelo do felino.
— O nome dele é Sabbath? — digo, franzindo a testa.
— Sim, Black Sabbath, por causa da banda de heavy metal inglesa, mas não fui em que dei esse nome para ele — justificou-se. Prontamente, acreditei, pois, ele não tinha cara de que gostava desse tipo de música, ele caminhou até a porta. — Obrigado e, mais uma vez, desculpe o incômodo. Se precisar de algo, meu nome é George, moro no andar de cima, apartamento 603.
—Obrigada. Eu me chamo Sabrina. E você é o primeiro vizinho que eu conheço aqui, eu me mudei há apenas poucas semanas.
— Eu sei. Então, até a próxima, Sabrina.
— Até a próxima, George — falei, fechando a porta atrás dele.
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