Cama de Gato

8 Uma garota bem difícil


Não me encontrei com George durante o resto da semana. Eu havia resolvido que não comentaria sobre o meu encontro com Elias, não queria que ele minasse a minha boa impressão. Enquanto isso, Sabbath circulava entre os dois apartamentos, sem se preocupar com as restrições, se sentia em casa em ambos os lugares.

No sábado, já foi um pouco diferente, Elias me pegou em casa e fomos a um barzinho descolado, que eu já havia estado antes, cheio de gente bonita. Dessa vez, foi bem mais divertido, já estava menos tensa, mais espontânea, nem me importei quando ele passou o seu braço sobre os meus ombros e acariciou com a pontas dos dedos o meu braço, senti um arrepio subir pela minha espinha, aquilo foi bom, melhor ainda quando, finalmente, ele me beijou. Nossa! Como ele beijava bem! Depois, saíamos para dançar, na Fox, uma descolada boate da moda e bem frequentada, e foi bastante divertido, ele era muito sexy, tinha tudo para eu ficar caidinha, então, vamos com calma! No fim da noite, na frente do meu prédio, quando ele começou me beijar, ardentemente, no carro, reunir todas as minhas forças e o empurrei com delicadeza, tentando evitar aqueles olhos famintos, me atiçando.

— Boa noite, Elias — digo, escapando dos seus braços.

— Boa noite, Sabrina — Ele disse de modo tristonho e me dá um olhar de cachorrinho abandonado, mas sou uma mulher forte e determinada, não me deixei abater, sai do carro e corri para a minha portaria.

Ao entrar no elevador, respiro fundo, aquele homem é demais, por pouco não o arrasto para minha cama, mas, depois de Eric, fiquei um pouco mais precavida.

No domingo, acordei tarde, fiquei enrolando na cama, cheia de preguiça, imaginando como seria esticar o braço e encontrar Elias do outro lado. O resto do dia, fiquei esperando que ele ligasse para mim, mas nada. Quem sabe, queria bancar o difícil depois que eu o dispensei, ontem à noite. Dei de ombros, vou aguardar, não quero parecer a ansiosa. Talvez, eu deva apenas mandar uma mensagem, dizendo que gostei de ficar com ele. Ou, seria melhor esperar? Assim passei o restante do fim de semana, em casa, com o gato, sem tirar o telefone de perto de mim, na esperança que ele entrasse em contato, no entanto, isso não aconteceu.

Na segunda-feira pela manhã, acordei bem cedo, teria muito trabalho pela frente, começaríamos a produção de uma nova campanha, sendo assim, teríamos uma reunião com a equipe. Sabia que Ícaro ficava bem nervoso, nessa época de início de trabalho, por isso, ninguém queria dar bobeira e perder a hora.

Sai de casa tal qual um zumbi, zonza de sono, morrendo de inveja de Sabbath que ficou dormindo tranquilamente na minha cama, de barriga bem cheinha. Enquanto, espero o elevador, encosto da parede e fecho os olhos, só abro ao ouvir a sua chegada e, através da porta, avisto George lá dentro, já todo arrumado para o trabalho, muito elegante de terno, esse jeito convencional e formal combina muito bem com ele.

— Bom dia, Sabrina — O tom dele é divertido.

— Bom dia, George — Solto um grunhido mal-humorado.

— Acordou cedo hoje?

— Trabalho.

— Como foi com Elias?

— Bom. Nós já saímos duas vezes.

— Eu sei.

— Sabe! Como? — Estou abismada.

— Elias me contou — George falou de um modo casual.

— Quando?

— Saímos ontem à tarde, para tomar umas cervejas

— Vocês saíram, ontem? — Essa não entendi

— Sim — Ele deu de ombros. — Quer jantar lá em casa, hoje à noite?

Fiquei tentada, adorava a companhia e a comida de George, mas...

— Hoje vai ficar difícil, estamos começando um trabalho novo, não sei a que horas vai terminar— respondo, com pesar.

— Então, amanhã?

— Amanhã está ótimo. Eu levo a sobremesa.

— Às 8, está bom?

— Perfeito!

O elevador chegou no térreo, nos despedimos, cada um tomou o seu caminho.

Durante todo o trajeto para o meu trabalho, pensava porque Elias saiu com George, mas não falou comigo. Mas o que que tem? Eu precisava deixar de ser tão paranoica, afinal, os dois eram amigos, há muito tempo.

Na empresa, todo mundo chegou cedo, cada um com um copo na mão, de sabores variados: sucos, café, cappuccino, energéticos, qualquer coisa para espantar o sono e dar energia para um dia bastante atarefado.

Mesmo não parando nem por um segundo sequer, vez ou outra, esticava os olhos para o meu telefone, mas nada de Elias, dava de ombros e continuava o meu trabalho, foi só bem no fim do dia que recebi uma mensagem dele, perguntando se poderíamos nos ver hoje, fiquei feliz, porém, tive que responder a verdade, que teria muito trabalho pela frente.

“Amanhã? ” Ele quis saber. Já tinha um compromisso com George, não queria desmarcar, assim,

“Não”, respondi, sem muitas explicações.

“Você é uma garota bem difícil”, Elias me provocou, fiquei satisfeita com essa observação, seria melhor que ele pensasse assim.

Respondi que sou bem difícil, mas poderíamos nos encontrar na quarta à noite. Ele concordou, então, ficou decidido.

Voltei ao trabalho mais feliz, quem sabe, eu e ele déssemos certo.

Na terça à noite, toquei a campainha do apartamento de George, que atendeu e olhou direto para as minhas mãos, de um jeito divertido. Foi quando eu me lembrei, me esqueci da sobremesa, que prometi trazer.

— Boa noite, Sabrina.

— Desculpe! Eu me esqueci da sobremesa — murmuro, sem graça, abanando as mãos.

— Não tem importância, porque eu comprei uma — ele falou, se afastando para eu entrar.

— Você comprou uma? — Eu não sabia se ficava aliviada ou ofendida, por ele não confiar em mim.

— Sim, porque você anda muito ocupada.

Achei melhor encerrar o assunto.

— Quer ajuda?

— Está quase tudo pronto. Se quiser arrume a mesa. Como está o novo trabalho?

Comecei a distribuir os pratos e talheres, ele se encostou no batente da porta da cozinha e ficou me observando e conversamos.

— Trabalhoso — ri da minha própria piada. — Desculpe, foi infame. Está indo bem. E você?

— O de sempre. Quer beber alguma coisa?

— Quero, mas acho melhor não.

— Então, só água. — Ele saiu e voltou com um copo d’água para mim e uma taça de vinho para ele, morri de inveja. — Tem falado com Elias? — perguntou, de modo casual, me entregando o copo.

— Trocamos mensagens ontem, vamos nos ver amanhã.

— Então, parece que estão indo bem.

— Suponho que sim — Dei de ombros, pois eu não tinha certeza.

— Espero que dê certo.

— Mas, você não acredita, não é?

— Vou ver o macarrão, para que não passe do ponto.

Ele voltou para a cozinha, fugindo da minha pergunta, mas não precisava responder, eu já sabia qual era a resposta. Sendo assim, nós dois não tocamos mais no nome de Elias, durante o resto da noite.

— George é um nome diferente — Sou muito curiosa, assim, perguntei quando estávamos à mesa

— Meu pai era fã dos Beatles.

— Por acaso, você não tem irmãos chamados Ringo, Paul ou John?

Ele dá uma risada verdadeira.

— Não só sou eu.

Durante o jantar aproveitando a boa comida e a conversa, veio à minha mente o que Elias me disse, que ficaria com George se eles não fossem heteros, sorri para mim mesma, considerando que ele estava certo, contudo, um rápido desvio do olhar e me deparei com a foto de Letícia nos observando, e meu sorriso se perdeu, no mesmo instante.