Cama de Gato
19 Explicações desnecessárias
Foi tudo uma loucura, aquela sessão inesperada de sadomasoquismo bem ali, no meio da minha sala, algo que nunca imaginei em fazer e, principalmente, que iria gostar. Aquele homem queria testar os meus limites, só não sabia até que ponto eu me permitiria ir.
No dia seguinte, no trabalho, aquilo tudo não saía da minha cabeça, relembrava cada momento, as expressões de prazer e dor no rosto dele, aquela entrega incondicional, por isso estava louca para reencontrar com Elias, mais tarde.
— Sabrina! — Voltei a realidade, quando Elisa me chamou.
— Oi!
— Sabrina, o que está havendo com você? Eu já te chamei três vezes e você não me ouviu!
— Desculpe, eu estou meio distraída, hoje.
O dia se passou e nada, nenhuma mensagem de Elias, devia parar de ser ansiosa, ia esperar, para não parecer que estava pegando no pé dele. Só quando já ia para casa que ele me enviou uma mensagem, avisando que tinha um compromisso de trabalho e que não podia aparecer lá em casa, hoje. Mesmo decepcionada, banquei a superiora, respondendo que estava tudo bem, que compreendia. Assim, voltei para casa, um tanto chateada, mas o que poderia fazer?
Mal havia passado pela porta, quando George me enviou uma mensagem, perguntando se Sabbath estava na minha casa. Então, dei uma olhada por alto e nada, depois procurei em cada canto, afinal, meu apartamento não era tão grande assim, mas nenhum sinal dele. Respondi que não.
“Eu não acho ele em lugar nenhum”, declarou.
Aquilo me deixou angustiada, por isso fui para o apartamento dele. George abriu a porta com ar preocupado.
— Você tem certeza que ele não está aí, escondido em algum canto? — perguntei, de imediato.
— Não, já procurei por todos os lugares. Será que ele fugiu? Entrou em outro apartamento?
— Será? — Fiquei nervosa, sem poder imaginar onde estaria aquele gato. Nem queria pensar na hipótese de perdê-lo, pelo menos, não agora. — Vamos procurá-lo aqui, outra vez, e, depois, lá em casa.
Ele concordou, assim, começamos a constrangedora tarefa de invadir a sua intimidade, procurei na cozinha e banheiro, enquanto ele revia o quarto e olhava os armários.
— Nada! — exclamei, desanimada, depois de vasculharmos tudo.
— Podemos olhar na sua casa, agora — ele propõe.
Aceito, um tanto tímida, já que não sou tão organizada quanto ele.
Começamos a nossa saga, olhando em cada cantinho do meu apartamento.
— Você não precisa se arrumar, não vai sair com Elias, hoje? — perguntou, enquanto olhamos pela sala.
— Hoje, ele tem um compromisso de trabalho — respondo, quando ele acha, esquecidas sobre o sofá, as duas faixas de seda, que usamos na noite passada, e pela expressão dele, parece que sabe, exatamente, para que elas servem. Apressada, tiro da mão dele e coloco no bolso.
— É de um vestido, não sabia onde havia colocado — minto, mas pressinto que ele sabe a verdade
Estamos quase desistindo, depois de explorar o último lugar do apartamento, a área de serviço, quando percebo um sútil movimento no cesto de roupa suja. Corro para lá e abro, está cheio quase até a borda, preciso lavar minhas roupas, no entanto, não vejo nada, mesmo assim eu não desisto, tiro um vestido, uma blusa e mais uma calça e lá está Sabbath, dormindo confortavelmente, entre as minhas roupas sujas. Eu o peguei no colo e o abraço, contente.
— Achei! — gritei, para George, que aparece junto a mim.
Só que o gato não gostou em nada de ser despertado dessa maneira tão rude, reclama, querendo fugir, eu o coloco no chão e ele caminha calmamente para a sala, se aconchegando no sofá.
Respiramos aliviados.
— Precisamos comemorar! — ele disse, com um sorriso.
— Eu não tenho nada aqui em casa.
— Podemos ir lá até o meu apartamento.
Por que não? Afinal, tinha a noite livre.
— Por que não?
No seu apartamento, George abre um pequeno armário cheio de garrafas variadas.
— O que quer beber?
Eu me aproximo para olhar.
— Você tem uma variedade e tanto aqui.
— Eu tenho cerveja e vinho na geladeira.
— Pode ser tequila.
Ele me serve uma dose.
— E eu, uísque, vou pegar gelo.
Ele some pela porta, sento-me no sofá, tomo um pequeno gole e me pergunto o que estou fazendo ali, no apartamento de outro homem, bebendo, enquanto meu namorado está trabalhando. Mas o que que tem? Afinal, eu e George somos amigos. Ele está esperando a namorada voltar, assim como eu, só estamos fazendo companhia uma ao outro, melhor do que ficar em casa sozinha.
Ele volta com um copo de gelo na mão e se serve, senta-se na poltrona a meu lado. George sempre me surpreende, você pensa que ele é todo certinho, então... Fico imaginando como e onde será a tatuagem dele. Teria mais de uma? Ele se volta para mim, devo ter feito uma expressão engraçada, porque me pergunta:
— O que está pensando?
— Eu estou pensando, como um cara como você está sexta à noite, em casa.
— Podia dizer o mesmo de você.
— Eu tenho uma desculpa. Elias.
— Eu também. Letícia.
— Ela não ficaria com ciúmes, se soubesse que você está no seu apartamento, sozinho, com outra mulher?
— Não sei, não pretendo contar para ela.
— Por quê?
— Porque teria de dar muitas explicações desnecessárias, seria uma perda de tempo. E você, Elias não ficaria com ciúmes?
— Eu não sei, me responda você, já se conhecem há muito mais tempo — provoco.
— Sim, ele ficaria com muito ciúmes. Mesmo que fingisse que não, principalmente, depois, do que houve com Letícia.
— É muito bizarra essa história, já que ela o trocou por você e, mesmo assim, continuaram a ser amigos.
— Na verdade, eles já haviam terminado. E minha amizade com Elias é muito forte, apesar de não ser igual ao que era antes. Éramos como irmãos.
— Talvez, ele não gostasse tanto assim dela.
— Sim, Elias gostava muito de Letícia, só que da forma errada.
— Há uma forma certa ou errada de gostar?
— O que você acha?
— Acho que essa conversa está ficando muito estranha, falar do meu namorado e da ex-namorada dele e da relação entre os dois.
— Sim, eu sei. Mas posso lhe dar um conselho, Sabrina? — Sacudi a cabeça afirmativamente. — Elias é meu amigo, mas, às vezes, não conhece limites, por isso cuidado com o que ele lhe pedir.
— Como assim?
— No momento certo, você saberá o que estou falando.
No meu bolso, o telefone vibra, a mensagem de Elias que saber onde estou.
“Em casa, morrendo de saudades”, minto. George tem razão. Por que perder tempo com explicações desnecessárias.
— Gostaria de assistir um filme? Posso fazer pipoca — George perguntou assim que eu terminei de digitar.
O que que tem de mais, só um simples filme?
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