Cama de Gato

4 Como irei sobreviver?


Naquela tarde, cheguei correndo em casa e, como de costume, Sabbath dormitava, despreocupadamente, no sofá. Ele abriu os olhos e acariciei a cabeça dele.

— Sabbath, você nem imagina! Eu vou uma festa de lançamento de uma coleção de uma grande loja, em que trabalhei na produção das fotos, e Ícaro conseguiu um desses convites quase impossíveis para mim. Sabe que tipo de festa é essa? Aquela para arrasar, de sair em revista, cheia gente bonita e importante, caras gostosos e solteiros. Quem sabe, eu não me dou bem dessa vez, por isso, vou fazer uma produção especial, talvez, eu descolei alguém para aproveitar o resto da noite, você entende? Tenho certeza, que não. Olha! —Mostrei a bolsa que trazia na mão. — Descolei até um vestido muito lindo para essa noite. Vou tomar um banho e me produzir.

Pelada, entrei no boxe e abri o chuveiro. Seco, nem uma mísera gota d’água, tentei de novo e nada.

— Merda! —gritei, me enrolado em uma toalha, liguei para a portaria.

— Teve um vazamento na sua coluna do banheiro no apartamento de cima e a água teve que ser desligada, o bombeiro vem amanhã de manhã consertar — o porteiro me comunicou.

— Amanhã? Eu tenho uma festa hoje! Uma festa de arrasar, preciso tomar banho e me aprontar O que eu vou fazer? — Fiquei desesperada.

— Lamento, mas não posso fazer nada, só amanhã.

Deliguei, desanimada, não adiantava brigar. Olhei em volta em busca de alguma solução. Poderia tomar um banho improvisado na pia da cozinha, mas não daria certo, além de fazer a maior bagunça, precisava me depilar e lavar os cabelos. Então, tive uma ideia, voltei ao interfone e digitei o número do apartamento de George, enquanto chamava, me convencia que não havia mal nenhum, afinal, éramos vizinhos, poderia pedir um favorzinho inocente.

Assim que ele atendeu, expliquei a situação, um tanto sem jeito.

— Claro, não tem problema nenhum, pode vir.

Se George estivesse ao meu lado, pularia no pescoço dele e encheria seu rosto de beijos. Felizmente, não estava, pois não sabia se ele me entenderia.

— Muito obrigada! Muito obrigada mesmo! — falei, assim que ele abriu a porta.

Havia levado comigo, tudo que precisaria para tomar um bom banho, depois voltaria para meu apartamento, a fim de terminar de me aprontar.

— Não tem de que. Afinal, você está sendo bem legal com essa história do gato. Você sabe onde é o banheiro, então, fique à vontade. Além disso, é muito ruim, chegar em casa e não ter água.

— É mesmo, ainda mais hoje.

— Precisa de alguma coisa, toalhas limpas, sabonete?

— Não preciso de nada, trouxe tudo lá de casa — Mostrei a ele, as minhas mãos ocupadas, com tudo que precisaria para um banho.

— Tudo isso? — George se espanta ao percebeu minha pequena maleta.

— Sabe como é, tenho uma festa importante, mais tarde.

— Sendo assim, você sabe onde fica o banheiro.

Aproveitando a deixa, vou direto para o banheiro. Já estive lá antes, quando jantamos juntos, na outra noite. Morri de inveja, pois é tão organizado e limpo, bem diferente do meu, que é cheio de embalagens de xampu e cremes pela metade, roupas penduradas nos registros e calcinhas dentro do boxe, maquiagem e escovas em cima da bancada. Por isso, tenho até medo de tirar algo do lugar e bagunçar, mas vou em frente. Faço tudo que tenho que fazer, me depilo, lavo os cabelos, arrumaria eles depois, esfreguei meu corpo com uma esponja macia e um sabonete especial para a pele ficar bem lisinha. Após o banho, passei um creme hidratante em todo corpo, eu me sinto uma nova mulher quando saio do banheiro, claro, depois de deixar tudo devidamente organizado.

Ao entrar na sala, encontrei George sentado no sofá, na mesinha a sua frente, tem um prato com apetitoso sanduíche e um copo de cerveja gelada. Ele está descontraído, usando bermuda e camiseta, a TV tem uma imagem congelada de um filme que vai começar.

— Estou jantando, se quiser posso fazer um desses para você, também.

Fiquei balançada em aceitar, porque estava morrendo de fome.

— Sua oferta é tentadora, mas, obrigada, agora não posso, preciso ir e acabar de me aprontar.

Não quero confessar a ele, que minha pretensão era manter a minha barriga bem lisinha, para usar o meu vestido de arrasar.

Ele dá de ombros e me leva até a porta.

— Boa festa, Sabrina.

— Boa noite e obrigada, George.

Como eu imaginei, a festa foi simplesmente o máximo, maravilhosa, havia tanta gente bonita e interessante, dancei como uma louca, bebi muitos drinks incríveis. No meio da noite, um cara bem atraente, chamado Lucas, se aproximou de mim, tinha aquele estilo meio misterioso e cafajeste que tanto me atraí, e contou que era artista e estaria expondo seus quadros em uma galeria da cidade, me convidou para ir até lá qualquer dia desses. Ele era absolutamente gostoso e sexy, assim trocamos alguns beijos bem ardentes, porém, ficou só nisso mesmo, prometemos nos encontrar, mas eu sabia que não ia rolar.

Por fim, voltei para casa, para deparar com a triste realidade da falta d’água no meu banheiro, mas eu estava tão cansada, só lavei o rosto e escovei os dentes na pia da cozinha. Não encontrei Sabbath em lugar nenhum, sendo assim, essa noite terminaria comigo, sozinha, na minha cama, suspirei fundo e cai em um profundo sono.

Na manhã seguinte, sou acordada cedo, pelo insistente toque do interfone. Tentei ignorar e voltar a dormir, mas, não deu, porque não desistiram, seria melhor me render. Arrastei-me para fora da cama, ainda tonta de sono, com os olhos pesados.

— Está havendo um incêndio ou algo parecido? — perguntei, de mal humor.

O porteiro não se abalou, não devia ter sido a primeira a reclamar.

— Não, é só para informar que vai haver uma obra no apartamento de cima, para consertar o cano furado.

— Ah, não! — gemi, já prevendo a barulheira.

— E a água vai ficar fechada todo o fim de semana.

— Como assim? — Talvez, não tivesse escutado tão bem devido o sono, meus pensamentos estavam lentos.

— Não terá água no seu apartamento, no fim de semana — ele repete, devagar, e eu não posso, não quero acreditar. Como irei sobreviver?

Sem alternativa, voltei para cama e dormi outra vez. Acordei no meio da tarde, pressentindo que estava sendo observada, abro os olhos lentamente e encontro aqueles olhos verdes, me encarando, com atenção.

— Sabbath, o que faz aqui? — indaguei, sonolenta. — Você não vai poder ficar aqui em casa, não tenho água.

O gato me dá um olhar indiferente, deitando-se ao meu lado, acariciei a cabeça dele, pensando no que iria fazer. Pouco depois, eu me encho de coragem e vou até o interfone, para falar com George, lembro que seria melhor ter o número do telefone dele. Contei-lhe toda a minha triste história de carência hídrica.

— Pode deixar, eu vou aí, pegar Sabbath — ele se prontificou, imediatamente.

Já comecei a sentir as consequências da falta d’água, meu banheiro cheira mal, coloquei um monte de desinfetante e fechei a porta, como poderia aguentar por todo o fim de semana. Vou ter que colocar desinfetante em mim mesma, por ficar sem banho.

A campainha toca, coloco o roupão de banho, antes de atender. George está parado bem na minha porta, mesmo com roupas casuais, ele parece bem vestido e ...limpo, cheirando bem.

— Oi, Sabrina. Que dureza.

— Sim, não sei o que fazer durante todo o fim de semana, pensei ir para a casa de uma amiga, já que minha família não é daqui. Vou pegar Sabbath, ele está dormindo no meu quarto, entre — digo, porém me arrependo, pois, meu apartamento não está cheirando muito bem.

Voltei, com Sabbath cochilando no meu colo e o entreguei a George.

— Sabrina, espero não estar sendo inconveniente, mas se quiser pode tomar banho ou mesmo vir no meu apartamento, quando quiser.