Cama de Gato

23 Brincando ou falando a verdade?


Aquela história de câmera de segurança não saiu da minha cabeça por algum tempo, imaginando se Elias falava a verdade, provavelmente, sim, pois qual seria o propósito de ser filmado em um momento tão íntimo com a namorada? Sendo assim, aos poucos, eu relaxei.

O jantar semanal meu e de George seria no apartamento dele dessa vez, por isso, passei no supermercado e comprei sorvete e um vinho para a noite, feliz com a possibilidade de ter uma boa conversa, desejando que aqueles súbitos momentos de atração tivessem passados.

Mais tarde, George abriu a porta, me convidou para entrar.

— Vamos para cozinha, estou terminando o jantar.

Eu o segui. Na cozinha, Sabbath passei de um lado para o outro, parando ao lado do fogão, observando.

— Posso servi o vinho? — perguntei.

— Por favor.

Já sei onde está tudo que preciso, o saca-rolha, as taças, mexo nos armários, sem nenhuma inibição.

— Gosta de camarão? — ele me pergunta, de repente.

— Adoroooo!

— Estou fazendo um risoto para nós.

George se curva e dá camarão gordo e rosado para o gato, que come avidamente e espera por mais. Ele lhe dá mais um.

— Cheira muito bem. — Coloco uma taça cheia sobre a pia, ao lado dele, e encosto no batente da porta, com outra taça na mão, tomo um gole devagar, feliz por minha escolha, observando George trabalhar, com movimentos seguros de quem sabe o que está fazendo, quando coloca os camarões na frigideira.

Ele está usando uma camiseta branca fina, o corpo levemente dobrado a deixa bem esticada, assim, pela primeira vez, consigo perceber os desenhos escuros sob ela. A tatuagem de George é maior do que eu esperava, pega uma parte das costas se prolongando até o braço, tento decifrar o que é. Fico tão distraída, que demoro a entender o que ele falou.

— Sabrina!

— Sim!

— Você gosta de alcaparras?

— Ah! Não.

— Então, sem alcaparras. — Ele parou e olhou para mim. — O que foi?

— Nada!

— Como nada?

— É que... estou tentando adivinhar como é a sua tatuagem. Sabe, sua camiseta é um pouco transparente — respondo, sem jeito por ter sido pela em flagrante.

— Ah, é só isso!

Ele sorri e tira a camiseta, engulo em seco, surpresa diante do que vejo, com seu torso nu, George gira lentamente e para, com o desenho voltado para mim. É uma tatuagem no estilo tribal reconheço um elefante e um leão no desenho, que se espalha pela metade do peito e costa e a parte de cima do braço, fica perfeita no conjunto daquele tórax e braço bem torneados, eu nunca imaginaria algo assim. Não consigo desviar o olhar.

— E aí, satisfez sua curiosidade?

— Sim. Ela muito bonita e grande. Bem maior do que eu esperava — falei, quando volto a razão, quero olhar mais de perto, mas, infelizmente, ele recoloca a camiseta, eu tomo outro gole do vinho.

— Agora, quero ver a sua — ele diz com um sorriso travesso.

Ele está me provocando?

— A minha não é em nada parecida com a sua, assim tão grandiosa! É bem pequenininha e simplesinha.

— Trato é trato. Lembra-se? Eu mostro a minha se você mostra a sua.

— Certo! Trato e trato.

Meio sem jeito, eu me viro de costa e abaixo o cós da calça para mostra a parte de baixo da minha coluna, onde há uma pequena borboleta colorida, fico assim por alguns segundos, e me arrumo.

— Muito delicada e surpreendente — murmura, seus olhos tem um brilho estranho, sua respiração um tanto ofegante.

— George! — falo, quase sem folego.

— Sim.

— O camarão está queimando.

Isso nos tira do transe.

— Hummmm! Está delicioso! — digo a mais pura verdade durante o jantar.

— Obrigado. Você é a minha inspiração.

—Tem notícias de Letícia? — perguntei, acho que uso essa pergunta, sempre que quero esfriar o clima.

— Nós nos falamos, de vez em quando. Sabe como é, o fuso horário.

Será que estou entendendo direito ou o relacionamento dos dois está esfriando? Não devia ficar feliz com isso.

— E você e Elias? — Acho que ele usa a mesma tática.

— O de sempre. Ele é muito ocupado. — Ou seja, pouca conversa, muitas festas e muito sexo inusitado.

— Não parece, mas Elias é muito responsável quanto ao trabalho, sei disso porque eu o ajudei a construir aquela boate. Tinha a impressão, que ele queria mostrar o pai que era competente e que poderia ter um negócio de sucesso, sem depender dele.

— Você?

— Tenho uma pequena parte da sociedade. Eu o ajudei angariar fundos para construir aquele lugar. Na minha área, conheço muita gente que tem dinheiro para investir e não sabe aonde. O sobrenome dele ajudou bastante, mesmo que não queira admitir isso.

— Eu estou pasma com tudo isso.

— Ele nunca contou essa história para você?

— Não.

— Elias parece ser meio irresponsável, em alguns aspectos da vida dele. Talvez, a relação dele com a família tenha dificultado a ter relações mais profundas com outras pessoas.

— O que você quer dizer com isso?

— Eu acho que falei demais. Apenas, vamos aproveitar o nosso jantar junto.

— Certo — Concordo, mas, por dentro, a minha cabeça rodopia com mil ideias.

Mais tarde, naquela mesma noite, deitei na cama, sem conseguir acalmar meus pensamentos, então, esperei, porque alguma coisa dizia que Elias ia aparecer. Por termos horários tão diferentes, nossos encontros quase nunca aconteciam em horários convencionais. O som do interfone mostrou que eu não estava errada. E como sempre, Elias não deu muito espaço para conversa, antes de tirar a minha roupa e nos jogarmos na cama.

Depois, deitados na penumbra, quebrei o silêncio, com segundas intenções:

— Como estão os seus pais?

Ele vira o rosto e olha para mim, atordoado.

— Por que está perguntando isso?

— Não sei, só curiosidade, depois daquele jantar... Você nunca mais tocou no assunto.

Ele se vira e sobe em cima de mim, olhando bem nos meus olhos, mesmo no escuro, identifico um brilho quase selvagem nos dele.

— Nunca mais me pergunte sobre os meus pais, entendeu? — fala manso, mas com uma raiva contida, tanto que me assusta.

— Desculpe, eu não queria chatear você, só queria conversar — rebato, humildemente, me encolhendo.

—Oh! Não! Desculpe! Não fique aborrecida comigo, eu não queria ser rude. — Subitamente, Elias mudou de atitude parecia arrependido.

— Eu não estou aborrecida. Só pensei... só foi uma pergunta.

— Você está zangada comigo?

— Não.

— Quer me punir?

— Punir você? Não!

— Mas, eu fui um garoto mal, então mereço ser punido — ele fala suavemente, sei que quer começar um jogo.

— Tudo bem, eu vou punir você. O que quer que eu faça?

— Me bate. — Assim dou um tapa de leve na bunda dele. — Não mais forte. — Dou outro tapa um pouco mais intenso. — Mais forte! — Dessa vez desço a mão com vontade, ele geme e eu começo a rir, achando graça. — Você não leva isso mesmo a sério, leva?

Sacudo a cabeça, tentando não sorrir.

— Não! Vamos dormir, pois tenho que acordar cedo. — Fechei os olhos. Tentei relaxar, mas aí eu me lembrei. Abri os olhos — Por que sempre estamos aqui? Por que nunca vamos à sua casa?

— Sei lá, eu gosto daqui.

— Eu também, mas fico curiosa para saber como é o lugar em que você vive.

— Se faz tanta questão assim. — Ele dá de ombros.

— Poderia me convidar para jantar lá, uma noite dessas.

— Não sou George, não sei cozinhar.

— Então, compre o jantar e finja que fez. Afinal, você nunca leva ninguém a sua casa?

— Só as putas, nunca as namoradas — ele brinca e eu lhe dou um soco de leve no braço. Será que está brincando ou falando a verdade?