Calor
1 Capítulo único
Ele sempre foi a avesso ao calor. Fosse pela compreensível associação com chamas de seu pai ou pela memória da queimadura em seu rosto, a sensação de calor quase sempre lhe causava desconforto ou repulsa. Este condicionamento só pareceu começar a mudar quando Inasa, claramente sem se dar conta de sua natural familiaridade com frio, fez questão de retirar o próprio casaco e colocá-lo sobre seus ombros a fim de aquecê-lo em uma noite de inverno, após dizer-lhe alguma tolice sobre proteger-se contra resfriados.
Incapaz de reagir, Todoroki apenas aceitou o abraço da confortável e gigantesca peça de roupa, afundando-se nela e em seu cheiro enquanto sentia um calor fino e gostoso espalhando-se por seu peito e barriga.
O rapaz não compreendia muito bem o que estava acontecendo, nunca havia conhecido aquele tipo de calor antes, mas logo a sensação se tornou uma constate em sua vida, deixando de ser tão aconchegante para se mostrar quase dolorosa, acometendo-o sempre que seu celular vibrava e na tela surgia uma mensagem do manipulador de ventos. Esse calor era ainda geralmente acompanhado de um sutil sorriso em seus lábios, algo incontrolável. A situação se mostrava ainda pior quando o assunto de tais mensagens envolvia a possibilidade de se encontrarem num próximo final de semana. Quando isso acontecia – e acontecia quase toda semana, ele era acometido por uma ansiedade esperançosa, e junto dela se mantinha aquele calor interno, delicioso, mas angustiante.
“Você está apaixonado!” Ashido lhe dissera quando, após indaga-lo sobre sua dispersão durante as aulas, ele confessou seu curioso mal-estar.
A revelação não lhe havia sido total surpresa. Ele devia admitir que tal pensamento já havia lhe passado pela cabeça, mas como a simples conjectura fez com que aumentasse a desgastante sensação e lhe acelerassem os batimentos cardíacos, ele preferiu pesquisar no Google e se convencer de que aqueles eram sintomas de uma indigestão.
Obviamente, sua teimosia só durou até o tão ansiado domingo, quando Inasa se deu ao trabalho de descobrir um restaurante que servisse soba gelado durante o inverno – obviamente não havia nenhum, mas o insistente e enérgico jovem falou com a proprietária de um dos recintos e ela aceitou fazer um prato especialmente para Shoto.
Que tipo idiota ele seria se não se apaixonasse por alguém tão afável, adorável, belo, esforçado, educado, atencioso e mil outras características positivas que Todoroki nem poderia listar? Só de pensar nisso, o macarrão frio descia queimando por seu esôfago, e ele só conseguiu comer tudo porque não queria desapontar o amigo.
“Como devo proceder, caso eu esteja de fato esteja apaixonado?” A pergunta, feita em meio a um fervente desespero, resultou-lhe em uma resposta que gelou sua alma:
“Você precisa confessar seus sentimentos!” A racionalidade de Todoroki logo se pôs a trabalhar, criando imagens mentais de todos os possíveis desfechos para uma atitude insensata daquelas. “Acho difícil alguma garota no mundo rejeitá-lo, Todoroki-kun.” Ela tentou tranquilizá-lo, mas obviamente não conseguiu. Inasa não era uma garota, afinal.
Aquela era uma péssima ideia, ele nem precisou de muito para se convencer, concluindo que se o preço por alívio fosse a potencial destruição de sua amizade com o moreno, certamente preferia ser consumido por aquele fogo, por mais doloroso que fosse, resignando-se em permitir que aquele sentimento queimasse dentro de si até eventualmente se tornar brasa e por fim se apagar.
Com o que ele não contava, certamente, era que Inasa era puro vento em mais aspectos do que sua individualidade. E o vento fazia aquelas coisas com o fogo: provocava, atiçava, não deixava suas flamas sossegarem.
Inasa alimentava aquele sentimento como o oxigênio alimenta a uma chama. Eram mensagens e convites, e gestos e toques despropositados – pelo menos assim Todoroki os julgava. Havia de ser sem querer que seus dedos volta e meia resvalavam. Havia de ser por susto que Inasa pegou em sua mão no cinema. Havia de ser por sua inerente passionalidade a forma como os olhos de Inasa brilhavam quando olhavam para si, a aparente alegria que o tomava sempre que estavam juntos.
Havia de ser por insanidade que Todoroki escutava, neste exato momento:
“Eu gosto muito de você. Mais do que que como amigo.”
Oh, sim. Certame aquele calor todo havia fritado seu cérebro, e por isso que ele agora delirava febril, sentindo a palma da mão de Inasa arder contra o lado frio de sua face, observando como o tronco dele se curvava aos poucos diante de si, a fim de que seu rosto absolutamente rubro e sério se pusesse na mesma altura do de Todoroki, sua e por fim se aproximasse lentamente, incerto e respeitoso, dando-lhe todo o tempo do mundo caso ele quisesse impedir o que claramente viria.
Todoroki não o impediu.
Apenas fechou os olhos e sentiu aquele calor de seu peito se espalhar por todo seu corpo no exato momento que os lábios de Inasa tocaram gentilmente os seus.
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