Call Me With The Past
5 Capítulo 4 - Le français et son beau cul française.
Notas iniciais
Ultimamente Joe quase não tinha tempo para brincar. As aulas tinham começado fazia cerca de um mês e agora ele tinha direito à uma aula opcional por ter entrado na quinta série.
Como sempre tivera um dom natural para o desenho sua primeira opção logicamente foram as aulas de desenho. No primeiro dia lembro dele ter vindo correndo até mim durante o recreio gritando "Eu consegui, Call! Entrei na turma de desenho e pintura!" sem importar com o fato de eu ser considerada uma pirralha pelos alunos do seu ano por ainda estar na terceira série.
Na primeira semana tudo continuava como sempre fora entre nós, todos os dias de tarde íamos um para a casa do outro fazer nossas tarefas juntos mesmo que não estivéssemos na mesma classe.
Na segunda semana Joe me disse no colégio antes de ir embora que hoje não ia poder ir na minha casa. Terça e quarta aconteceu a mesma coisa. Na quinta perguntei se eu podia ir na dele, já que era o caso e Joe negou dizendo estar muito ocupado.
A próxima semana foi exatamente do mesmo jeito até que eu dei um jeito de fazer com que mamãe fosse na casa dos Labrousse.
Quem nos recebeu foi Robert, pai de Joe, e disse para mim com um sorriso que não pareceu verdadeiro até para mim, — uma criança de oito anos que fingia saber tudo, mas não sabia realmente muita coisa — que o seu filho tinha ido para a casa de um colega.
Foram mais alguns dias até que num final de semana eu estava sentada na escada da varanda da minha casa e Joe passou em sua bicicleta apostando corrida com mais outros dois garotos com a mesma idade que a sua. Do mesmo jeito que eu e ele fazíamos desde que nos conhecemos.
Quando ele voltou, andando e empurrando a bicicleta com as mãos no guidão, eu estava com um bico que eu sempre fazia quando ficava chateada ou irritada e os braços cruzados, o esperando em frente à porta da sua casa. Seus olhos arregalaram-se, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas como se tivesse lembrado de algo olhou para trás vendo os dois garotos nos encarando com as sobrancelhas franzidas.
– O que você está fazendo aqui?
Lembro que eu ficava olhando para cima, numa tentativa de não cair no choro.
– V-você está m-me trocando.
Joe olhou para baixo.
– Ei, Joe. Já terminou de conversar com a pirralha? — disse um dos garotos com um sorriso debochado na cara. Crianças às vezes podem ser piores que muitos adultos.
– Eu acho melhor nós não brincarmos mais, Call — Ele olhava para outra direção e ao terminar a frase finalmente concentrou seus olhos verdes nos meus azuis.
– É, é melhor vocês não vir encher a paciência dele mais, pirralha.
Os garotos mais atrás começaram a rir quando eu comecei a chorar.
– Call... — Joe me olhou com o que eu deduzi ser hesitação e arrependimento.
– Você é um besta! — o empurrei, meio chorando, meio fungando e saí correndo para minha casa.
Mais tarde naquele dia mamãe fez, pela segunda vez em toda minha vida, cookies para me animar e me explicou que Joe estava entrando na pré-adolescência e que ele não queria realmente dizer aquilo. Ela estava certa. No dia seguinte Joe foi me pedir desculpas e levou todos os desenhos que tinha feito na aula de artes mostrando seu progresso, foi quando disse "- Já sei! Eu posso te desenhar, como uma forma de pedir desculpas".
Não foi nem de longe o melhor desenho dele, mas se tornou o meu preferido e jurei que iria guardá-lo para sempre.
***
Eu ligava pelo menos três vezes na semana para os meus pais para contar como iam as coisas em Paris. Sabia que não podia contar sobre nosso passeio desastroso até Moulin Houge, eles iriam me forçar a entrar dentro de um avião e voltar para casa.
Mittie, Kath e eu planejávamos essa viagem desde que entramos no ensino médio e quando meu pai anunciou no dia de formatura que ele e os pais das meninas estavam planejando tudo secretamente, fizemos um escândalo de tão felizes.
Lembro que na época eu fantasiava o meu encontro com Joe. A única coisa que eu sabia sobre ele depois que se mudou é que tinha ido para Paris. Nunca pensei que isso fosse mesmo acontecer.
Tremia de nervosismo ouvindo cada toque do celular. Eu era uma péssima mentirosa. A pior possível.
– Oi, filha! — Minha mãe atendeu no quinto toque. Sua voz animada fez com que eu me sentisse mais culpada ainda por mentir.
– Mãe! — Tentei responder na mesma empolgação — Como estão as coisas por aí?
– Seu irmão está me puxando aqui para eu entregar o telefone para ele — disse rindo — Já falei para esperar, Trevor!
– As coisas continuam as mesmas — disse também rindo.
– Ah, pode apostar que estão piores. Agora ele acha que pode fazer o que quiser porque está indo para a quinta série. Mas e você?
– Estamos nos divertindo muito. Esse final de semana fomos numa boate tão legal! As festas daqui são demais — Soltei o ar pela boca. Não tinha mentido, apenas omitido. Sexta tínhamos mesmo ido numa boate, a mesma em que conheci Brandon.
Conversamos mais um pouco até ela dizer que não dava mais para Trevor e eu conversarmos, pois "já estava pagando uma fortuna pela viagem, não queria pagar mais uma fortuna pela conta do telefone".
Depois de um tempo olhando para a tela do telefone resolvi sair para tomar alguma coisa.
Mittie e Kath tinham saído bem cedo para algum bairro comercial que eu tinha ficado com muita preguiça de ir e fiquei dormindo até às onze horas. Agora já era de tarde.
Coloquei uma roupa decente para sair e me agasalhei.
Sempre que andava pelas ruas de Paris fazia um jogo em minha mente: Reconhecia quem era turista e quem não era. Alguns eram bem óbvios, exibindo camisas da cor da bandeira de seus países, outros precisavam de uma análise melhor, mas quase sempre era possível reconhece-los. Se não fosse pela roupa, seria pelos trejeitos.
O caminho todo até o Starbucks que ficava duas quadras de distância do hotel fiquei me sentindo culpada por mentir para a minha mãe e para distrair minha mente fazia o jogo que eu havia inventado. Ficava tentando colocar na minha cabeça que tinha sido preciso mentir, que quando chegasse em casa contava tudo para ela.
Abri a porta de vidro sentindo o delicioso aroma de café e chocolate e as conversas paralelas.
Já sentada e saboreando uma das combinações que eu mais amava: frapuccino de caramelo e torta de maçã, olhei para as pessoas através da parede de vidro e continuei com o meu jogo de tentar ver reconhecer quem era turista.
Calça jeans, camiseta de manga longa polo e um celular nas mãos. Parecia distraído demais para um turista. Turistas ficavam o tempo todo atentos ao que acontecia ao seu redor, com medo de ser perder e querendo ver tudo. Travei quando vi o garoto que andava ao seu lado.
Era ele. Joe.
Sem pensar direito peguei meu copo de frapuccino e saí porta afora me espremendo entre as dezenas de pessoas que passavam. Maldita rua movimentada.
O vi no final da rua e apressei o passo.
Trombei com um garoto derrubando boa parte do frapuccino no casaco e na sua blusa branca.
– Oh, pardon! — murmurei desesperada dividida entre tentar limpar a roupa dele ou não e ao mesmo tempo caçando Joe com os olhos.
– Callie?
Ergui a cabeça vendo Tony com as sobrancelhas erguidas em surpresa.
– Tony! Ai meu Deus, me desculpe.
Olhei sobre seu ombro não vendo qualquer sinal de Joe. Droga, eu o tinha perdido. Isso se realmente fosse ele.
– Está tudo bem.
– Não, eu vou limpar isso — Peguei a barra da minha camisa e ergui esfregando como um pano na sua blusa branca — Você, hum, viu Joe por aqui hoje?
Ouvi sua risada abafada.
– O que foi? — perguntei preocupada de meu tom de voz ter evidenciado que estava mais interessada do que devia em saber a resposta para a pergunta que tinha feito.
– Você está se despindo — Apontou para a camisa com que eu tentava em vão limpar a mancha marrom. Parte da minha barriga estava descoberta e cada vez que eu me mexia para limpar subia um pouco.
Fiz uma careta e ajeitei minha blusa. A mancha tinha se espalhado mais ainda pelo tecido branco e agora eu também estava suja. Ao longe era possível ver o hotel onde eu estava hospedada, poucas quadras dali.
– Vem — O puxei pelo pulso caminhando na direção por onde eu tinha vindo.
– Onde nós estamos indo? — Ele não parecia confuso. Na verdade parecia estar se divertindo com a situação como se esperasse para o que eu faria a seguir.
– Meu hotel. Vamos limpar isso, você deve ter algum lugar para ir e não pode ir assim.
Tony não disse nada.
Eu acho que podia levar um quase desconhecido para o meu quarto no hotel já que seus amigos pareciam boas pessoas e não tinham matado nem estuprado eu e minhas amigas em uma situação onde tudo apontava para um desastre como isso.
Abri a porta e espiei dentro, certificando-me de que Mittie e Kath não tinham voltado e empurrei Tony quarto adentro.
– Vá tomar um banho, isso — Balancei o copo de frapuccino frio — espalhou até no seu jeans.
– Eu poderia te matar, você sabe- disse ele quando entrou no banheiro — Não se trás desconhecidos para lugares assim.
– Você vai?
– Hm, não.
– Então está tudo bem.
Esperei o barulho de água começar a cair para entrar no banheiro.
A cortina de plástico do box estava fechada e as roupas de Tony estavam jogadas em cima do tapete.
Tirei meus dois casacos sem fecho e fui até a pia, tirando a blusa e ficando somente de sutiã. Esfreguei onde estava sujo com sabonete até a mancha sair (Eu não tinha muitas opções para lavar roupa em uma emergência como aquela). A torci e pendurei no suporte de toalha.
Agachei para pegar a blusa de Tony quando as vozes de Mittie e Kath soaram altas no corredor.
Notei a porta do banheiro aberta e fechei-a apressadamente.
– Kath e Mittie chegaram — disse num sussurro afobado.
– Elas não vão entrar aqui, certo?
– Acho que não.
– Então relaxe.
Aspirei fundo quando a porta do quarto abriu e as duas entraram conversando.
Dei dois passos de costas em direção o box, como se um monstro fosse irromper pela porta.
Fechei os olhos tentando me acalmar. Aquela situação era ridícula.
– Call? — Kath deu duas batidas na porta e meu coração quase saltou para fora.
– Estou tomando banho.
– Eu deixei meu batom rosa aí?
Meus olhos voaram para a bancada da pia onde estava uma fileira com uns cinco batons.
– Não sei! — disse rápido demais.
– Licença — falou girando a maçaneta.
Fiz a única que tinha me restado naquela situação: Abri a cortina do box e entrei lá dentro, puxando-a de volta em seguida. Não pude evitar e olhei para baixo. Isso mesmo, para a bunda de Tony e devo dizer que ele tinha uma bunda muito bonita. Não que eu tenha visto muitas bundas masculinas na minha vida — na verdade nunca tinha visto nenhuma que não fosse de alguém da família -, mas mesmo assim era uma bela bunda.
Tony virou-se com uma expressão surpresa. Seu cabelo cacheado agora estava molhado e parecia maior. Nossos olhos se cruzaram quando ergui minha cabeça e vi o brilho malicioso e divertido em seus olhos. Droga, ele tinha me visto olhando a bunda dele.
Abriu a boca para dizer alguma coisa e eu a cobri apressadamente com a minha mão. Foi a vez dos seus olhos descerem e foi então que eu me lembrei. Eu estava só de sutiã.
Pigareei e ele voltou a me encarar somente dando de ombro como se quisesse dizer "Agora estamos quites".
Torci para Kath não olhar para baixo e ver as roupas que Tony tinha jogado no chão ou perceber que elas não eram minhas.
– Achei! Ei, Call, nós estamos indo lanchar, só viemos deixar nossas compras. Quer vir junto?
– Hum, não, eu acabei de voltar do Starbucks.
– Ok, tchau.
Fechou a porta e eu suspirei aliviada tirando a mão da boca de Tony.
Esperamos a porta da frente bater para finalmente falarmos algo.
Tony riu e olhou pra mim, dizendo sorrindo:
– Você certamente é problema.
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