Calisto
7 Capítulo 6 - Contatos de Emergência (Astrid, Lea, Trix)
Notas iniciais

“- Há pessoas que precisam de pessoas que precisem delas. Você não compreende pela simples razão de não ser uma dessas pessoas. Você me usaria e depois me atiraria no lixo como um saco de papel se fosse preciso. Deus fodeu com você, meu amigo. Você é esperto o bastante para se sentir muito mal agindo assim, e duro o bastante para fazê-lo de qualquer maneira. Não seria capaz de agir de outro modo. Se me visse caído na praia pedindo socorro, passaria sobre mim se eu estivesse entre você e sua maldita torre. Não estou perfeitamente próximo da verdade?
Roland não diz nada, só observa Eddie.
— Mas nem todo mundo é assim. Há pessoas que precisam de pessoas que precisem delas."
(Torre Negra II : A Escolha dos Três, Stephen King)
Astrid
Quando ela finalmente foi atendida Astrid Dukas levou doze pontos, o corte tinha sido longo indo do meio de sua testa até a orelha direita. Ela se perguntou se ia deixar uma cicatriz. Eles a colocaram em um quarto para observação e a liberaram de manhã.
O hospital tinha chamado seu conselheiro do centro de adaptação como seu contato de emergência após ela chegar, era um pouco embaraçoso constatar que eles provavelmente estavam certos em fazer isso, ela via Kael Zahra duas vezes por semana por cerca de vinte minutos por vez e ainda assim ele era a pessoa mais próxima que ela tinha, não apenas naquela lua mas em todo o resto do espaço federativo. Ela mandou uma mensagem para ele após ser liberada e em resposta Kael tinha mandado uma mensagem para ela dizendo que ele ia encontrá-la e ajudar ela a achar um lugar pra ficar já que o dormitório dela ficava fora de Valhalla e todos os transportes ainda estavam paralisados, ele disse que ia chegar em meia hora mas duas já haviam se passado e nenhum sinal dele.
Uma voz feminina chamou :
“Srta Dukas !”
Astrid demorou alguns segundos para reconhecer a quem pertencia, era de uma das garotas que estava com ela no último vagão quando o trem caiu, a que estava pirando e hiperventilando. Ela parecia bem diferente agora, composta a um nível que quase fazia ela parecer uma pessoa diferente. Ela estava usando roupas diferentes, outro sobretudo mas esse era rosa bebê ao invés de azul marinho, e sua pele estava limpa e sem sinais de suor, ela obviamente tinha tomado um banho. Astrid sabia que ela mesma devia parecer o completo oposto, não apenas por sua pele e cabelo estarem suados e com ainda o cheiro que a fumaça havia deixado mas também ainda havia sangue seco no seu pescoço e na sua jaqueta.
“Oi, eu sinto muito eu esqueci o seu nome”
“Não precisa se desculpar. É Mae. Mae Choi. Quando eu perguntei onde você estava os funcionários do hospital me disseram que você já tinha sido liberada e ido pra casa”
“Liberada sim, para casa provavelmente não por um tempo, eu moro em Polstia e todos os meios de transporte pra fora da cidade ainda estão paralisados. Meu conselheiro vai me pegar e ver onde eu posso ficar até eu sair da cidade. Ou ao menos ele disse que ele iria. Mas porque você estava perguntando por mim ?”
“Eu perguntei por todo mundo que estava no último vagão. Eu até visitei alguns deles e conversei um pouco”
“Okay...como eles estão ?”
“Srta Hernandez e Sr Kowalski como você também já foram liberados, eles estão mantendo Sra Nunes para observação, ela é a que está grávida, ela parece estar bem mas devido a gravidez eles vão manter ela aqui até poderem realizar mais testes só para garantir se tudo está realmente okay. Sr Rutherford parece estar um pouco pior, ele sofreu uma torção e uma concussão, ele parece estar um tanto confuso, eu falei com ele também...tem uma pessoa que está faltando no entanto. A garota que tirou as botas de todo mundo, eu não consegui achar ela, Sr Rutherford me disse que o nome dela era Amala mas aparentemente ninguém com esse nome deu entrada no hospital, eu chequei nomes similares como Amanda, ou Amita ou Kamala e nada, eu também dei uma descrição dela para os médicos e todas as pessoas que se encaixaram estavam nos vagões que caíram. Eles me disseram que após estiver mais calmo eles vão me deixar checar os pacientes”
“Porque você está tentando tanto encontrar ela ?”
“Bem porque eu estou um tanto preocupada agora, não é normal alguém apenas sumir assim.” Também quando eu visitei Sr Rutherford eu perguntei a ele se havia algo que eu podia fazer por ele e foi a única coisa que ele pediu, que eu descobrisse como ela estava e aí falasse com ele, bem isso e uma selfie. E ele perguntou por ela duas vezes, uma vez antes de me pedir pela foto e uma vez depois. Eu acho que ele ainda está meio confuso. Os médicos disseram que ele vai ter que se mantido aqui por mais uns dois dias pra observação...eu me sinto um tanto culpada”
“Pelo que ?”
“Por ir primeiro, eu não sofri nenhum ferimento e ele ainda disse pra aquela piloto me levar primeiro”
“Cara eu também teria te mandado primeiro, você parecia como se você estivesse prestes a ter um ataque cardíaco”
“Eu devo ter parecido alguém bem histérica para todo mundo lá, eu não geralmente assim sabe ?”
Astrid tinha pensado algo similar a isso realmente, mas assim que as palavras saíram da boca de Mae ela se sentiu culpada pelo pensamento.
“Todo mundo piraria naquela situação”
“Você não fez isso”
Astrid não respondeu então Mae continuou :
“De qualquer maneira, considerando que ele me deixou descer primeiro e considerando o estado em que ele estava parece o mínimo que eu posso fazer”
“Eu acho que talvez ela não tenha vindo pro hospital. Eu desci junto com ela, ela veio com o piloto com as asas amarelas, e eu vim com a piloto com as asas vermelhas. Eles pousaram com a gente meio longe do acidente nessa praça ao redor da biblioteca, havia ambulâncias por perto, eu não estava acostumada a mover em baixa gravidade então ela me pegou as botas de um dos corpos que tinha caído por perto e colocou nos meus pés, e ela me disse pra ir pra ambulância ver se tinha alguém pra tratar do meu corte que ela ia tentar achar outro par disponível, eu fiz isso e quando eu cheguei um paramédico olhou meu corte, me deu um pano pra eu pressionar e me disse pra aguardar porque já que eu estava lúcida e sem outros ferimentos que eu não tinha atendimento prioritário. Do lugar que eu estava vendo eu podia ver Amala de longe e ela pegou outras botas como ela disse que ia fazer, mas ela não foi na direção de alguma das ambulâncias ou dos atendentes, ela entrou dentro da biblioteca e eu não vi ela sair e eles me deixaram esperando por um bom tempo antes de me trazerem pra cá”
“Isso é bem estranho”
“Sim, eu achei também”
“Talvez o mesmo que aconteceu com Sr Rutherford aconteceu com ela, talvez ela tenha uma concussão e não sabia. Talvez ela estivesse confusa”
“Ela parecia bem lúcida pra mim. Talvez ela tenha saído por alguma outra entrada que eu não pudesse ver e ela seja alguma das pacientes que estão no hospital, tem muitos pacientes talvez eles pegaram a localização dela errada, e o mecânico é o único que parecia saber o nome dela, e ele tem uma concussão então talvez ele esteja apenas lembrando errado”
“Sim, mas talvez ela tenha uma concussão também, ou algum ferimento interno e ela pode ter entrado lá por um minuto para se recompor e desmaiado. Como não houve dano a biblioteca eu duvido que os socorristas ou agentes da federação que estavam por perto se lembrariam de checar dentro”
Escolha para Fenrir :
A — Ir até a biblioteca e ver se Amala (Kaylane) está lá e dizer Mae para ficar no hospital e checar as outras pacientes cuja descrição se encaixa.
B — Chamar Mae para ir para a biblioteca com ela tentar achar Amala (Kaylane).
C — Continua na recepção do hospital esperando por Kael.
Lea
A filha de Joana finalmente tinha dormido após passar a madrugada em claro. Ela ainda tinha um pouco de febre mas considerando o estado que o hospital deveria estar devido ao acidente Lea achou melhor continuar cuidando dela em casa, mas ela tinha um pouco de dúvidas a respeito da sabedoria dessa decisão. Ela não estava nenhum pouco acostumada com isso, como Joana ela era uma mãe mas ela não fez essa parte, ao seu filho ela deu a vida e ela deu liberdade, e em geral ela tinha orgulho disso. Mas naquela noite ela se sentiu muito mal equipada para fazer um simples trabalho de cuidar da criança.
E isso foi antes das notícias chegarem.
Ela sempre pensava na menina como a filha de Joana ao invés de pôr seu nome, ela culpava um pouco Joana por isso, afinal ela que tinha resolvido colocar seu próprio nome na filha dizendo que homens faziam o mesmo o tempo todo porque ela não poderia fazer o mesmo. Quando Lea falava com a menina ela usava os termos que ela havia ouvido Joana usar ao se referir a menina, Joaninha, Jo, ou Junior, mas em sua mente ela sempre era A Filha. Antes de ouvir as notícias Lea nunca havia parado para pensar no quão apropriado o nome era, a menina realmente parecia uma miniatura de sua mãe, os cabelos negros, a pele morena, até o formato do nariz e da boca, a única diferença eram os olhos, que de Joana haviam sido castanhos e o de sua filha eram verdes. A menina tinha apenas um ano e meio e era bela como todos os bebês eram mas Lea acreditava que essa beleza se manteria por toda a sua vida se sua mãe servia como indicação.
Ela colocou a menina no berço e armou a redinha de contenção para que ela não acabasse acidentalmente voando para o teto. Não era a sua primeira vez cuidando da menina pra Joana, e dessa vez como nas vezes prévias ela achou um tanto enervante ver o jeito que bebês de Calisto dormiam meio soltos no ar. Lea assim como quase todos aqueles que não tinham vindo para a lua tiravam as botas para simulação de gravidade dormir mas também usavam prendedores nas cobertas a cama para garantir que seus corpos não flutuassem para lugares estranhos do cômodo enquanto eles estivessem dormindo. Mas a filha de Joana odiava isso aparentemente e de acordo com o que Joana tinha ouvido das outras mães que ela conhecia isso era o padrão para basicamente todos os bebês nascidos em Calisto.
Joana ao contrário de Lea não se enervava de ver a menina solta no ar dormindo, uma vez ela até comentou que ela achava belo, como se bebês de Calisto fossem tanto criaturas do ar quanto eles eram criaturas da terra.
Lea foi para a sala e começou a fazer uma mensagem de vídeo para mandar para os pais de Joana em Vênus lhes contando o que tinha acontecido com sua filha, e que sua neta estava sendo cuidada. Até as naves mais rápidas geralmente demoravam meses para ir do espaço venusiano até o espaço jupiteriano, mas mensagens de texto, áudio e vídeo geralmente era apenas uma questão de dias, no máximo uma semana dependendo da posição orbital atual dos planetas e outros corpos celestes.
Lea deletou suas duas primeiras tentativas de começar o vídeo devido a ter começado a chorar no meio. Ela estava prestes a começar a tentativa número três quando a campainha tocou.
Um homem estava no outro lado da porta.
“Pois não ?” Lea disse.
“Oi. Joana Alvarez mora aqui ?” ele perguntou, quando ele falou Lea pode cheirar o aroma de cerveja vindo de seus lábios.
“Sim, esse é o apartamento dela, mas ela..hum-”
“Eu sei que ela morreu. É por isso que eu vim aqui, eu queria saber se vai haver algum serviço funerário pra ela”
“Eu não tenho certeza, o corpo ainda não foi liberado. Como você conhece Joana ?”
“Eu sou um amigo”
“Eu sou uma amiga dela também, e eu nunca vi você”
A expressão do rosto do homem após ouvir isso parecia estar entre entretido e irritado.
“Você acha que eu estou mentindo ? Me diga porque você acha que eu faria isso, pra ir ao funeral de uma desconhecida ?”
“Eu não te acusei de nada, e diminua o volume da sua voz, tem um bebê dormindo aqui dentro”
“Oka. Sinto muito...bebê ?”
“A filha dela”
“Ela tem um bebê ?”
“Quando vocês se viram pela última vez ?”
“Uns dois anos atrás mais ou menos”
“Isso explica, a filha dela tem apenas um ano e meio”
“Um ano e meio. Okay. De qualquer maneira sinto muito incomodar, quando você tiver noticias sobre o corpo por favor me contate. Tchau”
“Qual o seu nome ?”
“Meu nome ?”
“Sim. Eu não posso te contatar se eu não sei o seu nome”
“Meu nome é...hum...E..ttore Montanari. Meu nome. E realmente tenho que ir embora agora”
Escolhas para Florrie, Lea diz :
A — “Eu conheço Ettore Montanari e você não é ele, quem diabos é você ?”
B — “Certo ‘Ettore’ eu vou te contatar quando eu tiver mais detalhes sobre os arranjos funerários”
C — “Certo ‘Ettore’ você pode me dar o seu endereço de contato ?”
Trix
Bellatrix Laine acordou e viu o rosto de sua mãe ao lado de sua cama, ela sorriu para ela mas o rosto da sua mãe não sorriu de volta após isso. Isso não era o que ela estava esperando.
Só aí ela se lembrou que não poderia ser sua mãe, afinal ela estava na terra e Trix estava em Calisto e ela estaria até o final dos seus dias.
“Você é a filha da Carina” a mulher que não era a mãe dela disse.
“E você é a irmã dela”
“Sim. Você se lembra o que aconteceu ?”
“Eu fui solta, eu estava esperando para ter o meu encontro com o meu conselheiro, mas eu parei porque eu queria voar. Essa moça me ajudou a voltar para o chão e aí...meu deus o trem caiu”
“Sim. Mais alguma coisa ?”
“Eu corri na direção dele. Havia gente gritando, eu ajudei alguém ?”
“Eu não tenho certeza, de acordo com o médico que eu falei você foi encontrada desmaiada por ter respirado fumaça demais. Você vai ter que ficar alguns dias aqui fazendo tratamento”
Então eu tentei ajudar mas no fim não consegui fazer diferença nenhuma, como sempre Trix pensou amargamente.
“Como a senhora sabia que eu estava aqui, minha mãe te avisou que eu estava em Calisto”
“Não. Minha irmã pode não ter feito a cortesia de me avisar que você estava aqui mas a federação ainda assim me colocou como o seu contato de emergência automático Bellatrix”
“Okay. Eu prefiro Trix a Bellatrix se você não se importa”
Sua tia sorriu.
“Você sabe de onde a inspiração pro seu nome veio ?”
“Sim, é de uma personagem secundária naquela série antiga de livros Harry Potter. Antes de eu ler eu na verdade gostava do meu nome”
“Essa não é a verdade completa”
“E qual seria ?”
“Nós lemos os livros quando nós eramos pequenas e nós ficamos estranhamente fixadas nas irmãs Black. Nós gostávamos de brincar de faz de conta como se nós fossemos elas, nós tínhamos essa vizinha loirinha que era a Narcisa que era meio como a irmã neutra, sua mãe sempre era Andrômeda a irmã boa e eu sempre era Bellatrix a irmã má”
“Então eu fui nomeada em sua homenagem ?”
“Eu acho que sim, o que já seria surpreende o suficiente considerando que eu não falo com Carina há mais de vinte e cinco anos, mas o que eu realmente achei estranho é que quando eu dei luz e eu tive que escolher um nome para a criança eu chamei ela de Andrômeda. Eu acho que é uma daquelas conexões estranhas de gêmeas que os outros falam a respeito”
“Andrômeda ? Esse é o nome da moça que me ajudou a voltar ao chão, talvez fosse a mesma. Não é um nome muito comum afinal”
“Talvez. Mas eu dúvido, minha Andrômeda é uma criatura bem ruinzinha, era mais provável ela ficar rindo da sua cara do que te ajudar”
Isso surpreendeu Trix para dizer o mínimo, ela não conseguia imaginar sua mãe dizendo algo remotamente similar sobre ela para outra pessoa, mesma se essa outra pessoa fosse tecnicamente família.
“Eu vou ir embora agora, tem alguma coisa que você queira ?”
“Hum, sim. Você poderia por favor contatar a minha familia e dizer a eles que eu estou bem ?”
“Sim, eu acho que sim. Mais alguma coisa ?”
Escolha para TheUseOfFeelingBlue :
A — “Sim, você poderia me passar o seu endereço de contato ?”
B — “Sim, você poderia me passar o endereço de contato da sua filha ?”
C — “Não, a ligação é o suficiente. Obrigada, tia”
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