Califórnia
3 Capítulo 3 - As docas
Notas iniciais
Los Angeles, West LA. 20 de Abril de 2010
— O que você fez durante todos esses dias? — Annabeth perguntou sentada em cima da cama de Ares.
— Eu estive resolvendo problemas — ele respondeu calmamente secando o cabelo com uma toalha roxa.
— Problemas? Eu quase arranquei os meus cabelos! — exclama.
— Já passou pela sua cabeça, por um momento, que eu estava resolvendo o que você fez? — falou com raiva, porém logo que avistou a expressão chocada de Annabeth ele se apressou em dizer. — Me desculpe.
— Eu preciso de respostas, tio. Respostas verdadeiras, como as que minha mãe não pôde me dar.
— O que sua mãe nunca lhe contou? — Ares pergunta interessado.
— Quem é meu pai, por exemplo. Ou para onde ela estava indo naquele maldito avião. Ou, desde quando tínhamos tanto dinheiro nos bancos?
Os olhos de Ares moviam-se rapidamente, ele estava raciocinando, mas se sabia de algo não compartilhou.
— O que quer saber? — ele perguntou, sentando-se na cama ao lado da sobrinha.
— O que está acontecendo? — a loira fala baixo, encarando suas mãos em seu colo.
— Por favor, não surte — Ares disse num suspiro. — Eu, eu... Digamos que eu não trabalho do lado da lei.
— O que você faz? — perguntou com os olhos vidrados.
— Eu trafico.
Um silêncio se instalou no quarto. Por muito tempo, Annabeth ficou quieta, e até Ares chegou a temer sua reação.
— Tráfico não parece dar muito dinheiro — ela comentou.
Ares sorri, ela continuava inteligente apesar do medo e do desespero.
— Quem disse que eu trafico drogas?
— E o que você trafica? — sua voz tinha uma expressão morta, algo que a assustava e fascinava ao mesmo tempo.
— Armas em sua maioria — Annabeth se encolhe com a palavra “armas”.
— Por quê?
— Você não deveria perguntar por que, e sim como.
— Eu não quero saber como você trafica essas coisas— ela respondeu desviando o olhar.
— Annie... — Ares murmura tocando em seu ombro.
— Por que demorou tanto para voltar para casa? — Annabeth perguntou, sem olhá-lo.
— Eu estava te salvando.
— Me salvando? — falou num fio de voz.
— Não sei o que aquele homem fez para você, mas depois que se mata alguém, você tem que encarar as consequências.
Annabeth estremeceu.
— O irmão dele estava querendo vingança, ou uma guerra começaria — a loira arregalou os olhos. — Ele queria a sua cabeça, mas eu fui convencer os chefes dele do contrário.
— E o que aconteceu?
— Teremos paz, por agora. Tive que devolver o corpo à família e tomar algumas precauções.
Eles eram poderosos, aqueles dois homens que saíram do escritório do seu tio, eram extremamente poderosos. Foi preciso de muito para impedir que Paul Gibbings conseguisse sua vingança, ele era alguém respeitado em meio ao mundo do crime. Comparado aos irmãos de terno, Ares era um peixe pequeno, ele não era nada. Por isso, tinha praticamente vendido a alma para que ninguém fosse atrás de sua sobrinha.
Ares tinha filhos, mas se eles não estivessem na cadeia, estavam mortos. Todos seguiram os negócios da “família”, mas nenhum foi inteligente o suficiente que nem o pai. Annabeth era, também, sua única família. E ele faria qualquer coisa por ela.
Los Angeles, antigas docas. 30 de Março de 2016
A multidão vibrou quando o carro azul turquesa ultrapassou o amarelo na reta final. A música tocava alta em todos os cantos e várias pessoas dançavam loucamente. Para Annabeth, era um arrastar desnecessário de corpos. Um bar improvisado no fundo de duas caminhonetes e uma unidade da doca, servia à maioria das pessoas drinks coloridos, além de muita vodka. Metade deles já estavam bêbados e não prestavam atenção na única pessoa que não se divertia, ela.
Os donos de carros mostravam orgulhosos suas máquinas, competindo entre si, mostrando suas potências, os motores envenenados e os originais. Toda noite, alguns não tinham sorte e perdiam os carros, outros ganhavam milhões se fossem realmente bons. Annabeth nunca fazia nada, só sentava e assistia.
Naquela noite ela usava um all-star de cano alto branco, um de seus preferidos, junto com um short jeans, uma blusa simples e uma jaqueta verde musgo. Estava encostada no capô de seu carro, e como sempre, digitava rapidamente, na tela do tablet a sua frente. Ela estava tentando acessar os arquivos de Wayne. Por mais que tentasse, depois de todos aqueles dias, Annie não conseguia passar pela segurança do firewall bem protegido. Parecia ser um jogo, toda vez que conseguia entrar em algo, ela acabava em um beco sem saída, como uma marionete na qual alguém se divertia comandando.
Um dos carros chegou na linha final, dando fim a corrida de cinco que havia sido iniciada mais cedo. Aquilo só fez uma horda de pessoas se aproximarem ainda mais com seus elogios baratos e admiração falsa.
Uma mecha cai em frente ao seu rosto e ela a bota atrás da orelha. Os códigos passavam rapidamente na tela do Ipad a sua frente, números sem quaisquer semelhança estavam dispostos no mesmo documento. Com um suspiro derrotado, Annie desfaz o coque mal feito e tira a jaqueta, expondo uma regata. Estava um pouco frio naquela noite, mas o californianos não pareciam se incomodar. Mesmo depois de todos os anos que se passaram, ela ainda não conseguia se acostumar com o vento frio que vinha do Pacífico. Em Nova York, eles usavam casacos a todo tempo. Estavam na metade da primavera, e uma brisa quente, do que seria o início do verão passava nas docas naquela noite. Era até irônico ela sentir frio, já que NYC no inverno era congelante.
As antigas docas já não eram utilizada a muito tempo pelo governo. O antigo porto tornou-se obsoleto quando os cruzeiros maiores não conseguiram atracar. A maré também tinha sido aterrada por conta dos navios de carga, que vez ou outra, despejavam suas mercadorias no mar. Por isso, as docas se tornaram o local perfeito para as corridas clandestinas de carros. A pista continuava asfaltada, e sem buracos, e a polícia não ia ali. Aquela era praticamente uma área proibida para os cidadãos comuns de Los Angeles. Havia uma "clubinho" das drogas no fim das docas e em quase todas as noites, pilotos se aventuravam nas pistas. As docas ainda funcionavam, como galpões perdidos ou esquecidos, que guardavam tesouros, os quais algum ladrão roubava ocasionalmente.
O iPad a frente da loira emitiu um bip a avisando que o ataque de força bruta* demoraria alguns minutos mais. Annabeth desencostou-se do capô de seu Dodge Demon 340 e abrindo a porta do motorista, jogou o casaco e o iPad ali dentro.
Alguns motoristas lançaram-lhe olhares interessados. Sempre que alguém abria a porta de um carro, ou pretendia correr ou estava indo embora. Porém, era muito cedo para ir embora. Ela o trancou e olhando para os lados foi andando em direção ao bar. Seu cabelo estava de um jeito ondulado, como gostava, mas sabia que duraria pouco.
Annie andou até o "bar", onde dois homens serviam as bebidas.
— O que vai querer, sinhõrita— um deles se dirigiu a Annabeth com um sotaque latino.
— Uma cerveja — respondeu brevemente.
O latino de cabelos encaracolados faz uma careta.
— Estaria te sugerindo una Pinã Colada.
— Não, obrigada. Vou ficar com a cerveja mesmo.
— Se você diz — ele deu de ombros e se virou para um isopor em cima de uma das caminhonetes.
O olhar da loira vagueou pela unidade a sua frente. Tinha paredes de concreto e era cheia de prateleiras, com diversos tipos de garrafas com líquidos destilados. Algumas peças soltas e caixas de papelão estavam no fundo. Um homem com a pele negra pulou a pequena altura, da unidade para o chão, segurando uma garrafa lacrada de tequila. Seus olhos se encontram, mas o latino toma conta de sua visão.
— Dois dólares — Leo diz pondo a garrafa aberta em frente à ela, numa das várias mesinhas espalhadas ao redor.
Annabeth paga e pega sua garrafa rapidamente, se dirigindo à uma unidade mais à frente. Ela parou em frente à número 67, que ninguém usava para se pegar ou se encostar. Apurando os ouvidos, ela procurou se alguém gemia atrás da porta de metal, porém não ouviu nada. Parecia tudo limpo, então encostou as costas na parede e observou a aglomeração de pessoas ainda ao redor do carro azul, que estava 15m a sua direita. Os motoristas discutiam entre si e com o planejador — seu nome era Malcolm, e ele até era simpático, quando não estava atrás de dinheiro.
Alguns automóveis estavam estacionados a sua frente, e as pessoas conversavam segurando neles. O carro azul se moveu e parou na vaga em frente à unidade 68, uma à direita de Annabeth.
As mulheres se amontoavam aos montes esperando o "tão famoso" piloto sair do veículo. Aquilo atiçou a curiosidade da loira, ele podia ser só mais um corredor, assim como alguém tremendamente bonito. Assim que a porta do motorista se abriu, seus olhos faiscaram de expectativa e ela inclinou-se para o lado, dando um gole em sua cerveja.
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