Caliban

1 One-shot


Notas iniciais
Eu sou o tipo de pessoa que inevitavelmente se apaixona por personagens secundários que quase sempre não são explorados na história. Como esse foi o caso do Caliban, resolvi escrever uma história que pudesse me dar mais paz de espírito. POSSÍVEIS GATILHOS na história: Tentativa de suicídio, depressão. Montei uma playlist para ouvir enquanto escrevia a one, quem quiser pode escutá-la aqui: https://www.youtube.com/playlist?list=PLF9_psYLyVVFySCE0y4rR4j7fR1cxxIzK

1.

Depois de muito tempo naquela situação, Caliban não conseguia definir o que era pior: os dias ou as noites.

Os dias se arrastavam, eram lentos, dolorosamente quentes e brilhantes. Ele se sentava isolado em um canto coberto do barracão, olhando a pilha de louças e garrafas vazias exalando o aroma remanescente de álcool, o suor escorrendo pelo rosto depois de passar horas coberto pelas camadas pesadas de roupas que protegiam sua pele quase translúcida e então não havia ninguém além de si mesmo e daquela sensação pungente e dolorosa de estar imerso num mar de solidão e areia.

As noites, por outro lado, eram frias e turbulentas, quase sufocantes. Ele se deitava de costas na cama de colchão fino e ouvia o vento batendo nas grades lá fora, pensando em como estaria o velho professor, preso em sua própria cama, senil demais para se virar sozinho, perigoso demais para ficar próximo de qualquer um.

E às vezes, quando Caliban pensava nele, um arrepio lhe corria pela espinha pois imaginava seu próprio crânio implodindo em uma massa vermelha e cinza diante da força incontestável dos poderes mentais descontrolados.

Essa sensação se transformava em um enjoo violento acompanhado de falta de ar quando as crises do professor realmente aconteciam, fazendo-o afundar no colchão e se sentir amassado dentro da própria carne, mas ele superara todos os dias ruins da melhor forma que seu corpo fraco e sem grandes melhorias, artificiais ou mutantes, poderia lhe propiciar.

Na manhã seguinte, lá estava ele trajando sua roupa de proteção, enxergando o mundo pelos óculos de aviador incrustados de areia. Desanimado, se arrastava até a gigante caixa d’água metálica e respirava fundo antes de entrar, ouvindo desde antes de destrancar a portinhola o velho lá dentro resmungando consigo mesmo, repetindo as linhas de um narrador de rádio qualquer.

Caliban conjecturava porque ele fazia isso, se seria alguma das tantas memórias roubadas de outras mentes em seus dias de glória que insistiam em florescer ou se ele captava as ondas sonoras de algum carro passando a quilômetros deles.

Esses pensamentos sempre se devaneciam, no entanto, quando em sua cadeira de rodas elétrica o velho o encarava com os olhos parecendo perdidos em uma neblina e lhe questionava “Quem é você?” daquele jeito abrupto e assustado que as pessoas idosas desorientadas geralmente compartilham ao serem atingidas por uma doença como aquela.

Ele diria então “Sou eu, professor, o Caliban” e o velho faria uma carranca e cuspiria no chão, muito entusiasticamente, “Você estava lá quando pegaram as crianças, filho da puta, eu sei quem você é” e Caliban não faria nada, em parte paralisado pelo medo sempre presente dos poderes dele, em parte porque seus crimes sempre o perseguiriam, mesmo na mente arruinada daquele homem.

— Desculpe, professor — a língua já estava dolorida por tanto ter de repetir aquelas mesmas palavras, mas como uma vítima de uma situação traumática demais para se superar, era só o que ele conseguia dizer nesses momentos, a voz quase sumindo dentro do peito. — Me desculpe, eu realmente… realmente… Sinto muito....

O velho professor então o olhava com uma expressão cansada e parecia murchar na cadeira de rodas, como se a sustentação de seu corpo ocorresse apenas por meia dúzia de fios de marionete, agora cortados.

— Você precisa tomar seus remédios, professor — Caliban estenderia a mão suavemente, onde repousavam os comprimidos que o idoso sempre se recusava a tomar, de forma sistemática, quase como se houvesse sido programado para isso.

— Não quero — ele diria, mas não haveria mais aquela brutalidade assustadora que fazia o albino se encolher por baixo das roupas pesadas, apenas uma tristeza palpável e um reconhecimento breve do que a idade havia transformado-o.

— Eu não sou um inválido, não preciso desses remédios! — Charles repetiria num muxoxo quase infantil, tentando afastá-lo de si guiando a cadeira de rodas alguns metros adiante, a cabeça caída no peito, o olhar cabisbaixo. E quando o outro o seguisse calmamente, o idoso começaria a gritar, assustado como um garotinho, assustando mais ainda o próprio Caliban: — Não! Não! Henry! Henry, onde você está?! Jean! Scott! Ororo! [1] Me ajudem!

— Eles não estão mais aqui, professor. — Caliban retrucaria, parando a apenas alguns passos de distância. — Eles… foram embora.

Charles então o encararia, novamente, perdido como há alguns minutos. Claro que Charles não entenderia. Ele nunca entenderia.

— Onde está Erik?[2] — ele então começaria a chorar e poderia se urinar, mas nos últimos dias estava se tornando mais duro de abalar, apesar das lágrimas grossas escorrendo pelo rosto enrugado. — Onde estão todos? Por que tenho de ficar aqui, não gosto desse lugar, é escuro e estranho.

— Eu sei, professor… — Caliban se aproveitaria então daquela fragilidade e se aproximaria, ajoelhando-se e depositando o remédio em suas mãos trêmulas e cobertas por manchas provocadas pela idade avançada. — Apenas… apenas tome seu remédio, tudo bem?

A cabeça do idoso tornaria a cair no colo, e cabisbaixo ele obedeceria, sem retrucar, pegando o comprimido e o copo d’água, tomando o remédio como se estivesse sendo sentenciado a injeção letal.

— Obrigado, professor — Caliban enfim suspiraria, aliviado, apesar de saber que aquela não era a quantidade adequada para controlar as crises epiléticas do idoso. — Vou preparar nosso almoço, tudo bem? Volto em 1 hora.

— Vai a merda — Xavier resmungou, lhe dando as costas, atacado por uma de suas crises de mal-criação típicas.

— Estamos os três afundados nela até o pescoço, professor — retrucou Caliban com seu jeito inquieto habitual, sem estar realmente bravo.

Os únicos sentimentos que tinha por Charles eram uma mistura de pena, terror e apatia, o que tornava suas interações quase sempre constrangedoras ou mecânicas, beirando a caricatura.

— Que se foda — falou Xavier, dessa vez mais alto, enquanto Caliban trancava-o novamente. — FODA-SE!

Coberto pelo poncho, arrastando-se pela areia do deserto, Caliban apenas tentava não escutar aqueles urros irados, mas eles pareciam se infiltrar em sua cabeça, como se a mente do professor e sua fossem uma só, ainda que Logan afirmasse tacitamente que a estrutura da caixa d’água conseguisse suprimir o controle mental do professor, atuando junto aos comprimidos.

Talvez os dias fossem pior, afinal.

Nas noites havia apenas ele mesmo para se autodestruir.

2.

Havia dias em que Logan não voltava para casa. Ele nunca dava explicações a Caliban e este por sua vez não exigia nada, se atendo aos comentários de sempre sobre o remédio e a saúde do professor. Ainda assim, o relacionamento deles era conflituoso e tenso.

Logan vivia sempre como um fio muito esticado; qualquer peteleco e lá estava ele arrebentando e exibindo a faceta acabada do que um dia fora Wolverine. Caliban não tinha medo real, sabia que Logan nunca o feriria (muito) pois precisava de alguém para cuidar de Xavier para que ele pudesse trabalhar.

De certa forma, era como um casamento por conveniência, mas qualquer humor que Caliban tivera na vida antes daquilo derretera no calor infernal da fronteira, e Logan… bom, os tempos de humorista de Logan tinham acabado desde que a bebida entrara na história. Fazer piadas sobre a situação não era recomendado.

— Você não está se curando. — Caliban uma vez deixara escapar, enquanto passava uma das camisas sociais de Logan. Havia uma mancha de sangue nela, na altura do abdômen. — Você está morrendo, Logan, precisa descobrir o que está acontecendo. Já é a terceira mancha que encontro esse mês. — Ele ergueu o tecido de forma que a mancha ficasse visível para o outro, que apenas lhe deu as costas, voltando a beber o que quer que estivesse bebendo.

“O grande Wolverine, derrubado por uma garrafa de Johnny Walker, quem diria… O que o pessoal do Arma X não daria para acabar com seu poder de cura só com alguns litros de álcool.”, Caliban completaria mentalmente, esfregando a testa enquanto pensava em como poderia fazer para tirar as manchas maiores, aquelas que apareceriam por baixo do paletó sempre bem engomado que Logan usava para trabalhar.

Quando se pegava nesse tipo de situação, pensando em como tirar manchas de roupa usando vinagre e bicarbonato de sódio, ele relembrava de como era estar ao lado de Magneto, caçando pessoas e destruindo vidas, mas vivendo glamourosamente, sendo invejado e amado por jovens que aderiam à causa destrutiva daquele homem… nesses momentos, ele percebia como nada fazia sentido. [3]

Alguns falavam de destino, karma. Sua mãe falava que Deus traçava um plano divino para todos nós, mas ali estava ele, derrubado de cara na merda depois de ter vivido como um semi-deus. Talvez estivesse nos planos desse deus ridicularizá-lo fazendo-o achar que sairia das trevas do esgoto para algo melhor apenas para lançá-lo numa toca no meio do deserto. Um tanto quanto cruel da parte Dele.

Seus dias agora se resumiam a preparar variedades consistentes de massas e bandejas de comidas congeladas, arear panelas e tentar não ter o cérebro explodido por um mutante de nível de periculosidade extremo que caía na senilidade enquanto outro mutante de nível de periculosidade não-mais-tão-extremo o ignorava ou esbravejava contra ele.

Ah, a glória dos dias dourados…

Como se para retirá-lo do marasmo no qual os dias em parte tediosos em parte repletos de tensão, em algum momento de suas arrumações compulsivas por aquele barracão largo e abafado, suando bicas, Caliban encontrou algo para passar o tempo.

Uma arma.

O cano dela apresentava manchas de oxidação e o cabo de madeira estava coberto de arranhões fundos, mas quando o albino conseguiu encontrar uma caixa de balas e elas encaixaram no tambor, o barulho foi terrivelmente claro e ele teve certeza que ela ainda funcionava.

Aquilo tocou em partes de Caliban das quais ele não se recordava mais. Assustado, ele escondeu a arma em uma lata de tinta coberta por pedaços de madeira em um canto do barracão onde Logan nunca ia.

Mas isso não era realmente um problema, pois ela esperou.

Pacientemente.

3.

Era um dia relativamente fresco e tranquilo quando ele brincou com a arma a primeira vez.

Creio que seja importante ressaltar isso, pois é difícil imaginar alguém apontando um cano de arma para a própria cabeça em dias bonitos como aquele, quando havia uma brisa suave soprando e o mundo parecia um lugar bom para se viver, mas como talvez tenha se tornado óbvio com o passar do tempo, algumas pessoas não podem ser dissuadidas de atitudes estúpidas por pequenas bênçãos como essas.

Ele inseriu apenas um cartucho na câmara e rodou-a, os olhos azuis fechados, a nuca se eriçando diante do som jocoso de roleta que a arma fazia enquanto o tambor ia perdendo a velocidade. Sentindo o metal frio nas mãos, fechou a câmara e destravou o cão com o polegar, pressionando o cano no queixo, de baixo para cima. Apertou. Um clique e nada.

Ficou parado durante alguns minutos apenas sentindo aquele beijo gelado cutucando a pele de sua garganta, sem realmente pensar em nada. Sentia-se em parte muito cansado, em parte estimulado. Suas mãos não conseguiram reprimir um espasmo e a arma caiu no chão, quase fazendo-o gritar ao imaginá-la disparando contra as dezenas de chapas metálicas dispostas ao redor.

Ela não disparou, mas Caliban prometeu que não iria mais brincar daquela forma com a própria vida. Claro que isso durou apenas alguns dias e lá se foi ele novamente, acrescentando mais uma bala a câmara, tendo duas vezes mais chances de ser agraciado com um fim vermelho e rápido.

E quando duas balas não eram mais o suficiente para fazer seu coração bater mais rápido, ele ocupou 3 das câmaras do tambor e apertou o gatilho, dia após dia, e quando três não eram o suficiente, a câmara já tinha metade dos espaços preenchidos. Talvez o dia em que ele simplesmente enfiasse a bala na arma e então metesse um tiro na cabeça chegasse rápido demais se Logan não o tivesse parado.

O albino estava passando uma de suas camisas quando o outro parou atrás de si e encarou-o até que Caliban se sentisse desconfortável.

— Se não estou passando rápido o suficiente, Logan, acho melhor fazer isso você mesmo — Caliban resmungou, mantendo os olhos baixos, sentindo suor frio correr pelas palmas das mãos, ainda que Logan não tivesse dito nada.

— Onde está? — Logan perguntou, sem rodeios.

— O que? — Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa o outro o agarrou pelo ombro, puxando-o para tão perto que ele podia quase sentir sua barba roçando no rosto imberbe.

— Não se faz de besta comigo, rato de laboratório! — Logan rosnou e o empurrou contra o balcão da cozinha, provocando uma dor aguda no quadril de Caliban. — A arma!

— Não tem arma nenhuma, de onde você tirou isso? — Caliban gritou, quase histérico.

— Do cheiro de pólvora no seu rosto e mãos, espertalhão. — Ele cuspiu, os olhos cheios de uma fúria que apavorou o albino mais do que a forma como Xavier gritava quando se sentia acuado. — Você achou realmente que ia encher aquele trabuco de munição e eu nunca ia farejar isso?

A garganta de Caliban pareceu se fechar. Ele sentiu que a pele de seu rosto começava a ficar vermelha e a visão turvou de maneira dolorosa.

— Por quê? — Conseguiu emitir, após um longo tempo em silêncio, apenas encarando as mãos feridas de Logan, cujo aperto não afrouxara nem um pouco. E diante da confusão do outro, acrescentou, rispidamente: — Por que você pode se reduzir a um pedaço de merda e eu preciso permanecer intocado?

— Você enlouqueceu? — Logan questionou, tão genuinamente chocado que o soltou. — Quer se matar?

— E o que você faz toda vez que arruma algum problema na rua e volta coberto de sangue, Logan?! — Caliban gritou de volta. — Você pensa que a única coisa que eu faço é preparar a comida e passar as suas roupas? Você acha que eu não enxergo, Logan?!

Os olhos vermelhos de Logan o encararam, duramente, mas ele não retrucou logo de início. Pelo contrário, dando as costas para Caliban, o outro apanhou mais uma garrafa de bebida, arrebentou o lacre e começou a beber.

— O que eu faço é problema meu. — Ele respondeu, depois de um tempo. — Se você acha realmente que sua vida é um desperdício tão grande assim, então vá em frente. Não esperava menos de você, depois de passar tanto tempo andando com aquele babaca do Magneto.

— Me desculpe por não ser tão forte quanto você, Logan, afinal, você é um campeão, não é mesmo? — Caliban sentia o rosto se contorcendo de forma furiosa, as lágrimas correndo por ele de forma incontrolável. — Toda a sua estabilidade emocional e habilidade para lidar com relacionamentos, caramba, Jean deve estar orgulhosa de você! [4]

Como se tivesse levado um choque, o outro largou a garrafa e expôs as garras, colocando-as contra o rosto de Caliban.

— O que foi que você disse, rato?! — As garras tremiam próximo aos olhos muito azuis do albino, mas ele não sentia medo. Era como se seus sentimentos estivessem escorrendo por sua pele junto do suor e da sua sanidade.

— Olha só pra você, Wolverine… — Caliban sussurrou, o peito cada vez mais vazio. — Stryker teria orgulho de quem você se tornou. [5]

O homem emitiu um rosnado quase animal e por alguns instantes, Caliban viu a si mesmo sendo rasgado da virilha ao pescoço, mas tudo o que Logan fez foi empurrá-lo agressivamente contra a parede do outro lado do barracão. A estrutura tremeu, mas manteve-se de pé; Caliban, por sua vez, perdeu a consciência por alguns segundos. Quando a recobrou, Logan não estava a vista e pôde ouvir lá fora o som de um carro cantando pneu e fazendo subir areia.

4.

— Você o deixou bravo. — Xavier comentou quando Caliban apareceu mais tarde naquele dia para alimentá-lo. — Mas não se preocupe, Logan não tem muito espaço para mais remorso hoje em dia.

— Imagino que não, é basicamente 20% da composição do corpo dele, supondo que os outros 80% são água. — Caliban devolveu, ainda irritado, enquanto entregava a bandeja com o almoço para o idoso.

Este encarou o conteúdo do prato e fez uma cara contrafeita.

— Macarrão de novo… — Resmungou, empurrando a comida com o garfo de forma desanimada.

— O quê? — Caliban questionou, impaciente. — Não gosta de macarrão agora? Você sempre comeu isso e não reclamou.

— Eu comi macarrão ontem. Por que precisa ser macarrão de novo hoje?

Caliban cobriu o rosto com as mãos; não bastasse Logan surtando, ainda tinha de aguentar Xavier resmungando como se tivesse 6 anos e nenhuma educação.

— Eu te trouxe bolo de carne anteontem, mas ele acabou, só tem macarrão até o Logan fazer as próximas compras.

— O bolo de carne foi na semana passada.

— Como você pode lembrar disso, mal lembra quem eu sou, não é espertinho? Seu Alzheimer é bem seletivo pelo visto...

— Você está muito grosseiro hoje! — Xavier gritou, empurrando sem querer a bandeja de comida que estava pousada em seu colo. O macarrão sujou parte de sua calça e o chão. — Olha só o que você me fez fazer!

Caliban respirou fundo e alisou a cabeça, pensando que aquele dia parecia ter como único objetivo afundá-lo ainda mais. Se aquela bala pelo menos o tivesse atingido, ele não teria de passar por todos os problemas com Logan e Xavier e o sol e as lembranças ruins...

Quando os Sentinelas obtiveram sucesso e praticamente todos os mutantes do mundo foram reduzidos a pó, sua única opção foi mergulhar de novo no esgoto e esperar as coisas se acalmarem… ou não. Naquela época, não conseguia ter esperança até que sentiu duas consciências pulsando em sua mente. [6]

Duas auras com as quais ele já se encontrara muitas vezes, ora como amigo, ora como inimigo. Ele as perseguiu por tanto tempo que houve um momento em que achou que simplesmente tinha enlouquecido, até que enfim encontrou-os, escondido em quartinhos de motel onde os gerentes poderiam ser subornados com Benjamins amassados.

— Se eu soubesse em que eu me meteria vindo atrás de vocês… — Caliban se percebeu sussurrando, a cabeça doendo. O professor o interrompeu, suavemente:

— Você teria vindo da mesma forma, rapaz. — Declarou, parecendo com o velho professor que o oferecera a Mansão como lar e os X-Men como família. — Estava assustado e éramos os únicos que conhecia nesse mundo estranho e desolado.

— Parece que não foi uma boa ideia, não é, professor? — Caliban riu, se ajoelhando para catar a comida derrubada. Balançava a cabeça, infeliz. — Isso nunca teve chance de dar certo e cá estamos, fodidos até o talo, tentando fazer essa merda dar certo.

— Isso não é verdade, Caliban...

— Me diz uma coisa, por que eu estou curioso: quanto você lembra de mim? — O albino questionou, encarando o idoso com uma expressão de incredulidade. — Porque você parece muito certo sobre o que está falando ou só está sendo um ótimo ator, como Magneto sempre afirmou que você foi.

— Eu lembro de tudo, rapaz. — Xavier disse, tacitamente. Algo em seu tom de voz fez Caliban parar de limpar o chão e se erguer, para observá-lo melhor. — Você e Logan pensam que eu sou um esclerosado, mas isso não é verdade. Eu lembro de tudo. Lembro de tê-lo encontrado vivendo com ratos no esgoto e levado-o para viver conosco na escola. Lembro quando você se aliou a Magneto e nos levou para uma armadilha. Lembro de quando isso fez com que vários jovens fossem sacrificados. Lembro de quando dominaram você e o fizeram usar seus poderes para localizar o maior número de X-Men que pudessem. Minha mente não é mais a mesma de quando eu tinha 25 anos e cabelo, — ele tossiu, dando uma risada fraca — mas você se engana de acha que pode gritar comigo hoje e eu vou esquecer amanhã. Está tudo aqui. — Ele cutucou a lateral da própria cabeça, as mãos trêmulas. — Isso não é uma ameaça, apenas um convite a reflexão sobre suas atitudes.

— Sobre minhas atitudes?! — Caliban exclamou, deixando escapar uma risada sem humor. — Minhas atitudes, professor?! Você age como uma criança de 90 anos mimada o dia inteiro e Logan é um bêbado surtado com fatiadoras nas mãos, mas eu preciso rever a forma como ajo? Você não pode estar falando sério.

— Caliban, você tentou se matar.

O tempo pareceu parar. O albino se recordou de quando Jean Grey, a Fênix, manipulava o espaço-tempo dentro de sua cabeça e aquilo o deixou sem ar, aterrorizado.

— Eu… Não foi uma tentativa de suicídio… por que…? — “Por que todos acham isso?”, era a pergunta que ele queria fazer, mas sua voz havia sumido.

— Você não tentou se matar enchendo metade das câmaras de uma arma e brincando de roleta russa sozinho, Caliban? — A voz do professor parecia vir de dentro de uma câmara cheia d’água. — Você não se sente culpado e infeliz, Caliban? Isso é invenção minha?

— Pare de fazer seus joguinhos mentais comigo, velho. — Caliban recuou. — Saia da minha cabeça AGORA!

— Não estou fazendo nada, Caliban. — Xavier suspirou, o rosto cansado — Filho, não estou te dizendo para esquecer tudo o que aconteceu, mas por que você insiste em não se perdoar? O passado está no passado e chorar sobre túmulos não traz os mortos de volta.

O silêncio entre eles durou mais do que Caliban conseguiu mensurar. Quando tornou a falar, era como se eras tivessem se passado desde a última vez que usou sua voz; ela soou rouca e acabada, como a de um homem muito mais velho.

— Professor, sem ofensa, mas o senhor está com um pé na cova e me fala sobre perdão? — O idoso não o interrompeu, esperando. — Qualquer dia eu vou entrar aqui e te achar morto na sua cama, que diferença faz o passado para o senhor agora? E quando isso acontecer, quando eu ou Logan te acharmos e você não passar de uma casca vazia, sabe o que ele vai fazer, professor? Você sabe, não é? Aposto que lê a mente dele toda vez que ele passa por aquela porta, porque essa merda de dosagem não está certa então é claro que você ainda tem seus malditos poderes!

Xavier não respondeu, permanecendo em silêncio e encarando-o.

— O que foi? Resolveu me ignorar agora? — Caliban insistiu.

O idoso balançou a cabeça e respondeu:

— Quero apenas saber o que você acha, Caliban. Me diga. O que você acha que Logan vai fazer?

— Ele já está fazendo, professor… — O albino retrucou, a boca seca e os olhos marejados. — Não notou que as feridas dele não fecham? Logan vai morrer tão cedo quanto o senhor e então…

— Então…? — insistiu o idoso, aproximando a cadeira de Caliban, que permanecia parado segurando o prato, as mãos sujas de molho.

— Então eu vou ficar sozinho. — Concluiu Caliban, dando as costas para Xavier e se afastando, para que ele não visse a dor em seus olhos. — De novo.

Ele ouviu Xavier chamando-o, mas não respondeu, nem voltou, apenas deixou a caixa d’água e foi direto para o barracão, onde se trancou no quarto e gritou até perder a voz. Quando já não tinha mais forças nem voz, se deixou cair na cama e adormeceu.

5.

No sonho, ele caminhava por uma estrada longa, completamente sozinho. Não havia ninguém ao redor, nem nada, para ser sincero. Havia apenas o chão e o sol era negro, iluminando seu caminho sem feri-lo pela primeira vez desde que ele se lembrava de estar vivo. Caliban não sabia para onde ia, mas talvez não importasse. Seu coração parecia pesado e tudo o que ele queria era seguir, sem olhar para trás.

“Por que é tão difícil pra você se perdoar?”, uma voz ecoou em sua mente, e ele conseguia ver as letras das palavras flutuando diante de si como letreiros em Las Vegas e pôsteres de cinema. “Por que não pode seguir em frente?”

— O que acha que estou fazendo?! — Ele berrou para ninguém em particular, apertando o passo, sentindo uma vontade incontrolável de olhar para trás, mas ciente de que uma borracha o seguia, apagando a estrada às suas costas. Se olhasse para trás, seria consumido pelo vazio. — É tudo o que posso fazer, porra!

“Você finge que não se importa, mas seu coração só carrega dúvidas e tristeza por coisas que nem sequer aconteceram ainda”, insistiu a voz, e agora choviam páginas de histórias em quadrinhos.

Algumas eram apenas storyboards incompletos, riscados por lápis HB e cheios de anotações à caneta. Numa das anotações Caliban leu “Albino, fraco, assustado, poderes mentais facilmente manipulados por Apocalypse...” [7]

Assustado, rasgou o papel enquanto corria, mas as folhas não paravam de chegar. Ele via o uniforme dos X-Men, azul-escuro e amarelo-canário, e aquele era o visor antigo do Ciclope? Rostos jovens e velhos, queridos amigos, inimigos aos quais se afeiçoara… Todos mortos.

Um velho de óculos escuros e casaco de lã passou por ele tomando sorvete e acenou; em seu casaco havia um button grande com o formato de um balão de fala escrito “Eu revolucionei os quadrinhos na América, me pergunte como!”. Caliban não o reconheceu, mas acenou de volta, sentindo que o conhecia de algum lugar. [8]

“Você precisa se perdoar.”, agora a voz soava vinda de um rádio que uma garota ao seu lado carregava na cesta da bicicleta que pedalava. A menina mastigava chiclete e parecia ser uma adolescente. Ela levava um boneco prateado com roupa vermelha junto do rádio. Não parecia notar Caliban. O celular dela tocou. Não um dos celulares de hoje, smartphones, não, aquela modelo parecia ter pelo menos 15 anos, era grande e tinha antena, que a menina puxou com a boca, nervosa.

Os lábios dela se moviam enquanto falava com a pessoa no telefone, mas a voz, carregada de estática, soava com delay em relação aos movimentos.

— Desculpa, mãe, não vai dar pra chegar a tempo pro jantar. Caliban matou a todos nós.

Ela desligou o celular e continuou pedalando. Caliban avistou um caminhão deformado vindo do outro lado da estrada, na direção da garota. Tentou gritar com ela, mas ele sentia como se estivesse se movendo dentro de óleo de cozinha, retardado. A menina usava um casaco de faculdade azul e em cima de um grande X negro nas suas costas, podia-se ler “K. Pryde”. [9]

— KITTY! — Caliban berrou e ela o encarou, surpresa. — FIQUE INTAN…

Mas antes que pudesse terminar (“intangível”, ele queria dizer) o caminhão a atingiu e ela foi arremessada para fora da estrada. Caliban pôde ver o boneco prateado rodopiando no ar e o reconheceu num átimo de segundo, “Pyotr, eu não sabia que você gostava de meninos.” [10]

O corpo de Kitty rolou pelo vazio e sumiu, a bicicleta foi carregada pelo caminhão avermelhado. Caliban berrou de novo, dessa vez apenas um som desesperado e sepulcral, que parecia rasgá-lo dos pés à cabeça.

Ele não conseguia focalizar em nada.

“Quem é você, afinal, Caliban?”

Caiu de joelhos.

Viu crianças correndo em um pedaço de terra que flutuava de cabeça para baixo acima de seu rosto. Elas riam, contentes, inocentes, sem desconfiar do futuro que as aguardava. Alheias às ameaças que o mundo adulto trazia.

“Quando as luzes desligam e não há mais ninguém, quem há para se temer além de você mesmo?”

Quando piscou, Caliban enxergou-as usando trapos de crianças muçulmanas num mundo devastado por bombas. Uma segunda piscadela e agora elas eram judeus acorrentados num campo de concentração. E agora crianças africanas cuja pele negra era chicoteada por meio fado de algodão e agora as crianças da Irlanda divididas pela religião e agora as meninas do Camboja exploradas sexualmente e agora, agora, e agora.

Agora elas usavam o uniforme que Logan tanto desprezava, mas era mais confortável que a pele para muitas daquelas crianças, rejeitadas e deslocadas, consideradas leprosas pelos próprios pais, vistas como bombas ambulantes potenciais pelo governo...

Como uma dobradura de origami, a terra e as crianças foram dobradas ao meio e se tornaram uma carta em chamas (era um Ás de espadas, negro como o olho do abismo), que disparou na direção de Caliban e parou a alguns centímetros de seu rosto.

“O mundo é feito de verdades estranhas.”

As mãos rápidas de um homem moreno a aparou no momento derradeiro. Os olhos dele, vermelhos e ainda assim frios, deixaram claro que ele não passava de um verme.

— Gambit? [11]

— Caliban chamou, tentando alcançá-lo, mas era apenas um holograma e ele foi atingido por uma onda de choque, que o jogou no chão, os músculos doloridos e a boca seca.

— Você já ouviu falar da iniciativa Mortos, Caliban? — Um homem com tapa olho e cicatrizes no rosto lhe perguntou, algemando-o por trás. — Temos certeza de que você vai se adaptar muito bem a ela.

“Somos os homens ocos...” [12]

— Caliban sussurrou, energicamente. — Não, não!

— Você sempre foi um covarde, não é mesmo? — Inquiriu Nick Fury [13] rindo e tirando uma arma de dentro do casaco, apontando-a para a cabeça do albino. Enquanto ele se ajoelhava para que ficassem num nível mais próximo, sua roupa escura e pele transmutavam-se, assumindo um tom azul brilhante que feriu seus olhos e o confundiu, como uma figurinha holográfica cuja imagem muda dependendo do ângulo. Mística prosseguiu, a voz rouca pronunciando cada sílaba com o escárnio que se tornara comum a ela após tanto tempo com Magneto: — Mas não se preocupe, Caliban, aqui temos um local feito especialmente para ratos traidores como você.

“A superação de um trauma possui muitos níveis...”

— Eu nunca tive a intenção… — Caliban tentou falar, mas Mística [14] afundou o cano da arma em sua bochecha, machucando-o na mandíbula. Ele fechou os olhos, pensando “Isso é só um sonho, só um sonho, um sonho…”, mas incapaz de escapar.

— Intenções, desculpas, lágrimas, de que isso te serve, fantasma? — Outra voz questionou e quando ele abriu os olhos, viu o rosto de uma estátua egípcia perfeitamente impassível. Ele o levantou pela camisa, colocando-o acima de sua cabeça e o mundo já não era nada, pois Apocalypse o devastara e utilizara Caliban para este intento.

— Eu só quero voltar pra casa… — Caliban sussurrou e sentiu uma única lágrima solitária correndo pela bochecha, a mão de Apocalypse [15] fechando-se em volta de sua garganta mais forte que o aperto de um guindaste.

Então, de súbito, tudo e todos se foram, e agora ele estava sozinho numa caixa preta de centenas de milhares de quilômetros de extensão. Correu durante algum tempo, mas não conseguiu chegar a lugar algum, então apenas se sentou e fechou os olhos, sentindo o peso das décadas passando sem poder fazer nada.

Talvez ele devesse ter sido mais rápido.

“Talvez”, ele pensou, “se tivesse sido Ororo ou Hank, teriam descoberto na hora.”

— Você não deveria se julgar tão duramente — comentou um jovem de cabelo castanho volumoso e olhos azuis cheios de energia. — Erros são comuns tanto para a raça dos Homo sapiens quanto para nós Homo superior. [16]

— Por que me trouxe aqui? — Caliban indagou, sem se erguer. Suas costas e pernas doíam, e a marca da lágrima feria sua pele. — Vamos, me leve de volta pra casa, professor.

— Ainda não amanheceu, não há motivo para voltar — retrucou o jovem professor, uma lembrança antiga e iluminada que contrastava com o velho cadeirante e debilitado com quem Caliban vivia. — Você ainda não percebeu o que precisa ser visto.

— O que?

— Você é um prisioneiro.

— Isso é bem óbvio, na verdade, já que você está me mantendo aqui.

— Não, Caliban. — Charles negou e sua pele parecia derreter, mas era apenas o colágeno deixando-a. As costas dele se curvaram, o cabelo caiu como se fosse palha e agora ele era novamente o pequeno idoso sentado em uma cadeira de rodas automática, olhando Caliban com seus olhos cheios de tristeza e levemente perdidos. — Estamos na sua mente.

6.

O silêncio do albino estimulou o idoso a prosseguir, guiando a cadeira no negrume infinito.

— A mente é algo maravilhoso e assustador, não? Dificilmente as pessoas imaginam que sua extensão e potência são ilimitadas. Creio que seja uma técnica de defesa, afinal nem todos são capazes de lidar com a possibilidade de sofrimento que a mente é capaz de gerar, seja por problemas reais ou imaginários. — O velho tentou rir, mas isso provocou uma série de tossidas sofridas. Caliban se retraiu instintivamente, mas Xavier o parou com a mão, tentando lhe passar segurança. — Está… está tudo bem, rapaz. Nem tudo, na verdade, mas… com fé, talvez possamos resolver as coisas.

— A fé nunca funcionou muito bem comigo. — Negou Caliban, incrédulo.

— Isso é problemático — comentou Xavier, enrugando a testa ao encará-lo, terminando de limpar um pouco de baba que escorrera pelo canto da boca. — Homens de pouca fé tendem a não ser dissuadidos facilmente de ideias estúpidas.

— Não quero ser dissuadido de nada, não depois de tantos anos sendo manipulado por todo mundo. [17]

— Eu nunca… — o professor começou, mas Caliban o interrompeu.

— O que? “Nunca me manipulou”? Corta essa, Charles, você manipulava todo mundo. [18]

O idoso suspirou.

— Eu nunca tive a intenção de fazê-lo sofrer, Caliban. Você sabe que meu objetivo principal sempre foi ajudar. Tanto você quanto os outros.

— E agora onde estamos? Até onde isso nos levou, professor? Eu sou babá de um idoso esclerosado com poderes telepáticos que podem me matar e sofro violência doméstica de um mutante agressivo e bêbado. Não me parece ter sido uma escolha acertada.

— “As coisas poderiam ter sido piores”, era o que a minha mãe costumava me dizer — Xavier relembrou, guiando a cadeira para perto do albino.

— Como pode saber disso?

— Não posso.

— Então por que acha isso?

O idoso deu de ombros, impaciente.

— Eu tento ser otimista, porra.

Aquilo provocou uma risada inconsciente da parte de Caliban, que balançou a cabeça suavemente, encarando o chão.

— Eu… sempre tentei ser otimista — ele comentou, sentindo o sorriso morrer aos poucos — mas a humanidade torna isso difícil. Guerras sem sentido, a maioria das pessoas morrendo de fome enquanto algumas constroem castelos de ouro... Alguns de nós sendo elevados a deuses e — ele encarou Xavier com dificuldade, as palavras saindo de sua garganta como se fossem cacos de vidro — outros de nós vivendo no esgoto.

— O mundo é cheio de uma assimetria perversa, não é? — Xavier falou, descansando as mãos no colo.

— Não é

isso… — Caliban sentia-se impelido a continuar, mas não sabia como. Sentia-se derrotado e exausto. — Eu juro que não queria fazer aquilo, professor… Eu… Nunca foi minha intenção falhar com o senhor.

— Eu sei, Caliban.

A resposta do idoso provocou um sorriso triste no albino.

— Você só lembra até a próxima dose do remédio, aí a história é outra, mas tudo bem…

— Filho, uma vez... — Xavier balançou a cabeça, como se as palavras estivessem escapando e Caliban podia ver claramente que estavam. — Uma vez, há muito tempo atrás, me perguntaram como eu nunca fiquei louco, depois de ter tantas mentes dentro da minha. Depois de todas as coisas que eu vi. E sabe qual é a verdade? — O canto da boca dele tremia um pouco, mas ele ainda conseguiu sorrir. — Eu nunca pude afirmar com certeza que não fiquei. Talvez eu não tenha enlouquecido de verdade, mas… as pessoas acham que enlouquecer é ficar como aquele garoto Wilson [19]. Esse tipo de gente não sabe o que é ver todo mundo que você ama morrer e virar um saco de bosta decrépito que precisa de ajuda pra ir no banheiro. Elas não entendem que todas as coisas, principalmente as horríveis, possuem muitos níveis. Tristeza, violência, loucura… Camadas e mais camadas e quando você vê está perdido para além da sua própria realidade.

— Como você consegue? — perguntou Caliban e agora o sol negro se punha e a noite era como um véu branco estendido sobre suas cabeças. As estrelas eram tão vermelhas quanto os machucados na pele do albino. — Como consegue continuar, professor?

O idoso parou a cadeira ao seu lado, contemplando aquele céu invertido.

— Eu não sei. Vocês jovens que não raciocinam muito sobre o presente ou o passado, apenas sobre o futuro, não enxergam que talvez não seja necessária justificativa. Às vezes você continua de olhos fechados para não ver as coisas ruins, tentando minimizar o estrago, e simplesmente aceita o que o universo te dá naquele dia. É a velha questão da sanidade. Por que talvez você não tenha motivo naquele instante, sabe? Mas quem dirá de amanhã ou semana que vem ou daqui 10 anos?

— E se nunca melhorar? E se não tiver como não pensar como no futuro?

— Até o futuro fica pra trás, filho, assim como a dor e a raiva. Esse é o ponto interessante de se estar vivo, você não é eterno e o resto também não.

— Eu gostaria de ser tão otimista quanto o senhor, mas não enxergo saída no momento. — Caliban comentou para o professor, olhando para o céu acima de sua cabeça; uma gota caíra em sua cabeça. Nuvens peroladas em formato de mulher se formavam no céu e a chuva começou a cobri-los. — Quando Logan conseguir dinheiro o suficiente, vocês dois vão embora em um barco e não vai ter mais nada pra mim. E se isso não acontecer, a opção é te encontrar morto e ver Logan terminar de se matar afogado em álcool.

— Eu não me lembro de você ser tão pessimista assim antes de chegarmos até esse ponto…

— O ponto em que chegamos apenas me tornou realista, professor. O problema não está na minha mente que gera problemas onde eles ainda não existem, o problema é do lado de fora da minha cabeça, onde as coisas continuam acontecendo e o mundo seguindo adiante rápido demais para que eu possa acompanhar.

Os dois ficaram em silêncio enquanto a chuva caía e a tempestade se aprofundava, enegrecendo a noite com raios escuros. O som do relâmpago fez Caliban se recordar do barulho rouco e assustador que às vezes deixava o peito de Logan quando ele acordava depois de um pesadelo.

— Uma vez, Caliban — Xavier disse, olhando para as próprias mãos molhadas pela chuva — ouvi uma dessas frases de efeito que os jovens gostam tanto de usar, principalmente em histórias de herois. Ela dizia: “Você pode viver a vida inteira de joelhos, mas esteja de pé quando a morte chegar.” [20]

Talvez você não entenda agora e nem amanhã, mas permita-se dar tempo ao tempo… e espere a tempestade passar. Você ainda tem tempo.

— Tempo para que, professor? — Ele sentiu novamente aquelas lágrimas irritantes correndo por seu rosto junto com a chuva, apesar de a pele estar dormente pela água gelada. O gosto salgado amargou rapidamente em seus lábios. — O senhor diz que eu não penso no passado, mas não há um dia sem que eu não lembre de tudo o que fiz e me questione quanto eu poderia ter feito de diferente… Quanto eu poderia corrigir? Quanto disso tudo poderia ter sido evitado?

— O mundo nunca vai depender de apenas uma pessoa, Caliban, enxergue isso. Tudo isso — Xavier apontou ao redor sem forças, abrindo os braços brevemente — tudo isso, filho… É o que o universo está nos dando no momento. Não há mais como voltar no tempo e desfazer todos os erros, mas há como prevenir que novos erros sejam cometidos a partir disso.

— Eu não… não tentei me matar, tudo bem? — Caliban negou, esfregando o nariz. — Eu não sei o que estava fazendo.

Xavier não respondeu nada no início, mas colocou a mão em seu ombro de forma paternal. Depois de um tempo, falou novamente, e seu sussurro era mais alto que o temporal no qual estavam:

— Eu e Logan precisamos de você, Caliban. Sei que isso pode não ser o suficiente para o resto da sua vida, mas pode ser o motivo que te faz seguir em frente por enquanto?

— Eu acho que sim. — O albino respondeu com dificuldade, a visão turva e a garganta apertada. — Mas no fundo ainda acho que você só diz isso porque espera de si mesmo que sempre consiga ajudar os outros, mesmo que não possa ajudar a si mesmo.

— Parte de ajudar a mim mesmo depende de você, Caliban. E para isso preciso que você fique de pé, ainda que você se sinta cansado demais ou incapaz de fazê-lo.

— Tenho medo de decepcionar o senhor de novo, professor. — Ele retrucou, limpando o rosto; a chuva começara a diminuir de forma progressiva, até se tornar apenas o orvalho da madrugada alva e estranha. — Eu receio que não seja o suficiente para mudar o destino ao qual estamos fadados.

— Pode até ser, mas você precisa…

Ele não ouviu o que o idoso falou porque um raio atingiu o ínfimo espaço que os separava e ele foi cortado subitamente da cena, a imagem substituída por uma mensagem de manutenção.

7.

Ele acordou coberto de suor na cama.

Sentou-se e puxou a cortina alguns milímetros, cuidadoso, olhando para fora — uma chuva torrencial havia caído durante a noite, mas apesar de ter cessado, o dia lá fora ainda estava cinzento e nublado, com as nuvens preparando um segundo

.

Ao fechar a cortina e levantar da cama, congelou; ao pé da cama, a poucos centímetros de si, sentava-se um homem trajando um terno escuro e de aspecto caro. A postura era ereta, cheia de nobreza. Seu rosto fino e albino era de uma beleza peculiar, os olhos muito claros refletiam uma energia que há muito Caliban não tinha.

— Qual o problema? — Questionou o jovem Caliban [21] ao velho Caliban, a voz rouca e divertida. — Parece até que viu um fantasma.

Caliban não respondeu, apenas recuando em silêncio e se apoiando na estrutura da cama improvisada, sem acreditar no que via.

— O que? — Tornou a falar o jovem Caliban, levantando e movendo-se de forma lenta e felina, com uma arrogância que o fez se sentir nervoso. — Achou que fosse conversar com o telepata gagá e todo aquele papo indiano de “aceitar o que o universo te dá” fosse te eximir de todas as merdas que aconteceram até aqui?

— Não... — sussurrou Caliban para a visão, balançando a cabeça como se pudesse apagá-la dessa forma.

— “Não”? “Não” o que? Por que não se comporta como um homem uma única vez? É uma pena que você tenha passado disso — o jovem indicou a si mesmo com as duas mãos, como se exibisse uma pedra preciosa — a isso. — E apontou para Caliban com desprezo. — Fale como um homem digno, que sabe quem é. Pare de agir como um rato, você não vive no esgoto há muito tempo.

Caliban respirou fundo e engoliu em seco, tornando a encarar aquele duplo cruel e claramente projetado por sua própria mente.

— Não, não esperava mudar tudo depois daquilo. — Disse, dessa vez com a voz clara.

— Bom, muito bom — comentou o jovem com ironia. — É ótimo que reconheça o babaca limitado que você virou, não é mesmo?

— Não acho que sua presença aqui tenha sido requisitada — ele retrucou, erguendo a voz e tirando as costas da parede — Eu não tenho tempo pra trocar elogios com você.

— Ah, quanta pressa pra ir lavar as cuecas do Wolverine, não é mesmo? — Zombou o jovem Caliban, mostrando os muitos dentes na boca com escárnio. — Mas eu entendo, afinal, se você não faz o que ele quer toma umas porradas pra aprender a ficar quietinho, não é?

— Cala a boca, você não sabe nada sobre como ser eu agora, seu moleque. — Caliban lançou, furioso e para sua surpresa a visão do seu eu jovem silenciou e se recolheu na escuridão.

— Eu posso não saber nada sobre o presente, mas o passado ainda está bem fresco aqui. — Ele retrucou, quase invisível no canto escuro do quarto. — E quem você foi ainda está bem aí, guardadinho, e sei que você vai foder as coisas de novo mais cedo do que pensa.

— Não, não vou.

— Engane-se o quanto quiser, eu te conheço.

— Tudo o que você tem são meias verdades de tempos que não vão mais voltar, — Caliban soltou, e apesar da voz trêmula seu rosto era temerário — porque estão tão mortos quanto quem fez esses tempos e é isso, rapaz.

O jovem sorriu e empinou o queixo num desafio.

— Vou estar aqui esperando o momento oportuno, velho.

E se foi.

Caliban respirou fundo e levou a mão ao rosto, sentindo o suor frio escorrendo por ele. Foi só um sonho, repetiu descrente, deixando o quarto. Estava disposto a esquecer tudo o que tinha visto e ouvido nas últimas horas, e para seu alívio o sonho estava aos poucos sendo tragado pela lucidez do despertar, ao ponto de que todo o seu conteúdo havia sido esquecido antes que ele chegasse até a cozinha.

Nela, Logan estava sentado, debruçado sobre o Daily Times, tomando uma xícara de café fumegante. Vê-lo de óculos sempre o fazia rir internamente, mas nem isso pôde sobressair sobre o fato de que ele retornara após aquela discussão.

Ele não disse nada e Caliban também não. Os dois se encararam em silêncio, até que o outro falou, da mesma forma enviesada e irritadiça de sempre, “tem café na chaleira e eu trouxe mais remédio para o Charles”.

— Obrigado — Caliban murmurou, apanhando o pacote pardo com os remédios e dando as costas para fugir da cozinha. Sentia a garganta apertada e sabia que não conseguiria falar mais nada. Tinha medo que os sentimentos começassem a jorrar de novo — não saberia lidar com uma nova discussão e achava que Logan também não.

— Não, obrigado você, fantasma — Logan retrucou em voz baixa, sem tirar os olhos do jornal sobre a mesa.

Caliban o encarou lentamente, mas isso era tudo.

Logan nunca fora de falar muito, mas aquilo fora o suficiente para ele, que abaixou a cabeça e sorriu enquanto arrumava o café da manhã do professor na bandeja. Na porta de casa, vestiu seu poncho, a máscara e o óculos antes de sair, apesar do tempo nublado, e correu com a bandeja para dentro da estrutura metálica.

Xavier ainda estava deitado na cama hospitalar, mas já tinha acordado e encarava os buracos no teto por onde finos feixes de luz entravam na caixa d’água. Olhou para Caliban com uma mistura de reconhecimento e satisfação que há muito não estampava seu rosto.

Caliban o cumprimentou, mas o professor não falou muito, nem sequer para reclamar do remédio, que tomou em silêncio junto com a refeição. Geralmente o albino o deixava sozinho nessas horas, mas naquele dia algo no idoso parecia atraí-lo como um ímã é atraído pelo Norte da Terra.

Nenhum dos dois falou, no entanto. Era como se na súbita e frágil paz daquela manhã fosse tão fina quanto uma linha de fumaça e ambos queriam que ela pudesse se estender o máximo possível. Até que Xavier suspirou ao terminar o último gole de café e entregando a bandeja para Caliban, comentou preocupado:

— As coisas vão ser difíceis, filho. Tem uma tempestade se aproximando.

— A chuva de ontem não foi tão ruim, eu acho. — Caliban disse dando de ombros. — Mas ainda preciso ir lá fora analisar o tamanho do estrago, então não sei ao certo.

— Não, não esse tipo de tempestade. — O idoso pareceu um pouco trêmulo, mas seus olhos brilhavam com mais jovialidade, afastando o embaçado da demência. — Em breve vamos acabar nos metendo em confusão de novo, filho, como nos velhos tempos.

— Não acho que tenhamos tanta sorte assim, professor. Os velhos tempos se foram.

— Não? Pois vá vendo. — Ele parecia quase uma criança na véspera do Natal e seu sorriso franco fez até mesmo Caliban sorrir. — Os velhos tempos se vão e novos chegam, Caliban.

O albino deu de ombros, recolhendo a bandeja. Não acreditava no idoso, mas não queria perturbar aquela alegria singela que ele parecia estar sentindo.

— Só espero que termine tudo bem, então, como sempre acontecia nos velhos tempos.

Os olhos do professor aos poucos começaram a retornar ao apagamento inicial e aquilo entristeceu Caliban de uma forma que surpreendeu a ele próprio.

— Nem sempre terminava bem, mesmo nos velhos tempos, filho. — Xavier abaixou a cabeça, tocando-a com a ponta dos dedos como se procurasse algo nela. — Nós dois sabemos disso. Talvez… talvez a tempestade leve a todos nós, mas de qualquer forma…

— O senhor não precisa pensar nisso agora, professor — Caliban tentou acalentá-lo, descansando a mão em seu ombro. — Estamos bem por enquanto. Logan voltou e o senhor não teve nenhuma crise até agora. Hoje o saldo está bem positivo, não acha?

— É verdade — Relaxando mais na cama, Xavier fechou os olhos momentaneamente, abrindo-os quase em seguida e sorrindo para Caliban. — Mas de qualquer forma, filho, quero que você saiba que foi muito bom estar aqui com você. Obrigado por tudo.

O albino assentiu e agradeceu, tornando a subir a máscara e os óculos sobre o rosto para que o professor não pudesse ver as lágrimas que vertiam de seus olhos.

De repente, foi atingido pela súbita verdade de que talvez as coisas finalmente terminassem, tanto para ele quanto para o professor e até mesmo Logan. Aquilo o deixou abalado, mas ao mesmo tempo o encheu com uma determinação até então impensável.

Olhando o céu escuro já fora da caixa d’água, ele se permitiu contemplar os relâmpagos cruzando rápido o céu e sentir falta de todos os seus velhos amigos que tinham partido. Se ajoelhando durante alguns minutos para que as emoções há muito guardadas pudessem fluir, ele se deixou preencher pela dor, vazio e saudade, pois precisava lidar com isso depois de tanto tempo fugindo.

E, enfim, o perdão o tocou e Caliban pôde se colocar de pé mais uma vez.

Assim permaneceu, até o final.

Notas finais
[1] Por ordem de citação: Henry McCoy, o Fera, interpretado por Nicholas Hoult nos filmes mais recentes dos X-Men (Primeira Classe, Dias de um Futuro esquecido e Apocalypse). Jean Grey, a Fênix, interpretada por Sophie Turner no filme mais recente dos X-men (Apocalypse). Scott Summers, Ciclope, interpretada por Tye Sheridan no filme mais recente dos X-men (Apocalypse). Ororo Monroe, a Tempestade, interpretada por Alexandra Shipp no Apocalypse. [2] Erik Magnus, o Magneto, interpretado recentemente por Michael Fassbender. [3] Não há nenhuma citação direta a qualquer relação que Caliban possa ter tido com Magneto nos filmes ou nos quadrinhos, isso foi inserido por mim na história. [4] Não apenas nos filmes, mas nos quadrinhos também, quase sempre, independente da linha trabalhada, Jean Grey desenvolvia algum nível de relacionamento amoroso com Wolverine. Em todos os arcos que acompanhei e nos filmes, apesar de Wolverine ter tido vários relacionamentos, ela é de longe a que mais deixou feridas em si. Pra quem não lembra ou não viu (SPOILEEEEER) ele a matou no filme X-Men 2, para controlar a fúria da Fênix. Como não é explicado em que ponto se situa Logan, eu pude partir do princípio de que na linha dessa história ele ainda teria sido o responsável pela morte dela. [5] (Coronel) William Stryker, depende da linha trabalhada. Foi personagem do emblemático arco “Deus Ama, o Homem Mata” que moldou os X-Men como são hoje (recomendo muito a leitura). No entanto, nos filmes ele tem uma posição bem diferente desse arco, e foi o responsável por foder a vida do Wolverine no Arma X. [6] Uma coisa que não é bem explicada em nenhuma HQ (que eu tenha lido) e até mesmo no filme, é como funciona o poder de Caliban. Ele é simplesmente descrito no filme como um “rastreador de mutantes”, mas como exatamente isso funciona? Ao invés de partir do princípio básico de que ele farejaria os mutantes como Wolverine ou Dentes de Sabres fazem, preferi imaginar que o poder dele funcionaria num nível mais psíquico, o que explicaria a forma como ele localizou Charles e Logan no filme - mas é só suposição minha. [7] Caliban já foi um dos Cavaleiros do Apocalypse em um dos arcos do X-Men, e teve os poderes ampliados por ele. Como esse é um momento de quebra da quarta parede, não necessariamente isso ocorreu na linha em que eu imagino a história. [8] Sim, eu coloquei o Stan Lee na história. Se é pra quebrar a quarta parede, que seja em grande estilo. :v [9] Katherine “Kitty” Pride, a Lince Negra. Sua última intérprete foi Ellen Page em Dias de um Futuro Esquecido. [10] Pyotr Rasputin, Colossus. Sua última aparição no cinema foi em Deadpool. É um personagem pouco usado no cinema, mas que eu gosto bastante. Em vários arcos de X-Men Colossus foi namorado de Kitty Pryde, mas na última (e única) série longa que eu li dos X-Men, Ultimate X-Men, Colossus era gay e namorava o Estrela Polar. [11] Remy LeBeau, Gambit. Sua última aparição no cinema foi em Wolverine Origens. [12] Referência ao poema “Homens Ocos” de T.S. Eliot, que eu acho que combina bastante com a depressão e as situações horríveis vividas pelos X-Men num geral. [13] Nick Fury, interpretado em todos os filmes da Marvel por Samuel L. Jackson, amém. [14] Raven Darkhölme, Mística (Mystique). Interpretada por Jennifer Lawrence nos últimos filmes do X-Men. [15] Apocalypse, segundo (quase) todas as histórias o mutante mais velho do mundo e também o mais poderoso. [16] , nome da espécie a qual os X-Men pertecem, citada na tese do Professor Xavier em X-Men: Primeira Classe, dentre outros locais. [17] De fato, Caliban foi manipulado não apenas por Apocalypse nas HQs e filmes, mas por muitos outros personagens por conta de seu poder de rastreio. [18] Manipula(va) mesmo, explano logo: [19] Wade Wilson, Deadpool. Deadpool é um personagem conhecido por sua “loucura” - que muita das vezes nada mais é do que a quebra da quarta parede, algo pelo qual o personagem é muito famoso. [20] Poema de Kubo Tite, Bleach. Volume 58, Die Standing. Acho que é um dos poemas mais bonitos que eu já vi e só consegui pensar nisso enquanto via o Caliban no filme. :’( [21] Apesar de todas as teorias apontarem para o fato de que Logan se passa em um universo distinto do de X-Men: Apocalypse (e todos os filmes dos X-Men num geral), eu imaginei o Caliban mais jovem como aquele apresentado nesse filme. Na minha história em si não sigo essa linha, no entanto, pois a diferença de idade do Caliban dos dois filmes é bem maior do que a razão aceita. ??”----------------------xxxxxxxx------------------- E é isso, pessoal. Erros ou sugestões, por gentileza, me falam. Eu não sei o que queria com essa one, mas me sinto melhor depois de tê-la escrito. O personagem do Caliban foi muito tocante para mim no filme e me senti muito triste por quão pouco explorado ele foi, então espero que essa fanfic tenha cumprido uma parte desse papel pra quem também se sentiu assim.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!