Capítulo V — Pacto

“De espírito forte devem ser considerados, e com razão, os que, mesmo conhecendo claramente as dificuldades da situação e apreciando os prazeres da vida, justamente por isso não se retiram diante dos perigos.”

Tucídedes

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Peixes não podia estar mais ansioso.

Mal dormira naquela noite. Em parte por causa da cafeína que corria viva em suas veias, mas também porque Sagitário finalmente entregaria a resposta de Libra sobre sua viagem ao mundo humano. Assim que o gongo tocou, levantou-se e foi para o refeitório.

Nunca o tempo passara tão devagar. Sem Sagitário e Libra para fazerem-lhe companhia, e com as visitas a Scorpio limitadas ao período da tarde, os ponteiros se arrastavam ainda mais. Queria que Câncer sentasse com ele, mas este conversava animadamente com Touro e Aquário do outro lado do refeitório.

Terminou seu café da manhã apressado, engasgando com os biscoitos, e quando todos saíram, sentou-se na mesa principal, esperando por Sagitário.

Os pés balançavam nervosamente embaixo da mesa, mal tocando o chão, e as pontas dos dedos passeavam sobre o tampo, como quem tocasse um instrumento imaginário. Os cabelos estavam presos para trás, com alguns fios, curtos demais, soltos sobre a testa. Já estava no ápice de sua ansiedade quando finalmente avistou o moreno vindo ao longe. Levantou-se imediatamente quando ele se aproximou.

“E aí? Ele concordou? Quando partimos? O que preciso levar?”

“Hey, hey, hey, calma, peixinho.”, ele riu. Os olhos escuros indecifráveis estavam apertados, intimidados pelo sol que ardia no céu. “Libra quer ver você antes de dar uma resposta definitiva.”

Peixes sentiu um arrepio na espinha.

“Deuses. Acha que ele sabe de alguma coisa?”

“Não por mim.”, ele disse, levantando as palmas das mãos. Os cabelos negros estavam amarrados no penteado habitual, com algumas mechas soltas que lhe caiam sobre os ombros. Ele sorriu, tentando encorajar o menor, “Vai dar tudo certo. É só dizer o que ele que ouvir. Provavelmente só está preocupado com você.”

Peixes assentiu, o semblante apreensivo.

Sentou-se com o amigo, esperando que ele terminasse a refeição. Sagitário tentava amenizar o clima contando piadas e comentando as histórias que contaram na noite anterior. Peixes juntou as mãos, escondendo os polegares e encolhendo a asa única. Mal ouvia o maior. E enquanto externava uma expressão soturna e reservada, não se lembrava da última vez em que sua mente estivera tão barulhenta.

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A boca estava seca enquanto caminhava em direção à sala de Libra. Tamborilava os dedos nas próprias coxas, tentando conter o nervosismo. Parou em um dos espelhos dos corredores para arrumar os cabelos revoltos e prendê-los decentemente, quase sem sucesso. Arrumou as mechas curtas demais atrás das orelhas, e preparou-se mentalmente para adentrar a sala.

Calma, é só uma conversa. Você está preparado. Vai ficar tudo bem.

Bateu na porta.

“Está aberta, pode entrar”, ouviu, de dentro da sala.

Peixes aceitou o convite e entrou, encostando a porta.

Dentro da sala, Libra sentava-se confortavelmente na cadeira de bronze. Ao seu lado, Virgo, de pé, com os braços cruzados, ostentando a habitual expressão carrancuda; e Capricórnio estava curvado, apoiando-se na grande mesa de mogno.

Eles sabem.

O pequeno chegou no ápice de seu nervosismo. A asa encolhida, apertou os lábios e escondeu as mãos suadas atrás das costas. A boca secava ainda mais enquanto ouvia as batidas do próprio coração, que parecia querer saltar de seu peito. Sentiu o rosto esquentar enquanto mordia a parte interna da bochecha.

“Sente-se, Peixes”, convidou Capricórnio.

O menor obedeceu, sentando-se de frente para Libra. Parecia pequeno demais para aquela cadeira, com os ombros encolhidos e as mãos entre as pernas fechadas.

“Gostaria de alguma bebida? Café, talvez?”, ofereceu Libra.

O pequeno negou com a cabeça, rapidamente. Libra serviu-se de um pouco do líquido da chaleira com detalhes dourados, após preparar outra xícara, para Capricórnio.

Este tinha grandes bolsas cinzentas sob os olhos castanhos. Os cabelos estavam desalinhados, e ele parecia aéreo. Pegou o café oferecido pelo louro e deu uma grande golada.

“Sagitário disse que você gostaria de ir com ele ao mundo humano.”, começou Virgo. “Por quê?”

Foi impossível para Peixes esconder seu alívio pela aparente ignorância dos três a respeito de sua mentira. Relaxou os ombros e deixou-se afundar na cadeira de metal.

Virgo era objetivo. Os longos cabelos negros emolduravam o rosto concentrado. Ele parecia calcular cada movimento e medir cada palavra que dizia, atento a tudo. Dentre os três grandes, ele era o que mais preocupava o menor. Virgo era meticuloso e normativo, e tinha seus próprios métodos ao lidar com o impreciso, desorganizado e caótico mundo em que vivia. Era isso que o tornava perigoso.

"As sessões com Scorpio estão me esgotando. Preciso de outra coisa a qual me dedicar. Achei que uma viagem ao mundo humano iria bem, além de me preparar para lidar com ele."

Libra sorriu de canto de boca.

"Isso foi exatamente o que Sagitário disse. Preciso de motivos reais, Peixes. Motivos que podem me fazer ponderar abrir mão de você e colocar a única pessoa que pode extrair algo do caído em risco."

“Ele não é o único que pode conseguir as informações”, replicou Virgo, sem olhar nos olhos do louro.

“Achei que já tivéssemos discutido isso”

“Discutimos, e eu não concordei”, respondeu. “Peixes é altruísta demais, ele não é adequado para esse tipo de tarefa”.

“E Leão é orgulhoso demais. Ele jamais cederia ao Caído.”

“O Caído é que deve ceder a nós, não o contrário!”

“Senhores.”, Capricórnio advertiu.

Peixes enrubesceu, ao presenciar a discussão. Sentia-se mal por ainda não ter a confiança de Virgo. Precisava provar a ele que estava progredindo, sem comprometer o laço que estabelecera com Scorpio.

Libra apertou os lábios, envergonhado. Virgo mantinha a expressão calma, irredutível.

“Nenhum de nós discorda que Peixes tem tido algumas... dificuldades com o caído. Isso é perfeitamente compreensível, ao meu ver. Scorpio já não era muito aberto mesmo antes de sua queda.”, começou Capricórnio.

Libra assentiu.

“Sim. Acho que também concordamos que ele é pequeno e inexperiente demais, e que Sagitário não é exatamente o mais responsável para acompanhá-lo.”, disse ele, olhando para os outros, que agitaram as cabeças em concordância.

“Talvez ele deva refazer o treinamento. Aquário ficaria feliz em ajudá-lo e ensiná-lo técnicas de combate.”, acrescentou Virgo.

“Ele já fez o treinamento quando entrou na minha equipe, e se saiu muito bem”

“Você sabe o que quero dizer, Libra. Não torne as coisas ainda mais difíceis”, replicou Virgo.

“Você supervaloriza o combate, Virgo”, bufou Capricórnio.

“De maneira alguma. Só acho que o ponto forte de Peixes não é exatamente a autodefesa. Talvez Gêmeos devesse ir junto.”, replicou o moreno.

“E quem o defenderá de Gêmeos?”, Libra resmungou.

“Não é como se Sagitário não conseguisse protege-lo se necessário”, disse Capricornio.

“A questão não é essa. Não acho que ele está preparado para isso.”, respondeu o louro.

“Sem habilidades de combate e sem repetir o treinamento, certamente não está.”, zombou Virgo, revirando os olhos.

Peixes pigarreou, desconfortável.

“Com todo o respeito, senhores, eu gostaria sinceramente que parassem de falar de mim como se eu não estivesse aqui”, ele disse, timidamente. A testa franzida e os braços junto ao corpo pequeno evidenciavam seu incômodo.

Libra suspirou, enrubescido.

“Oh, me desculpe, Peixes. Você tem toda a razão. Isso foi um tanto... deselegante.”

Virgo assentiu, em concordância.

“Mas isso não muda o fato de que precisamos de um motivo concreto.”

Peixes suspirou. Conhecia Virgo bem demais para saber exatamente o que ele queria. Provas e evidências de seu progresso. Mas não podia dar isso a ele. Não ainda. Felizmente, tinha outra carta na manga.

“Libra está certo. Você nunca conseguirá nada de Scorpio violentando-o. Ele conhece a violência, e as marcas no corpo dele deixam isso bem claro. Violência não o assusta.”, começou o pisciano.

Virgo cruzou os braços, franzindo o cenho.

“Estou escutando”, respondeu ele, encorajando o menor a continuar.

“Capricórnio estava certo também. Estou tendo algumas dificuldades em me aproximar dele. Porque eu não o entendo. Eu preciso compreender como a mente dele funciona. Preciso entender pelo que ele passou. A única forma de fazer isso é indo até a Terra. Se eu não for, a missão pode ficar comprometida”.

Bingo.

Virgo mordeu a parte interna da boca, como quem ponderasse a idéia. Capricórnio sorria discretamente, bebendo mais um pouco de café.

Libra moveu-se, desconfortável em sua cadeira.

“Peixes, a Terra é um mundo perigoso e instável. As leis dos homens não são eficientes como as nossas. Você pode se ferir seriamente.”

“Eu passei pelo treinamento, Libra. Eu consigo me defender”, respondeu o pequeno, quase numa súplica.

“...E ainda estará acompanhado por Sagitário. Não conheço nenhum arqueiro melhor em todos os três reinos”, acrescentou Capricórnio.

Libra apertou os lábios, pensativo.

“Ele é seu pupilo, então a decisão é sua. Mas você não pode negar que isso fará bem a ele e à missão. Agora entendo seu ponto sobre Leão não ser o mais adequado para uma tarefa desse porte, mas um Peixes inexperiente não é muito melhor”, completou Virgo, tornando sua cabeça em direção ao louro.

Libra suspirou. Os cabelos dourados caiam-lhe até os ombros, e todo movimento seu inspirava elegância e delicadeza. Molhou a pena no tinteiro e assinou o pergaminho com a caligrafia afetada.

“Pois bem. Dou-lhe minha permissão”, ele disse, fracamente.

Peixes não poderia ter escondido sua satisfação mesmo que quisesse.

Sorriu de orelha a orelha, os olhos verde azulados apertados de contentamento. Sentia como se um grande peso lhe fosse retirado das costas.

Libra hesitou antes de entregar o pergaminho amarelado, mas acabou cedendo. Virgo sorria discretamente, e Capricórnio externava a mais pura serenidade.

Peixes fez menção de retirada, permitida pelos três, e saiu, encostando a porta.

Mal sentia o chão sob seus pés descalços. Sentia-se leve e relaxado. Foi até a cozinha pegar sua sobremesa para dividir com Scorpio, e foi recepcionado por Cancer, que lhe deu um pedaço generoso de torta doce.

Peixes despediu-se do ruivo e seguiu para a ala dos prisioneiros. Caminhou por entre os familiares corredores acinzentados até chegar à cela desejada.

Refez os procedimentos habituais com os arcanjos que montavam guarda e adentrou a sala gelada.

Scorpio estava sentado em sua cama, lendo, como fazia todos os dias. Levantou a cabeça quando viu o pequeno entrar.

“Você demorou hoje.”, ele notou.

Peixes sorriu, inclinando a cabeça e levantando os ombros. Aproximou-se do maior e sentou-se ao lado dele, apoiando sua cabeça na parede em que a cama estava encostada. Dividiu a torta que trouxera em duas porções, oferendo ao mais velho o pedaço maior.

Ele agradeceu pelo doce e comeu em silêncio.

"Vou para Karakoran com o Sagi", contou ele.

Scorpio estreitou os olhos.

"Por que não enviam anjos maiores? Se é pra me investigar, deveriam enviar agentes preparados para uma possível luta.", ele disse, franzindo o cenho.

"Porque eles não sabem que você esteve lá."

"O quê?" Scorpio protestou, surpreso. "Peixes, eu sei que você tem as melhores intenções, mas eu não quero que minta por mim".

"Eu não sei o que vão fazer com você se eu contar a verdade", justificou o menor

"Não interessa. Se Capricórnio souber que você está escondendo informações, pode te acusar de traição, e eu jamais me perdoaria se você perdesse a asa por minha causa"

"Ele só vai saber se você contar.”

"Acorda, Peixes! Os líderes tem olhos e ouvidos em toda parte. Ele vai saber", ele disse, ríspido. Os cabelos violeta ouriçados e desarrumados emolduravam uma expressão impaciente.

“Eu vou pra lá você querendo ou não. Mas isso pode acontecer do jeito fácil ou difícil.”, começou o mais novo. “No difícil, eu chego ao mundo humano totalmente no escuro, sem saber em quem confiar e sem certeza do que fazer. No fácil, você me ajuda e eu volto em segurança pra cá.”

“Entenda. Eu te ajudando ou não, a possibilidade de você voltar em segurança é muito pequena. Não pode me forçar a te dizer nada. O simples conhecimento do que eu te diria pode te matar.”, respondeu o mais velho.

“Não, Scorpio. Conhecimento é poder.”, replicou Peixes

“Controle é poder, Peixes. Conhecimento não é nada se não puder aplicá-lo. Você só tem poder sobre algo quando controla esse algo”, ele disse, fitando o chão.

“Eu posso aplicá-lo. Eu sei que posso, porque é só o que eu sei fazer.”, respondeu o pequeno, confiante.

Apertou as mãos e as deixou junto ao corpo. Respirava lentamente, tentando manter controle sobre sua ansiedade. Scorpio mergulhou num silêncio profundo, os olhos verde oliva distantes da realidade. Parecia não estar ali.

“Você tem razão”, Peixes suspirou. “Não posso te forçar a me dizer nada, e conhecimento talvez não ajude se eu for pego. Mas essa é minha única arma. Não é muito eficiente, eu sei, mas é tudo o que posso usar pra me defender.”

Scorpio não movera um músculo.

“Sagitário estará comigo. Ele é meu melhor amigo. Não quero ser um peso pra ele. Não posso fazê-lo se arriscar por mim, mais do que já fez. Eu preciso saber o que estou fazendo, ou jamais me perdoaria se algo acontecesse.”

O silêncio durou mais alguns minutos. Peixes já tinha desistido quando o mais velho finalmente falou.

“A última coisa que eu queria era envolver você nisso. Você tem certeza que é isso quer?”, perguntou ele. Os olhos inquisidores estavam apertados, a testa franzida. Os lábios desenhavam uma linha fina no rosto pálido, e caiam no rosto algumas mechas do cabelo violeta, que parecia macio ao toque.

Peixes assentiu com cabeça, virando-se para ele e aguardando as instruções.

Os olhos do outro varriam a sala, inquietos. Ele era indiferente ao que os outros pensavam dele. Sempre fora assim. Mas, de alguma forma, o pequeno chamara sua atenção.

Talvez fossem os cabelos azuis desarrumados, presos para trás, com alguns fios rebeldes que lhe caiam na testa e evidenciavam os olhos que mudavam de cor. Ou talvez fossem suas feições ingênuas, ou o riso fácil, ou quem sabe o modo como ele sempre se colocava no lugar dos outros. Não sabia. Mas sentia uma necessidade imperativa de protegê-lo, afinal, tinha uma dívida com ele. E a pagaria a todo custo.

"Na base da montanha existe uma pousada. Você vai procurar por Manni Lapel e dizer que Shahid veio buscar uma encomenda. Mostre esse símbolo a ele."- Ele desenhou uma linha uma linha fina volteada sete vezes, como gumes de uma faca, numa folha que tirara do bolso. O mais velho suspirou. “O lugar pertence aos Caídos. Geralmente não há muitos deles lá, então uma família humana fica responsável pela administração. Ainda assim, é muito perigoso. Manni é sua única chance de voltar de lá vivo. Tem certeza que quer ir?”

Peixes assentiu. Copiou o símbolo várias vezes no guardanapo que usara para segurar a torta, até que o tivesse decorado. Estava mergulhado em concentração, mas isso não o impedira de sentir os olhos verde oliva do outro em suas costas.

“O quê foi?”, perguntou o menor

“Estou procurando a criança ingênua e inocente de que falam quando descrevem você.”. Ele abanou a cabeça, pensativo. “Não, não está aí.”

Peixes enrubesceu.

“Achei que estivesse tentado me deixar desconfortável de novo. Teria conseguido agora”, ele respondeu, com o rosto rubro e um sorriso sem graça.

Scorpio riu, sentando-se mais para o lado para dar espaço ao mais novo, que sentou-se entrelançando as pernas.

“Tome cuidado. Você não pode se mostrar uma presa fácil. Desconfie de tudo e de todos, e esteja preparado para lutar o tempo inteiro. Você sabe lutar?”, perguntou o maior, a voz rouca e baixa.

“Eu fiz o treinamento para entrar na equipe de Libra”

“Isso não responde a pergunta. Peixes, você sabe lutar?”, Scorpio repetiu, mais firmemente.

O menor apertou os lábios. Ele sabia lutar? Não sabia manejar uma espada, como Libra, ou um arco, como Sagitário. Tampouco era bom com facas, katanas, lanças ou foices. Mas sabia se defender.

“Sei”, ele enfim respondeu.

Os ombros de Scorpio relaxaram um pouco, apesar dos olhos evidenciarem sua descrença. Mas não disse nada a respeito.

Conversaram pouco depois daquilo. Scorpio elogiou a sobremesa preparada por Câncer, e Peixes perguntou sobre o livro que o maior estava lendo. Depois, contou sobre a conversa com Capricórnio, Libra e Virgo, e sobre como estava ansioso para viajar, e ao mesmo tempo consternado.

Ao pôr do sol, levantou-se para ir embora. Ia saindo da sala, quando foi interrompido pelo mais velho.

“Acho bom você voltar.”

O pequeno sorriu em resposta.

“Eu vou. Prometo, Molly¹”, respondeu, rindo.

E saiu, encostando a porta.

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Notas:

1- Molly é um personagem do romance Ulisses, de James Joyce, citado no capítulo anterior