Caleidoscópio de Retalhos
2 Darjeeling
Capítulo I -Darjeeling
"A ti, Peixes, dou a missão de incorporar todas as tristezas do homem e voltá-las para Mim. Com compaixão, tu mostrarás que as lágrimas são efeito da incompreensão do homem sobre a Minha Idéia. Tua devoção constitui a mais difícil das missões, mas terás a maior das dádivas. Tu serás a única das Minhas doze crianças a me compreender. Para que realizes um bom trabalho, dou-te a provação da ilusão para dominares e, como bênção, concedo-te o dom da fé."
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Peixes se sentia entediado.
Já fizera todas as tarefas que lhe tinham sido designadas, e esperava Virgo e Libra voltarem do mundo humano com notícias do companheiro de equipe desaparecido. Os olhos inquietos buscavam um padrão nas folhas que caiam das árvores, e os ombros estavam encolhidos e escondidos sob a asa.
Asa.
Arcanjos e anjos de alta patente, como Libra, Virgo e Capricórnio, tinham três pares de asas, grandes e semelhantes às de pavões, com “olhos” nas penas simbolizando onisciência. Eles eram os líderes dos Doze, e eram os supervisores das viagens ao mundo humano.
As outras nove crianças tinham todas apenas um par de asas, sem regalias. Todas, menos Peixes. Sendo o menor dos Zodíaco, estava acostumado a lidar com as piadas referentes ao seu tamanho e à ausência de um membro. Mas a piedade dos outros era o que mais o irritava. Como se ele não soubesse se virar sozinho. Como se fosse fraco.
Estava perdido em seus pensamentos quando um murmúrio ao longe o tirou do devaneio.
Viu anjos de baixa patente e querubins voando depressa, amontoando-se sobre um único ponto. No meio dos incontáveis seres celestiais, os cabelos louros inconfundíveis de Libra destacando-se perante a multidão.
“Silêncio. Afastem-se, todos. Agora.” Virgo pediu, alto e claro. Do lado dele, um jovem alto, curvado. O corpo, machucado, exibia sinais de luta, e pelos hematomas e cortes, não tinha sido fácil.
Peixes se aproximava devagar, andando e evitando a confusão do trafego aéreo que os querubins insistiam em fazer. Seus punhos cerrados não o deixavam esconder seu nervosismo, que só aumentava conforme ia chegando perto da confusão.
Não, não pode ser, pensava. Mas podia. Suas suspeitas se confirmaram quando viu o jovem por inteiro.
A pele pálida, cobrindo um corpo magro coberto de feridas. Nas costas, sobressaiam-se duas longas cicatrizes onde deveriam estar suas asas. Os lábios rachados de frio sorrindo com o desdém característico, e os cabelos violeta trançados e ouriçados como a cauda do escorpião que fazia jus ao seu nome.
“Scorpio.”
Ele olhou para cima, arquejando.
“Hey. Sentiu minha falta?”
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Não. Não. Não.
Peixes andava de um lado para o outro, ansioso. Os dedos massageavam a nuca, num gesto auto relaxante, embora soubesse que seria em vão. Mas precisava se concentrar.
Scorpio era uma das doze crianças do Zodíaco. Cresceu junto com os outros, mas nunca se aproximou de ninguém. Talvez fosse porque era insolente, o que irritava Libra, Virgo e Capricórnio, ou talvez fosse seu olhar entediado, ou sua vontade incessante de estar em qualquer lugar, menos nas lições diárias.
Mas as coisas ficaram diferentes quando sua mãe, humana, foi condenada ao Sétimo Círculo do Inferno. Ele, que já era retraído, se isolou cada vez mais. Não ia mais às lições, e só deixava seus aposentos para comer e beber. Ocasionalmente ia ao mundo humano, e voltava com cicatrizes e uma expressão cada vez mais determinada no rosto.
Dado este fato, as visitas ao Segundo Reino por anjos de baixa patente desacompanhados foram proibidas, e passaram a ser feitas apenas com autorização dos supervisores.
Entretanto, num dia de festividades, Scorpio cometeu seu último erro.
O Livro de Enoque, dissociado dos livros sagrados, continha mais segredos que o início do universo, e nas mãos erradas, podia fazer um grande estrago. Scorpio sabia disso quando tentou roubá-lo.
E mesmo os anjos têm que seguir regras.
A primeira e principal delas é não atentar contra o criador. Suas ordens devem ser seguidas sempre, sem questionamentos. A segunda é a proibição do amor à criação, sendo permitido aos anjos apenas o afeto ao criador. A terceira é não trair o Primeiro Reino.
Quando um anjo quebra o regulamento, está sujeito a punições, que acercam desde o rebaixamento na hierarquia até uma viagem só de ida para o nono círculo do Inferno.
A sentença de Scorpio foi cruel. Ele teve uma de suas asas arrancadas. Entretanto, mesmo que seus companheiros de equipe estivessem dispostos a aceita-lo de volta, numa noite, ele se foi. Os estragos nos portões na manhã seguinte indicavam que ele fora para o mundo humano, e desde então, vezes sem conta equipes de busca tem sido enviadas para lá.
Peixes secretamente torcia para que nunca o encontrassem. Ele sabia o que acontecia com quem quebrava as leis sagradas. O Paraíso, ao contrário do que divulgavam, podia ser bem sádico.
Era o que estava pensando enquanto ia ao encontro de Libra, o líder de sua equipe, que o havia chamado em sua sala. Este estava distraído, sentado numa cadeira de bronze em seus aposentos, a vontade com a luz que entrava pela janela e banhava o ambiente.
“Libra?”
“Oh, perdoe-me, Peixes. Entre, por favor.”
Peixes obedeceu e fechou a porta atrás de si. Sentou-se em frente ao homem com cabelos dourados, as mãos remexiam nervosamente em seu colo, escondendo os polegares. Libra levantou-se e foi em direção a uma pequena chaleira.
“Aceita chá?”
Ele fez que não com a cabeça. Libra serviu-se e tornou a se sentar.
“Virgo não pode desconfiar que eu trouxe isso.”. Ele bebeu um gole e continuou, “Os humanos tem costumes peculiares. Sempre que vou ao mundo deles, procuro aprender o máximo que posso.” Ele agora sorria discretamente, enquanto os dedos passavam sobre a borda da xícara de porcelana. “Na Inglaterra, os homens tem o costume de tomar chá as cinco horas. Por causa disso, tem-se a falsa impressão de que a Inglaterra tem os melhores chás do mundo. De fato, o chá inglês não é ruim”
Ele parou por um momento, olhando concentrado para o líquido dentro da xícara.
“Entretanto, numa das viagens que àquele mundo, passei por uma terra abarrotada de homens, mulheres e crianças, todos humildes, honestos e trabalhadores. Eles tinham orgulho dos frutos de seus trabalhos, e amavam uns aos outros mais do que qualquer coisa no mundo. Aquela terra se chamava Darjeeling.”
Peixes ouvia atentamente, os ombros mais relaxados e os braços cruzados
“E foi em Darjeeling que, por Deus, provei o melhor chá da minha vida. A textura, o sabor, e a ternura com que era preparado eram insuperáveis. Comecei a me perguntar por que o chá de Darjeeling não era mais conhecido. Por que as pessoas não atravessavam milhas e milhas para conhecer aquele lugar, como faziam com a Inglaterra? Foi então que cheguei à resposta. Darjeeling, em primeira instância, não tem nada a oferecer. Ninguém nunca pensa que o melhor chá dos três reinos vai sair de uma cidade quase inalcançável no norte da Índia” Libra tinha a testa franzida, e encarava o fundo da xícara como uma vidente que busca respostas na borra do café. Terminado o seu chá, ele se levantou e ficou de costas para peixes, olhando a janela e os querubins que passavam do lado de fora.
“Você já deve estar ciente que Scorpio está de volta. E também deve saber que a ele caberão severas punições.”
Peixes estremeceu em sua cadeira.
“Virgo quer liderar o interrogatório e recomendar Leão para ser o inquiridor. Contudo, Peixes, eu recomendei você.”
Peixes arregalou os olhos em surpresa.
“Senhor, eu não poderia me sentir mais honrado, mas...”
Libra se virou. Agora ele olhava diretamente para o menor.
“Não se sente merecedor. Eu sei.” Ele sorriu. “Peixes, eu conheço você desde que era um garotinho. Você sempre foi o menor, tropeçava em sua própria asa e, deuses, como era desajeitado. Mas ainda assim, era o mais gentil e bondoso. Era o único que sabia lidar com as diferenças desde Áries à Câncer. E é também, creio eu, o único capaz de se aproximar de Scorpio.”
“Senhor, agradeço muito sua...”
“Libra, por favor”, O louro interrompeu.
“Libra. Agradeço muito sua confiança em mim, mas Leão é o melhor das três equipes. Ele é confiante e sempre consegue o que quer. Não consigo pensar em ninguém mais adequado para ser inquisidor.”
“...E também é teimoso, impulsivo e ameaçador. Você viu o Scorpio? Viu os hematomas nele? Grande parte daquilo não foi eu e Virgo que fizemos.” Libra supirou. “Eu olhei nos olhos dele, Peixes. Ele passou por muita coisa. Acha mesmo que um sujeito... indelicado como Leão vai conseguir alguma coisa dele?”
O mais alto voltou a se sentar.
“Peixes, quando eu disse o seu nome no conselho dos líderes, Virgo reagiu da mesma forma que você. Afinal, como uma tarefa como essa podia ser executada perfeitamente por um anjo pequeno, dócil e com apenas uma asa?”
Peixes enrubesceu e encolheu a asa, numa onda súbita de timidez.
“Você é Darjeeling, pequeno. Essa é sua hora de provar pra todos que você pode fazer o melhor chá. Eu sei que pode.”
O menor apertou os lábios, a testa franzida. Ele não olhava nos olhos do mais velho. Sentia-se intimidado. Mas quando Libra expôs a confiança que colocava nele, uma luz ascendeu em seu íntimo.
Peixes acenou com a cabeça e fez menção de retirada, permitida por Libra.
De repente, ele se sentia confiante. Podia fazer isso, certo? Não era uma tarefa impossível. Só precisava de um pouco mais de esforço. Sim. Ele podia.
Porque era, entre os Doze, um dos homens mais próximos de deus. Porque era o anjo com uma asa só, e o único considerado digno do trabalho. Porque ele queria. Porque ele era Darjeeling.
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