Caleidoscópio de Retalhos
9 Impasse
Capítulo VII — Impasse
"Mesmo quando eu andar por um vale de trevas e morte, não temerei perigo algum, pois tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me protegem."
Salmos 23:4
Alguns dias tinham se passado desde o último encontro de Peixes e Sagitário com Ahmed, o Caído que tinham visto cuidando do galpão a oeste da propriedade. Não tinham feito muito progresso desde então.
Os dois tinham combinado de tentarem se misturar mais aos turistas, a fim de não levantarem suspeitas sobre suas identidades.
Passavam a maior parte do tempo nos arredores da pousada, tirando fotos, contemplando a neve e conversando banalidades.
Àquela altura, Peixes já sentia falta do Primeiro Reino. Sentia falta de ser acordado pelos gritos de Gêmeos ou por Aquário pulando de repente em sua cama. Sentia falta de sentar-se com Câncer e Libra no refeitório e ouvir sobre o mundo. Sentia falta do jeito explosivo de Áries, do olhar indiferente de Touro, da personalidade forte e protetora de Leão e da preocupação de Virgem e Capricórnio em manter a ordem num mundo tão caótico. E também de Escorpião. Tinha se habituado a preencher suas tardes à companhia do caído.
Àquela noite, Sagitário não dormira direito. Acordara diversas vezes durante a madrugada, vez outra dando uma olhada em Peixes, que falava enquanto dormia.
Levantou-se nas primeiras horas da manhã e deixou o quarto em seguida, para ver o sol nascer.
O astro se erguia pelas fendas da cordilheira coberta de neve, alva como o mais belo narciso. Não importava quantas vezes presenciasse aquela cena: a aurora nunca ficaria entediante. Contemplou o espetáculo natural por alguns minutos, antes de ir para o refeitório buscar algo para comer.
Foi atendido pela mulher que descobriu se chamar Malika. Ela cobria os cabelos com um hijab alaranjado, e o cumprimentou com um sorriso discreto.
Pediu duas porções de falafeis e os embrulhou em um pacote de papelão, para mantê-los aquecidos. Depois de pagar, agradeceu e seguiu para o quarto.
Entrou sem cerimônia, Peixes já estava desperto.
Ele estava sentado de pernas cruzadas em sua cama. A cabeça pendia para baixo, fazendo os cabelos azulados caírem sobre sua testa. Nas mãos, tinha um caderno e uma caneta, e fazia anotações em sua letra desleixada. Estava tão concentrado no que fazia que não notara a chegada do moreno.
“O que está fazendo?”, perguntou Sagitário, ao que o mais jovem reagiu num sobressalto. Sentou-se ao lado dele na cama e entregou-lhe o café da manhã.
“Obrigado”, disse Peixes, ao receber o embrulho pardo. Abriu-o cuidadosamente e mordeu um dos bolinhos. “Estou fazendo uma análise do que descobrimos até aqui”, ele falou de boca cheia, apontando o caderno. “Ainda não descobrimos exatamente o que há no galpão, e qual a relação com Ahmed”, ele continuou, engolindo a comida. “Também não fazemos ideia de como encontrar Manni, e não temos certeza se podemos confiar nele. Estamos tão perdidos quanto quando chegamos”, concluiu, desanimado.
Sagitário tomou o caderno nas mãos. Não entendia nada do que estava escrito; a caligrafia de Peixes talvez só não fosse mais desleixada que a de Gêmeos. Além disso, ele escrevia como se as linhas não estivessem ali para orientá-lo. Examinou-o por alguns segundos, mas logo desistiu.
“Bom... acho que já os despistamos. O que acha de irmos até lá hoje?”, perguntou o moreno, devolvendo o caderno.
“Acho uma boa ideia”, concordou o azulado.
O moreno deixou o quarto, dando privacidade para que o amigo se vestisse.
Peixes correu os dedos pelos cabelos verde-azulados, penteando-os, e os prendeu num coque desleixado. Pegou a bolsa de couro, checou os itens e a pendurou nos ombros.
Saiu depois de alguns minutos, encontrando Sagitário parado à porta.
Ele acenou levemente com a cabeça ao vê-lo. Estava distraído, olhando o horizonte. Tocava o arco com a ponta dos dedos, passando pela madeira lisa e esfregando nela os polegares.
“Galpão?”, Sagitário perguntou, sem encarar o mais jovem.
“Galpão.”, ele respondeu, dando um sorriso torto. O moreno retribuiu sorrindo de volta. Apertou o cachecol vermelho e afundou as pontas por dentro do casaco, fechando-o logo em seguida.
“Temos que ser cuidadosos. Esteja alerta o tempo todo”, ele disse, ao que o outro apenas assentiu. Desceu as escadas e pôs-se a caminhar sobre a neve macia, seguido pelo mais jovem.
Caminharam em silêncio durante vários minutos, se escondendo aos menores ruídos. Sagitário escondera os cabelos por dentro do cachecol. Os lábios eram uma linha fina, e em seu rosto formavam-se rugas de preocupação.
Avistaram o galpão depois de algum tempo, os tons fortes da pintura externa contrastando na neve pálida.
"Aqui estamos", Sagitário começou. "Vem", ele disse, puxando o garoto para trás de um monte de neve.
Peixes estava tenso. Em sua cabeça, montavam-se cenas com Ahmed surgindo de trás das paredes que espiavam, com eles sendo descobertos e com os dois cercados por caídos. Não importava o desenrolar da história. Na mente de Peixes tudo sempre terminava em um conflito.
TRINC.
Peixes tornou a cabeça pra identificar a origem do som, mas não conseguia ver nada de onde estavam escondidos.
"É Ahmed.", Sagitário sussurrou.
O caído irrompera de trás do galpão, e girava uma manivela a fim de abrir o portão oeste. Peixes, a muito custo, conseguira ver o sistema. O eixo da manivela girava uma polia que subia conforme a entrada ia surgindo. Tudo isso sustentado por correntes prateadas com elos grossos. O sistema era simples, mas eficaz.
As veias e nervos das mãos de Ahmed ficavam mais salientes conforme ele aplicava força. Mesmo com a baixa temperatura, pequenas gotículas de suor surgiam em seu rosto, e congelavam quase instantaneamente ao contato com o ar gélido.
A porta se abria lentamente, e, quando as roldanas estavam completamente no topo, viram o caído se afastar depressa, ao que um rugido monstruoso tomara conta de todo o vale.
Foi quando o viram.
A besta tinha quase cinco metros de comprimento, da cabeça à cauda. A pelagem branca camuflava-se na neve. Pequenas manchas marrons cobriam-lhe as patas felpudas, com garras tão longas e afiadas que poderiam facilmente fatiá-los. A cabeça assemelhava-se à de um lobo; a boca semiaberta deixava à mostra as presas, pingando saliva. Perto das orelhas, saíam dois cornos, que faziam uma ligeira ondulação para trás.
Nas costas, sobressaiam-se duas longas asas, brancas e com um pequeno espinho na envergadura.
Contudo, o que mais chamava atenção sobre ela eram os olhos. Três olhos. Dois deles nas posições habituais, alinhados às orelhas, e o outro, no meio da testa. Castanhos. Intensos.
O animal tinha uma respiração pesada, como se fizesse muito esforço para uma única inspiração. As costas subiam e desciam conforme o ar passava por seus pulmões.
“Peixes...”, Sagitário não conseguiu formular a frase. A visão da criatura o deixava amedrontado e maravilhado ao mesmo tempo. Peixes a encarava, os olhos verde azulados brilhando em êxtase. Milhões de perguntas borbulhavam em sua mente, já habitualmente caótica. De onde ele veio? Como chegou até aqui? Do que se alimenta? As ideias se criavam em teias, e qualquer tentativa de formular um único pensamento linear teria sido falho, por isso, tudo o que pode fazer foi abrir a boca, em admiração.
“Vamos, curve-se.”, gritava o caído à criatura. Sagitário reconheceu a voz do homem que os tinha encaminhado de volta à trilha.
A besta bufou, teimosamente. Tornou a cabeça para o lado, evitando os olhos do homem.
“Curve-se.”, ele repetiu, puxando a corda para fazer a criatura encará-lo. A voz era firme, deixando claro que aquilo era uma ordem, sem brechas para interpretações.
O animal virou-se, dando uma volta em torno do próprio eixo, novamente ignorando as palavras do caído.
“Curve-se!”, ele bradou, impaciente. Retirou o chicote da cintura, estalando-o furiosamente nas costas do animal, que rugiu alto.
Peixes engoliu em seco. Sentiu o suor frio escorrer por sua testa, e sobressaltava-se cada vez que ouvia a canção aguda do chicote cortando o ar gélido. Sagitário mordeu o lábio inferior. A visão do homem maltratando a criatura o enojava. Era apenas um animal. Não tinha culpa.
A besta guinchou, erguendo-se, apoiada pelas patas traseiras. As asas bateram uma vez, numa tentativa balda de levantar vôo. A corda, resistente, limitava seus movimentos. Os olhos cor de avelã gritavam em desespero.
“Precisamos fazer alguma coisa”, disse Peixes ao moreno, em sua voz mais urgente. Os olhos estavam apertados. O rosto estava visivelmente aflito, descrevendo a necessidade imperativa de ir ao auxilio da criatura.
“Não podemos fazer nada, ou eles vão nos descobrir”, ele disse em resposta. Colocou para trás uma mecha do cabelo escuro enquanto seus ombros desciam com um suspiro. “Sei que é doloroso para você assistir coisas assim, mas é um animal selvagem. Não podemos nos arriscar para salvar uma besta infernal que pode nos comer vivos logo após o ato”, ele argumentou, baixinho.
Não foi o suficiente para extinguir a angustia do pequeno, que ainda encarava a cena apreensivo. Os punhos estavam cerrados, junto ao corpo, e ele não se movia. Mesmo o vento frio parecia tímido ao tremular levemente os cabelos azulados.
“Curve-se.”, o caído repetiu, dando outra chibatada nas costas do animal.
A fera urrou, agora com raiva. O homem levantou os braços novamente para chicoteá-lo.
A tira descia rapidamente, cantando conforme cortava o ar, mas algo a parou subitamente.
A besta conseguira agarrar a corda com a boca, e agora puxava-a.
“Hey! Pare. Agora”, ele dizia, relutante. O animal continuava puxando o chicote, teimosamente. Peixes viu o terror se formar na face do homem que estava cada vez mais próximo das presas da criatura. “Pare! Solte!”, ele gritou. A besta levantou-se ligeiramente, sustentando seu peso nas patas traseiras e afundando-as na neve. O caído, pressentindo o que estava por vir, soltou o chicote quando o animal afundou as patas dianteiras onde ele se encontrava segundos antes.
O homem afastou-se depressa, sentado no chão coberto de gelo. Estava ofegante, devido ao exercício súbito. O cabelo castanho e curto tremulava levemente. O rosto escurecera, e as pupilas estavam dilatadas pela raiva.
“Agora chega.”, ele disse ao animal. Puxou a corda que enlaçava seu pescoço com violência, forçando-o a se abaixar. A besta urrou em protesto, os três olhos comprimidos. O caído contornou a fera e distendeu as amarras, impelindo o animal a entrar novamente no galpão.
Entre urros e trancos, lentamente, a fera foi posta de volta no galpão. O caído fechou o portão com violência, virando-se de volta para a trilha e seguindo seu caminho.
Sagitário e Peixes esperaram alguns segundos antes de saírem de trás das pedras. Levantaram-se cautelosamente e agitaram as mãos sobre as roupas, retirando a neve.
“Bom, já sabemos o que tem no galpão”, Sagitário disse, quebrando o silêncio. Peixes não respondeu. Os olhos estavam fixos nos chão, e ele tamborilava os dedos na lateral das coxas. A boca era uma linha apertada no rosto pálido. “Vem, não podemos ficar aqui por muito tempo”, o moreno continuou, massageando a própria nuca. Tocou no ombro do mais novo, convidando-o para que o seguisse, e tomou a dianteira.
Caminharam por alguns metros até verem a trilha novamente.
“Primeiro a movimentação de caídos cresce. Agora tem uma besta infernal no galpão. Não estou gostando do rumo disso.”, Sagitário disse, abanando a cabeça.
“Seja o que for que eles estiverem planejando, é algo grande”, Peixes concordou, a mente um pouco distante.
“Hey”, Sagitário chamou, franzindo a testa e parando para encará-lo. “Não gosto quando fica assim”, ele disse. “O que vimos lá... Não é culpa sua. Você não precisa carregar todo o peso do mundo sobre os seus ombros, Peixes. Somos amigos. Você sempre pode dividí-lo comigo”, ele continuou, fitando o chão. Os cabelos longos e a pele morena tornavam quase imperceptível o rosto corado.
Peixes sorriu.
“Eu sei. Obrigado”, disse finalmente.
Avançaram pela trilha até a pousada. Cumprimentaram o casal sentado no hall de entrada e dirigiram-se para o quarto.
Peixes parou em frente à porta com o número correspondente e esperou Sagitário encontrar a chave perdida em um dos bolsos. Ele ergueu a chave de bronze depois de alguns segundos, antes de coloca-la na fechadura.
“Mas o que...”
Não terminou a frase.
A porta abriu sem a menor resistência, e a visão de dentro do quarto não podia tê-los deixado mais chocados.
O colchão de Peixes estava no chão, junto com os lençóis. As gavetas estavam abertas, mal encaixadas ou jogadas pelos cantos da parede. A cômoda estava torta, dando sinais de que fora movida. Nem mesmo a lenha se salvara, já que a maior parte dela estava espalhada pelo chão do quarto, sujando o tapete de farpas e cinzas.
Tinha sido invadido.
Peixes imediatamente levou a mão a adaga, mas foi impedido por Sagitário antes que a tirasse da bainha.
“O que está fazendo? Ainda pode ter alguém aí dentro, precisamos...”
“...precisamos nos misturar. Humanos não enfrentam ladrões e invasores. Eles dão queixa. E é isso que faremos. Não tinha nada que nos denunciasse no quarto. Nossas armas e colares estão conosco o tempo todo. Se levaram alguma coisa, devem ter sido roupas e dinheiro”
Peixes assentiu, a postura ainda tensa.
Tirou as mãos da pequena adaga e a escondeu. Voltaram para a recepção do albergue, onde encontraram a balconista, concentrada nos papéis que organizava. Tinha prendido para trás os cachos escuros, e levantou os olhos quando viu os dois se aproximarem. Sorriu.
“Olá! Em que posso ser útil?”, ela perguntou
“Nosso quarto foi invadido. A porta tinha sinais de arrombamento, e as gavetas estavam reviradas.”, Sagitário contou, a voz emergente.
A mulher arregalou os olhos.
“O quê? Isso é impossível! Levamos a segurança dos hóspedes muito a sério. Tem certeza que não fizeram isso enquanto alcoolizados ou...”
“Não somos mentirosos.”, Peixes respondeu, ríspido demais.
“Entenda. Esse tipo de queixa é comum dado a clientela que atendemos. Não foram poucas as vezes em que os hóspedes simularam roubos para ficarem com o dinheiro do seguro.”
“O que está acontecendo aqui?”, uma voz grave surgiu. O dono dela tinha longos cabelos louro-acastanhados, presos para baixo. A pele pálida contrastava com os olhos negros, gélidos. Uma linha fina se desenhava em seu rosto, e a postura firme combinava perfeitamente com o corpo magro e delineado.
“Oh! Esse é o gerente. Ele pode explicar melhor para vocês sobre a política do albergue e sobre como lidamos com esses casos”, disse ela, engasgando-se com a súbita aparição.
Ele mediu os dois de cima abaixo, deixando-os desconfortáveis.
“Prazer”, ele começou, estendendo a mão para cumprimenta-los, “Sou Manni Lapel”.
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