Caleidoscópio de Retalhos
7 Baliza
Capítulo VI — Baliza
"Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus."
Millôr Fernandes
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Peixes tivera uma noite turbulenta.
Em seu sonho, ensinava um dos idiomas humanos a Câncer, quando, de repente, Sagitário aparecia perturbado, com o arco nas costas, dizendo ao menor que ele tinha que fugir. Perguntou vezes sem conta de que precisava se esconder, mas ninguém parecia escutar. Viu os Zodíaco pegarem suas armas, ficarem de costas e formarem um círculo em volta dele, protegendo-o. Todos lutavam contra algo que ele não conseguia ver, e iam caindo, um a um. Não conseguia se mover. Só o que podia fazer sentir o horror pelo líquido escarlate que jorrava dos corpos no chão.
“Peixes! Peixes! Acorda!”
Acordou encharcado de suor. O coração ressoava através de seu peito, que subia e descia em velocidade espantosa. Sagitário estava sentado em sua cama, as mãos chacoalhando seus ombros. A desespero no rosto dele esvaeceu quando o pequeno abriu os olhos.
“Graças aos Deuses! Se quer me matar, sugiro que use uma espada!”, dizia o moreno, quase aos berros. Discrição não era seu forte.
“Calma, já estou acordado. Está tudo bem.”, respondeu o pequeno, um pouco agitado.
“’Tudo bem’? ‘Tudo bem’??? Você estava gritando até agora. Eu digo, realmente gritando, Peixes. Parecia perturbado. Se debatia feito um peixe fora d’água. Nunca vi você daquele jeito. Você não está bem. Vou falar com Libra. Podemos descer ao Segundo Reino outro di...”
“Você não dirá uma palavra ao Libra.”, interrompeu o pequeno, ríspido demais.
Sagitário calou-se imediatamente. O pequeno passou as mãos pelos cabelos rebeldes, prendendo-os frouxamente para trás. Os olhos semicerrados pareciam fora de foco, e moviam-se inquietos pelo quarto, como se procurasse algo em que prender sua atenção.
“Como quiser.”, respondeu o moreno, franzindo o cenho.
Peixes suspirou.
“Desculpe. Eu só estou ansioso, não preciso cancelar a viagem. Não foi minha intenção ser rude com você.”, desculpou-se o menor, massageando a própria nuca.
Sagitário sorriu.
“Tudo bem”. Os cabelos pretos presos tinham algumas mechas soltas sobre os ombros, e a pele morena brilhava mesmo que o sol ainda não tivesse saído. “Libra está nos esperando lá fora”, ele continuou, “Ele quer dar algumas orientações finais antes de partirmos.”.
Peixes assentiu com a cabeça e observou o maior se retirar.
Não demorou muito para arrumar suas coisas. Além das roupas e itens como lanternas e fósforos, levava objetos que tinham algum valor sentimental. Antes de sair, deu uma boa olhada no lugar.
A cama permanecia desarrumada, os lençóis e algumas almofadas ocupando quase toda sua superfície. No chão, papéis espalhados e sapatos que ele nunca usava — amava sentir o chão sob seus pés descalços. Todos os seus livros estavam perfeitamente organizados na estante de madeira, em ordem alfabética de autor. Os temas iam desde distopias adolescentes até mecânica quântica.
Trancou a porta antes de sair, deixando a chave embaixo do tapete turquesa.
Caminhou pelos corredores escuros até o pátio, onde avistou os cabelos louros inconfundíveis de Libra, ao lado de Sagitário.
Ele acenou quando o viu chegar.
Peixes postou-se ao lado do moreno, que brincava com as pontas dos cabelos. Libra sorria de canto de boca, os olhos apertados, e a preocupação evidente no rosto, como uma mãe que deixa os filhos partirem.
“Levem isso com vocês, e não percam de jeito nenhum.”, ele disse, entregando o que estava em suas mãos — dois cordões simples com um pequeno pingente, como uma conta de uma pérola.
“O que é isso?”, o menor perguntou.
“São amuletos. Protegem nossas asas da vista dos Caídos.”, respondeu Sagitário, já colocando o colar.
As asas dos anjos eram feitas majoritariamente de matéria celestial, e por isso só eram visíveis a seus semelhantes. Humanos, por exemplo, não conseguiam vê-las, mas isso não era um problema para caídos, demônios, súcubos e outras criaturas.
Peixes observou maravilhado as asas do amigo desvanecerem enquanto este vestia a pequena conta.
“É importante que usem o tempo todo. Se alguém ver quem vocês são e tentar cortar suas asas com metal comum, o vínculo entre vocês e a asa não será desfeito, e bastará uma só chama para desaparecerem por completo do mundo.”, Libra falou.
Peixes engoliu em seco.
Girou a pequena conta azulada nas mãos e colocou o colar no pescoço, sentindo o toque do material frio contra sua pele. O objeto era leve, mas Peixes estremeceu ao imaginar o peso que ele tinha sobre sua vida.
Sagitário divertia-se com o pingente, puxando o cordão contra o pescoço e soltando. Um sorriso brincava em seus lábios, e contrastava com a linha fina que se desenhava no rosto de seu mentor. Libra virou-se para ele.
“Tome cuidado. Eu não estarei lá para te dizer o que fazer; essa responsabilidade é sua agora. Lembre-se de tudo o que ensinei. Pode fazer isso?”
“Claro. Aprendi com o melhor”, devolveu o moreno, ao que Libra respondeu com um sorriso torto.
“E você, Peixes”, ele agitou a cabeça, olhando para baixo, “Não pode se distrair. Não pode se dar ao luxo de simplesmente focar em outro ponto quando o assunto não te interessa. Precisa estar consciente de tudo, o tempo todo”. Os cabelos dourados brilhavam à luz da lua, que ainda estava no céu. Colocou algumas mechas para trás da orelha, enquanto falava. “Não confie em ninguém, entendeu?”
Peixes assentiu com a cabeça, ao que o louro reagiu suspirando, mais relaxado. Abriu a bolsa que trazia consigo e tirou de dentro um pequeno punhal, cravejado na base com pequenas pedras mal lapidadas. Águas marinhas.
O mais velho limpou a lâmina no couro da bolsa e ofereceu ao menor, que olhava confuso, da arma para o mentor.
“Libra, eu... eu não...”
“Não usa armas. Eu sei. É um dos motivos pelos quais está na minha equipe, lembra?”, ele completou, sorrindo ligeiramente. “Eu sei que não se sente a vontade empunhando isso. Mas preciso que você a leve. Vou me sentir mais relaxado assim. Por favor, leve-a.”, ele insistiu, numa voz suplicante.
Peixes pegou o punhal. Encaixava-se quase perfeitamente em suas mãos pequenas, e cortou o ar a sua frente, ouvindo o metal cantar. Passou os dedos pela pedra fosca, e então pela parte afiada, reconhecendo o material só pelo toque. Prata celestial.
“Obrigado”, respondeu o mais jovem. Libra assentiu. A apreensão ainda não tinha deixado seus olhos semicerrados, mas o corpo estava menos tenso agora que o pequeno aceitara a arma.
“Estejam preparados o tempo todo. Tudo o que tem que fazer é observar os movimentos dos caídos, e para isso, não podem chamar atenção. Misturem-se entre os turistas. Ajam como eles. E cuidem um do outro, não se separem nunca.”, ele olhava para os dois, agora com seriedade. O rosto estava endurecido, e os punhos jaziam cerrados, junto ao corpo. As mãos ociosas pareciam querer socá-los. Em vez disso, fez algo que os surpreendeu ainda mais.
Ele os abraçou.
Ambos os pupilos coraram, surpresos, mas entrelaçaram os braços uns nos outros enquanto mantinham os corpos unidos. Os olhos de Libra fixaram-se no chão, indecifráveis, enquanto tentava organizar seus pensamentos e recordar tudo sobre aquele momento; perdeu-se tanto em seus devaneios que não notara que não era o único a sentir algo se quebrando.
Separaram-se depois de alguns momentos, Libra, ainda corado.
“Oh, Deuses, olha a hora. Vocês tem ir.”, ele disse, recompondo-se. Limpou os olhos levemente marejados com a manga da blusa e os acompanhou até o grande portão dourado, guardado por três serafins.
Sagitário checou as flechas em sua aljava, escondendo-as com um pedaço de tecido. Peixes ajustou o tamanho de sua mochila, fazendo-a distribuir o peso igualmente por suas costas. Os dois colocaram os colares por dentro das roupas escuras, e caminharam em direção ao portão.
Uma névoa densa os impedia de ver o que estava além dele, limitando o mundo.
“Pronto?”, perguntou Sagitário.
“Eu nasci pronto”, riu o mais novo.
Deram uma última olhada para o mentor, que sorria de canto de boca, e juntos, atravessaram a fronteira, rumando para o desconhecido.
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Peixes não via um palmo à frente de seu nariz.
O branco da neve e da neblina ocupavam todo o espaço a sua frente, e mal conseguia distinguir o ar do chão.
“Sagi?”, chamou ele. Não se lembrava do que vira entre-mundos, mas o torpor em sua mente parecia bem real. Andou alguns passos à frente, ou o que achava ser isso, procurando pelo amigo.
“Sagi!”, chamou, um pouco mais alto, desesperado por qualquer resposta do mais velho.
“Aqui!”, ouviu a voz dele responder. Caminhou em direção ao som e o encontrou, sentado na neve. Tinha uma expressão estranha no rosto; um mix de alegria e desconforto.
“Acho que torci o pé”, contou o moreno.
Peixes entortou o nariz. Sentou-se de frente para Sagitário e tirou a grossa bota do moreno para analisar o inchaço. Apertou por alguns segundos, observando a reação do mais velho. Em seguida, pegou a mochila que trouxe consigo, tirando de dentro um recipiente com um creme amarelado e viscoso, que passou sobre o hematoma.
“Boas notícias. Não vai precisar amputar”, riu ele, entregando a bota ao mais velho, para que este a colocasse volta. Sagitário o socou levemente no braço, rindo em resposta a brincadeira.
Apoiou-se no menor para se levantar, e pegaram suas coisas do chão.
“Peixes, você se lembra do dia em que me pediu para perguntar a Libra se você podia vir junto? Lembra que jurou me obedecer?”, indagou o moreno. Os cabelos pretos estavam presos para trás, algumas mechas soltas atrás da orelha, levadas pelo vento frio que chicoteava suas bochechas.
“Lembro.”, respondeu o pequeno, franzindo a testa.
“Então, se eu disser pra você se esconder...?”
“Eu me escondo”, completou o pequeno, sem entender muito.
“...Se eu disser para lutar?”
“Eu luto”
“Se eu disser para fugir para o Primeiro Reino e me deixar para trás?”
“Eu...”
Peixes se interrompeu. Engoliu em seco, enquanto encarava o rosto sério de Sagitário, que esperava uma resposta.
“Peixes. Isso é importante”, disse ele, insistente. O pequeno achava estranha essa postura. O amigo sempre tinha um riso pronto no rosto, e contagiava a todos com sua alegria. Vê-lo daquela forma não era novo, mas nunca se acostumaria.
Pensou na pergunta. Lealdade era sua melhor qualidade.
Estivera reconsiderando essa característica quando omitira dados dos três grandes, mas concluíra que sua lealdade era à justiça, não aos Zodíaco. Seria mesmo capaz de deixar seu amigo – seu melhor amigo— num mundo estranho e hostil só porque jurara obedecê-lo?
Ele sabia a resposta. Suspirou antes de voltar a falar.
“Eu o farei”, respondeu ele, procurando transmitir toda a firmeza que pudesse. Só os deuses sabiam o quanto fora difícil pra ele pronunciar aquelas palavras, e agora que o fizera, não sabia o que sentir.
Sagitário sorriu.
“Ótimo. Vamos, tem uma pousada logo à frente”.
Peixes pegou uma corda que trouxera em sua mochila, amarrando-a em sua cintura e entregando a outra ponta para o moreno fazer o mesmo.
“Assim não nos perderemos um do outro”, explicou.
Caminharam pela neblina densa com alguma dificuldade, por causa da visão limitada, da neve que os atrasava e do pé de Sagitário, que ainda não se curara completamente. O vento da madrugada fria chicoteavam-lhe os rostos, e as pesadas roupas de frio os faziam afundar. Respiraram aliviados quando, depois de algumas horas, avistaram as luzes oscilantes de um pequeno vilarejo.
Usando suas últimas energias, conseguiram chegar até lá, e entraram num dos estabelecimentos abertos.
As paredes ostentavam animais empalhados. Peixes reconheceu alguns deles; macacos, ursos, cervos. No salão, iluminado com uma luz amarelada, sentavam-se um grupo de homens, grandes e fortes. Bebiam de um líquido escuro – rum?- e suas risadas tomavam todo o ambiente.
Se notaram a entrada dos dois, não demonstraram. Caminharam em direção ao balcão onde lia-se “recepção” em quatro idiomas diferentes.
“Sejam bem vindos ao Albergue dos Yankees! Em que posso ajudá-los?”, cumprimentou a mulher sorridente. Os cabelos pretos caiam em caracóis sobre os ombros, emoldurando os olhos escuros como betume, contrastando na pele cor de caramelo.
“Gostaria de um quarto pra mim e para meu irmão” respondeu Sagitário.
A atendente franziu a testa, olhando para os dois. Um era alto, moreno, tinha longos cabelos negros e olhos castanhos. O outro era pequeno, pálido e tinha olhos claros como a turmalina mais pura. Tentou esconder a expressão confusa, sem sucesso.
“Ele é adotado”, sussurrou Sagitário, piscando para a mulher de cabelos em caracóis.
Ela assumiu uma expressão de compreensão, torcendo a boca em um sorriso, e entregou uma chave para o maior.
“Vocês vão gostar desse. Tem duas camas, lareira e fica perto da cozinha”
“Perfeito! Ficamos com esse.”
Peixes pegou a chave e seguiu a direção apontada pela atendente, enquanto Sagitário lidava com a burocracia. As paredes dos corredores traziam acabamento em madeira, e a porta de cada quarto tinha um cheiro forte de álcool. O pequeno podia identificar cada fragrância que já lhe entorpecera os sentidos alguma vez.
Sagitário vinha atrás dele, carregando as bagagens e um pacote de balas, cortesia do albergue.
“Adotado?”, perguntou o menor, já longe da recepcionista.
“Oh, mamãe e papai não tinham te contado ainda?”, debochou ele, bagunçando os cabelos do menor.
Peixes riu e parou frente a porta com o número indicado na chave.
“É esse.”
Girou a chave e entrou.
Havia duas camas de solteiro, separadas por uma cômoda de madeira. Ao lado de cada uma das camas, um pequeno criado mudo com um vaso de flores -murchas— e um chocolate barato. Havia uma única janela, engradada e com o vidro rachado. A luz mal conseguia passar por ela. A lareira ficava posicionada no lado oposto à janela, e ao lado dela havia um pouco de lenha. Úmida.
“Uau”
“É, eu sei”, respondeu Peixes, lendo os pensamentos do mais velho.
Ele escolheu a cama perto da janela e colocou suas coisas sobre ela. Espalhou-as sobre a superfície; um resto de corda, lanterna, fósforos, uma maleta de primeiros socorros... e no meio de todos aqueles itens que ele considerava úteis de alguma forma, o punhal que Libra tinha lhe dado.
Pegou o objeto nas mãos, sentindo seu peso.
Sagitário o olhava de rabo de olho.
“É uma adaga bonita. Qual o nome dela?”
“Não tem. Não precisa de um; não vou usá-la”, respondeu, dando de ombros. Sagitário riu baixinho.
“Espero que não precise.”, disse, virando-se para o mais novo.
Peixes deu uma última olhada na lâmina antes de devolvê-la a bainha. Guardou suas coisas de volta na mochila e abriu o chocolate ao lado de sua cama. O gosto era demasiado estranho. Sentia como se colocasse pura gordura na boca, e desistiu de comê-lo após duas dentadas.
“Sagi, Scorpio me deu algumas instruções antes que partíssemos. Sobre um lugar. Não te disse antes porque era perigoso”, contou o menor.
O moreno arregalou os olhos, mal contendo sua surpresa.
“O quê? Ele realmente orientou você? E o que faremos a respeito disso? Como sabemos se ele é confiável?”
“Bom, o único modo de descobrir é indo até lá”, respondeu o pequeno, brincando com uma mecha do cabelo azulado. Sentou-se de frente para o mais velho e contou o que Scorpio havia lhe dito; sobre Manni Lapel, sobre o lugar pertencer aos caídos e sobre o estranho símbolo que memorizara.
“Entendo”, respondeu o outro, assimilando todas as informações. Tamborilava os dedos na coxa enquanto fitava o chão, com o semblante apreensivo. “Talvez devamos sair e reconhecer o terreno antes de perguntar coisas”, continuou ele. “Se algo der errado, não podemos voltar para o Primeiro Reino de mãos abanando”.
Peixes assentiu, pensativo.
“Tudo bem. Quando partimos?”, perguntou ele.
“Assim que o sol nascer”, respondeu o moreno.
Pela primeira vez no dia, Peixes deu-se conta do quão cansado estava. A caminhada contra a tempestade de neve e a noite mal dormida o tinha esgotado quase por completo. Deixou-se cair na cama e ser levado por seus pensamentos enquanto girava seu pingente entre os dedos.
Ainda tinha cerca de três horas antes que o sol nascesse. Ciente do fato, cerrou seus olhos verde-azulados e mergulhou num sono sem sonhos.
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