Calderón e o Cupido
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Mais uma vez, me arrumei mais cedo do que deveria e, como não aguentei, acabei indo mais cedo buscá-la. Esperaria na casa dela, paciência. O porteiro fez sinal que eu seguisse sem me anunciar. Ao que parece, ela já havia deixado avisado que eu chegaria.
Parei o carro, desci e vi-a na porta da sua casa, conversando com Daniel. Engoli seco. Ia dando meia-volta quando ela me gritou. Contraí o cenho, mas quando virei-me para ela já estava sorrindo. Fui até os dois:
— Olá.
— Estou te vendo muito por essas bandas, Calderón — disse Daniel.
— Acho que a culpa é do meu xará, Daniel.
— Bom, parece mesmo que o menino gosta de você, fico surpreso com isso. — Ele olhou no relógio. — Está na minha hora.
Colocou a mão no bolso, franziu o cenho, e disse, por fim:
— Esqueci a chave do meu carro na sua casa, Fabrícia. Acho que em cima da mesa da cozinha.
— Eu busco — ela disse, saindo rapidamente.
Ficamos os dois sem assunto. Era a minha oportunidade para tirar essa história a limpo:
— Olha, Daniel, é um tanto quanto constrangedor nós dois aqui, mas quero que saiba que o que me prende à Fabrícia é exclusivamente o Marinho. Só isso.
Daniel remexeu-se e me olhou de sobrancelhas erguidas:
— Bom saber, Calderón, mesmo que eu não tenha nada sério com ela, é bom saber que tenho exclusividade.
Fiquei aliviado e ao mesmo tempo perplexo:
— Como assim, nada sério?
— O que eu posso dizer? Eu até gosto dela, é uma menina bonita, inteligente, gosta de arte e temos alguns pontos em comum, mas se eu posso escolher moças que possuem as mesmas qualidades que ela e que são completamente livres, por que escolher uma que tem um filho? Se eu quiser ser pai, um dia, terei os meus próprios, não preciso de outro para isso...
Ela chegou com as chaves:
— Aqui estão. Estavam na sala.
— Ah, me lembrei. Obrigado.
Deu-lhe um selinho que ela recebeu, tímida. Meu rosto enrubeceu.
— Até mais — ele ainda disse.
Virou-se para mim, acenou em despedida e saiu.
Ela olhou-me:
— Você chegou mais cedo. Não faça mais isso.
— Como assim? — eu disse. — Tinha que chegar no horário só para não te ver com o Daniel?
— Para o seu próprio bem, sim.
— Para o meu próprio bem?! Para o meu próprio bem eu devo ser enganado?!
— O que você está dizendo?
— Ah, não estou dizendo nada, nada! Só que você fica saindo comigo de compromisso com esse almofadinha, só isso!
— E você que é pior?! Sai comigo e com a minha irmã!
— Pois saiba que eu e sua irmã terminamos hoje!
Ela ficou calada:
— Nossa... Que coisa... Tchau, Mário.
Virou-se nos calcanhares e saiu.
— Ei, espera! E o nosso compromisso?
Mas ela não me ouvira, ou fingira que não. Entrou e fechou a porta na minha cara.
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