Calderón e o Cupido
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Ainda no carro:
— Betty não me viu, não, né?
— Não. Ela nem saiu na porta de casa... Acho que vocês dois tinham que fazer as pazes...
— Opa, espera, espera... Eu não tenho nada contra a Betty, ela é quem me odeia.
— Mas você também não é santo, né, Mário. Podia dizer que sente muito por tudo o que fez, seja lá o que for, certo? Já se passou tanto tempo... Guardar esse tipo de coisa dá até um câncer...
— Mais uma que tirou o dia para me falar coisas estranhas. Não tenho porque ter amizade com a Betty.
— Não está acostumado a se humilhar, Mário...
— Isso não vem ao caso... Mas, mudando de assunto, o menino vai ficar bem?
Percebi que os olhos dela se iluminaram diante da minha pergunta. Arrependi-me de tê-la feito.
— Ah, espero que sim. É a primeira vez que ele dorme fora de casa. Ele é um pouco chato para dormir, criança tem um fogo!
— Eu sei como é... Lembro-me do meu tempo de criança... Queria ser astronauta, nada a ver...
— Que interessante...
— É, queria olhar as pessoas de longe.
— Nossa, mas uma pessoa tão comunicativa como você, viver longe das pessoas... é, no mínimo, instigante.
— Digamos que eu não fui tão social na infância quanto na vida adulta.
— Como é que é? Você era um CDF feinho e de calças curtas?
— Não, claro que não, eu era mais ou menos como o Marinho. Se pudesse, ficava pregado na minha mãe o tempo todo. Mas, é claro, a gente cresce e se desapega.
— Agora que eu estou do outro lado, percebo que esse desapego é uma fase difícil na vida de uma mãe.
— Mas você sabe que tem aquele ditado que diz que criamos filho para o mundo.
— Repito-me isso desde antes de ele nascer — disse sorrindo.
—Por isso eu... — ia dizer "nem quero ter filho" mas fiquei com medo de ela rir da minha cara e parei no meio do caminho — deixa pra lá.
— Ia dizer que não quer ter filho? — Ela continuava sorridente e isso me deixou nervoso.
— Pois, é, mas a gente nunca pode dizer umas coisa dessas, não? Não se sabe o que pode acontecer...
— Era exatamente o que eu ia dizer... e ia acrescentar que é a melhor coisa do mundo, porque de repente sua vida apresenta um sentido totalmente novo.
Pensei no Marinho. Realmente, se ele fosse meu filho, eu ia querer fazer um monte de coisas pra ele e... Sacudi a cabeça, estava pensando em coisas muito estranhas.
Chegamos a casa.
— Está entregue, senhor Calderón.
Desci do carro:
— Obrigado, Fabrícia.
— Eu que agradeço. Foi um prazer conversar contigo. Conversamos mais do que em cinco meses de relacionamento, incrível, não? Nem doeu.
— Como assim?
— Olha, descobri que você era uma criança arredia e carente, e também, por incrível que pareça, uma pessoa insegura que se preocupa mais com a imagem que com o princípio. — E ela sempre sorrindo. — Mas, como diria Freud, você é apenas um pobre diabo, assim como todos nós.
Levantei o dedo para mencionar algo, mas ela arrancou com o carro.
Fiquei parado na rua, me sentindo estúpido.
Fale com o autor