Notas iniciais
Editado em: 19-04-2013

Talvez eu não tenha contado com precisão tudo o que eu senti quando vi aquela foto: não é uma mísera questão de rompimento de um vínculo ou uma questão de nos livrarmos do peso de uma responsabilidade... Entretanto, não há palavras, e algumas coisas acontecem na vida que a gente não consegue explicar, mas nem por isso deixam de acontecer...

Daniela voltou para os Estados Unidos durante um final de semana que Fabrícia, o Marinho e eu viajamos para Cartagena das Índias... Nunca mais a vi depois daquele episódio em minha casa, nem Fabrícia disse que a viu... Só me contou que demoraria muito tempo até que conversassem de novo, mas ela entendia...

Fui o namorado perfeito e o noivo perfeito. Fiz tudo o que um homem apaixonado poderia fazer. E o estava realmente, não tive medo de conhecê-la a fundo, nem de me envolver, nem de permitir que ela me conhecesse. Frequentei a casa de seus pais, passava semanas inteira em sua casa, e tudo seguia normalmente...

E poderia, tranquilamente, ser esse o final da história, para animar as pessoas que gostam de finais felizes e ficam satisfeitas em verem pessoas se completando... De fato, Fabrícia me completou. Até conhecê-la, eu não sabia o que era me apaixonar e não sabia da delícia que era dispor de tempo para conhecer uma mulher, conversar com ela, fazer amor com ela e tê-la no outro dia ao lado da cama. Eu costumava ficar no limite da superficialidade e isso era desconfortável porque, até conhecer Fabrícia, via a mim, chegava em mim e fazia amor comigo... Digo com toda a confiança que isso mudou drasticamente. Nunca mais fui o mesmo e nunca mais vou ser, graças a ela, sempre a ela, e nunca vou me esquecer disso...

O nosso romance seguiu como devia ser até o dia em que eu passava pelo cartório da avenida 15 e vi uma moça saindo de lá. Estava chovendo e ela saiu correndo segurando um jornal por sobre a cabeça... Os longos cabelos negros esvoaçaram e ela correu de cenho franzido com medo da água... O mundo parou de girar, as pessoas pararam de andar e a chuva parou de cair. Não foi uma atração física somente, é muito banal dizer isso, senti como se estivéssemos interligados, como se tudo tivesse me levado até aquele momento só para vê-la. Desde este dia, ela tomou conta de mim completamente, tanto que fiz aquele mesmo percurso durante duas semanas só para vê-la. E observava-a em tudo de modo a descobrir-lhe... Vi que se tratava de uma pessoa com muitos afazeres porque vivia consultando a agenda, era insegura porque quase sempre quando saía, voltava, e vestia roupas sempre de cores muito sóbria, mantendo uma preferência por ternos femininos. Era uma mulher difícil daquelas que tinha que se ter inteligência para conhecer...

E um dia, como quem não queria nada, fui pedir-lhe informações... Aline o seu nome. Advogada. Posteriormente já era um conhecido que casualmente à encontrava na saída do cartório. E descobri que ela trabalhava ali, mas queria mesmo sair o mais rapidamente possível e montar seu próprio escritório... Tornei-me, então, um conhecido que tinha contatos que poderiam ajudá-la. Ela era linda por fora e por dentro... Eu não tinha pressa nenhuma em conquistá-la, estava gostando daquela nova forma, daquele novo jogo... Tornei-me um amigo, e depois o cara que lhe rouba um beijo...