Notas iniciais
Editado em: 19-04-2013

— Calderón, você está bem? Está falando coisa sem sentido agora...

— Bom, relacionamentos evoluem, certo? Não que eu queira me casar contigo HOJE, mas são essas minhas intenções para contigo.

Ela me beijou de novo:

— Suas novas técnicas estão ficando perigosas...

Beijei-a. Estava satisfeito e queria ficar por ali tanto quanto me fosse possível. Nos separamos quando o pai dela a gritou.

— Ai, ele mexendo em computador é uma catástrofe, me chama o dia todo. Deixa eu ir lá.

— Ok, eu te espero pra me despedir.

— E quem disse que eu vou te deixar embora?

Sorri e ela saiu. Mal ela entrou no quarto, Marinho despontou deslizando pelas paredes para vir ao meu encontro.

— Você deveria estar dormindo, rapazinho.

— Eu sei, tio Mário, mas estava rezando e conversando com meu pai que está no céu, daí eu pensei bem e prefiro o senhor como meu amigo, porque eu já tenho pai, ele só morreu. Mas a minha mãe me disse que ele ainda me olha, então eu queria te dizer isso antes de dormir...

Fiquei olhando-o de cenho franzido e balançando a cabeça, mas na realidade ele parecia estar delirando em febre, falando coisas absolutamente desconexas.

— Quer ver uma foto dele? Eu carrego essa aqui comigo sem a minha ver, porque ela chora toda vez que vê...

E me deu a foto.

Estava Fabrícia e Mário Zimmerman, presidente da Beauty Group, a maior concorrente da Ecomoda na época, mas Mário morrera em um acidente de carro há... sete anos... e a empresa foi vendida para uma multi-nacional...

Era esse o "grande empresário" do mundo da moda, fazia tanto tempo que não escutava nada sobre ele... Era esse o Mário pai do Marinho, não eu. Fiquei olhando para a foto muito tempo. Marinho me trouxe de volta à realidade:

— O que foi, tio Mário? Não gostou do meu pai?

— Não, que isso, eu estou vendo que ele se parece muito com você.

O menino sorriu orgulhoso:

— Minha mãe diz isso também!

— Bom, avisa sua mãe que eu já fui, não pude esperar por ela, mas eu ligo.

Baguncei o cabelo dele:

— Tchau, xará.

Ele guardou a foto no bolso, me acenou em despedida e saí.

Entrei para o carro e me peguei sorrindo. Era como se me tivessem exorcizado um demônio e eu tivesse tomado meu corpo de volta. Estava leve e a noite estava mais azul e menos negra. Arranquei com o carro e coloquei uma música, cantando por cima da voz original durante todo o percurso. Eu não era pai de ninguém, eu não tinha que ser exemplo pra ninguém, eu não tinha que fazer as coisas certas pra ninguém, nem tinha desperdiçado meu tempo fazendo coisas que não fiz. E eu ainda gostava daquele menino sem culpa nenhuma de nada.

Entrei para o meu apartamento e dormi como uma pena.