Notas iniciais
Editado em: 19-04-2013

Relendo o que escrevi pode até ter parecido bonita essa cena da minha reconciliação com Fabrícia, mas foi mesmo um tanto cômica. Volto àquele dia e me vejo com um olho vermelho e fechado de tal modo inchado, só perdendo mesmo para o nariz que tinha dobrado de tamanho... Fabrícia dissera que meu olho tinha voltado ao normal, mas me mostrava no espelho e eu só via uma figura medonha... Não sei como ela teve coragem de me beijar ainda... Melhor pra mim...

Marinho apareceu na sala pulando no sofá quase em cima de mim interrompendo nossa conversa. Senti uma pontada no nariz:

— Noooossaaaa, tio Mário, o senhor ficou feio pra caramba! — disse ele me examinando de olhos bem abertos.

— Marinho! — Fabrícia o reprovou.

Eu ainda me diverti:

— Obrigado, mocinho, era tudo o que eu precisava escutar.

— Ah, de nada — criança era uma maravilha mesmo. — Mas foi muito da hora sua briga com o Daniel, ele quase caiu quando o senhor deu aquele murro nele. Ele deve estar mais feio que o senhor.

— Você acha?

— Ah, eu acho... E acho que o senhor é mais forte que ele, então, ele deve estar sofrendo muuuito mais, o Daniel é muito chato e me odeia... E ele não tem ninguém pra cuidar dele, então o senhor levou a melhor porque a minha mãe está aqui cuidando do senhor e ela é muito boa pra cuidar da gente, é... — disse balançando a cabeça num gesto afirmativo.

Baguncei o cabelo dele.

— O senhor tá namorando a minha mãe?

Fabrícia arregalou os olhos:

— Marinho, menino! Deixa de ser tagarela, eu não te ensinei a ser tão inconveniente!

— Não, mãe, eu 'tô perguntando porque se você ainda estivesse namorando o Daniel você estaria cuidando dele, e não do tio Mário.

Eu só ria de tudo.

— É, mas o senhor deveria ser um garoto discreto, ninguém gosta de menino que fala demais, ainda mais quando ninguém pergunta nada.

Ele coçou a cabeça:

— Ai, mãe, eu só queria saber...

Interrompi a conversa dos dois:

— E você iria gostar se eu namorasse a sua mãe, mesmo feio pra caramba desse jeito?

— Bom, o senhor vai consertar, né, tioo, e também, mesmo que fique feio, o senhor tinha me dito que a beleza interior era mais importante...

Fabrícia ergueu as sobrancelhas:

— Nossa, que surpresa esse conselho vindo de você, Mário.

— Pra senhora ver que eu sou uma pessoa de profundidade.

Ela riu:

— De profundidade... Essa é boa.

— O que é uma pessoa "de profundidade"? Eu quero ser também...

Ambos rimos.

— Depois eu te explico, meu anjo, agora vai dormir, vai. Como estão seus machucados?

— Ah, nem dói mais... Vou dormir, então... Tio Mário vai dormir aqui?

— Não — ela disse.

— Ah, não, mãe, deixa ele dormir! Ele dorme lá no meu quarto, tem espaço.

— "Tio" Mário não é seu amiguinho, meu bem, vai dormir — ela disse-lhe dando beijo na testa dele.

Ele veio até mim, amuado:

— Boa noite, tio Mário.

— Boa noite, mocinho, e não se preocupe que quando eu me casar com a sua mãe a gente vai ter bastante tempo junto.

Fabrícia deu um pulo do sofá:

— Como é que é o negócio aí?

— Obaaaaa! — Marinho foi para o quarto saltitando.