Notas iniciais
Editado em: 18/04/2013

Silenciosamente, arrastei uma cadeira atrás de uma parede, bem perto da porta. Escutei-a dizendo:

— Que pena, Daniel, ainda mais agora que eu tinha tanta certeza de que tudo ia encaminhar para a gente.

— Encaminhar para onde, Fabrícia? Nosso relacionamento nunca teve futuro, você não sabia disso?

— Sinceramente, eu não sabia...

— Como eu poderia querer compartilhar a minha vida com você que já tem um filho? Esse menino sempre vai ser a prioridade na sua vida...

— Sempre vai ser e eu nunca poderia comparar o amor que sinto por ele com nenhuma outra coisa...

— Você mesma me dá razão, viu? Não posso... Foi muito bom esse tempo que passamos juntos, mas...

Ele se calou. Ela continuou:

— Mas eu fui só um bom passatempo...

— É, posso considerar assim... Você é bonita, é simpática, boa na cama... Mas não foi inteligente o bastante pra fazer as escolhas certas na vida, o que eu posso fazer, né? Nem equilibrada o suficiente pra ter pensado em ter o filho ao invés de tirá-lo quando era tempo...

— É interessante o seu ponto de vista... Eu sendo como sou e feito tudo o que eu fiz... Imagina o que diriam as outras pessoas, não é, Daniel? — Ela respirou fundo — As pessoas do ministério, do seu circulo social diriam que uma pessoa influente como você poderia ter qualquer uma a seus pés e escolheu uma modelo que por ser modelo já é estúpida, e ainda com um filho? Eu te entendo, Daniel. Que pena conosco...

— É... Para você ver como as nossos erros nos afetam...

Não aguentei escutá-lo magoando-a. Meu sangue ferveu e subiu todo para a cabeça. Vi as coisas pegarem fogo à minha volta e saí de onde estava. Ele tinha virado as costas. Segurei-o pelo ombro e dei-lhe um soco sem saber onde pegaria. Acertei-lhe o nariz:

— Veja lá como trata uma mulher, Daniel.

Fabrícia estava petrificada pelo choque. Olhava-nos de olhos arregalados.

Daniel se recompôs e acertou-me o olho. Fabrícia começou a gritar e os pais dela apareceram na sala. Acertei o estômago de Daniel e vi Marinho na escada. Nessa deixa, Daniel me voltou uma cotovelada no nariz. Foi a pior dor que senti na minha vida. Vi inúmeros pontos minúsculos iluminados e caí. Só escutei Daniel se virar para o casal e dizer que sentia muito e sair.

Fabrícia veio até mim:

— Mário!!! Seu nariz... Pai, dá uma olhada aqui...

Vi o pai dela em cima de mim:

— Humm... tá feio... mas por um milagre não deslocou...

Passei a mão e um rio de sangue escorria.

— Leva o Marinho daqui — eu disse a Fabrícia que não tinha se dado conta do ocorrido.

— Eu entendo dessas coisas, não se preocupe... Não é a minha área, mas lutei quando era novo, pode ficar sossegado. Vou pegar um gelo e você vai apertar as partes moles do nariz contra o septo nasal durante 10 minutos. Enquanto isso, respire pela boca, ok? — ele me disse me levando para o sofá.

Assenti e segui as suas recomendações. Em 10 minutos a hemorragia tinha parado, mas meu nariz duplicou de tamanho, e meu olho idem. Estava horrível e Fabrícia ainda ficava me mostrando no espelho.

O pai dela voltou com uma bolsa de gelo para eu colocar sobre o nariz e outra sobre o olho:

— Pode me explicar agora o motivo do show? — o pai dela voltou a dizer.

— Sinto muito — eu disse — mas...

Fabrícia me interrompeu:

— Daniel terminou comigo, papai, me disse umas coisas que o Mário não gostou, e como ele é muito estúpido e não conhece a palavra diálogo, já partiu pra cima do Daniel.

Fiquei calado.

— Ah, então se é isso, está perdoado — o senhor sorriu. — Obrigado, garoto. Agiu como homem. Ninguém magoa minha filha e sai ileso.

Sorri. O nariz doeu, Fabrícia ficou vermelha:

— Ai, deus me livre de vocês, machistas.

O pai dela se levantou:

— Vou ver o Marinho, ele presenciou isso tudo e isso não é bom.

— Eu vou também, papai.

— Não, fique aí com o seu herói, eu posso fazer isso.

E saiu.

— Pfff... Herói...

Ela voltou-se para mim:

— Não precisava fazer isso, Mário, primeiro porque eu sabia me defender e depois porque, no fim das contas, Daniel não disse nenhuma mentira...

Sentei-me no sofá:

— Como é que é? Ele diz que você é um passatempo e isso é verdade?

— Ah, Mário, ele não é o primeiro que me diz isso e hoje tenho certeza de que não será o último. Todos dizem a mesma coisa. Saem comigo, me exibem, mas não gostam do meu filho. Eu tenho noção do que eu sou, não se preocupe...

— Ah, não tem mesmo! Você não é nada disso que ele disse. Eu nunca que me apaixonaria de verdade por essa pessoa que Daniel descreveu.

Ela ficou me olhando, o cotovelo encostado no sofá e a mão apoiando a cabeça, até que uma lágrima caiu. Eu continuei:

— E a prova maior do seu equilíbrio foi ter decidido ter o Marinho mesmo sozinha, e tê-lo criado tão bem. A gente percebe pela criança linda que ele é... Eu o amo demais, Fabrícia, juro. Quando o vi pela primeira vez, eu morri de medo dele, uma criança chamada Mário, mas agora, acho a coisa mais linda do mundo...

Acariciei o rosto dela de modo a secar-lhe a lágrima que lhe caiu:

— A Fabrícia por quem estou louco e que me fez me perder nem de longe foi a pessoa que Daniel conhece. É uma pessoa única, de uma humanidade incrível que sofreu muito e conseguiu sobreviver. Uma pessoa de um humor um pouquinho sarcástico, mas eu entendo perfeitamente essa defesa. Uma pessoa que o céu abre atrás de si quando passa e que enxerga mais na vida que as pessoas comuns. Sobretudo é uma mãe maravilhosa que dá o devido valor ao filho. Eu não conheço aquela de quem o Daniel falou...

Ela soluçou:

— Ah, Mário, não diga que gosta tanto assim de mim, porque eu vou acabar acreditando. Depois, vai ser complicado para você se livrar de mim de novo...

Segurei as duas bolsas com uma mão e coloquei a outra mão sobre a dela:

— Eu nunca na minha vida fui tão sincero como agora. Peço que me dê uma oportunidade de te mostrar isso. O que eu mais quero é estar com você e com o Marinho, ser o pai dele de verdade, eu não consegui mais ser o que eu era depois daquela noite em que passamos juntos... E desde que a gente se encontrou e conversou pela primeira vez eu só venho querendo ser uma pessoa melhor pra você... Eu até voltei a desenhar, por Deus!

Eu ia continuar falando, mas ela veio por cima de mim, tirou as bolsas do meu rosto e me beijou suavemente. Santo remédio, não senti dor mais em lugar nenhum.

— Antes que a senhorita me jogue mais alguma fruta, já estou bem nutrido da vez passada, obrigado, quero dizer que terminei com sua irmã hoje mesmo e... ela já sabe da gente...

Fabrícia deu um pulo:

— De tudo?

— De tudo do presente...

— Por que você contou?

— Ei! Eu não contei nada, ela inferiu. Só não desmenti.

— Ai, meu Deus! Falar nisso, não a vi... Mas se o Marinho...

— Não, eu o trouxe.

— Ai, meu deus, tomara que não tenha acontecido nada grave. Pai!!!

Ele veio correndo:

— Tem notícias de Daniela?

— Ela me ligou, está na casa da Beatriz.

— Coitada da Betty, me aguenta e agora a Daniela. Não sei o que fazer, acho que ela nunca mais vai querer olhar na minha cara.

— Conta a história toda pra ela. Daniela sabe que houve uma pessoa no passado, só não sabe que sou eu. E eu sinto muito pelo que te fiz passar, juro, Fabrícia, sinto com um peso doído mesmo.

Ela abaixou a cabeça:

— Não fazendo de novo... Eu acho que não ia suportar.

— Eu sou outro Mário agora.

Ela me sorriu:

— Há muita coisa que você tem que saber... Seu olho desinchou, mas vai ficar feio.