Notas iniciais
Editado em: 18/04/2013

Continuei sentado olhando pra porta, até que o Marinho veio até mim:

— Tia Daniela me deixou aqui?

Virei-me para ele:

— Ah! Sim! Você se importa de ficar um pouco aqui comigo?

— Nããããão, tio, claro que não.

— A gente podia fazer um programa de homem, o que acha?

— A gente podia ir ao zoológico! Fiquei sabendo que eles trouxeram um tigre branco igual aos dos desenhos japoneses!

Franzi a testa sorrindo:

— Não é o que eu estava pensando, mas... vamos lá!

Peguei minhas coisas e saímos.

Estávamos entrando quando paramos para comprar umas pipocas. Enfiei-me naquele nó de gente em volta do carrinho e Marinho ficou me esperando um pouco mais distante. Notei que dois irmãos gêmeos pararam do lado dele e Marinho ficou vermelho enquanto retrucava algumas coisas. Paguei o homem e fui logo para o lado dele:

— O que se passa?

— Nada, senhor, a gente estava só perguntando para o Mario com quem ele veio, porque a gente veio com o nosso pai e a nossa mãe... A gente não é órfão de pai, sabe...

— Ah, sim, sim... Vieram com o pai e a mãe... Não são órfão de pai... Pois é, o Mario também não.

Estiquei a mão para eles:

— Prazer, Mário, o pai do Mario.

Entreguei a pipoca ao Marinho, os olhos deles estavam brilhando.

— Olha, vocês dois tem até o mesmo nome — um dos irmãos reparou.

— Então — disse o Marinho — agora tchau porque eu vou passear com o meu pai.

Ele me puxou pela camisa e saímos dali.

— Obrigado, tio, por você falar que era meu pai para aqueles meninos chatos.

— Bom, no fundo, eu gostaria muito mesmo de ser o seu pai de verdade...

Ele parou. Eu parei mais à frente e, ao ver que ele não estava ao meu lado, me virei para ele:

— O que foi?

— O senhor pode ser meu pai se o senhor quiser... Pode ser o nosso segredo...

Fui até ele:

— Pra que segredo? Que todo mundo fique sabendo disso, ora.

Ele sorriu:

— Então eu posso falar para os meus colegas?

— Pra quem você quiser.

— Oba!!

— Agora vamos dar uma volta, então.

Andamos por todo o zoológico. Ele não me chamou de pai hora nenhuma e teria sido ridículo se tivesse chamado, entretanto, no fundo, eu sei que queria escutar isso.

Nesse dia tive mais certeza ainda de que era o pai dele e tinha decidido tirar isso a limpo com a Fabrícia, assumi-lo e colocar um fim nessa história de uma vez por todas.

No fim do dia, depois de termos nos divertido bastante, levei-o à casa dos avós. Marinho disse que desde o acidente a mãe não voltara para a própria casa.

Chegamos, entramos pela cozinha. Marinho me disse para esperar porque queria me entregar algo. Perguntei à empregada por Daniela e ela disse que não tinha aparecido.

Dirigi-me para a sala, mas Fabrícia estava lá com o Daniel. Ela sentada de cabeça baixa e ele andando pela de um lado para o outro. Continuei onde estava, imóvel. Já sabia do que se tratava.