Notas iniciais
Editado em: 18/04/2013

Marinho, como sempre, assim que me viu veio até mim, mas andando dessa vez:

— Tio Mário!

— Abracei-o pegando-o no colo cuidadosamente:

— Fala, camarada. Como você está?

— Estou bem, vou tirar os pontos quarta, foi por isso que eu vim aqui, quero que o senhor vá comigo no médico!

— Ah, sim, sim, claro que eu vou.

Cumprimentei Daniela de longe. Ela se encolheu.

— Passa-me o horário direitinho que eu vou a sua casa para te buscar. Quer subir? Você nunca veio à minha casa.

— Oba! Eu quero!

— Então antes só vamos passar ali na panificadora para comprarmos alguma bem gostosa de comer, vamos?

— Oba!

Fomos os três. O clima com Daniela estava insuportável e ela percebia isso, o que tornava tudo pior ainda. Quando estávamos na porta da panificadora, ela me perguntou se eu podia levar o Marinho em casa mais tarde. Olhei-a longamente:

— Suba com a gente, eu preciso mesmo falar com você.

Ela se encolheu mais uma vez, porém ficou conosco.

Compramos as coisas e voltamos para meu apartamento. Marinho sentou-se na pequena mesa da cozinha e eu lhe servi os quitutes em uma travessa. Daniela ficou no sofá. Abaixei-me na altura do Marinho:

— Vou trocar duas palavras com a sua tia, você me espera aqui?

Ele ia colocando um doce na boca, mas voltou-o na travessa. Não pude deixar de sorrir diante disso:

— Não, pode ir comendo enquanto me espera — devolvi o doce a ele — , e aproveita que a sua tia não está olhando para você comer bastante.

Ele sorriu em cumplicidade comigo:

— Obrigado, tio Mário.

E voltou a comer.

Fui até Daniela. Ela estava sentada de pernas bem juntas e com a cabeça baixa. Quando me sentei, ela começou a dizer:

— Acho que a gente pode dispensar o falatório, Mário, eu já entendi tudo, não sou idiota...

— Eu queria pedir desculpa por ter magoado você, não foi a minha intenção, mas não fazia ideia de que isso ia chegar nesse ponto... Começamos tudo tão casualmente...

— Eu não entendo, Mário, tudo estava da mesma maneira, quem mudou foi você, percebe?

Ficamos calados por algum tempo:

— É... Acho que você tem razão...

— Nossa, desculpa, mas é que eu nunca tinha achado alguém que combinasse tanto comigo quanto você, achei que a gente podia dar certo, de verdade.

— Eu não sabia disso... Você sempre me pareceu tão distante...

— É, eu sei que minha irmã veio conversar com você, ela sempre se metendo na minha vida, mas se pareceu em algum momento que te ignorei ou qualquer coisa, foi só que eu não queria grudar em você, ser igual àquelas chatas, do tipo mesmo da minha irmã. Até soube que há muito tempo ela ficou viciada num cara aí, e o cara correu dela feito louco.

Gelei. Um filme passou pela minha cabeça em um raio de segundo. Revi tudo e nunca tinha pensado no quanto Fabrícia sofre...

— Tem muito tempo isso? — perguntei mesmo só pra confirmar...

— Tem, foi antes do Marinho...

— E ela não te contou quem era?

— Não, por quê? Foi você? Ela me disse que teve um rolo com você, mas entendi que foi coisa passageira, nada de mais.

— Não sou eu... Mas, fiquei curioso sobre esse cara — eu disse isso quase asfixiando nas minhas próprias mentiras.

— Ela não fala disso para ninguém da família. Fabrícia sempre passou a imagem de equilibrada e perfeita, mas eu a via com as amigas, ela tinha começado a fumar, a beber e a tomar uns remédios... Acho que depois desses remédios, ela nunca mais foi a mesma pessoa. Chegou ao disparate uma vez de tentar suicídio, e grávida do Marinho, imagina!

Olhei para o Marinho na cozinha... Suicídio... Imaginei se ele não existisse. Doeu.

— Nossa, que estranho...

— Ai, Mário, nem sei porque estou te contando essas coisas, eu estou nervosa, e eu falo demais nessas circunstâncias... Por favor, finja que você nunca escutou isso!

— Não, tudo bem...

— É o fim do nosso romance mesmo, né? Tudo bem... Quero que você seja feliz com essa pessoa nova que entrou na sua vida.

— Como assim?

Ela virou o rosto. Notei que uma lágrima caíra:

— Ah, Mário, não precisa mentir pra mim... Desde que dia homem termina relacionamento com uma mulher sem ter aparecido outra? Eu entendo... Mas, valeu por tudo... Você leva o Marinho mais tarde pra mim, apesar de a Fabrícia não querer te ver...

Ela ficou distante uns segundos e, em seguida, me olhou de cenho franzido:

— Por que que a Fabrícia não quer te ver?

Ela fechou os olhos:

— Não, espera, espera, naquele dia, ela prontamente aceitou te trazer e só voltou às três da manhã...

— Daniela, espera.

— Ai, meu Deus, não acredito...

Segurei-a pelo ombro, mas ela se desvencilhou de mim:

— Me solta, Mário, me deixa ir embora, pelo amor de Deus...

Olhei-a e ela e as lágrimas caíam-lhe dos olhos. Soltei-a e ela saiu cambaleando porta afora.