Notas iniciais
Editado em: 18/04/2013

Fabrícia acordou num pulo. Abri os olhos assustado, peguei meu celular que estava no criado mudo e eram duas e meia da manhã.

— O que foi, meu bem? — Eu disse sonolento.

— O Marinho sofre um acidente, e eu estou aqui dormindo com você??? Acho que eu vou sair daqui e me jogar de uma ponte...

— Fabrícia, o Marinho está com seus pais, ele está bem, e você sabe disso.

— É, no fundo eu sei mesmo...

Passei o braço em volta dos ombros dela:

— Então volta aqui, vai...

Ela se deitou, mas se levantou de novo:

— Eu tenho que ir mesmo, Mário.

Ela saiu da cama, toda nua. Deliciei-me com aquela visão enquanto ela procurava por suas roupas:

— Nossa, se você tivesse noção do quanto é linda, nem olhava para um cara como eu...

— Um cara como você? — ela disse abotoando o sutiã.

— É, um simples mortal... Um simples mortal bonito, mas mortal... E talvez inteligente também, mas... E talvez carismático...

Ela riu:

— Está bem, Mário, eu acho que te entendi, embora a cantada tenha sido mais para você mesmo.

Sorri, alisei a cama:

— Tem certeza de que você tem que ir?

— Quer mesmo que eu fique? Olha que eu vou acabar acreditando...

Olhei-a abotoar a calça:

— Acho que nunca falei tão sério na minha vida.

Ela parou e me olhou demoradamente, séria, melancólica, depois me lançou um meio sorriso e continuou a se vestir.

Fui com ela até a porta, pelado mesmo:

— Vai mesmo? — dissse amuado, tentando convencê-la a ficar.

Ela sorriu:

— Vou, Mário, me deixa me sentir menos culpada... Quero ficar com meu filho.

— E quando a gente se vê de novo?

Ela ergueu as sobrancelhas:

— Quando a gente se vê de novo? Está mesmo me perguntando isso, ou estou sonhando?

Beijei-lhe o pescoço:

— É real mesmo... A gente pode se ver amanhã — ela constatou.

— Eu passo na casa dos seus pais então. Daí vejo o Marinho e a gente sai pra algum lugar...

— Pode ser.

Beijamo-nos.

— Tchau — eu disse.

Beijamo-nos de novo.

— Tchau — foi sua vez de se despedir.

E de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Só então ela saiu.

Dormi tranquilamente o resto da madrugada, um sono pesado e sem sonhos.