Calderón e o Cupido
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Fabrícia entrou na sala e engoliu o choro. Foi para abraçar o menino, mas como não sabia onde pegava sem machucá-lo, se contentou em se sentar do lado da sua cama.
O menino olhou-a:
— Eu já 'tô bem, mãe, o tio Mário ficou aqui comigo o tempo todo e eu já tô bem... Só 'tá doendo tudo, mas eu já 'tô bem...
Fabrícia virou o rosto de modo a deixar uma lágrima cair:
— Eu acredito em você e isso tudo vai passar logo...
O médico chegou com a alta dele, fez algumas recomendações e saímos de lá, eu carregando-o no colo...
Estávamos passando pela sala de espera quando Fabrícia avistou seus familiares. Todos com semblante muito preocupado O pai dela veio até nós e primeiramente a abraçou.
— Já está tudo bem, papai, graças a Deus não foi nada grave.
Ele olhou para o Marinho no meu colo:
— Como você está, meu rapaz?
— Tá doendo tudo, vovô — disse amuado e deitou a cabeça no meu ombro.
Esse ato dele de deitar a cabeça em meu ombro me afetou absurdamente. Não saberia explicar. Foi como se a minha vida tivesse ganhado uma espécie de rumo naquele momento, e eu tive noção de coisas que nunca fizeram sentido antes. Parece que foi naquele momento que eu me dei conta de que, como pai do Marinho, eu havia perdido tanta coisa, tanto tempo... Perdi a concentração e só voltei a mim quando Fabrícia tocou meu braço para irmos embora.
Eu me sentia uma pessoa diversa daquela que entrara no hospital e sabia que não conseguiria ser o velho Calderón nunca mais. E o pior, ser como era não mais me interessava...
Rapidamente, me dispus a ficar com o menino e ir com ele à casa dos avós, até porque Marinho não queria sair do meu colo.
Daniela se sentou do meu lado e fiquei muito incomodado. Se já antes não estava apaixonado por ela, naquele momento cheguei ao ponto de não querer mais vê-la. Isso era meu alarme interior me avisando que se eu não colocasse um ponto final em tudo, seria uma dor de cabeça desnecessária. De dor de cabeça já me bastava o Daniel...
Chegamos, entramos, coloquei o Marinho na cama e me despedi dele. Cheguei à varanda e já estava com saudade... Desde quando fui tão patético... E quem diria que o causador disso seria uma criança... Se eu me contasse essa história, não acreditaria de forma nenhuma.
Fabrícia se propôs a me levar e eu prontamente aceitei. Daniela ficou me olhando, mas não disse nada, entretanto puder ver uma grande decepção em seus olhos. Despedi-me de todo mundo de longe e fomos.
Estávamos no carro, quando ela parou no sinal e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela não disse uma palavra, apenas abaixou a cabeça encostando-a no volante, em seguida levantou-a de novo. Fiquei sem ação diante daquela cena, mas ela mesma tratou de quebrar o silêncio:
— Obrigada, Mário, por hoje, de verdade, eu estou te devendo a minha vida, você não tem noção do que fez por mim...
— Qualquer outra pessoa teria feito o mesmo, linda, não se preocupe com isso...
— O Daniel não fez...
— Qualquer outra pessoa que gostasse de você de verdade.
Ela se mexeu no banco, mas não me olhou:
— Realmente você disse que eu poderia contar contigo...
Chegamos. Ela continuou:
— Acho que pela primeira vez, desde que tenho o Marinho, que não me sinto tão sozinha... que não tenho que carregar tudo nos meus ombros... E eu não acreditei quando você disse que era meu amigo...
Só nesse momento ela me olhou, e estava mais linda do que nunca... Uma pintura impressionista daquelas de impacto. Não consegui me controlar e, num ímpeto, me lancei em cima dela, segurando seu rosto e beijando-a. Ela se deixou abandonar nos meus braços e explodiu em mim uma coisa diferente, uma espécie de desejo misturado a uma ternura tão grande que me deixou confuso. Entre os beijos eu disse a ela:
— Não sei o que você está fazendo comigo, mas desde que te revi não sou a mesma pessoa.
Ela colou seus lábios aos meus, suavemente, tranquilamente, e depois disse:
— Eu acho que sempre quis ouvir isso de você, mais do qualquer declaração...
Comecei a acariciar toda a extensão das costas dela, queria tê-la de qualquer jeito, onde fosse...
— Não sei como vão ser as coisas daqui para frente, Fabrícia, mas hoje eu preciso tanto tanto tanto de você que estou até me sufocando...
Ela me beijou mais uma vez:
— Apenas um ato impensado em sete anos é um saldo bom, não?
Sorri. Fui para o meu apartamento correndo e levando-a pela mão.
Enquanto subíamos no elevador, nos beijávamos, nos acariciávamos, e eu sou obrigado a dizer que experimentava sensações completamente novas... Um homem da minha idade dizendo essas coisas adolescentes deve ser no mínimo ridículo, todavia, ainda me considero um privilegiado por senti-las.
Abri a porta correndo, entramos, levei-a para o quarto e nos despimos com urgência. Nos beijamos desesperadamente, tirávamos as peças um do outro de maneira desajeitada, tomados de alguma coisa muito além de qualquer raciocínio.
Nos amamos várias vezes. Todas as vezes de um jeito diferente, mas todas maravilhosas. Ela cochilou por uns momentos em meus braços, exausta, e eu soube que queria ficar abraçado a ela para sempre.
Fale com o autor