Notas iniciais
Editado em: 17-04-2013

Vesti-me rapidamente e fomos para um café perto dali.

Caminhávamos juntos, quando um camarada passou por nós e olhou Fabrícia como um animal no cio:

— Vai ser gostosa assim lá na...

Fabrícia, em um impulso, se escondeu atrás de mim.Voltei-me para o camarada e gritei:

— Vê se aprende a não mexer com a mulher dos outros, cara de pau.

Ele fez um aceno obsceno e continuamos andando. Achei engraçado aquele súbito reflexo dela:

— Por que se escondeu atrás de mim? Achou que ele era algum louco?

— Não, eu só não gosto desse tipo de comentário. Pode ser difícil de você acreditar, mas eu tenho mais do que uma carcaça.

— Não disse nada...

— Mas eu sei como você está acostumando a enxergar as mulheres.

Chegamos e sentamos numa mesa que ficava do lado de fora do café.

— Talvez eu consiga ver mais do que você acredita — eu disse.

O atendente veio até nós e fizemos os pedidos.

— Eu não sei se acredito muito nisso, não.

— Eu vejo, por exemplo, que você se tornou uma pessoa muito triste e muito autocrítica. Não admite errar. Mas não se esqueça de que você é só um ser humano...

Ela me deu um meio sorriso:

— É alguma de suas cantadas baratas?

— Estou mentindo?

Ela balançou a cabeça:

— Talvez você saiba mesmo um pouco mais do que eu imaginava.

— Mas, olha, eu quero que você saiba que você pode contar comigo, sou seu amigo.

Ela abaixou a cabeça e sorriu tristemente:

— Obrigada, Mário, vou levar isso em consideração.

— E o Marinho, como está?

— Está bem, ele vai competir amanhã, natação, se você quiser aparecer na escola dele, aposto que ele ia gostar muito.

— Vou, sim, pode me esperar.

Os nossos pedidos chegaram.

Assim que acabamos de comer, ela se levantou para ir embora. Acompanhei-a até seu carro que estava em frente ao meu apartamento.

— Obrigado pela companhia, Fabrícia. Odeio tomar café sozinho.

— De nada, Mário, a gente se vê amanhã, então.

Abraçamo-nos, meio sem jeito, e segurei-a forte. Não queria mais soltá-la. Queria que ela soubesse que ela não precisava ficar tão triste porque estava fazendo tudo certo. E queria dizer a ela que eu realmente faria o que eu pudesse para ajudá-la... Quando nos separamos, eu acariciei seu rosto:

— Tchau...

No mesmo segundo ela pulou no meu pescoço e nos beijamos.