Calderón e o Cupido
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Quando a vi ali na minha frente, minha dor de cabeça se intensificou e me senti ligeiramente tonto. Ela colocou a mão no rumo dos olhos e disse:
— Isso é jeito de atender a porta, Calderón?
E foi entrando sem pedir permissão, ainda com a mão na frente dos olhos.
— Vou me vestir e a gente já se fala — murmurei essa frase com uma dificuldade imensa.
— Sim, e não vou me demorar... — Enquanto eu ia para o quarto ela foi falando — afinal, eu só vim aqui para dizer a você parar de brincar com a minha irmã, porque ela não é qualquer uma. É uma menina nova, sem experiência, que cometeu o disparate de gostar de você.
Dei meia-volta:
— Esse disparate é uma sina de família, então, né? — disse entediado.
Ela olhou-me, voltando a abaixar a cabeça com a mãos sobre os olhos. Ainda estava corada:
— Isso não vem ao caso, Calderón. Parece que você não consegue esquecer essa história!
— Eu???
— Sim, senhor, sempre que tem oportunidade, vem falar da gente. Não é isso que está em discussão aqui, é o seu relacionamento com a minha irmã. O senhor não acha que já passou da idade de ficar fazendo joguinho com as pessoas, não?
— Mas eu não estou fazendo nada, Fabrícia!
— Ah, não? Liga pra ela e quando ela liga de volta, o senhor simplesmente não atende? Quando uma pessoa está indecisa assim, é porque está apaixonada, sabia?
— Ah, e desde quando você me conhece tão bem para adivinhar meus pensamentos? Você não acha muito mais lógico que se eu estivesse realmente apaixonado pela sua irmã, não estaria decidido a tê-la?
— No seu caso... Duvido muito.
— No meu caso?
— É. Duvido muito que você assumiria que está apaixonado por alguém.
— Pode ser que eu não saiba o que é estar apaixonado por alguém, mas sei o que é não estar, e, desculpa, mas pela sua irmã eu não estou.
Ela se mexeu no sofá:
— Por que você não toma uma atitude de homem e não diz isso a ela?
Perdi a paciência:
— E por que você fica se metendo no meio de nós dois?
— Porque eu não quero que a minha irmã sofra, ainda mais por uma coisa que eu já sofri e posso evitar!
— Sua irmã não está sofrendo, ela me chutou.
Fabrícia respirou fundo:
— Você não entende nada mesmo, não é? Ela não te chutou, só saiu de cena para ver se você ia atrás dela. Estava te pedindo uma prova.
— Talvez ela tenha tido a prova dela de que não iríamos dar certo.
Ela me olhou melancólica:
— Então, promete pra mim que nunca mais vai ligar pra ela. Nem por engano. Ela foi lá em casa só para me contar que você tinha tentado ligar pra ela.
— Prometo, então. Palavra de honra.
Ela sorriu:
— E você lá tem isso, Mário?
— Ei! Eu tenho minha palavra, sim, senhora.
— Nem acredito que eu vou dizer isto, mas vou confiar em você.
— Eu acho que realmente tenho subido no seu conceito.
— Mas você ainda está só de cueca, e isso me incomoda.
Dei-me por mim e percebi que não havia me trocado:
— Opa, desculpa, vou me trocar e te intimo a tomar um café comigo. Acabei de acordar.
— Eu acho que posso me acostumar a te acordar sempre.
— É realmente ótimo você ser a minha primeira visão de manhã...
Mais uma coisa que disse sem querer.
Entrei para o quarto sem olhar pra ela. Dessa vez, eu estava corado.
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