Notas iniciais
Editado em: 17-04-2013

Quando a vi ali na minha frente, minha dor de cabeça se intensificou e me senti ligeiramente tonto. Ela colocou a mão no rumo dos olhos e disse:

— Isso é jeito de atender a porta, Calderón?

E foi entrando sem pedir permissão, ainda com a mão na frente dos olhos.

— Vou me vestir e a gente já se fala — murmurei essa frase com uma dificuldade imensa.

— Sim, e não vou me demorar... — Enquanto eu ia para o quarto ela foi falando — afinal, eu só vim aqui para dizer a você parar de brincar com a minha irmã, porque ela não é qualquer uma. É uma menina nova, sem experiência, que cometeu o disparate de gostar de você.

Dei meia-volta:

— Esse disparate é uma sina de família, então, né? — disse entediado.

Ela olhou-me, voltando a abaixar a cabeça com a mãos sobre os olhos. Ainda estava corada:

— Isso não vem ao caso, Calderón. Parece que você não consegue esquecer essa história!

— Eu???

— Sim, senhor, sempre que tem oportunidade, vem falar da gente. Não é isso que está em discussão aqui, é o seu relacionamento com a minha irmã. O senhor não acha que já passou da idade de ficar fazendo joguinho com as pessoas, não?

— Mas eu não estou fazendo nada, Fabrícia!

— Ah, não? Liga pra ela e quando ela liga de volta, o senhor simplesmente não atende? Quando uma pessoa está indecisa assim, é porque está apaixonada, sabia?

— Ah, e desde quando você me conhece tão bem para adivinhar meus pensamentos? Você não acha muito mais lógico que se eu estivesse realmente apaixonado pela sua irmã, não estaria decidido a tê-la?

— No seu caso... Duvido muito.

— No meu caso?

— É. Duvido muito que você assumiria que está apaixonado por alguém.

— Pode ser que eu não saiba o que é estar apaixonado por alguém, mas sei o que é não estar, e, desculpa, mas pela sua irmã eu não estou.

Ela se mexeu no sofá:

— Por que você não toma uma atitude de homem e não diz isso a ela?

Perdi a paciência:

— E por que você fica se metendo no meio de nós dois?

— Porque eu não quero que a minha irmã sofra, ainda mais por uma coisa que eu já sofri e posso evitar!

— Sua irmã não está sofrendo, ela me chutou.

Fabrícia respirou fundo:

— Você não entende nada mesmo, não é? Ela não te chutou, só saiu de cena para ver se você ia atrás dela. Estava te pedindo uma prova.

— Talvez ela tenha tido a prova dela de que não iríamos dar certo.

Ela me olhou melancólica:

— Então, promete pra mim que nunca mais vai ligar pra ela. Nem por engano. Ela foi lá em casa só para me contar que você tinha tentado ligar pra ela.

— Prometo, então. Palavra de honra.

Ela sorriu:

— E você lá tem isso, Mário?

— Ei! Eu tenho minha palavra, sim, senhora.

— Nem acredito que eu vou dizer isto, mas vou confiar em você.

— Eu acho que realmente tenho subido no seu conceito.

— Mas você ainda está só de cueca, e isso me incomoda.

Dei-me por mim e percebi que não havia me trocado:

— Opa, desculpa, vou me trocar e te intimo a tomar um café comigo. Acabei de acordar.

— Eu acho que posso me acostumar a te acordar sempre.

— É realmente ótimo você ser a minha primeira visão de manhã...

Mais uma coisa que disse sem querer.

Entrei para o quarto sem olhar pra ela. Dessa vez, eu estava corado.