Calderón e o Cupido
15 Capítulo 15
Notas iniciais
No dia seguinte, me senti inquieto para me encontrar com Fabrícia. Arrumei-me bem mais cedo do que devia e fiquei mudando o canal da televisão o tempo todo, sem deixar de olhar para o relógio, que me fizera o favor de virar uma pintura surrealista, derretera. Saí de casa meia hora mais cedo e fui para o parque.
Ela chegou no horário pontualmente. Estava com a Camilla também. Marinho correu até mim:
— Tio, Máárioooooo! O senhor vai na montanha russa comigo? Por favor, por favor, por favor!
— Eu, xará? Acho que tenho medo. E quem vai cuidar da sua mãe aqui embaixo sozinha?
Ele colocou o dedo indicador na têmpora:
— É...verdade. Não gosto quando os homens mexem com a minha mãe... O senhor fica aqui, então!
Fabrícia chegou:
— Olá, senhor Calderón. Estou morrendo de curiosidade pra saber qual é a sua surpresa!
Estava com o rolo nas mãos. Escondi-o atrás de mim:
— Não sem, pelo menos, um brinde.
— Se for brinde de água ou qualquer coisa tão calórica quanto... eu topo.
— Bom, não era o que eu tinha em mente, mas serve.
— Me dá um minuto, então.
Ela encaminhou os meninos para os brinquedos, e fomos para uma tendinha de modo que ela pudesse olhá-los de onde estava. Fizemos os nossos pedidos. Uma soda e um copo d'água. Entreguei-lhe o rolo. Ela abriu e ficou surpresa:
— Quem fez este desenho?
— Ah, um amigo meu. Falei de você e ele disse que a moça que eu descrevia era de uma beleza tão peculiar que ele quis fazer um desenho.
— Impressionante. O seu amigo teve o descuidado de assinar Calderón no canto do desenho e a data de ontem. Incrível, Mário, que desenho lindo!
— Ah... Respondi uma pergunta sua, não é? Talvez eu não seja um pobre diabo tanto quanto você pensou.
Ela me olhou nos olhos. Sustentei o olhar. Ela desviou-os para o desenho e sorriu:
— Talvez eu estivesse um pouco enganada... Já fez algum curso de desenho, Mário?
— Não, nenhum. Eu gostava de ver as pessoas de longe, não te disse? Era pra isso.
— Sua noção de sombreamento é impressionante... Olha a perspectiva... Isso foi feito com uma esferográfica?
— Sim, senhorita. Mas, o que é impressionante? Você entende de desenhos?
— Claro que sim, Calderón! Eu tenho um curso de arte. Te disse que... — ela piscou duas vezes — faz muito tempo, não teria como você se lembrar.
— Desculpa, não me lembro mesmo. Mas como você avalia isso?
— Bom, eu diria que sua técnica é imprecisa, mas seu talento é promissor. Seria um desenho razoável para um profissional, muito bom para um iniciante e excelente para quem não tem a mínima noção de técnicas de desenho!
— Este sou eu.
— Sim! Você podia estudar mais, poderia expor! Ganhar dinheiro com a sua arte. Seu traço é peculiar, é forte.
— Opa, 'pera lá! Não quero ser mais um Hugo da vida. Descobrir o que eu gosto é uma coisa, fazer disso um trabalho já é outra. Fica satisfeita só com a primeira, por favor!
Ela riu:
— Por enquanto, sr. Calderón, por enquanto...
Os meninos saíram dos brinquedos e fomos pegá-los.
Fabrícia levou-os para mais em alguns brinquedos e depois levou-os para comer alguma coisa. Marinho se sentou do meu lado e Camilla ficou perto dela. Marinho puxou meu paletó:
— Sr. Mário, posso te dizer uma coisa?
— Manda, xará.
— Então abaixa que eu quero falar no seu ouvido.
Fabrícia ergueu as sobrancelhas:
— O que você vai falar que eu não posso escutar, menino?
— Ai, mãe, é conversa de homem pra homem, que coisa!
Ela permanecia da mesma forma:
— E o que o sr acha que tem que te faz tão homem?
— Ai, mãe!
Acabei rindo:
— Sua mãe está com ciúmes, Marinho, fica tranquilo. Vamos aqui perto conversar a sós.
Dava pra ver que ela ficava furiosa com isso.
Saímos e fomos pra um lugar pertinho. Ela nos olhava o tempo todo. Abaixei-me no nível dele:
— Agora pode falar, tranquilo.
— O senhor acha a Camilla bonita, tio Mário?
Olhei-a de onde estava. Era magricelinha, desengonçada, usava uns óculos enormes e tina muito pelo no rosto para uma menina da idade dela:
— O importante, mocinho, é que você ache, não eu. Você acha ela bonita?
Ele fez uma careta:
— Não, né, tio! Todo mundo zomba dela na sala... — ele sorriu — Mas é a garota mais legal de tooooooda a escola! E não é chata e nem fresca como as outras. E não gosta de boneca e gosta de correr comigo, e corre mais rápido que eu...
— E, resumindo, você está gostando dela, certo?
Ele contraiu o lábio:
— É... mas ela é feia, tio... Não existe uma poção mágica que faça ela ficar bonita?
— Vou te contar uma coisa, Marinho. Você acha a mãe dela bonita?
— Nossa, demais! É uma princesa a mãe dela!
Acabei rindo diante do comentário. O menino seria bom de papo...:
— E eu conheci a mãe dela há muuuuito tempo e ela era realmente muito feia.
— Sério????
— Sim, rapazinho. E olha o tanto que ela ficou bonita. Aposto que isso pode acontecer com a Camilla. E, também, é muito mais importante ser bonita por dentro — quase gaguejei ao dizer isso — que por fora.
— Isso também é sério?
— É. A beleza interior é para sempre.
— Nossa, nem sabia disso...
— Fica sabendo... Vamos voltar pra mesa? Depois disso a gente vai fazer uma surpresa pra ela, vamos jogar no tiro ao alvo e você vai dar um presente a ela. Ela vai gostar muito disso!
— Oba!
Quando voltamos, percebi Fabrícia me olhando e sorrindo. Não disse nada, mas fiquei com medo daquele olhar.
Os meninos terminaram os respectivos sanduíches e Marinho sugeriu que fôssemos ao tiro ao alvo. Discretamente, me enredei para o fundo da tenda e paguei mais à pessoa que cuidava de lá para quebrar duas garrafas e nos dar os presentes. Dito e feito. Na vez de Marinho ele quebrou uma garrafa que dava um urso de pelúcia. Na minha vez, quebrou uma garrafa cujo prêmio era uma almofada vermelha em forma de coração. Fizemos nossa parte e oferecemos nossos prêmios para as respectivas damas. Marinho ficou imensamente feliz acreditando que realmente tinha acertado a garrafa.
Estávamos indo embora, quando ninguém menos que Daniel Valência apareceu na nossa frente. Ele deu dois beijos no rosto de Fabrícia e, involuntariamente, contraí o cenho. Olhou para mim surpreso:
— A última pessoa com quem eu esperava me encontrar era contigo, Calderón.
— Digo a mesma coisa, Daniel.
— O que tem feito?
— As mesmas coisas de sempre, e você?
— Digo a mesma coisa.
Fabrícia ficou da cor do cabelo novamente:
— Não esperava você, Daniel, combinamos de nos encontrar à noite.
— Terminei mais cedo, pensei em fazer uma pequena surpresa. Acho que quem teve uma surpresa fui eu.
Marinho saiu de trás da mãe e pegou na minha mão:
— O senhor Mário veio me ver e cuidar da minha mãe enquanto eu brincava!
Daniel olhou-o em silêncio. Em seguida, acenou afirmativamente:
— Espero que ele tenha feito bem o trabalho dele.
— Aham.
Respirei fundo:
— Bom, xará, já é hora de ir-me. Depois a gente se fala mais e você me conta... — cheguei ao ouvido dele — sobre a Camilla.
Ele me acenou um joia e trocamos um aperto de mão. Acenei tchau de longe Fabrícia — ela mexeu os lábios me dizendo "desculpa" — e me despedi de Daniel. Saí dali o mais rapidamente que consegui. Meu estômago estava revirando.
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