Calderón e o Cupido
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Eu, um pobre diabo. Por que ela me via dessa forma? Pensei que poderia ser despeito, mas o tom dela foi triste como se ela realmente não gostasse de ter dito o que disse. Carente e inseguro... De onde ela tirara todas as coisas que me dissera?... Subi o elevador incomodado. Entrei para o meu apartamento e abri a porta do armário. Tirei uma caixa e, de dentro da caixa, tirei uma pasta grande. Eram desenhos que eu havia feito há mais de vinte anos. Às vezes, gostava de olhar tudo aquilo e relembrar partes da infância, era quase que uma terapia, as coisas que me incomodavam sumiam e eu me sentia suspenso... Havia rostos de pessoas, paisagens urbanas, mulheres nuas... Puxei uma folha branca que estava abandonada na minha mesa de cabeceira, olhei-a e vi o rosto de Fabrícia. Peguei uma caneta, que estava no mesmo lugar, e comecei a rabiscar umas linhas, contornar por cima do que eu vira. Pouco tempo depois o rosto dela estava feito e eu me sentia tranquilo de novo. Percebi, naquele momento, que desenhar era o que eu mais gostava de fazer... Não havia ninguém que soubesse disso, nem mesmo Armando. Quando deixei de desenhar? Lembrei-me das brincadeiras infantis... Desenhar era coisa de maricas, de fracote, homem forte disputava bola, disputava corrida, disputava garotas e os desenhos tomaram o fundo da gaveta. Mas nunca deixei de olhar para eles... Guardei tudo de novo... Alguma coisa não estava certa, desde quando me tornara tão dramático?
Deixei o desenho na mesa de cabeceira. Seria justo fazer uma surpresa à Fabrícia. Ligaria no dia seguinte. Entretanto, liguei naquele momento mesmo. Ela atendeu o telefone.
Ainda no carro:
— Betty não me viu, não, né?
— Não. Ela nem saiu na porta de casa... Acho que vocês dois tinham que fazer as pazes...
— Opa, espera, espera... Eu não tenho nada contra a Betty, ela é quem me odeia.
— Mas você também não é santo, né, Mário. Podia dizer que sente muito por tudo o que fez, seja lá o que for, certo? Já se passou tanto tempo... Guardar esse tipo de coisa dá até um câncer...
— Mais uma que tirou o dia para me falar coisas estranhas. Não tenho porque ter amizade com a Betty.
— Não está acostumado a se humilhar, Mário...
— Isso não vem ao caso... Mas, mudando de assunto, o menino vai ficar bem?
Percebi que os olhos dela se iluminaram diante da minha pergunta. Arrependi-me de tê-la feito.
— Ah, espero que sim. É a primeira vez que ele dorme fora de casa. Ele é um pouco chato para dormir, criança tem um fogo!
— Eu sei como é... Lembro-me do meu tempo de criança... Queria ser astronauta, nada a ver...
— Que interessante...
— É, queria olhar as pessoas de longe.
— Nossa, mas uma pessoa tão comunicativa como você, viver longe das pessoas... é, no mínimo, instigante.
— Digamos que eu não fui tão social na infância quanto na vida adulta.
— Como é que é? Você era um CDF feinho e de calças curtas?
— Não, claro que não, eu era mais ou menos como o Marinho. Se pudesse, ficava pregado na minha mãe o tempo todo. Mas, é claro, a gente cresce e se desapega.
— Agora que eu estou do outro lado, percebo que esse desapego é uma fase difícil na vida de uma mãe.
— Mas você sabe que tem aquele ditado que diz que criamos filho para o mundo.
— Repito-me isso desde antes de ele nascer — disse sorrindo.
—Por isso eu... — ia dizer "nem quero ter filho" mas fiquei com medo de ela rir da minha cara e parei no meio do caminho — deixa pra lá.
— Ia dizer que não quer ter filho? — Ela continuava sorridente e isso me deixou nervoso.
— Pois, é, mas a gente nunca pode dizer umas coisa dessas, não? Não se sabe o que pode acontecer...
— Era exatamente o que eu ia dizer... e ia acrescentar que é a melhor coisa do mundo, porque de repente sua vida apresenta um sentido totalmente novo.
Pensei no Marinho. Realmente, se ele fosse meu filho, eu ia querer fazer um monte de coisas pra ele e... Sacudi a cabeça, estava pensando em coisas muito estranhas.
Chegamos a casa.
— Está entregue, senhor Calderón.
Desci do carro:
— Obrigado, Fabrícia.
— Eu que agradeço. Foi um prazer conversar contigo. Conversamos mais do que em cinco meses de relacionamento, incrível, não? Nem doeu.
— Como assim?
— Olha, descobri que você era uma criança arredia e carente, e também, por incrível que pareça, uma pessoa insegura que se preocupa mais com a imagem que com o princípio. — E ela sempre sorrindo. — Mas, como diria Freud, você é apenas um pobre diabo, assim como todos nós.
Levantei o dedo para mencionar algo, mas ela arrancou com o carro.
Fiquei parado na rua, me sentindo estúpido.
Ainda no carro:
— Betty não me viu, não, né?
— Não. Ela nem saiu na porta de casa... Acho que vocês dois tinham que fazer as pazes...
— Opa, espera, espera... Eu não tenho nada contra a Betty, ela é quem me odeia.
— Mas você também não é santo, né, Mário. Podia dizer que sente muito por tudo o que fez, seja lá o que for, certo? Já se passou tanto tempo... Guardar esse tipo de coisa dá até um câncer...
— Mais uma que tirou o dia para me falar coisas estranhas. Não tenho porque ter amizade com a Betty.
— Não está acostumado a se humilhar, Mário...
— Isso não vem ao caso... Mas, mudando de assunto, o menino vai ficar bem?
Percebi que os olhos dela se iluminaram diante da minha pergunta. Arrependi-me de tê-la feito.
— Ah, espero que sim. É a primeira vez que ele dorme fora de casa. Ele é um pouco chato para dormir, criança tem um fogo!
— Eu sei como é... Lembro-me do meu tempo de criança... Queria ser astronauta, nada a ver...
— Que interessante...
— É, queria olhar as pessoas de longe.
— Nossa, mas uma pessoa tão comunicativa como você, viver longe das pessoas... é, no mínimo, instigante.
— Digamos que eu não fui tão social na infância quanto na vida adulta.
— Como é que é? Você era um CDF feinho e de calças curtas?
— Não, claro que não, eu era mais ou menos como o Marinho. Se pudesse, ficava pregado na minha mãe o tempo todo. Mas, é claro, a gente cresce e se desapega.
— Agora que eu estou do outro lado, percebo que esse desapego é uma fase difícil na vida de uma mãe.
— Mas você sabe que tem aquele ditado que diz que criamos filho para o mundo.
— Repito-me isso desde antes de ele nascer — disse sorrindo.
—Por isso eu... — ia dizer "nem quero ter filho" mas fiquei com medo de ela rir da minha cara e parei no meio do caminho — deixa pra lá.
— Ia dizer que não quer ter filho? — Ela continuava sorridente e isso me deixou nervoso.
— Pois, é, mas a gente nunca pode dizer umas coisa dessas, não? Não se sabe o que pode acontecer...
— Era exatamente o que eu ia dizer... e ia acrescentar que é a melhor coisa do mundo, porque de repente sua vida apresenta um sentido totalmente novo.
Pensei no Marinho. Realmente, se ele fosse meu filho, eu ia querer fazer um monte de coisas pra ele e... Sacudi a cabeça, estava pensando em coisas muito estranhas.
Chegamos a casa.
— Está entregue, senhor Calderón.
Desci do carro:
— Obrigado, Fabrícia.
— Eu que agradeço. Foi um prazer conversar contigo. Conversamos mais do que em cinco meses de relacionamento, incrível, não? Nem doeu.
— Como assim?
— Olha, descobri que você era uma criança arredia e carente, e também, por incrível que pareça, uma pessoa insegura que se preocupa mais com a imagem que com o princípio. — E ela sempre sorrindo. — Mas, como diria Freud, você é apenas um pobre diabo, assim como todos nós.
Levantei o dedo para mencionar algo, mas ela arrancou com o carro.
Fiquei parado na rua, me sentindo estúpido.
— Fabrícia? É o Mário. Desculpa, peguei seu telefone na bina do meu celular. Está ocupada?
— Oi, Mário. Não, estou acabando de chegar em casa, pode falar.
— Tenho uma surpresa pra você e a gente precisa comemorar, será que podemos jantar juntos amanhã?
O telefone ficou mudo por um tempo:
— Nossa, Mário, me desculpa, amanhã não posso, tenho um compromisso...
Fiquei desconcertado. E se ela estivesse pensando que era um encontro? Queria desligar o telefone:
— Não se preocupe, a gente se fala depois então...
— Calma, Mário!Você pode ir buscar o Marinho comigo amanhã na casa da Betty. A gente, depois disso, vai para aquele parque que chegou na cidade, você pode me fazer companhia, se quiser.
— E o seu pretendente não vai querer fazer esse programa contigo?
— Duvido muito que o senhor Daniel Valência vai se dignar a sair em um programa desses.
Engoli seco:
— Da...niel?
— Sim. Ele não é muito chegado nesses programas, certo? Então, esteja na entrada do parque às cinco da tarde. Um beijo.
— Outro.
Desliguei o telefone.
Comecei a rir. Ou meu mundo era muito pequeno mesmo, ou estava precisando conhecer pessoas novas.
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