Caixinha de Música

1 Capítulo Único


O que eu escrevo aqui não é nada demais. É apenas o que acontece todas as noites, quando eu já estou com sono, deito-me em minha cama, e estendo a mão para puxar o fiozinho do abajur.

E ela está ali. Aquela pequena caixinha de música, ela sempre está ali naquele mesmo lugar. E então eu deixo minha mão cair e fecho os meus olhos, sentindo o nó formar-se em minha garganta em conseqüência das lembranças que vem como uma enxurrada pela simples visão daquele objeto.

E assim permaneço, até que eu – ainda com os olhos fechados – estenda minha mão e pegue a pequena caixinha. E sinta cada detalhe com meus dedos, dizendo a mim mesmo que não abrirei meus olhos para não estragar a sensação do toque, mas na verdade, simplesmente por que sei que no momento que eu os abrir, as lágrimas começarão a rolar por minha face.

Passo meus dedos por cada alto e baixo relevo da madeira entalhada naquela caixinha, o último presente que ele me deu. Eu imagino suas mãos quentes esculpindo aquilo – por que não, aquela caixinha não é daquelas compradas em uma loja de utilidades qualquer. Ele a fez para mim.

Ele a imaginou, a esculpiu e colocou aquela canção ali para mim. E então eu não consigo evitar me lembrar da sua expressão ao me entregar o presente.

Ele estava com um sorriso no rosto. Aquele sorriso que eu conhecia – o que significava que ele estava aprontando alguma coisa. Ele veio até mim e selou nossos lábios, e murmurou delicadamente junto ao meu ouvido:

- Tenho uma coisa pra você.

Só então reparei que ele mantinha a mão direita atrás do corpo, e isso me deu certeza de que ele estava aprontando algo. Eu juntei minhas sobrancelhas e tentei não transparecer o medo que me dava todas as vezes que ele resolvia fazer algo para me agradar.

Ele se afastou de mim, e fez um floreio com as mãos, mostrando o pequeno pacote de presentes que ele escondia atrás de si. Era um pouco maior que a palma de sua mão.

Eu murmurei algo indefinido e estendi a minha mão, lançado-lhe um olhar de esguelha, com um pouco de medo do que aquela pequena caixinha continha.

- Você não precisava, não é meu aniversário nem nada...

- E desde quando eu preciso de um motivo especial para te dar um presente – ele disse, arqueando as sobrancelhas – vamos, abra logo.

Desfiz o laço do pacote de presentes, e abri a tampa. Dentro havia uma peça de madeira entalhada, de formato retangular, com alguns altos e baixos relevos esculpidos. Desconfiei que fosse obra dele e lancei-lhe um olhar indagador, que foi respondido por um sinal para que tirasse o objeto de dentro da caixinha.

- Ual, um porta jóias? – debochei dele – não uso jóias sabe?

Ele fez aquele bico que eu tanto adorava e disse numa voz infantil demais para seu tamanho.

- Não é um porta jóias, imbecil. Abra.

Eu o obedeci.

Assim que eu abri, a música começou a tocar. Era parecida com aquelas músicas de caixinha de musica, e ao mesmo tempo era diferente de todas que eu já tinha ouvido. Eu não perguntei a ele que musica era.

E então a musica das minhas lembranças se mistura com a musica real, pois eu abro a caixinha de música, e meus olhos também, para poder ver o seu interior, repleto de coisas que lembravam nós dois.

As lágrimas já são inevitáveis, e eu pego cada uma daquelas coisas por vez, lembrando de tudo novamente. Aquela foto, aquela corrente, aquele bilhete... Enquanto a música vai aumentando sua intensidade, vão também minhas lágrimas.

E elas se tornam incontroláveis quando eu lembro-me de que aquilo não voltará e agora não a nada mais que eu possa fazer. Nunca mais verei seu sorriso, beijarei seus lábios, ouvirei sua voz, sentirei seu toque... ele não está mais aqui.

Permaneço ali, desejando mais que tudo que ele estivesse comigo, até que eu já sinta o ardor em meus olhos. Não sei se de sono ou de tanto chorar. E eu deixo a pequena caixinha ali no criado-mudo, ainda aberta para que eu possa dormir com aquela musica que hoje se tornou minha canção de ninar. Apago meu abajur, e antes que a música termine, eu durmo tão tranquilamente quanto o fazia quando ele estava ali para acariciar meus cabelos.

E quando, na manhã seguinte, eu acordo chorando sua falta, a caixinha está no lugar onde eu a deixei, porém fechada. Pronta para que eu faça isso tudo de novo, na noite seguinte, outra vez.

Notas finais
É bem bobinha, mas eu gosto dela, então, hm.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!