Caixa de Giz.
1 Meninos Não Brincam De Amarelinha.
Notas iniciais
Então, eu mencionei que postaria uma fic - apenas minha, não foi? - e aqui está.
Eu escrevi ela escutando Giz, do Legião Urbana. E se quiserem, a escutem também.
A considero, um presente de natal atrasado e o presente de aniversário um pouco mais que adiantado para Brenda (@wh0bigtime ).
Bre, eu realmente queria deixar como tudo que prometi, mas sou um desastre em hot e tive que mudar praticamente tudo. Se não gostar, por favor me avise, ok?
É uma fic fofinha, de "quiança" *le brisante"
Boa Leitura!
– Você tem mesmo que ir? – o garotinho de cabelos bagunçados e olhos curiosos questionou, sem desviar a atenção do desenho que fazia sobre a grande calçada da porta de sua casa.
– James, por favor, entende que o papai ganhou um emprego novo. Mamãe não pode deixar ele sozinho. E eu não posso ficar sem ela e o papai. – Brenda, que estava ao seu lado respondeu bufando enquanto procurava um pedaço de giz cor de rosa para cobrir o pônei mais bonito que já desenhara na vida.
– Mas aí quem vai ficar sozinho sou eu. – o garoto, James, sibilou, parando abruptamente sua tarefa de desenhar o sol brilhante que os observava naquela manhã. O verde de seus olhos estava tão intenso que quase não era possível ver as bolinhas escuras das pupilas.
– Todos concordam que no final a Brenda vai namorar o chato do James. – Kendall suspirou enquanto desenhava um arco-íris. Carlos riu jogando um giz pra cima e o deixando cair e o quebrar em pedacinhos.
– Eu não queria ir embora. – Brenda confessou, deixando de lado o comentário do amigo loiro e o giz espatifado no chão. – Gosto de morar aqui, tem sol todo dia. Lá na casa da vovó é só neve. E eu odeio neve. – suspirou, finalmente terminando se pintar o pônei. Depois foi para o lado de Logan, que desenhava uma arvore.
Ela gostava apenas dos olhos do garotinho que chamada de melhor amigo, mas era diferente. A cor de suas íris parecia com a das ondas da praia que ela ia quase todos os fins de semana; Já o lugar onde sua vó morava era branco. Totalmente branco.
– Você podia ficar lá em casa. – o menino murmurou empolgado largando o pedaço de giz no chão, já esquecendo o desenho em que estava trabalhando há quase meia hora.
A senhora Knight gritou da porta da sua casa chamando Kendall, Carlos e Logan pra almoçar. Os três bufaram por não poder pintar a calçada da casa de James.
–Na sua casa não tem um quarto pra mim. Onde eu vou colocar a minha cama? – a garotinha inquiriu empurrando a franja comprida demais para longe dos olhos. Os fios lisos caíam quase na altura do nariz de pontinha arrebitada e batiam em seus cílios muito longos.Fazia cócegas.
– Você pode colocar sua cama no meu quarto. Se quiser peço pro papai fazer isso agora, quer? – ele disse com a voz empolgada, já saltando para longe do chão.
– Não posso, Jay. – a menina sussurrou balançando a cabeça de um lado para o outro em lamentação.
O garoto chamado James sentou novamente no chão e pegou um pedaço de giz azulado, quebrando-o em vários pedaços para expressar sua raiva ao ser contrariado. Sua garganta estava fechada e ele sentia uma imensa vontade de falar. Não gostava do silêncio, era triste.
– Eu não quero que você vá embora pra longe, Bre. – ele murmurou amassando o giz sobre a arvore delicada que a menina acabara de pintar, já que Logan desenhara.
–Não faz isso, seu bobo!– ela gritou empurrando a mão do garoto pra longe. Ele havia acabado de estragar seu desenho.
– Olha só o que você fez, estragou meu desenho.–
– Você chama isso de desenho? Que rabisco mais feio, até minha irmã Ally, que é menor que você, faz um melhor.
– Cala a boca, seu chato! – Brenda rosnou com raiva.
– Como você é bebê, Bre, não sabe nem brincar.– James levantou em um salto, começando a recolher os gizes coloridos que ele havia ganhado de seu tio Anthony na semana passada.
–Eu não vejo a hora de ir pra casa da vovó Portella e ficar bem longe de você, seu, seu, seu...– Brenda engoliu as palavras, gaguejando pela ira que fazia seu corpo magro e pequeno tremer.
–Quer saber de uma coisa? – James perguntou retoricamente, bufando e coçando o nariz molhado de suor antes de encarar a pequena Brenda. – Vai ser bem melhor você ir logo embora.
Com essas palavras, James Diamond – um imperativo menino de oito anos – conseguiu um feito inédito: calou a tagarela Brenda Portella – da mesma idade. O olhar amarronzado da menina caiu até seus pés sujos de poeira de giz, quando ela os sentiu arder.
Os lábios de cereja tremeram e os dentes de leite morderam-os no intuito de conter o choro que avançava sem controle por seu peito.
James não deu atenção para a amiga, tamanho era o aborrecimento que sentia. Apenas quando viu Brenda correndo em direção à sua casa foi que se deu conta de que a havia magoado. Ele também estava chateado, por isso não fez questão de segui-la. Mas acabou mudando de ideia quando a viu tropeçar em seus cadarços desamarrados e cair de cara na grama do jardim.
– Bre! – James gritou cheio de preocupação, disparando ao encontro da amiga. O rosto redondo da garotinha estava rubro de vergonha e os olhos de chocolate pareciam muito maiores, quase não cabiam mais nas orbes amendoadas.
– Você se machucou? – ele perguntou caindo aos pés da menina cabisbaixa que fungava sem parar. Bre não queria de jeito nenhum chorar na frente de James, mas estava ficando difícil. Ela era uma menina e meninas sempre choravam.
–E-eu... fiz aquele desenho pra você.– Brenda suspirou engolindo o choro enquanto limpava a grama de seus joelhos um pouco ralados. Ela levaria uma bronca de sua mãe por ter sujado sua roupa. De novo.
–Pra mim? – James sibilou surpreso, fitando Brenda com genuína confusão.
–Pra você lembrar de mim quando eu já estiver morando lá na casa da vovó.– a mão pequena torceu a barra da camisa suja de terra enquanto ela vagava o olhar tímido para qualquer direção que não fosse o rosto corado de James.
–Eu não quero que você vá embora, Brenda.– ele repetiu, dessa vez enfatizando o que acabara de dizer com um abraço desengonçado que envolveu o corpo magricela da menina de forma quase rude, se não fosse tão doce.
Imprimiu em Brenda um comichão que começava no pescoço e se tornava mais forte no lado esquerdo de seu peito. Fazia doer e ela não sabia explicar por quê.
–Brenda, hora do almoço, filhinha.– a voz suave de Helena quebrou o momento especial que envolvia as duas crianças.
A menina se afastou do garoto moreno – que agora sustentava uma expressão carrancuda no rosto – e mais uma vez jogou a franja enorme para longe de seus olhos.
Mamãe precisava levá-la para cortar os cabelos, ela não gostava de vê-los encobrindo sua visão.
–Pode sair pra brincar depois do almoço? – James perguntou esperançoso, derramando aquele mar verde que carregava no rosto sobre Brenda.
–Eu não sei.
–Vou esperar você aqui na frente assim que acabar de almoçar, ok?
– Tudo bem. – Brenda chacoalhou a cabeça e correu para dentro de sua casa, dessa vez tomando mais cuidado para não tropeçar novamente em seus pés.
Comeu com vontade – e com um pouco de pressa também – a refeição que sua mãe lhe servira. Seus olhinhos muito brilhantes não desgrudavam um segundo da janela da cozinha que mostrava a calçada da casa de James com perfeição. Pulou para longe da mesa quando viu a cabeleira do amigo e acenou com vontade para ele, que retribuiu o gesto com um sorriso no rosto.
Ela sentiria falta de vê-lo sorrir e acenar todos os dias da entrada de sua casa.
–Posso voltar a brincar lá fora com o James, mamãe?– ela arquejou afoita, cercando Helena com pulinhos e braços agitados.
Sua mãe riu com tanta empolgação e apenas meneou a cabeça, mas antes que Brenda saísse da cozinha a lembrou de que ela deveria reservar um tempo para terminar de arrumar as bonecas na caixa separada para a mudança.
Ela franziu o nariz de desgosto ao ouvir a palavra mudança. Por que eles não poderiam ficar ali para sempre? Ela gostava de morar perto da praia. E também do sol. E de James.
James!
Quando finalmente encontrou o amigo estava ofegante e sentia as bochechas quentes. Seu pequeno coração parecia querer furar o peito. Por que batia tão forte?
– Vem, eu quero mostrar pra você uma coisa.– ele puxou a mão direita de sua amiga e praticamente a arrastou em direção à porta de sua casa. O modo desajeitado de James fazia Brenda sorrir, sem mesmo saber por quê. Ela sentiria falta disso também.
Assim que chegaram perto da casa de James, Brenda notou a enorme quantidade de sobras de giz espalhadas pelo chão. Assim como viu o desenho que cobria quase metade da calçada.
–Eu fiz pra você. É pra lembrar de mim quando já estiver morando longe. – James explicou e nem percebeu que não havia soltado a mão delicada de Brenda da sua. – Tem o sol, o céu azul e nada de neve.– ela riu e concordou com um aceno de cabeça entusiasmado.
–Obrigada, James.– a menina sibilou balançado os pés de maneira tímida. A palma de sua mão estava suando, mas ela não sabia como desprendê-la do aperto de James. E também não queria.
– Pedi pra mamãe tirar uma foto do meu desenho, pra você levar pra sua casa nova.– ele explicou orgulhoso de seu feito e sem querer amoleceu o coração de Brenda. A partir daquele momento, as coisas haviam mudado para os dois sem que ao menos percebessem.
–É, hm, obrigada de novo.
–De nada.– James murmurou educado, tentando imitar o tom solene que era marcante na voz de seu pai. Ele sempre tentava copiar os trejeitos de Mike e isso não podia deixar Brooke, sua mãe, mais orgulhosa e feliz. – Quer brincar de amarelinha?
Brenda o encarou confusa, coçando a cabeça com a mão esquerda em um gesto que deixava claro que ela estava se questionando o que havia acontecido com seu amigo para fazê-lo agir tão estranho.
– James, meninos não brincam de amarelinha.– ela sibilou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Eu posso brincar se você quiser, eu sei que você gosta.– ele respondeu encarando-a gentil e adoravelmente. Ela pensou em lhe dizer o quanto gostava do verde de seus olhos e apenas dele, mas esqueceu quando James prosseguiu com um cochicho conspiratório. – Só não conte ao Kendall nem ao Carlos, tá legal? Ah, e não esquece do Logan.
–Ok – Brenda riu baixinho.
E assim eles recolheram alguns pedaços de giz espalhados pela calçada e correram até a porta da casa de Brenda, onde começaram a desenhar os quadradinhos coloridos com números no meio.
Jogaram uma, duas, cinco vezes e quando enjoaram da brincadeira de pular, sentaram no chão e voltaram a rabiscar uma infinidade de desenhos. Nuvens, árvores, famílias inteiras com corpos de palito ficaram espalhados pelo chão da vizinhança.
Brenda voltou a colorir uma nova arvore e aproveitou para desenhar também algo que ela tentou disfarçar, mas que lembrava muito a forma de um coração. Seu nome estava escrito ao lado do de James em adoráveis garranchos.
O garoto moreno tinha um sorriso rasgado nos lábios enquanto terminava sua mais nova obra de arte feita de giz colorido. Um enorme sol radiante estava rodeado de nuvens e ria em direção a um garotinho com corpo de palito, cuja cabeça tinha uma seta apontada para si, com o nome "James" escrito em cima. Uma menininha – também de corpo de palito – estava ao seu lado, com o nome "Brenda" escrito na seta. As mãos unidas de ambos acabavam formando uma só.
–Pra você lembrar de mim.– ele explicou quando Brenda parou de desenhar para observá-lo trabalhando em sua gravura.
Sem pensar duas vezes, ela se inclinou em direção a James e encostou os lábios vermelhos na bochecha quente dele. E conseguiu deixar a pele do menino ainda mais acalorada. Era gostosa a sensação que o dominava e ele sentiu vontade de sorrir.
Várias vezes.
Pra sempre se possível, mas sua boca não iria aguentar tanto assim.
–Eu vou sentir sua falta.
–Eu vou te ver no verão. E você pode vir no Natal.
– Você pode pedir para o seu pai conseguir outro trabalho e pra ir morar lá em Minnesota comigo, o meu pai, a mamãe e a vovó Portella.
– Ia ser legal, como é a sua avó?
– Legal como todas as vovós são. Ela faz cookies e chocolate quente quando tá frio.
– Eu ia gostar de morar com ela.
– Ia mesmo.– Brenda suspirou e vagou os olhos para o céu, que ainda era iluminado pelo sol muito forte de Los Angeles. Lá na casa da vovó tudo é tão branco. E frio. E eca de novo.
–Brenda?
–Hum?
–Você não vai esquecer de mim, não é? – James perguntou com clara hesitação na voz sem realmente encarar Brenda.
– Nunca.– ela afirmou e dessa vez partiu dela a atitude de pegar a mão de James e juntar seus dedinhos com os dele. –Você é meu melhor amigo.
–Você também é a minha melhor amiga.– ele murmurou com convicção, muito satisfeito com o que acabara de escutar da menina. E também com o jeito que ela apertava a palma da mão na sua.
–Toma, quero que você fique com isso.– James explicou – alguns segundos depois – quando se virou para pegar uma caixa mediana com letras garrafais estampadas na tampa –caixa de giz do James–.
– Por que? – a garotinha perguntou com o cenho franzido e o olhar vagando pelo rosto muito corado do moreno encrenqueiro que ela adorava ter como amigo.
– É só pra que você não se esqueça que um dia tem que me devolver. – ele riu e entregou a caixinha suja para Brenda.
x x x x x
O caminhão de mudança chegou na manhã do dia seguinte e recolheu a mobília da casa dos Portella. Brenda assistia tudo com a pequena caixa que ganhara de presente de James acomodada de forma protetora junto ao peito.
Seus olhos rolavam insistentemente em direção à casa ao lado da sua, na esperança de que pudesse ver seu melhor amigo uma última vez. Queria agradecer a Brooke pela foto que ela lhe entregara na noite passada, a imagem que reproduzia o desenho que James havia feito especialmente para ela. Com os gizes que ela carregava na preciosa caixinha de madeira.
Tinha que cuidar bem deles, James um dia iria atrás para buscá-los.
– Adeus, gente. – Brenda sorriu fraco, ainda segurando a caixa de giz em suas mãos. E foi embora dali observando os quatro garotinhos, James em especial, até onde podia enxergar.
E ele cumpriu a promessa, quase quinze anos depois, acompanhado de uma certeza e uma minúsculo objeto cheio de significados.
A certeza era a de que Brenda não era apenas sua melhor amiga de infância, era algo mais, muito mais do que ele um dia podia imaginar. O objeto era uma caixinha de veludo que carregava a aliança de noivado de sua bisavó.
Eles se casaram em uma manhã extremamente atípica e ensolarada de Minnesota. Carlos era padrinho – que depois de muito insistir em se auto convidar – acompanhado de Ana, irmã mais nova de Brenda; Kendall e Logan também, sim, eles era um par nesse casamento. – a única desculpa que deram era que queriam fazer um par, porque realmente se gostavam.
E se mudaram meses depois para uma casa perto do litoral – e do sol o ano inteiro, Sta. Monica – como Brenda tanto sonhou.
James de fato recuperou sua velha caixinha de giz colorido e constatou que ela esteve em boas mãos durante tanto tempo. O objeto agora fazia parte da decoração da sala de estar da casa dos Diamond, espremido entre as fotos do casamento e do batizado do primeiro filho do casal, que havia acabado de chegar.
Uma imagem desbotada também ganhava destaque no aparador antigo que pertencera à querida avó de Brenda. Retratava uma calçada antiga e empoeirada, coberta pelo desenho que um certo garotinho de olhos muito verdes rabiscou para a garota de nariz arrebitado e sardas nas pontinhas das orelhas que ele amava tanto.
O sol amarelo e um pouco torto irradiava seus raios até as nuvens azuis, que rodeavam uma casa com chaminé e coloridas janelas de arcos.
Tudo feito de giz.
FIM
Notas finais
Eu espero que tenham gostado, mesmo.
Amo vocês, Littles!
xoxo, duda ♥
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