Caixa Postal

36 Capítulo 36: As coisas ficam bem


POV Davi ON

O chuveiro foi desligado um tento devagar. Juliana apareceu mais uma vez diante da pia, enrolada numa toalha branca e com os cabelos molhados, pingando para todos os lados. Tinha um olhar quase tímido, quase propositalmente sensual. Ela andou até mim, lentamente.

Eu não sabia o que ela faria, estava cada passo mais perto, e olhava fundo em meus olhos. Parou no meio de minhas pernas e se abaixou devagar, forçando-me a deitar na cama. Com uma mão de cada lado do meu corpo, ela sorriu e pegou a muda de roupas que estava ao meu lado, então voltando para o banheiro tão devagar quanto veio.

Eu apenas olhava aquela garota, que estava me surpreendendo com muito sucesso.

Diante da pia, Juliana deixou a toalha cair e se vestiu lentamente. Eu via suas curvas sem impedimentos, até que ela colocou a calcinha, seguida pelo sutiã, e logo mais um vestido verde claro que caía nos ombros.

Voltou-se para mim, enxugando um pouco o cabelo com uma toalha, e calçou uma sapatilha que estava perto do guarda-roupas. Ela sorriu e mordeu o lábio.

– Nosso segredo. – Ela disse baixinho, me fazendo arrepiar um pouco. Só eu sei a vontade de agarra-la que eu senti dentro daquele quarto. E eu tive medo de nunca mais ter uma oportunidade como aquela. Mas um plano é um plano.

Eu arrumei minha roupa que estava bagunçada, graças àquela ruiva, e chamei um taxi. Estava de noite, e a chuva estava mais fraca. Quando o carro chegou, entramos juntos no banco de trás, onde ela ficou no meio e com a mão em minha coxa, vagamente. Ela estava distraída olhando para a rua.

Eu pensava em como faria aquilo. Agradecia por ter tanta sorte ao encontrar aquela garota.

– Davi... – Chamou baixinho, e eu logo acordei do meu transe. – De quem é a casa? – Ela perguntou, mas senti que já sabia a resposta.

Conforme saíamos do residencial, as luzes de natal já podiam ser vistas. Havia pisca-piscas para todos os lados, enfeites diversos, pessoas fantasiadas, falsa neve e tudo o mais.

Eu mandei o taxista parar próximo à um restaurante aquecido e paguei, logo saindo do carro. Juliana parecia entretida, curiosa, e eu gostava de causar aquilo nela. Segurei a sua mão com gentileza e olhei em seu rosto. Ela corou de leve e retribuiu o aperto com certa satisfação.

Começamos a andar pela cidade. Estava um pouco frio, e o clima natalino era acolhedor. Juliana parecia extasiada com tudo o que via, o que me fez soltar uma pequena risada.

– O que foi? – Perguntou falsamente ofendida.

– Nunca viu o natal, moça? – Perguntei retrucando. Ela se encolheu um pouco, mas logo sorriu um tanto nostálgica.

– Nunca tão de perto. – Sussurrou. – Sempre passei o natal com minha avó, numa casa de campo. Nosso natal era apenas comida. – Riu um pouco de si, mas parecia distraída demais para remoer alguma coisa. Juliana era forte.

Conforme caminhávamos, eu nos guiei em direção à uma praça, onde uma enorme árvore de natal estava montada.

POV Juliana ON

Era gigante e totalmente magnífica. A árvore devia ser do tamanho de um prédio de seis andares, e tinha o diâmetro de um ônibus e meio. Estava toda coberta por pisca-piscas dourados que formavam desenhos de bolas e estrelas. Pendurados pelos galhos haviam bailarinas, anjos, duendes, harpas, bolas, sinos, e mais centenas de símbolos natalinos. Ao redor dela, no chão, uma quantidade quase crível de neve falsa.

Eu nunca tinha visto algo tão espetacular de perto. A árvore por si só emanava amor e espírito natalino, e ao redor dela, postes com mais pisca-piscas pendurados marcavam presença fraca. Pessoas com gorros de natal, famílias brincando com a falsa neve, velhinhos vestidos de papai Noel brincando com as crianças.

Me senti num filme daqueles que eu tanto assistia quando era mais nova, que eu tanto queria viver. O friozinho que eu sentia combinava com as estrelas lá em cima, quase apagadas pela luz da árvore. Esta, por sua vez, emanava certo calor aconchegante.

Aquilo acalmava meu coração, acalentava minha angústia, e logo em mim só restou uma estranha satisfação. As borboletas em meu estômago adormecidas, e no peito um burburinho agradável, era como se eu ronronasse. Era como se eu tivesse nascido para viver aquele momento.

E tudo pareceu mais claro quando percebi a mão que segurava a minha. Davi me olhava com carinho, parecia estar extremamente satisfeito. A camisa branca de botões sempre lhe caiu muito bem, e ali, parecia ter sido escolhida a dedo. Os fios negros caindo de leve pela nuca, um pouco maiores do que quando o conheci.

O calor da sua mão era agradável, e talvez fosse o que preenchia um espacinho que a árvore não deu conta de preencher.

– Obrigada. – Eu disse, mais agradecida impossível.

– Quando eu fizer algo você agradece. – Ele retrucou.

– Fez mais do que eu merecia. – Admiti, mas Davi apenas me abraçou. Embalada com o rosto em seu peito, eu senti que amá-lo era independente de merecer ou não. Era um fato. E contra fatos não há argumentos.

Ele estava com a boca na minha testa, como um beijo sem fim. Me tranquilizava ainda mais. A iluminação fazia com que seu pescoço ficasse metade amarelo, quase branco, e metade vermelho escuro, quase preto. O contraste que a árvore ali ao lado fazia, ela queria participar do momento.

– Ju. – Ele sussurrou ainda com a boca em minha testa.

– Hm? – Eu respondi, de olhos agora fechados apenas aproveitando o frio do natal, o calor da árvore e a segurança dos braços de Davi.

– Quer namorar comigo? – Perguntou.

POV Davi ON

Ela se afastou de mim de repente e me encarou com os olhos arregalados, surpresa.

– O quê? – Perguntou, como querendo ter certeza do que eu havia dito. Eu abri um sorriso compreensivo e leve.

– Quer namorar comigo? – Perguntei mais uma vez.

Logo sua expressão se aquietou, e seus olhos esverdeados encararam os meus tão intensamente que achei que ela lia a minha mente.

Não demorou para que um sorriso se formasse em seu rosto. A luz da árvore fazia seus olhos brilharem ainda mais que o de costume, e seus cabelos já secos quase sorriam junto com ela.

Uma satisfação imensa me dominou e senti um breve tremor no peito. Era como se eu ronronasse.

– Eu quero. – Ela disse depois de alguns segundos intermináveis.

Ela nunca esteve mais linda do que no dia que se tornou minha.

Depois daquele Natal, Juliana decidiu passar o Ano Novo com o pai. Pretendia conhecer melhor a mãe em janeiro, enquanto não começava as aulas da faculdade. Ela havia passado em pedagogia, e achei mais que justo namorar uma futura professora.

E quanto a mim, eu decidi fazer engenharia naval. Sim, eu não segui a carreira de música. Alguém teria que sustentar aquela casa, e não seria a professorinha ruiva. Okay, talvez seja exagero. Eu apenas me apaixonei pela área e descobri uma estranha vocação para projetar coisas.

Nós alugamos um apartamento no aniversário do primeiro ano de namoro, um que fosse no meio do caminho entre a minha faculdade e a dela. E assim vamos seguindo a vida.

– Filho, pega outra isca para mim! – Pediu meu pai lá do píer. Eu corri com o pote de minhocas para ele e o entreguei.

– Não adianta, pai. – Eu brinquei. – Ela atrai os peixes até sem isca. – Gozei com a cara do meu coroa, que cismava em querer pegar mais peixes que Juliana. Ele estava mais que feliz em encontrar alguém que gostasse de pescar com ele, mas parecia incomodado em saber que ela o faz melhor.

E eu... Bem, encontrei uma razão para ver meu pai pescar. Minha relação com meu pai nunca foi tão boa quanto quando eu saí da casa dele. E acho que pode se dizer o mesmo de Juliana, que agora visitava seu pai três vezes por ano, e falava com a mãe pelo telefone de vez em quando.

Eu olhei aquela mulher linda sentada no píer, com o meu coroa, e agradeci a quem quer que fosse por ter colocado aquela ruiva na minha vida.

Notas finais
Queria pedir desculpas a quem acompanhava e ficou me mandando MP para continuar. Estive (e ainda estou um pouco) sem criatividade, nem tempo para continuar. Já estava no final mesmo, não foi um fim improvisado. Espero que tenham gostado, e se alguém ainda está lendo, indico que leiam "Despedindo-se de Peter Pan". É a minha mais atual, e atualmente a minha preferida. Me despeço com carinho, Evangeline.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!