Caixa.
3 Na estrada.
Kelly dirigiu como louca. Não no sentido de fazer manobras perigosas, acelerar como se não existissem consequências ou dirigir bêbada, mas no sentido de realmente questionar a própria sanidade e decidir que dane-se, não importa.
Ela já estava na estrada há dois dias. Sem uma única hora de sono, sem uma refeição decente, sem rumo, mantida em pé apenas pela força de café preto, aspirinas inúteis para a dor de cabeça e um ou outro pacote de salgadinho. Pensando bem, ela podia muito bem estar bêbada, riu consigo mesma. Então mordeu o lábio para que o riso não virasse choro.
Não tinha ao menos um destino em mente. Todos os lugares, óbvios ou não, já tinham sido explorados pela polícia, parte da investigação. É como se seu irmão tivesse simplesmente evaporado. Puff, não estava mais ali. E ela teria que seguir com a própria vida.
Ah, mas nem a pau.
Ele não estava morto. Não podia estar. Não estava!
Então ela seguia a estrada como se fosse sua última esperança. Como se parar significasse desistir e desistir significasse morrer. Sem preocupações a não ser permanecer desperta e na faixa. E continuar. Seguir, seguir, seguir. Não sabia para onde, mas seguia.
Logo a autoestrada deu lugar a ruas mais desertas e as ruas mais desertas a trechos malconservados. Kelly nem sabia mais onde estava, se na cidade ao lado, se em outro estado, se em outro país, se em outro planeta. Ela não podia se importar menos. As ruas esburacadas deram lugar a estradas de terra, então à lama. O carro atolou, mas ela o empurrou. A gasolina acabou, ela pegou o galão reserva no porta-malas. A noite caiu, ela engoliu três pílulas estimulantes, heranças da época em que virava noites estudando, com café preto cheio de açúcar e continuou.
Seu coração acelerou, não sabia se pela combinação de estimulantes, pela adrenalina de estar no meio do nada sozinha à noite ou se estava finalmente tendo aquele ataque cardíaco. Quem liga? Era um sinal de que estava viva, mesmo que fosse um sinal de que estava morrendo.
Parou num posto de gasolina acabado e sujo na beira de uma estrada fantasma. Reabasteceu o galão reserva, completou o tanque e comprou dois pacotes de biscoito recheado na lojinha fraca. Os produtos pareciam estar lá há séculos, ela não duvidava que alguns tivessem vencido, mas não ligava. O atendente a olhou com estranhamento, talvez por ela não trocar de roupa há dias, talvez por seu olhar psicótico que só alguém que não dorme há dias e dirige pela própria sanidade teria.
Havia uma máquina velha e remendada de café. Comprou sete cápsulas e encheu uma garrafa térmica “para a viagem”. O atendente teve o bom senso de não perguntar para onde ela ia, foi uma boa escolha, ela não saberia o que responder.
Kelly era a imagem perfeita de uma pessoa perdida indo para lugar nenhum. E indo rápido. Seu trabalho deu a semana de folga pelo sumiço de seu irmão, seu gato ficou sendo cuidado por uma amiga, não havia nada para ela em casa.
Ela podia muito bem fazer essa viagem.
Deixou o posto deplorável para trás à 110 quilômetros por hora, vendo a construção arruinada se reduzir a um pontinho no horizonte, e fez uma curva à esquerda quando todas as placas mandaram ir à direita. Tanto faz, pensou.
Dan podia realmente estar morto.
Não! Não. Não podia. Foco.
Ela precisava de mais café. E açúcar. Que bom que comprou os biscoitos. Não ligava se venceram há décadas ou não, açúcar era açúcar.
O caminho da esquerda levava à mata aberta, que virou mata cerrada num piscar de olhos. O carro atolou de novo, mas ela empurrou. Um dos faróis quebrou, mas o outro era mais que suficiente. Um pneu furou, ela pegou o estepe e o trocou.
A única força maior que a determinação de Kelly em seguir a viagem maluca e suicida era a própria força da natureza. Então, quando a mata fechada não permitia mais a passagem de um veículo, mesmo um carro tão pequeno quanto o dela, ela teve que fazer uma escolha.
Voltar atrás nunca foi uma opção. Retroceder era morrer.
O único modo de evitar a derrota era seguir em frente. Ela improvisou uma mochila a partir da própria calça jeans suja, grata por ter aprendido esse truque “inútil” anos atrás, e se embrenhou na mata. Levou apenas o essencial, pílulas estimulantes, biscoitos, a garrafa de café, algum dinheiro, um documento (nem que fosse para identificar o corpo depois). Amarrou o casaco na cintura, disfarçando um pouco o fato de estar só de calcinha (isso que dá não trazer roupa extra e usar a calça de mochila) e se embrenhou na mata.
Tudo bem. Não é como se tivesse alguém para olhar. Ou como se ela ligasse.
Enfiou mais três biscoitos na boca.
Ela tinha que continuar.
Dan não podia estar morto.
Não podia.
Ela nem sabia aonde estava indo, só sabia que queria chegar lá. Talvez só estivesse fugindo da realidade. O que era realidade mesmo? Depois de tantos estimulantes e aspirinas, seu cérebro mais parecia um punhado de algodão doce ou um mingau morno. Não parecia algo feito para raciocinar. Só algo que estava ali, um peso a mais ou uma sensação esquisita na cabeça.
Um pé depois do outro. Continuar. Continuar. Continuar. Mais parecia um mantra.
O sol já nascia quando Kelly finalmente colapsou no chão.
*
Ela acordou com uma dor de cabeça pior que a sensação chata de pulsação e dormência que a acompanhou por dias. Tinha terra em seu cabeço, rosto, pele roupas, que coçava e causava um atrito chato em certas partes. Seu pescoço reclamava sempre que virava o pescoço, por causa do ângulo em que dormiu e por ter dormido no chão. O pacote aberto de biscoito atraiu formigas para sua mochila improvisada.
Mas ela tinha que continuar.
Andou até seus pés doerem e formarem bolhas, então andou um pouco mais. Bebeu café como se fosse água (até porque esqueceu de levar água), se sentiu destruída e obrigou aquele corpo frágil a prosseguir. Em certo momento, nem parecia mais que seu corpo pertencia a si. Como se fosse algo extra, algo separado, avulso, desencaixado.
Suas pernas já andavam dormentes e cada músculo que ainda sentia doía, o sol se pondo de novo, quando Kelly finalmente sentiu que chegou.
Talvez o sinal fossem as faixas amarelas de “condenado” e “não se aproxime”. Ou as cabanas de madeira deterioradas e pintura tão descascada e mofada que era impossível discernir as cores. O matagal que quase escondia portas e um grande prédio que um dia foi um refeitório, mas agora desabara há anos por conta de chuva e erosão.
Ela sabia onde estava, por mais que não pensasse nesse lugar há anos.
Era tão estranho. Como as vezes em que seus pés te levam aonde quer ir por mais que sua cabeça esteja em outro lugar.
Ela e Dan vieram aqui, tantos anos atrás. Esse lugar era um acampamento. Claro, ficaram apenas uma semana e nem fizeram nada memorável, mas, por algum motivo, foi aqui que veio parar. Era o destino da viagem sem rumo.
Talvez houvesse um motivo. Uma razão cósmica. Um karma oculto.
Mas ela estava cansada demais para pensar nisso, então abriu a porta da primeira cabana que viu, sem se importar que ela quase caiu com o mero toque, e se jogou num colchão mofado, empoeirado e infestado de ácaros. A cabana podia colapsar sobre ela à noite, mas ela não ligava. Se aquela droga de lugar conseguiu ficar de pé por todos esses anos, podia aguentar mais uma noite.
Pela primeira vez desde que Dan sumiu, ela dormiu bem.
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