Caia Sobre o Inferno
9 Capítulo 9: Ódio
Notas iniciais
Os olhinhos entre as cobertas se arregalaram.
– Então quer dizer que você – Lilith sorriu e Bianca logo continuou a falar, saindo debaixo das cobertas – me abandonou, me deixou sofrer e deixou com que aqueles... Monstros fizessem isso comigo? – o sorriso de Lilith desaparecera, e Bianca a encarava com ódio.
– Não, claro que não...
– Então por que eu fiquei sofrendo lá, dia após dia, desde meu nascimento?! – Bianca gritou, agora com lágrimas nos olhos, interrompendo a mulher.
Lilith se sentia arrependida e triste, e abaixou a cabeça, sem responder a filha.
– Eu... Sinto muito...
– Lilith! Não a deixe falar assim com você! – disse Satan.
– Ela está certa! – Lilith encarou Satan, com lágrimas escorrendo pelo rosto – Se... Se eu a tivesse tirado de lá, talvez ela tivesse uma vida normal ou reconhecesse a própria família!
Satan se calou, e Anúbis agora olhava com raiva para a mãe.
– Então você mentiu, mãe?
Lilith encarou o filho, assustada.
– Você disse que eles a tinham levado, e você não tinha escolha – Anúbis cuspia as palavras em cima da mãe – Disse que ela não iria se machucar! – Anúbis segurou um dos braços de Bianca e mostrou para a mãe.
O braço, cheio de cicatrizes e marcas, fez com que Lilith chorasse ainda mais, enquanto Satan estava abismado pelo que tinham feito à sua filha.
– Como eles puderam? – perguntou Satan – Eles disseram que iam apenas te treinar, nada demais!
Bianca se enrolou nas cobertas, e Anúbis ficou ao seu lado.
– Por favor, saiam... – Bianca sussurrou, entre lágrimas e soluços.
– Filha, eu... – Lilith tentou colocar a mão sobre a cabeça dela, para acalmá-la.
– Eu disse... – Os seus olhos vermelhos brilharam fortemente – SAIAM! – O chão tremeu como um terremoto de maior escala, e fez com que Lilith e Satan caíssem no chão, e as paredes ficassem rachadas.
Seguido do terremoto, Bianca produziu um vento extremamente forte, apenas com uma mão, o que fez com que os próprios pais voassem para fora do quarto, que se trancou sozinho.
– U-Uau... – disse Anúbis, com medo.
– Não precisa ter medo, não vou te machucar.
O fato de que uma criancinha tinha assustado Anúbis àquele ponto era um tanto cômico.
Anúbis puxou Bianca pela mão, e a levou para conhecer o castelo. A pequena arregalava ainda mais os olhos e abria cada vez mais o sorriso. O castelo era gigante!
No fim do dia, a garotinha dormiu ao lado do irmão, que agora não iria mais se separar dela.
No dia seguinte, Bianca esperava poder conhecer mais sobre o castelo, mas não pôde, pois Anúbis tinha resolvido treinar o resto do dia. Bianca, então, pegou um machado de madeira e foi treinar com ele.
– De madeira? Sério? – Anúbis soltou uma risada – Primeiro você deveria ganhar músculos, e depois usar um machado normal, se acostumar, usar um mágico e assim em diante.
Bianca logo pegou um machado normal, e o levantou sem dificuldades. Anúbis, ao ver a cena, ficou boquiaberto. Como uma criança poderia levantar uma arma sem dificuldades, enquanto a grande maioria dos adultos não conseguia fazer o mesmo?
Bianca começou a atingir os alvos como um monstro, reduzindo cada boneco a pó. Anúbis começou a atingir alvos com sua espada, mas não conseguia acompanhar a irmã.
Os dois passaram o resto do dia treinando, e, ao fim do dia, Bianca foi dormir exausta, mas não machucada, muito menos triste. Ela se sentia feliz como jamais havia se sentido.
No dia seguinte, a pequena mal se levantou de sua confortável cama, e a porta de seu quarto se abriu com um estrondo. E ali estavam seus pais, junto de Anúbis, que evitava o olhar curioso da irmã.
– Filha, o que Anúbis disse é verdade? – questionou Satan, que se aproximou de Bianca.
– O quê? O quê ele disse? – disse Bianca, se afastando lentamente e encarando o irmão com uma expressão de dúvida.
– Que você pode levantar armas sem esforços, e pode reduzir bonecos a pó em segundos... – Satan parou e encarou a garota, que agora fuzilava Anúbis com os olhos.
– Sim... É verdade...
Satan mostrou um sorriso de canto, e se ajoelhou, encarando a filha frente a frente.
– Eu sabia, você é extremamente talentosa!
Bianca se sentiu um pouco melhor pelo elogio, mas ainda assim, estava desconfiada.
– O que vão fazer comigo?
Satan soltou uma risada e logo respondeu:
– Não vamos te machucar, querida. Você só vai receber um treinamento especial, junto de seu irmão.
Bianca sorriu e encarou Anúbis, sorridente, que respondeu com um olhar de alegria, como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
Mas então, Satan ficou sério, e perguntou a Bianca:
– Mas... Você sabe o que você é?
Bianca se surpreendeu com a pergunta, mas logo pensou e disse:
– Hum... Humana, não?
Satan encarou Lilith, que o encarou de volta, assentiu e levou Anúbis para fora do quarto.
– Bem... – Satan se sentou na cama, e Bianca logo fez o mesmo – É complicado dizer... Mas você não é humana. Você é uma demônia. Eu, Satan, sou o rei do inferno, e pretendo conquistar o mundo, pois busco vingança contra Deus, que me expulsou dos céus em vez de me dar poder.
Bianca, de olhos arregalados, logo fez mais perguntas:
– E a mãe? E meu irmão? E como vamos conquistar o mundo?
– Sua mãe é... – Satan fez uma pausa, como se estivesse pensando – Humana... E seu irmão, um demônio. E para conquistar o mundo, preciso de sua ajuda, de seu poder. Mas garanto que não vai se machucar.
– Tudo bem... Mas como sabe que eu sou uma demônia?
Satan tocou a testa da filha, e pequenas asas de demônio e chifres grandes cresceram na pequena, que ficou surpresa.
Os dois ficaram conversando mais durante algum tempo, e logo Bianca sentiu que podia confiar em seu pai.
Ela estava confusa pelo fato de sua mãe ser uma simples humana. Era por esse motivo que talvez ela tivesse errado tanto? Ainda assim, ela não sentia afeto pela mesma.
Bianca estava encarando os olhos do pai, que explicava algumas coisas sobre a família. Com o canto dos olhos, Bianca viu algo se mexer. Discretamente, olhou para onde ela sentira o movimento, e ela viu algo.
Um vulto branco, pequeno, menor que ela, a encarava. Ela pensou ter visto a sombra de um pequeno sorriso em seu rosto. O vulto logo se dissipou.
O pai continuava falando. Bianca o interrompeu, com o olhar assustado.
– Papai, você viu aquilo?
– Aquilo o quê?
– Aquele... Vulto branco, ali. – ela indicou o lugar onde o vulto acabara de desaparecer.
– Desculpe querida, mas eu não vi nada. É a sua cômoda, nada demais.
Depois de algum tempo conversando, Satan saiu do quarto, com um sorriso satisfeito estampado no rosto.
O poder...
Bianca investigou o local onde o vulto esteve, sem encontrar nada. Ela então foi iniciar o treino intensivo com seu irmão.
Os treinadores eram dois, um homem e uma mulher. A mulher, de cabelos escarlates presos em um rabo-de-cavalo, olhos verdes chamativos, lábios rosados e corpo atlético e saudável, portava um machado gigante e uma faca de fogo. O homem, de cabelos negros, assim como os olhos, pele pálida, alto e atlético, portava uma espada acinzentada, e em suas costas pendia uma foice prateada.
A mulher encarou fortemente Bianca, que recuou um passo, enquanto o homem deu um leve sorriso à Anúbis, que retribuiu.
– Vamos às apresentações, que tal? – disse o homem, expandindo o sorriso.
– Sim. – disse a mulher, de braços cruzados e expressão carrancuda.
– Bem, eu sou Phenrir, e eu ensinarei você, Anúbis, a manejar espadas e foices com facilidade.
– Bem, eu sou Maia, e vou acabar com o que resta de seu corpinho utilizando meu machado, até você aprender como se faz.
Bianca olhou fundo nos olhos de Maia, e com um singelo sorriso, disse:
– Manda ver.
Maia olhou nos olhos da pequena garota de simples sete anos, e viu neles uma chama que brilhava mais forte do que qualquer outra. A garota tinha potencial.
– Certo, comece treinando com esse machado. – Maia entregou à Bianca um machado de puro chumbo, de tamanho médio. Com um pouco de dificuldade, Bianca logo conseguiu levantá-lo.
Bianca foi até alguns bonecos de palha, levantou seu machado e começou a destruir todos eles com brutalidade.
– Já chega. – disse Maia, retirando o machado das mãos da garota.
– Fui bem? – questionou Bianca, sorrindo.
– Bem?
Maia encarou os olhos escarlates da garota, e então gritou.
– Você acha que utilizar armas é apenas um modo de destruição?! Você deve manuseá-las com cuidado e precisão, a força é apenas um dos fatores, garota tola!
Bianca sentiu a raiva queimando-a por dentro.
– EU uso o machado da maneira que EU quiser! E não vai ser você que vai me impedir!
Maia deu um leve sorriso e disse:
– É assim que se diz! – ela entregou um segundo machado para a garota, e se afastou.
Enquanto isso, Anúbis manuseava a espada com leveza e precisão, atacando o mestre, que defendia todos os ataques.
Depois de algumas horas, os irmãos se encontravam jogados no gramado, exaustos, enquanto seus mestres apenas observavam.
Bianca já tinha aprendido a dominar algumas habilidades com o machado, enquanto Anúbis havia aprimorado a magia de sua espada e dominava algumas habilidades.
– Já chega por hoje, não é mesmo? Até amanhã! – disse Maia, puxando Phenrir e desaparecendo logo em seguida.
Bianca se levantou e saiu em disparada em direção ao castelo.
– Quem chegar por último se casa com Jesus!
Os dois saíram correndo na direção do castelo, como simples crianças inocentes.
Tão inocentes, não é mesmo...?
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